quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

O que aprendi no tal Tinder

Não sei muito bem o que ocorre no perímetro praiano, mas é como se um sentimento de zoeira se instalasse e começasse a pautar nossas relações. Parece deboche, mas penso ser um convite ao descompromisso, partilhado por muitxs de vocês. Não sei se foram anos e anos de propagandas da Skol que nos deixaram um tanto quanto abobados, ou o clima rastafari que acaba tomando forma ao som de Armando Antônio e sua prancha - gauchinhos e previsíveis que somos -, mas um mistério começa a pairar no ar. O fato é que acabei aderindo ao veneradíssimo Tinder, que, segundo a Zero - sempre muito comprometida com a relevância dos fatos -, até já fez as vezes de Santo Antônio aqui no estado. Se me permitem uma analogia politicamente incorreta: lá estava eu, como uma gordinha na churrascaria, avaliando chuletas masculinas das mais variadas procedências, mas todas, todas, com muita sede de amar. Fiquei, mais que salivando, bizarramente comovida. Estamos realmente desesperados por carinho alheio. Ou atenção. Ou admiração. Mas alguma coisa do outro a gente quer - esse outro com esse gramado verdinho, que de tão verdinho parece pintado com tinta guache. Depois de um tempo, estava viciadíssima, dispensando almoços, carregando o smart (saca como estou toda do smart) de 2 em 2 horas e colecionando foras, matchs, conversas pela metade, ''ois'' receosos e ridículos seguidos de ''tudo bens'' de quem pouco queria saber como eu me encontrava - e eu idem, só quero beijar essa tua boca porque tô entediadíssima e hoje não deu praia - e aí veio, naturalmente, a galope, o niilismo. Vazio. Não estava assim mais tão conectada ao catálogo de homens. Fiquei com preguiça, comecei a achar aquela minha foto de calcinha e sutiã - comerciante nata que nasci - escrota pra caralho, e cheguei à conclusão de que o aplicativo não combinava comigo. Sem falar que eu ria copiosamente: até o famigerado Em Nome do Amor, com aqueles flertes épicos via binóculos, eu levava mais a sério.

- Não consigo, fulana, não consigo... olha isso...........


Felizmente, dias depois, fez sol.



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Sexy boy - Air




       

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Um ensaio sobre mim e a Sol - 10 anos depois

Gente, estava eu aqui pensando com meus botões e... olha, não é possível que estejamos já em 2015. Quer dizer, há dez anos eu estava entrando no 2º ano do E.M, Sol deixava o Tião e tentava entrar nos Estados Unidos pelo México - chorando pra caralho, diga-se de passagem - e eu passava por uma fase eterna e escrota de Legião Urbana (quem nunca)? Gente, pera, tá errado, não é possível, volta o calendário que eu não evoluí tudo isso não. Argh, que bad, amigo.
Embora pareça, não é um texto sobre cultura pop de uma década atrás, tô só contextualizando - e deixando claro meu passado não-transante-e-não-descolado enquanto adolescente, porque né. É mais sobre a fase mesmo. Me magoei pra caralho, porque passar pelo colégio é um teste para viver em sociedade - e sinto ainda não estar totalmente vacinada. Colégio é a época mais miserável da sua vida. Já diria o Tio Frank em Pequena Miss Sunshine, parafraseando sempre que pode Marcel Proust (nunca lido por mim, aliás): se a gente sobrevive aos anos de colégio, sobrevive a qualquer merda. Tem a parte boa, claro, mas é ali no âmbito da aceitação por parte daqueles nazistas em forma de coleguinhas que se cultivam os traumas mais bizarros de nossa vidinha agridoce. Os meus foram. E eles não são nazistas, eu sei, muito embora agissem como uns, às vezes, porque o fato é que o ser humano aprende a arte da crueldade muito cedo. Foi nessa época em que eu decidi que era hora de zerar uma prova de matemática com louvor, sei lá, deu vontade. Foi nessa época em que experimentei solidão sem querer e foi bem doído. Ninguém me queria, penei até achar uma turma na qual me encaixasse. Penei até achar pessoas para passar os recreios. Na dúvida: biblioteca. Lá ia eu descobrir Jean Valjean, um fracassado-irmão, para trocar umas ideias e curar minha inabilidade social. Não que eu fosse tímida - nunca fui mesmo - só era desastrada na arte de cativar. Também não usufruía daqueles comburentes poderosos na arte de explodir na passarela da popularidade. E quando tentei, falhei assombrosamente. Autoestima é fácil de ser destruída quando se tem 15 anos.
Ficou uma ladainha isso, né? Não era a intenção, foi mais para tentar exorcizar algumas coisas que parecem seguir muito vivas. Dói crescer, dói olhar para trás. Todavia, sempre válido, pois a gente aprende a se blindar com foda-ses honestos e maturidade. E adquire o direito básico de beber legalmente até beijar a sarjeta.
E se dá conta de que tem gente que não, não muda e é melhor manter distância até o final dos dias. Ou até a Sol parar de chorar naquela boate ridícula e ir encontrar o Tião.



                                                                      TÔ SOFRIDA




Auxiliou no post: 

Vida real - Engenheiros do Hawaii