quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Sobre o tal sabor agridoce

          Parece-me que fui incompreendida nesta minha paixão súbita (nem tão súbita assim) pela palavra "agridoce", uma vez que andei recebendo uns comentários bem despropositados a respeito. Ok, vamos aos esclarecimentos. A tal palavra pela qual fui arrebatada fincou raízes em meu pensamento, desde que me caiu às mãos um livrinho de breves biografias de algumas figuras que haviam participado, ativamente, dos 500 anos do Brasil - sim, li isso lá nos idos de 2000. O trecho no qual fiquei vidrada, dada a utilização do termo, era mais ou menos assim: "(...) entre móveis e objetos trazidos da pátria, Isabel, princesa do Brasil, vivia seu agridoce exílio no castelo do marido, na França."
          Tratava-se do fim melancólico da princesinha boazinha que havia lutado pela causa abolicionista, durante grande parte da vida. Depois de uma rápida consulta ao dicionário - com 11 anos, a ignorância é, notoriamente, galopante - para mim, não restaram dúvidas sobre o que o "agridoce", com singeleza ímpar, queria dizer: embora cercada do doce luxo de viver como uma aristocrata até o cerrar das cortinas, nada poderia aplacar o azedume de viver os anos finais de sua vida longe da terra onde nascera, devido ao exílio seu e de seus familiares - exigido pelos republicanos, assim que destituíram o império em 1889.
          Logicamente, tal conclusão profunda só deu o ar da graça, alguns anos mais tarde. Mas sabem aqueles momentos que se sobressaem aos demais na vida da gente? Pois é, nunca mais esqueci o momento em que li essa bendita palavra, tão bem empregada ali na narrativa. A angústia daquele trecho sempre esteve presente no meu inconsciente. Fiquei pensando em como referido adjetivo poderia se aninhar tão facilmente em diversas situações da minha vida, em como a sua significação se estendia a muito mais que o âmbito gastronômico - e, por isso mesmo, carregava um sabor diferenciado.
           Essa conversa fiada é para reafirmar a velha constatação de que, cada vez mais, me vejo como uma pessoa agridoce, assim como tantas por aí, inquietas no exercício desta estranheza. Uma pessoa que não quer esconder seus lados doce e azedo - esses dois gêmeos que brigam entre si e disputam minha atenção todos os dias. A parte doce: resignada, benevolente, tolerante - e a parte azeda: revoltada, sarcástica, intransigente e, inevitavelmente, a que mais atrai e trai. Não posso fugir daquilo que vive entranhado em mim. Posso é perder um pouco da credibilidade que julgo possuir, mas confessar essa minha dualidade é enaltecer um conhecido parceiro de jornada, combustível que não se esgota. Quem tá comigo?






                           

domingo, 26 de dezembro de 2010

Da série: o que esperamos depois da festa

Olha, não posso ser chamada de baladeira porque não vivo dentro de boate - raramente adentro nesse submundo. Mas uma vez que outra, acabo entrando no jogo do "ser vista para ser lembrada" e me submeto a beber cerveja, sorrir para estranhos, receber cantadinhas de retardados mentais e terminar a noite parecendo um zumbi de chapinha. Faço concessões, claro, mas não queiram me dizer que todas as etapas da operação-balada são TU-DO na vida.
Eu sei que vocês, gurias, pensam o mesmo que eu: se pudessem abolir algo de suas vidas, seria o pós-festa. Maldito pós-festa. Porque o pré-festa é mágico, não? Lembramos de tudo, a roda da bebida ainda cheira à civilidade, estamos com os pés descansadinhos e o cabelo - pasmem - sedoso, cheirando a shampoo, não cigarro. É o paraíso! Já o pós-festa... me faz querer dormir para sempre, sério. É como se eu escutasse in loco John Lennon cantando para a platéia de bêbados que o sonho acabou. Já me encontro em estado de arrependimento mórbido, por ter gastado dinheiro naquele antro de perdição, por ter feito escova, por ter visto certas pessoas, por ter presenciado certas cenas, enfim, por ter caído, de novo, na promessa de que naquela noite seria diferente e eu não sairia da boate me sentindo a vagaba do século, sei lá, uma espécie de Bruna Surfistinha com menos projeção. Pois eu, no ápice de uma ressaca recente, listei pequenos desejos que rondam a cabeça da gente, ainda que secretamente, quando saímos da casa noturna e precisamos recuperar a dignidade perdida:

1- Que não haja, em hipótese nenhuma, qualquer menção à noite anterior por parte de seres que vivem com nós - podem ser pais, irmãos, cônjuges, cachorros, enfim. E nem piadinhas referentes ao estado calamitoso em que nos encontramos. Amnésia geral para quem ficou.

2 - Que brote, do além, um litro de Coca-Cola estupidamente gelada na geladeira para que possamos aplacar um possível inevitável enjoo, proveniente da marvada.

3- Que possamos lembrar de tudo que foi feito, falado, ouvido, de preferência com cronologia exata para não sofrermos de angústia inexplicável, logo quando acordarmos e nos darmos conta de que, raios, amanheceu.

4- Para quem volta de táxi: que o moço taxista não sinta vergonha alheia por nós - já nos basta ser fulminadas pelo seu olhar de desprezo, assim que sentamos cambaleantes em seu veículo. Que ele seja maleável com o preço da corrida, pois, do contrário, certamente nos emputeceremos no outro dia, e que não imagine que procedemos de uma família de alcoólatras e pervertidos, tudo porque estamos voltando, tipo, praticamente de dia.

5- Para quem mora com os genitores: que a porta de casa, assim que nos enxergar chegando da guerra, abra como que por encanto, nos poupando de barulhos constrangedores e evitando que façamos um escarcéu que nos denuncie.

6- Que levantemos dispostas, maduras e sagazes, de preferência em um horário razoável, sem quaisquer resquícios - físicos e psicológicos - da noite passada.

7- Que as fotos tiradas de forma intempestiva e sem conhecimento do tal senso de ridículo sejam, misteriosamente, apagadas das câmeras usadas na sessão "bora queimar o filme da geral".

8- Que tenham sido proferidas por nossos lábios somente palavras harmoniosas, gentis e, principalmente, coerentes às pessoas com quem papeamos na pista de dança.

9- Que nosso cabelo, surpreendentemente, esteja lindo, cheiroso, macio, como o da Nicole Scherzinger na propaganda da Clear e não precisemos lavá-lo, mantendo assim a solidez do investimento da escova do dia anterior.

10- Que o dinheiro gasto de forma conivente com aqueles exploradores - que cobram exorbitâncias pelo ingresso e pela bebida - esteja, vejam só, den-tro da carteira! Pronto para ser gasto em algo de mais serventia.

Viram? Foi só um sonho ruim.


                                                   Show dos horrores!









Natal + Supermercado = Inferno na terra

           Era véspera de Natal, dia 24. O supermercado, entulhado de gente intransigente e esfomeada. Correria, nervos à flor da pele e ela, a rainha do caos, a fila, que, para mim, sem dúvida, media uns 20 quilômetros. Mas, vem cá, o que eu fazia naquele triângulo das bermudas infernal?
            Deixem eu me explicar. Não gosto muito, é bem verdade, mas, nesse caso, acho necessário. Fui até lá comprar a versão mais palatável do panetone, aquele que vem com chocolate, em vez das frutinhas terríveis. Onde já se viu Natal sem chocotone, né, gente? Isso não é vida. Pois, como de costume, peguei correndo a mercadoria desejada e fui para o calvário. Só que o montante de gente a minha frente parecia aumentar. Impressão? Destino? Miopia? Nem sei direito, mas o fato é que aquilo começou a me irritar profundamente, uma vez que olhava para os funcionários e eles pareciam atender as pessoas com, cada vez mais, lentidão. Eu falo sério, se quiser me ver em pânico, me convide para uma passadinha no super. Claro que é irracional - ainda descubro o porquê de tanta inflexibilidade da minha parte - mas o fato é que, se a gente parar para analisar a essência do negócio, veremos que a ação é indigesta mesmo, se você tem sempre algo mais útil com o que se ocupar, meu caso. 
            A julgar pelos rostos esnobes que encontro, sempre que tenho o azar de ir ate lá, é que tiro essas conclusões bestas. Posso não partilhar, possivelmente, da opinião de algumas pessoas, já que sempre tem algum idiota que gosta de fazer uma “social” na fila do pão, mas totalmente equivocada não estou. Fala sério, o mercado é um dos lugares em que as pessoas mais se sentem desconfortáveis. Todos com suas caras fechadas, olhando para os lados, cuidando o que o vizinho colocou no seu carrinho de compras, receosos de pagar algum mico – o que eu, sem o mínimo esforço, vivo fazendo – e achando que o local é o mais apropriado para contar os babados do final de semana como se nós tivéssemos que desviar deles, no ápice da empolgação social. Sem falar nas crianças, que, hoje em dia, andam mais insanas que nunca, que horror, cadê os bons tempos em que os pequenos eram obedientes e não andavam com celulares caríssimos à mão? Calma aí, estou sendo injusta, eles não têm culpa, o mérito é dos seus pais, que criam monstrinhos e os deixam gritar onde bem entendem, esbarrando nas pessoas sem nenhum pudor. Anjinhos, que, não muito longe, serão a cópia exata dos cidadãos modelo que acabei de citar.
            Paro por aqui, até porque eu devo ter sido mal compreendida com essa crônica, tenho certeza. Aposto que eu devo ser uma gotinha insignificante do contra no oceano de pessoas que amam fazer supermercado nessa vida. Sim, pois elas chegam a vestir suas melhores roupas para a ocasião, um luxo só. Foi-se o tempo em que comprar comida era um ato banal, ou melhor, simples, livre de frescuras e retoques. Culpa desse sistema consumista e superficial que faz as pessoas agirem igual a umas antas, tudo pela ilusão de parecerem isso e aquilo, em vez de serem realmente.   


                                    Histeria coletiva é natal?

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Meu bônus querido

         Ok, passado o post insosso de boas-vindas, vou mostrar a que vim. Nem tenho noção do tamanho da sinuca em que estou me metendo, mas preciso, leia-se pre-ci-so, fazer desse blog um companheiro diário, uma espécie de confidente para quem começarei a contar abstrações, desejos e demais idiotices que rondam essa cabeça castanha. Sinto que, dessa forma, terei mais gosto pela vida, ainda que não tenha leitores. Sabem? Como se o importante fosse estar dentro do jogo, ainda que as táticas já tenham falhado várias e várias vezes. Uma espécie de Orkut intelectual, sei lá. Nenhum visitante no perfil escroto, mas a esperança de ser vista resiste.
          Pois bem, devo confessar que ando abismada com a quantidade de pessoas - em sua maioria mulheres - que escrevem em blogs! Meu Deus, é gente talentosa que não acaba mais! Sim, há as exceções: mortais desocupados que fizeram a porcaria do "diário virtual", postaram meia duzia de tosquices sobre a conspiração divina que pairava sob suas vidas e deram adeus. Ah, claro: usando o endereço para todo o sempre. Mas, felizmente, tenho me deparado com redutos ótimos de conversa fiada. E, para mim, que adoro uma conversa fiada transcrita de forma inteligente, é praticamente um deleite.
          Então? Eu fico louca com isso. Haverá holofote para tanta gente sedenta por coments satisfeitos, Jesus? Vou conseguir algum grupo fiel e solícito que aceite acompanhar a profusão desses meus textos carentes de afeto? Meu cérebro, esse maldito, fica tentando contabilizar o tanto de gurias, mães, mochileiros, colírios da Capricho e etc que tentaram bombar seus blogs, e só conseguiram o ostracismo. Será o meu mais uma nulidade nesse rol de esquecidos do Blogspot? Crise de principiante, previa.
          Bingo! Eu só vou saber, se tentar.  Só vou receber elogios rasgados (às vezes, eu dou sorte) ou deboches desumanos (se acostumem com o drama, sou leonina), se postar. Postar! Escrever! Abstrair! Aproveitar essa característica da minha personalidade inquieta, que julgo ser um bônus na minha vidinha medíocre. Espero fazer isso como se não houvesse amanhã. Mas para eu sentir que vale a pena, preciso de leitores vorazes e críticos, então façam a parte de vocês. Aguardo gentilezas ou grosserias!


                               E aí, vai ler ou me enganei?

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A arte de começar

            Relutei muito em aderir à onda dos blogs. E olha que faz tempo que eles povoam meu imaginário. O fato é que eu, embora estudante de Jornalismo, há 2 anos, não me sentia madura o suficiente, para uma empreitada como essa.  Ora, por achar que não teria tempo para mantê-lo, dignamente, atualizado. Ora, por sentir uma certa banalização do canal – que virou febre de 9 entre 10 adolescentes com crises existênciais gravíssimas – preferindo, então, deixar meus textos na segurança do anonimato a vê-los circulando em uma terra sem lei.
            Porém, a paixão pela palavra e o desejo de ser lida (destino ingrato esse nosso, que faz com que nos dediquemos a escrever para que outros leiam) me fizeram reavaliar possibilidades. Uma tarde dessas, me ocorreu uma epifania digna de Clarice Lispector: “Ora, é , praticamente, um disparate eu ainda não possuir um blog para chamar de meu!” Ainda que eu seja fã de um acinte – como, por exemplo, ser gaúcha, e ABOMINAR chimarrão – vi que não poderia mais compactuar com aquela minha covardia: por fim, decidi e cá estou, implorando para que vocês me leiam e me deixem ter um lugar ao sol.
             Aqui, eu vou postar textos opinativos – crônicas, artigos de opinião – alguns pensamentos e palavras que expressem um pouco do que eu faço como estudante, quase concluinte do Curso de Comunicação Social. Também, eventualmente, alguma foto ou algum vídeo que contextualizem meus lamentos jornalísticos. Basicamente, espero contribuir, somar. Até não estou me reconhecendo nesse post tão sisudo, mas essa seriedade fez-se necessária, para eu ilustrar meus objetivos como mais novo projeto de blogueira (amo essa palavra!).
             Espero que se identifiquem com o conteúdo, que, a partir de hoje, começa a ganhar forma. Acreditem, saber-se lido é a maior das glórias pra nós, os escritores de ocasião, sedentos por uma olhadela que seja.

Há quem resista à palavra?