sexta-feira, 29 de abril de 2011

Vida, Almodóvar e Drummond

        Às vezes, eu fico me perguntando o que é a vida, se não um monte de topadas com a comédia, com o que não estava no roteiro. A gente planeja, se consome em estratégias, perde o sono ensaiando e, bem no fim, nada sai como o esperado. Talvez em dado momento até saia, mas aí... bom, aí bate aquela inquietação clássica: ok, não era bem assim que eu queria. Só há rebuliço interior, de verdade, quando rola alguma cena à la Almodóvar, quando a salada está instaurada e o diretor ficou louco. Tudo desmorona, mas no fundo a gente sabe que o final reserva uma surpresa reconfortante.     
        Vida, essa malandra... vive me pregando peças, fazendo eu me questionar o tempo todo, insistindo para eu enfrentar aquilo que me dá legítimo pavor. Me colocando contra a parede e botando o dedo na minha cara: "Eaí, lindinha, o que vai ser?" Vida é sair de casa sem guarda-chuva e cair o maior toró. Vida é virar o pé com um saltinho 15 na frente do seu paquera. Vida é não sair no final de semana para estudar para aquela bendita prova e ela ser cancelada. Vida é decidir usar aquela blusa linda e derrubar mostarda na dita-cuja bem na hora do compromisso. Vida é paranóia constante. Impossível fugir do drama. Vida é perguntar sem ter resposta. Vida é contar aquela piada da qual ninguém riu. Vida é eterna nostalgia. Vida é ter saudade daquilo que nunca vivemos.
         Vida é assim, uma incessante espera, uma reflexão obrigada, um vazio que não se justifica, uma filosofia barata. Ser racional ou se entregar à idiotice? Ser frio ou quente? Levantar bandeiras ou a taça de champanhe? A gente toma na cara todo dia, se decepciona em tempo recorde, e por que não desiste? Qual o mistério dessa esperança meio capenga que insiste em se abrigar dentro de nós? Quem disse que vai dar certo? Nessas horas, a carapuça desse trecho do Drummond serve direitinho em mim.


"Quando nasci, um anjo torto desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida."


Só porque eu sempre me senti meio gauche nessa minha vidinha besta.
         

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Sem roteiro

Olá, leitores!


        O sumiço dos últimos dias foi proposital. Sou tão passional que não dei as caras por aqui, justamente, para deixar essa última crônica platônica como cartão de visitas do blog. Só para vocês a namorarem nem que fosse na marra, sabem? Agora, todos que acessarem esse baú de mimimis vão saber que eu sou louca pelo Chico - e que eu acho que ele melhora cada vez mais com a passagem do tempo. Um viva a esse charme da terceira idade, que só é visível nele! rs
        Bom, hoje a "conversa" não tem roteiro. Até tenho textos inéditos e tal com que brindá-los, mas vou deixar isso para outra hora. Vim divagar. Por mais que eu seja uma Anônima da Silvassauro, sinto que alguém nesse mundão véio sem porteira deve ler minhas escritas... será? Será que sou lida? Acessar o povo acessa, mas será que lê? Será que degusta a palavra? Será que minhas opiniões furadas enojam alguém? Será que sou admirada? Será que riem do que eu, com os olhinhos radiantes, digito? Será que eu ainda ganho uns pilas nesse trampo? Como diria Caio, "será que alguém já se apaixonou pelo que escrevi?"
         Esses "serás" consomem minha vida e a de vocês? Será engana, será machuca, será debocha, será provoca taquicardia. Vale para variadas situações. Será que é ele dobrando a esquina? Será que eu passei? Será que eu vou assim? Será que eu fiz mal em contar a verdade? Será que eu amo? Será que eu mereço? Será que hoje eu volto casada? Será que eu ainda pego o Ash? Será? Será o Benedito? POXA

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Meu caro amigo

(Sim, isso é um amontoado de palavras puxa-saco! Condenadas a elogiar o Chico nesse pequeno texto, que nem vou chamar de crônica. Leiam os que se sentirem inclinados.)        


         Chico é uma exclamação. É um verbo. Mesmo aqueles que torcem o nariz para a cultura brasileira, para o samba de raiz, para pessoas que podem ser chamadas de artistas - com propriedade -, confessem que se sentem assombrados com a inteligência do homem. Chico, além de música boa, é literatura, teatro, opinião, conhecimento. Por favor, a criatura é fascinante! E extremamente sensata. Sempre que assisto a alguma entrevista sua, penso nunca ter visto declarações tão bem feitas por um artista. Um deleite.
         Certamente, não se trata de uma unanimidade - ainda que deva estar perto. Mas, em se tratando da instituição Buarque, quem se importa? Ele já é elo irrefutável da história recente nacional. E que história, hein? Nem vou entrar na parte de repúdio ao autoritarismo dos generais malvadinhos e das canções engajadas. Deixemos quieto, seria humilhante. E não estou aqui para alardear sobre suas convicções políticas. O fato é que esse pedaço importante de sua própria vida/carreira ajudou a definir os contornos dessa minha incontida admiração.
         Penso que essa versatilidade em excursionar pelas mais variadas expressões artísticas é que faz com que eu lhe dedique toda essa ladainha elogiosa. Capacidade de escrever letras tão deliciosas, tão sutis, tão suas, tão corajosas, tão coerentes. Topete de escrever peças e livros. Porém, sinto um vazio. Não é só isso. O cara é dono de uma discrição ímpar, de uma simpatia marota, de um talento fastigioso. É também dono de opiniões serenas e genuínas. Impossível não se sentir, no mínimo, instigado diante de sua carioquice. Impossível fugir de um carinho gratuito que brota sem resistência.           
         Eu adverti no começo, sou suspeitíssima para falar do moço. Em meio a pessoas que valorizam outras pessoas sem muito a acrescentar, sempre me senti meio alienígena, por gostar tanto dele e da sua galera, sabem? Bom, cada um na sua. Fico por aqui, pensando no porquê de ser tão discípula da obra buarqueana. Peraí, uma epifania: deve ser culpa deste par de olhos...


quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sobre o "Dia do Jornalista"

         Não poderia deixar passar em branco, né? Estudo para ser uma deles, há três anos, logo, me senti na obrigação de deixar um recadinho pela passagem do "Dia do Jornalista" - mais um desses dias festivos inventados por não-sei-quem para que haja uma profusão de cumprimentos hipócritas e demais manifestações dispensáveis.
          Pois bem, sei que ninguém perguntou, mas a sensação que mais me assalta quando penso sobre referida profissão - mesmo com uma considerável bagagem de textos lidos e aulas práticas no currículo - é a de que sei muito pouco a respeito. É como tentar apreender algo que não se pode capturar. Talvez aí resida a graça da coisa, não? Teoriza-se muito, mas a mão na massa está longe de se igualar àquilo que vem bonitinho nos livros e nos xérox. Já parei de me iludir que farei parte de um segmento de trabalho valorizado como deveria ser. Já não acho que o tal jornalismo é lindo e serve a todos sem distinção de credo, cor ou classe social. Só não encontro forças para desistir. A gente se ama e se odeia. E ele parece saber lidar comigo, esse cretino.  
          Entrei no curso por puro feeling e acabei arrebatada, sem ter olhos para outra graduação. Me encantam o inusitado da atividade e a atenção que se precisa dispensar à vida dessas pessoas comuns, cheias de histórias ricas e verdadeiras. Me atraem o exercício diário da observação e a necessidade de "treinar o olho" para reconhecer uma boa pauta. Me instiga esse leque de possibilidades de atuação que a área oferece. Me entristece a notícia ser quase sempre encarada como produto. Me domina esse mistério de sentir profunda curiosidade por coisas que, na teoria, nem deveriam me interessar. Me norteia essa vontade de sempre - sempre - querer um porquê para tudo. Salada de emoções, sabem? A um passo da loucura.
           Não deixo homenagens e elogios aqui, necessariamente, aos jornalistas - agentes do processo - mas, sim, um salve a esse ramo fascinante do conhecimento humano, no seu estado bruto. A arte de informar, propiciar discussões e reflexões acerca dos fenômenos da sociedade e nos fazer querer saber mais e mais. É bem verdade que tal ciência não produz vacinas ou ergue prédios, porém está comprometida sem volta com essa atmosfera do fato... daquilo que muda o globo e o faz girar. Ela e a notória estranhice de seus pupilos - focas ou não.          
       

domingo, 3 de abril de 2011

Entre no jogo

            Entre no jogo. Seja cópia. Seja adorável, não crie caso. Entre no jogo. Sorria para quem apunhalou suas costas. Finja que acha normal tanta bizarrice virar notícia. Entre no jogo. Idolatre gente sem noção. Fale que precisa tomar todas. Tenha uma ressaca absurda que o faça vomitar as entranhas e poste isso nas suas – várias - redes sociais. Todo mundo faz. Entre no jogo. Dirija bêbado. Dê audiência para coisas medíocres. Entre no jogo. Seja adepto de programas pelos quais não nutre interesse algum. Você não sabe de nada, fique calado e apenas siga a correnteza.
            Entre no jogo. Compre muito. Indiscriminadamente. Adquira dezenas de sapatos, troque de celular todo mês, venda a alma ao diabo, mas tenha. Seja antenado, consuma. Entre no jogo, ele é sedutor. Finja que não vê mendigos na rua. Cachorros abandonados. Pessoas catando papelão. Crianças se drogando nas esquinas. Feche os olhos, afinal, sequer são bonitos, não é? Entre no jogo. Seja um ser humano assim, sei lá, vazio, como uma bolhinha de sabão. Seja só mais um. Leia incontáveis best-sellers. Nada de Sociologia, Literatura, Antropologia ou Filosofia. Por favor! Isso não enriquece ninguém.
             Entre no jogo. Fale muito sobre festas. Frequente-as de segunda a segunda, afinal, o fim do mundo é uma verdade iminente. E beber até cair é tão revolucionário. Entre no jogo. Viva perigosamente, seja malandruxo. Faça pegas, trepe com a namorada do seu melhor amigo, faça fofocas, sacaneie sua amiga. Caso não faça isso, não estará aproveitando bem sua vida maravilhosa e não passará de um tapado. Bem feito. Tire muitas fotos em lugares da moda, e siga ignorando seus pais e seus avós. Seja puxa-saco, faça bons contatos, pise em quem não tem status e conta no banco. Humilhe quem não pôde estudar e ter uma carreira. Entre nesse jogo fascinante. Entre e não olhe para trás. Entre e aprenda a amá-lo. Quem sabe assim, sofra-se menos.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Enigma de estação

        O bronzeado quase nem aparece. Os reggaes, cujas letras enterneciam meu coração, saíram do eixo de atenção quase que naturalmente. O calor ainda se faz presente, embora timidamente, mas eu sei que não é a mesma coisa. Não é mais fevereiro. Não é mais verão. Não tem malícia no ar. Não há mais sorveteiros nas ruas. Não há aquele convite maroto para fazer a vida acontecer, para ficar um pouco mais admirando o pôr do sol. Eu sei que ela acontece nas de mais estações do ano também, meus caros, mas não me queiram dizer que é igual.
         Ainda não me acostumei com a idéia de não conseguir deixar vivas as lembranças dessa época quente, visceral, insana, mesmo que o tempo passe inexoravelmente. Talvez seja por isso que eu, às vezes, me sinta a mais nostálgica das criaturas, procurando não me prender ao passado, mas também pesarosa de que os dias passem e façam eu me desligar da magia que foi vivida. Isso é só comigo? Só eu sofro desse mal? Alguma coisa me diz que isso deve ser comum a todos nós, os ávidos por resgatar planos feitos há algum tempo, por reafirmar os propósitos de começo de ano. A cada rasteira costumeira dos dias nem tão quentes, sentir que ainda não esmorecemos nas promessas, que vamos tentar mais uma vez, afinal, olha o tanto de compromissos que assumimos naquele primeiro de janeiro escaldante, não é?
         Essa história de, praticamente, implorar para que o tempo não passe tão impiedosamente deve ser por causa disso mesmo. Na realidade, queremos uma garantia de que a esperança que veio com o verão e suas temperaturas ferventes ainda viva em nós e nos faça sorrir diante da vida, mesmo quando não há motivos. Estudar um idioma, fazer amizades, ligar finalmente para o rolo da faculdade. Dormir mais cedo, fazer exercícios regularmente, deixar de se basear nas vitrines e vestir o que der na telha. Desengessar. Queimar! 
          Eu nunca fui muito partidária do verão, mas ando arrebatada pela sua magnitude, ano após ano. Pela alegria de viver que ele - só ele - nos exige. Sou cria do inverno de agosto, mas reconheço que há um mistério no ar, quando o dia 21 de dezembro nos dá o ar da graça. Eu sei que os dias correm, que os sonhos se perdem em meio às luvas e aos casacos de lã. Eu sei de tudo isso e até me dá certa paz, uma vez que, logo, tudo começa de novo. Vai dar para ser feliz ano que vem. Bendita seja essa tal de translação.