terça-feira, 22 de dezembro de 2015

5 ANOS DE BLOG - PARTICIPE DA PROMOSHARE


Hoje, nós da empresa, completamos 5 anos de blog. Vamos dar o play para entrar no clima:

                       
#POLÊMICA: sempre preferi o parabéns da Angélica em vez de o da Xuxa. O que não quer dizer que eu ame a Angélica, claro, por mim ela pode ir pra casa do caralho.

ENFIM, VAMOS CELEBRAR! 5 ANOS DE MERDA ININTERRUPTA AQUI! UHUL, HEIN?

Era 22 de dezembro de 2010, estava euzinha encerrando mais um semestre da faculdade de Jornalismo, meio desgraçada da cabeça (sempre, né), entediadíssima no Orkut, quando finalmente tomei coragem e decidi dar a cara a tapa. Trouxe todas as minhas tralhas para o Blogspot e a esperança de mudar alguma coisa. Infindáveis crônicas começaram a ganhar o mundo e a me deixar mais desgraçada da cabeça ainda: sei lá, escrever é uma forma de ficar nua, de se deixar analisar, de ser sincero até a última gota, e isso nem sempre é bom negócio. Mas, enfim, felizmente tenho sobrevivido sem grandes traumas - mas não sem grandes catarses, por isso esse nome maravilhoso. Eu comecei como ''Garota Agridoce'', aquele azedume travestido de Açúcar União*, mas amadureci as ideias e entendi que isso, essa tentativa literária fajuta, é uma catarse contínua, é um meio de me reinventar, de doer e alcançar a cura, de ser resiliente. E eu entendi mais ainda que as histórias das minhas crônicas quase sempre são as mesmas de vocês, e por isso mi catarse sempre será su catarse, caro leitor. Porque a gente está irremediavelmente no mesmo barco. Aprender a nadar junto é o grande desafio.
Nestes sei lá quantos dias, vocês sofreram e riram comigo - ainda que eu não tenha ideia de quem muitos são. Vocês aprenderam a pontuar vocativos e a usar crases, e a lidar com as mazelas da vida. Entenderam que eu sou um animalzinho sentimental e me apego facilmente ao que desperta meu desejo, tipo Chris Evans, bichaninhos ou sucos de abacaxi com hortelã. Tem dias em que a inspiração é pouca, mas o que vale é o ridículo de muitas vezes tentar. Acho que vêm por aí mais uns 5, 10 anos, quem sabe, de blogueação e invenção de neologismos. Desculpe aí, mas eu não tô nesse mundo pra mesmice e obediência.
Feliz dia 22 pra mim!
Feliz dia 22 pra quem me lê e já viu algum alento nessas humildes linhas.



*A Empresa União LTDA não está patrocinando esta postagem, mas né, estamos aí. Vai que.





terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Bruna, uma frutinha estragada


Tem uma prima minha que seguidamente fala ''Bruna, tu que lê bastante, me responde uma coisa''. Eu acho uma graça. Fico intrigada com isso, de verdade. Que eu leio bastante, realmente não é novidade para ninguém (basta perceber meu rico vocabulário, né, mores), mas ela supor que eu posso responder qualquer coisa me assusta, porque o fato é que eu não sei nada da vida. Quanto mais eu... vá lá, leio, mais imbecil me sinto diante dela. Digo, da vida, não da minha prima.
É claro que ela não diz isso para encher minha bola, falei mais para ilustrar mesmo. E é claro que pessoas que leem mais, tendem a ter mais respostas prontas na ponta da língua, é uma questão lógica de sincronia entre linguagem e discurso. Mas sapiência definitivamente não nos garante certeza quanto aos mistérios que nos cercam. É só uma tentativa, uma busca. No meu caso, leio mais como um sintoma desesperado de entendimento, como se disso dependesse minha sobrevivência, nada a ver com autopromoções - poucas coisas me enojam tanto quanto bajulação (não se deixem levar pela minha etiqueta astrológica). Eu leio mais mesmo é porque sou uma curiosa irremediavelmente desgraçada da cabeça. Porque preciso me entender e preencher os leads da minha existência. Eu leio porque não me levo a sério, e isso me mata um pouco a cada dia. Eu leio para me proteger. Porque sinto demais e tenho uma memória assombrosa, logo, tenho que teorizar um pouco dessa bagunça. E quando falo que leio com essa arrogância necessária, não me refiro nem a Kafkas e Dostoiévskis - essas instituições literárias que, embora geniais, são maçantes e complexas. Falo é de qualquer coisa que me caia às mãos. Falo é de uma esperança entranhada de que aquilo por que meus olhos, por ventura, cruzem acabe com minha errância. Falo de astrologia, filosofia de boteco, manchetes de jornal, cartinhas empoeiradas nas gavetas do meu quarto. Falo de ler o que está nas entrelinhas. Entre linhas, tudo é possível.
Vocês já devem ter ouvido por aí que as pessoas mais felizes são precisamente as mais ignorantes. Pois eu não tenho dúvidas disso. A gente não lê, aprende, assimila, whatever, para ser feliz. Saber é doer, meus caros. E quanto mais lemos, mais emaranhados em falsas certezas ficamos. As pessoas leem e aprendem porque o sistema quer os bem instruídos e os detentores de capital cultural, a fim, claro, de manter a verticalização - mas, vejam bem, o sistema não está preocupado com a nossa sanidade mental. Pensar enlouquece, e eles não querem maçãs mentalmente podres. Eles querem é maçãs brilhantemente técnicas e eficientes. Já os frutos que levam indagações genuínas em suas sementes ficarão sempre à margem em uma árvore qualquer por aí. ''Tu que lê bastante, me responde uma coisa...'' 
Antes soubesse, minha cara, antes soubesse. Eu, no máximo, me desculpo por ser uma frutinha estragada.







sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Estepes & trepa-trepas

Ninguém fala muito a respeito, mas no fundo todo mundo sabe. Todo mundo sente quando é segunda opção. Se você não é segunda opção, que bom, parabéns, seu troféu está a caminho. Claro que há uns poucos sortudos e sortudas que não pegam fila, mas no geral a competição pelo coração alheio é mais cansativa que uma São Silvestre. Estudos apontam - sim, porque os estudos sempre apontam - que não está não sendo fácil, está é sendo impossível mesmo. Kátia, me ajuda. Ajuda nóis.
Os segundas-opções são ótimos, eles nem sabem que são, mas têm um sorriso inocente que ilumina o mundo. Sorriem sem motivo, são bobos alegres. Mais bobos que alegres. E sobrevivem da caridade de quem os detesta. Ou melhor, de quem os visualiza, e não responde - educadamente, claro. Poucas coisas são tão irritantes quanto ser ignorado com parcimônia. Se fosse com grosseria já era meio caminho andado para o ódio se instalar, que ódio também é vivência e catarse, não sejam tão católicos.
No fundo, esta crônica é um grande desabafo pois o fato é que eu estou no fogo cruzado. Eu faço de segunda opção e sou feita dela também. É uma via horrorosa de mão dupla. Nós fazemos isso, todos temos nossos estepes - como aprendi erraticamente desde novinha neste jogo sujo que é banda do clube dos corações solitários. "É a vida", dirão alguns, e não é impunemente que ela anda tão mesquinha. Eu não sei as circunstâncias por que muitos endureceram e perderam la ternura, mas não tenho dúvida de que é um conceito equivocado. Nem vou apontar soluções, quero mais é que a gente exploda nesse inferninho de superficialidade. Explode, imbecil, explode.  
Quando o Thiago preferiu a Patrícia, em detrimento do meu coraçãozinho pueril, lá pelos idos de 95 (caraca, 20 anos da pré-escola!!!) eu vi que o amor era um joguinho do mal e injusto. Assim, o Thiago até dividiria a gangorra da pracinha comigo - desde que Pati, a soberana, não estivesse por perto. E aí eu ficava lá com as migalhas de Thiago, invejando ela na apresentação de Natal, a vitoriosa, a dona do coração do lordzinho, com uma sensação horrível sufocando a garganta e pensando que eu era pouco para aquele simpático bananinha de 6 anos. E poucas coisas são tão tristes quanto se sentir pouco para alguém. Eu queria ser a Pati. Eu queria que o Thiago me olhasse como olhava ela - ela, que estava de olho mesmo era no Rômulo. A paixão e suas conexões perversas, uma quadrilha Drummondiana desde sempre.
Cresci, e esse sentimento não me deixou completamente. Eu sei que não deixou vocês totalmente também. Para todos os efeitos, seguiremos sendo crianças na pré-escola. A diferença é que agora não é possível chorar por qualquer coisa no meio da aula. E eu superei o Thiago, até porque ele não tinha personalidade para brincar no trepa-trepa comigo. Espero que siga trepando bem mal hoje em dia.



                           (essa montanha de ferro foi e sempre será minha Disney)





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Ela disse adeus - Paralamas do Sucesso



''Sempre o último a saber...''








terça-feira, 8 de dezembro de 2015

007 Contra Spectre

Estou há dias para escrever isso. Fui ver Spectre. Pausa pra emoção fluir. Que puta filme! Socorro! Saí meio abestalhada da sala de cinema, fazendo dancinha e tudo com a clássica musiquinha, mas com o coração esmigalhado por nosso menino prodígio da MI6 haver dito em certas entrevistas que não vai rolar continuação - não com ele. Tudo indica que Daniel Craig despediu-se mesmo de suas funções como 007 - e lá vamos nós na empreitada de achar um substituto à altura dos socos ótimos que ele levou nos últimos 9 anos. Não sou especialista em Ian Fleming - guardem as pedras, please -, mas convenhamos, o ator britânico imprimiu ao agente secreto uma veracidade que há tempos não víamos no personagem.
Bueno, nesta nova cilada, Bond, James Bond, segue sendo um moço muito do indisciplinado e viaja ao México sem conhecimento de seus superiores, a fim de investigar uma ligação - a ligação que que dá nome ao filme - e eliminar um tal Marco Sciarra, um dos tantos terroristas que o loirinho fez evaporar do planeta. Quando seu novo chefe, agora interpretado pelo ótimo Ralph Fiennes no lugar da saudosa M de Judi Dench, descobre as suas ações não declaradas, o suspende imediatamente e ordena que o simpático e eficiente Q (Ben Whishaw) implante um chip em sua corrente sanguínea com o objetivo de monitorar seus passos. E paro por aqui, porque as sequências estão é de se descabelar na cadeira. Eu fiz. Bom, eu me descabelo por qualquer coisa, não me tomem como parâmetro.
O que mais me instigou na nova história foi o modo inteligente como diretor e roteiristas entrelaçaram-na às sinopses de Cassino Royale (2006), Quantum of Solace (2008) e Skyfall (2012), isto é, se vocês acharam que havia terminado, não terminou coisa nenhuma, meus queridos. Sentem que lá vem história! E que história, queria ter contado quantas vezes coloquei a mão na boca durante as quase 3h de duração. Fiquei salivando por mais. Merecem destaque o novo vilãozão super do mal do Christoph Waltz (sim, o carinha do Django Unchained está muito diferente!!!) e a bond girl da Léa Seydoux, que interpreta, óbvio, muito mais que um reles apêndice de James Bond: a moça guarda segredos que dão fôlego considerável à trama. E se vocês estavam com saudade de ver nosso pequeno órfão inglês apaixonadinho como em Cassino, preparem-se para emoções. Bond, mais que ser letal e ter licença para matar, vai mostrar que sabe amar. Vem me amar também, Bondzinho.
As paisagens exploradas em belíssimas fotografias, como desertos, caveiras mexicanas, perseguições em ruelas italianas e alpes austríacos são uma pintura à parte: vocês sabem, Hollywood sabe como nos deixar de queixo caído. É claro, meus caros, que se vocês não viram os antecessores, vão achar tudo meio sem graça e sem nexo, mas em suma o filme é um deleite. Eu sou suspeita, sou uma entusiasta de 007 há certo tempo. Lidem com essa mácula adolescente no meu currículo. E lidem, se conseguirem, com a música-tema cantada pelo novato Sam Smith combinada a uma abertura surrealmente linda. E eu achando que ninguém superaria o vozeirão da Adele...


                                      Um martini, please! Batido, não mexido.









quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Sobre chifres


- O desgraçado tá me traindo, Bruna!!! Não é possível!!!
- Calma, fulana, não te precipita, quais tuas fontes, indícios disso?

Repórter sempre reportando, né, acho hilária a falta de tato. 

- Tu acha que eu sou trouxa, Bruna? Eu sei bem, ainda mais depois daquela conversa em q...
- Achar, assim, até não acho, mas tu tem uma cariiiinha meio...
- OTÁRIA
- Só pra descontrair, miga, eu também sou trouxa, por isso nos damos tão bem. Trouxice é uma irmandade. 

Silêncio.


Penso que ninguém está imune ao chifre - esta instituição que atravessa os séculos - ainda mais hoje em dia, em tempos de redes sociais e microblogs, extensões de nossos corpos e mentes que interessam meio mundo. É como se a instantaneidade dessas relações modernas - em que praticamente nos fartamos neste buffet de sexos - potencializasse a lascívia que nos habita. Eu tenho pra mim que a gente ainda vai ser chifrado pra caralho. Claro, os alguéns que ainda querem relacionamentos monogâmicos. E, não, do fundo do coraçãozinho que vive neste tórax niilista, não estou sendo irônica - não dessa vez. Só acho que a configuração e a ambiência da modernidade e dos nossos anseios sexuais têm nos levado a isso, a esse caos de sentimentos e pernas. Que horror, cadê Chapolin nessas horas?
É claro que esse problema perpassa coisas como caráter, respeito, fidelidade, confiança, enfim, coisas que, mesmo que paguemos de blasé, ainda nos são muito caras. Quer dizer, imagino, logo, escrevo essas palavras com a sensação de quem mordeu aquele comprimido amargo da porra, ou seja, muito da atordoada. Mas, ainda assim, não vejo jeito de me imunizar quanto a essa farra de beijos. Primeiro, porque, dependendo do ângulo, até que é bom. Segundo, porque viver é quebrar a cara. Terceiro, porque o ser humano é babaca. Eu sou, você é, o carinha que tem namorada mas está lá marcando presença no Tinder idem (tu apareceu pra mim, viu, ciclano? um beijão pra família). 
Sabe, isso deve ter uma explicação mais profunda, essa coisa de querer mesmo já tendo, essa coisa de se enganar e dizer no espelho que gosta de quem está do lado, mas que nada, eu quero é o carinha do trabalho. Talvez uma explicação pouco lisonjeira e até meio animalesca, mas ainda assim válida. Talvez enquanto tivermos capital sexual (BOURDIEU, SEU MALDITO, COMO EU TE ODEIO E TE AMO, VEMK, SEU LINDO, VAMO PROBLEMATIZAR), isto nos cegue e nos deixe à margem de qualquer possibilidade de explicação. Talvez só sendo jovem para entender o que passa em nossas cabeças sedentas por sensações, e, como é de se perceber, um monte de gente já foi jovem um dia: a juventude é um vinho doce barato e sua ressaca, indecifrável. Um dia acharemos a resposta, mas, por enquanto, não ria do chifre alheio. Amanhã é você.



''Apesar de você, amanhã há de ter um novo chifre...''

É até poético.




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So far away - Dire Straits








domingo, 8 de novembro de 2015

Te amo não é bom dia (mas bem que deveria)

''Te amo não é bom dia'' - dizia a finada comunidade do Orkut nos idos dos anos 2000. E eu até comprava a ideia: acho que sair distribuindo te amos ser ter vivências que nos façam sentir isso é babaquice e mediocridade. Mas fazia ressalvas, claro, acho que nossos queridos, os queridos de sempre, merecem sempre ouvir um pouco mais. Eu falo eu te amo pra caralho. Em família, por exemplo, tenho fama de grudenta. Eu chego a ser insuportável. Poxa, mas eu amo. Do meu jeito meio torto, mas amo. Quero bem, morro por eles. Vivo para eles, mesmo que estejamos fadados a costurar os rasgos de nossas diferenças - e como somos diferentes. Pais, mães, avôs, irmãos, amigos, amigas, os queridos de longe e de perto, essas instituições eternas.... como não viver dizendo que os amamos? Ou como não viver dizendo que amamos nossos bichinhos? Como ver um bichano ronronando no colo e não querer abraçá-lo até o fim dos dias, proferindo te amos em uníssono com os eus que nos habitam? Nem que fujam de mim, nem que rezem por outra dona... coitados, estão condenados a serem amados por mim. Eu não sei viver sem dizer a cada ligação, a cada despedida em rodoviária, a cada saída de casa, a cada olhar no olho. Eu sufoco de amor mesmo.
Eu acho que a gente tem que falar. Falar até passar por carente, chato, pegajoso, não sei, mas economizar nas palavras me soa cruel. Dizer é um ato poderoso. Eu sei que cada um tem seu jeito, mas a brevidade das coisas e dos instantes me apavora e me faz crer que é sempre bom reforçar de novo e de novo e de novo. Como se isso fosse um escudo diante de todo mal e das lacunas. Bom seria...
É sempre muito catártico falar disso, porque pressupõe uma avaliação do que a gente anda fazendo e que prova esse amor todo. Vocês pensaram, né? "Amor é atitude, não palavras''. Eu sei, pessoal, eu sei, mas o fato é que a gente erra. A gente erra, muitas vezes, do fundo do coração, tentando acertar. Sabe aquela frase do pai do Otelo ''Só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem demostrar ou viver isso''? Pois é. Dói, mas liberta. 
Eu tenho meu jeito de amar. Amor, para alguém, pode ser postar uma foto linda dela com uma amiga no Facebook, cheia de declarações e mil curtidas a tiracolo. Já para outra, pode ser chegar de surpresa na casa dela e levá-la para beber cerveja no bar da esquina. Quem mede o amor da gente? Eu gosto de amar fazendo os outros rirem e sendo uma panaca agradável de passar as horas. Quem ousa julgar o meu amor como menor? A gente não pode medir o nosso amor segundo o amor (ou a falta de) dos outros. O amor não merece contabilizações, ele merece é emanar por aí e ser sentido, tocando os corações com a maior força possível. Pra mim, te amo é bom dia, sim. Eu falo e lambo os beiços. 







quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sobre a ferida que é o Natal, Norbert falando bulhufas e recalquite aguda - tudo com molho de Kraftwerk

WHATAHELL, IRMÃOZINHO!!!!

Vi, hoje, a primeira vitrine do perímetro que frequento com motivos natalinos e fui fuzilada por um misto de náusea com esperança - esperança tipo aquela que a gente tem quando assiste a um terror pateta, esperando que o mocinho corra pro lado certo, mas que nada, ele nunca corre. Aí fiquei, ali, contemplando aquele Papai Noel bonachão enquanto meu guarda-chuva insistia em ser um lixo e molhar a manga da minha jaqueta cinza. Nhéé, Natal... todo ano essa porcaria agora...

O Natal é como aquela ferida no céu da boca que sararia se a gente pudesse parar de passar a língua nela. Mas a gente não pode. 

É a ambiência da coisa que me dá nos nervos, essa coisa muito bizarra e intrínseca de que algo muito louco está acabando e outro algo muito louco está começando, e parece que eu sou a única aqui de pijama de ursinho, escutando Kraftwerk e tentanto decifrar Norbert Elias. Sim, só tentando porque os escritos deste moçoilo estão em aramaico. Falando nisso, coisa mais assustadora a estética dos meninos Kraftwerk, não? Brancos tal qual uma parede, usando as mesmas camisas e gravatinhas, como aliens yuppies vindos da Quinta Avenida... minha nossa, eu teria uma síncope se os visse ao vivo. Sabe, sempre tem alguém sendo mais amado que nós, essa é a sensação. Sempre tem alguém mais feliz. Sempre tem alguém mais gostoso, mais delicioso aos olhos alheios - os olhos, essas crianças pedindo doce sem parar. O gramado do outro é sempre mais verdinho. Mas ué, eu moro em apartamento.

Dia desses, falava com uma amiga sobre recalque:

- AIN, MIGA, MAS ASSIM, SERÁ QUE RECALQUE É ALGO SUBJETIVO?
- EU NÃO SEI... ÀS VEZES, PARECE QUE ISSO É SÓ ALGO QUE.....

Tipo, todo mundo acha que está sendo invejado, né? É uma injeção de ânimo maravilhosa, mas, sabe, bem menos. Ninguém lembra da nossa reles existência, cara, eis a verdade. Mas e o recalque, que tanto andou em voga por conta do Valeskão e dos funks cariocas, será que existe? Acho péssimo alimentar esse tipo de sentimento, mas né, humanos e babacas que somos, pode acontecer. É da vida, estamos à mercê de variadas sensações, não se pode controlar isso que fica à margem esperando uma brecha que seja para entrar. Tempos atrás, excluí um carinha da outra rede porque ele e vossa namorada passeavam na minha timeline com suas línguas sincronizadas e apaixonadíssimas (pareciam - e parecer é tudo, néam?). Eu ficava tentando digerir todo aquele amor deles e aquela minha dor de cotovelo desgraçadíssima, mas não dava, ia me subindo um ódio, uma gastura... eu ali agonizando de recalquite aguda... não teve jeito: excluí o príncipe do cavalo branco que eu não cavalgOPA QUE QUE É ISSO. Eu sou uma comédia de erros ótima.

Mas ainda bem que tem Natal e eu tô entendendo tudo que o Norbert escreveu. THE LÍ CIA


                                                     Taquipariu, que medo dessa gente. 







quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Atendimento personalizado

Estava eu, bem bela, esperando para ser atendida no consultório médico, quando me veio o asco mental ao abrir uma revista local (sim, porque o purgatório de esperar passa pela peregrinação às revistas escrotas dos titios médicos): ''atendimento personalizado''. Atendimento personalizado, atendimento personMAS QUE CARALHOS. A cada anúncio percorrido em que constava brilhante frase, eu era inundada por uma vibração mental enviando aos céus uma tomada bem no meio do cu. Osho não faria melhor. Atendimento personalizado é o one-hit wonder dos anúncios publicitários. Que me perdoem os coirmãos, outrora colegas nos bancos universitários da graduação, mas vocês não enganam ninguém. A gente só segue comprando as coisas porque precisa dos produtos e dos serviços; não porque vocês são maravilhosos gestores de relacionamento. Vocês não sabem nada sobre mim, vai personalizar a cara da tua vó.
Mas o que viria, então, a ser o tal atendimento personalizado? Por acaso, vocês vão me receber com um trono - rainha da selva que sou, miau - com o meu nome escrito em dourado brega como eu gosto, além de vendedores clonados com o mais puro gene Evans, de cuequinha passeando com suas línguas em mim? Olha, atendimento personalizado pra mim é isso, sabe, vamos amadurecer esses conceitos aí de marketing. Mais que a repetição da falta de originalidade nas centenas de propagandas que vejo por aí, o que me enerva de verdade é a marca ou afim não ser franca. Eu sei que vocês querem vender, amores, e somente vender. Eu sei que não haverá revolução de consumo nenhuma e os lucros são seu verdadeiro Osíris. Pode ser honesto comigo, capitalista da porra, deboche dessa vida mundana em que lhe enfiaram por ter que pagar suas contas, que eu viro cliente fácil. Fácil, fácil, me faça rir que serei sua eternamente. Sinceridade é o melhor dos atrativos.  
Não impunemente, nutro uma relação extremamente conflituosa com vendedores que oferecem cartões, encartes de propagandas, pessoas que usam frases motivacionais, chefes de empresas, atendentes de telemarketing e Eike Batista.. Não os trato mal - em absoluto - só sou lacônica. E o meu laconismo, num mundo que a do ra um rodeio, é visto como agressão. Na seara dos shoppings e assemelhados, eu não sou arredia, queridos, eu sou é impossível. E o pior é que eu compro. Bastante, eu diria (muito embora tenha urticária só de pensar em prestações e contas penduradas). Tenho fraco por roupas que desafiam a serenidade dos olhos de mamãe, por exemplo. Sabe aquela blusa amarela que meio Maracanã não teria coragem de usar (por uma questão óbvia de não querer ser confundida com uma gema ambulante)? É essa mesma, vou levar. As cores estão aí para serem misturadas, ué.
Em suma, eu queria era falar mesmo de como me estafa esse joguinho do consumo e suas falas sempre tão engessadas, sempre tão sebosas, sempre tão discursinho político. Blá, blá, blá, vocês não querem que eu saia satisfeita do seu estabelecimento, meus amores - até porque se eu estivesse satisfeita da vida, eu nem teria entrado lá. Me poupem da cantilena ou eu vou comprar na concorrência. A porcaria do sapato que vai encontrar o barro da sarjeta mais à noite não é a mesma? Me poupem, vai. 


                Miga, eu sei que tu não é um robô e teu dia tá uma merda, pode desparafusar o sorriso. 






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Zero - Yeah Yeah Yeahs 






       

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Whisky sem gelo


Eu tão cartinha de amor
Tu tão pau de selfie
Eu tão dormir pelada
Tu tão cueca boxer
Eu tão discutir relação
Tu tão adoecer de paranoia
Eu tão verborragia
Tu tão impensável calmaria
Eu tão semiótica
Tu tão significando nada
Eu tão doença
Tu tão cura
Eu tão pura
Tu tão descrença
Eu tão riso incontido
Tu tão calculismo
Eu tão niilismo
Tu tão atrevimento
Eu tão jogo de pensamento
Tu tão ou nada atento

Tu tão rotina de 8 horas
Eu tão fazer greve
Tu tão breve
Eu tão pra sempre
Tu tão quente
Eu tão gélida incoerente
Tu tão whisky sem gelo
Eu tão vinho
Tu vinha?
Eu tão sem ninho
Tu tão viagem pela CVC
Eu tão mochila nas costas
Tu tão sorriso queimando
Eu tão boca larga cantando
Sucintas notas
Tu tão beijo na boca
Eu tão pele na pele
Tu tão Tarantino
Eu tão nouvelle
Nós tão pra ser, mas nem foi
Por isso volto a dizer: oi



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Por um triz - Skank







sábado, 3 de outubro de 2015

Um relato de 26 anos com espírito de 16 - ou ''BITCH, DON'T KILL MY VIBE''

Essa coisa da idolatria é uma coisa muito louca e bizarra e doentia e incrível e mágica e surreal e faz o coração sair pela boca, né? Não sei bem o que rola, mas é uma sensação boa. Ok, eu sei que muitas vezes as pessoas idolatradas nem sabem que respiramos. Mas não tem muita importância, porque a gente já aprendeu a amar. E eu diria que é gratificante manter um espírito de 16 anos se manifestando dentro da gente. Desculpa aí, mas eu não quero nem saber se estou velha demais pra fazer certas coisas. Vai cortar a onda de outro aí, bitch. Ou melhor, BITCH, DON'T KILL MY VIBE!!!!

Então, estava eu ali, batendo o pezinho e tocando bateria imaginária, com a cabeleira, recém pintada de um ruivo suspeito, pra lá e pra cá, escutando ''Não sei viver sem ter você''. Um filme louco passando pela cabeça. Que momento! Caralho! Só eu e uma das bandas que eu mais amei na adolescência à frente. Sim, eu fui sozinha ao show, e nem precisa ficar com peninha: eu fiz questão. Só eu e meu ídolo a poucos metros de distância. Delícia. Dei gritinhos histéricos. Simulei convulsões. Eu sou toda coração, nem quero me curar. Mas, por dentro, eu murmurava: ''não creio que vou chegar tão perto e não vou sequer tirar uma foto, falar alguma bobagem''. Eu devo ter feito caretas tristes, certamente, enquanto era observada por pessoas incrédulas com minha loucura abençoada. Enquanto sofria. Tão perto e tão longe, isso nunca fez tanto sentido. Eu queria ouvir a voz. Sensoriais que somos, queremos chegar perto. Como bem resumiu uma grande amiga minha: ENCOSTAR. Encostar, afagar, sentir coração com coração. Estamos fadados à coleção de sensações. Pra lembrar, pra viver em paz...  

Marcam, essas coisas marcam, como marcam. Com ''Regina Let's Go'', eu me lembro da Capricho em que a Britney foi capa e pela qual eu paguei R$5,00, depois da aula, nos idos de 2001. E daquele meu All Star preto que eu usei tanto que chegou a desbotar. ''Tarde de Outubro'' embalou minha primeira ideia de fuga de casa, isto é, a letra tinha sido feito pra mim, fazia todo sentido. ''Peguei minhas coisas, fui embora...''   
A já citada "Não sei viver...'', poxa vida, essa doeu. Cara, junto com ''The Zephyr Song'', isso foi a música dos meus 14 anos. Em 2003, eu não entendia bem o que acontecia, aquele vazio niilista da oitava série, aquelas raivas e aqueles amores que se camuflavam no peito, e aquelas notinhas perfeitas de quem tinha o futuro muito promissor, mas odiava isso. Com ''Irreversível'', eu me lembrei de 2005, de como eu odiava Física e não conseguia estudar, malditas fórmulas! E de como eu chorava por aquele malditinho lá. Eca.
Fiquei torcendo pela chegada de "Além de Nós''. Porra, Além de Nós. Essa é a minha favorita, favoritíssima. Deus, como eu amo essa música. Ela é a que mais ecoa em sei lá que buraco perdido dentro de mim. Quantas idas ao cursinho em 2007 escutando a famigerada? Só eu sei. Tempinho bom. Mas não tocou, aí eu chorei. Mentira, chorei depois só, de emoção, de medo de não conseguir um abraço que fosse, de tanto regurgitar lembranças. Chorei, mas ri infinitamente mais. Melhor show a que eu fui em tempos. Salve, batera lindo da minha vida! Salve! Um dia ainda falaremos dos filósofos gregos, de Ciências Sociais, de Kiss, de Ramones e do teu vegetarianismo cativante! Ficou pra outro dia, já que eu fiquei petrificada do teu lado e só consegui manter as mãos no peito e a boca aberta - minha marga registrada. Um dia, a gente se bate por aí de novo.


                                                    COMO NÃO AMAR?????????????

     

**suspiros**






sábado, 12 de setembro de 2015

Sobre promoções sexistas - e o que eu tenho a ver com isso

Minha cidade natal, há alguns dias, foi alçada a suprassumo do churrasco gaúcho por conta de uma promoção sexista, nojenta e mais velha que o sol. Foi doído, que lástima. Não contive o sangue fervendo e acabei entrando em choque - de palavras, a virtualidade nos corrompe - com várixs perfis. Fui atacada. Até de travesti fui chamada, aquela gratuidade de sempre - e, né, como se ser mulher transexual, no caso, fosse algum tipo de vergonha... NÃO É! Mas não, não sou travesti. Nasci biologicamente mulher e me identifico com meu gênero. Sou feminina - seja lá o que isso signifique, minha feminilidade não é para apreciação externa, basta que eu me goste. Uso maquiagem, Uso salto. Me depilo. Não odeio homens. E sou feminista. Sim, eu saí do armário. EU SOU FEMINISTA, PORRA! E poucas coisas na vida me libertaram tanto quanto esse movimento lindo e acolhedor. No feminismo, paulatinamente, tenho aprendido a não odiar mulheres, a respeitar a vivência de cada uma, a vê-las como amigas, a ver minhas irmãs como iguais, como seres humanos que, desde sempre, são impelidos a competir para atrair atenção de macho. Eu gosto de macho também, mas não me imagino (mais) dividindo minha vida com um que me mande lavar louça e me chame de neurótica por falta de pica a cada discussão em que eu, talvez, levante a voz - ainda que tudo seja ''brincadeirinha''. Não sabe brincar, linda? Não, não sei. Se for pra usar essa chaga aberta para me silenciar e me colocar num relacionamento abusivo, eu não vou saber brincar. Eu não quero ser mamãezinha de ninguém. Não vou colocar projetinho de comedor na linha, não tenho pretensão de fazer um bom casamento. Vai lavar tuas cuecas, rapá, que aqui tu não vai se criar. Simples. Se vocês estão ok com isso, fiquem à vontade, gurias, mas eu não sou obrigada.
Tudo que nos é apresentado, desde que nos entendemos por gente, é cultural. E a cultura é devastadora, meu povo. Ela nos educa sistematicamente e nos leva a reproduzir certos comportamentos sem nem questionarmos o porquê. É inerente. Mamãe fazia assim, faça você também. Saí da faculdade sabendo muito pouco sobre o movimento, no entanto. Acho péssimo isso, inclusive, isto é, eu, jornalista formada, ter um conhecimento raso sobre um movimento tão denso e protagonista me soou bastante atrasado e vergonhoso. Mas, enfim, me absolvi: ninguém nasce militando, nossa educação simplesmente não nos nutre desse saber. A gente precisa ser mais underground nesse quesito, procurar as autoras e os livros que sempre foram marginalizados e vistos como ''desafiadores da ordem''. E dá pra ser muito underground, dá pra fazer uma oposição legal à merda institucionalizada, levem fé. Fui atrás, guiada por uma vontade que esteve sempre adormecida. Comecei a ler, a me identificar em várias situações recorrentes nas histórias que lia - eu, do alto do meu privilégio de classe média, branco, cisgênero e com curso superior, também sentia as dores daquelas mulheres. Comecei a lembrar quantas vezes fui interpelada na rua por estranhos ''elogiando'' meu corpo. Notei que, centenas de vezes, não pude colocar determinada roupa, dependendo do lugar por onde fosse passar. Vi que, muitas vezes, temi sofrer violência sexual, por estar sozinha na calada da noite ao sair de alguma festa. Sim, porque eu gosto de festa, gosto de beijar caras e quantos caras eu quiser, eu me pertenço, meu bem. "Que putinha virou a filha do fulano, olha só!!!'' Pensem o que quiserem, mas posso afirmar que papai e mamãe estão bem satisfeitos com a filhota que têm. Nem sempre fui assim, é óbvio, me culpava imaginando que eu devia obediência a sei lá que divindade das boas moças, mas hoje, só melhoro na empreitada. Dica: quando você se resolve assim, também freia, instantaneamente, os pitacos nas vidas sexual e amorosa da coleguinha do lado, e isso, meus amores, é um combo de -200Kg de ódio, julgamento e ansiedade saindo das costas, vale a pena tentar. Enfim, eu comecei a perceber que, mesmo tendo uma vida muito da confortável - se compararmos com muitas mulheres que vivem dilemas realmente mais trashs e socialmente drásticos -, eu me incomodava com muita coisa. Eu me incomodei pela primeira vez, aos 9 anos, quando fui censurada pelo meu pai por jogar futebol com os piás do colégio - e, modéstia à parte, como eu dava show nos perninhas de pau naquela quadra de cimento fodida... tadinhos.
Enfim, não há vergonha em me assumir feminista. O feminismo não quer acabar com a família tradicional, isto é, se levarmos em conta que a família tradicional cof cof, esse antro de podridão e valores de 1740, é uma entidade falida por si só, não dá nem graça. Tem muita coisa sobre a qual preciso ler e estudar ainda, mas já não volto atrás. E não me venham, nos comentários, dizer que ''o feminismo de outrora é que era digno e blá blá blá'', porque começar qualquer debate com essa superficialidade é pedir pra ser escrachado. Há mulheres morrendo nas mãos dos caras que diziam amá-las. Há meninas sendo estupradas por diversão por babaquinhas do colégio onde seus filhos estudam, e, não, porra, não é culpa delas e da roupa que usavam. Há mulheres de diferentes etnias e orientações sexuais sendo subjugadas e humilhadas. Há ainda muita coisa a ser feita e eu respeito muito quem se dedica a isso, muitas vezes deixando toda uma vida pessoal em segundo plano.
Então, quando um restaurantezinho de quinta, tão politizado quanto uma flor de pessoa que diz que ''menino que tem tendência a virar gay tem que apanhar pra virar homenzinho'', faz um tipo de promoção cafajeste em que oferece carne por menos preço pra ''ajudar a enfrentar a crise'', a gente precisa se posicionar. A gente tem que tomar partido. Foi nojento. Não questiono o fato de a recessão econômica estar indigesta a várias famílias, a mim, a você, a todo mundo. Só que se trata daquela velha ladainha de que mulher consome ''menos'', ou precisa ser ''sustentada'', ou ''merece promoção porque embeleza o ambiente''. QUAL É, GURIAS, QUEM AQUI É BARBIE-OBJETINHO PRA PUNHETEIRO? Vai ser escroto assim bem longe do meu portão, cara. Desculpe aí, gurias, mas isso não é ''ser burra e me prejudicar'', não dá pra ficar quieta com tamanho exemplo de subalternidade. É o preço que se paga por escolher pensar sobre as coisas. Espero que vocês não me odeiem por isso, porque eu escolhi não odiá-las. Não colocarei meus pés neste rico estabelecimento. Que abram uma filial na caverna de onde não deveriam ter saído. 





        

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Deixem rolar - só que no mudo

Sabe aquele filme ruim? Mas ruim mesmo, de sentir vergonha alheia pelos atores que se meteram numa história tão ridícula? Pois é, fui acometida pelo sentimento repetidas vezes enquanto assistia à última água com açúcar em que o menino Evans se meteu, o tal Playing it cool - "Deixa Rolar" em português. Assim, não é que a comédia romântica tenha que nos virar a cabeça - somos grandinhos, sabemos o que esperar -, mas com o mínimo de borboletas no estômago é de praxe que sejamos brindados, poxa, está escrito no menu da obra (e nossa fome, mesmo que disfarcemos, não é pouca). O fato é que sigo faminta. E com uma certa raivinha, sabe, aquela gana de dar uns sopapos na cara do diretor.
Bom, o Chris dá vida a um escritor que não acredita no amor, porém é recrutado para dar forma a um roteiro romântico que virará filme em seguida. É tipo uma metalinguagem de Chris Evans, percebam. Só que o ceticismo dele dura até conhecer a personagem da Michelle Monaghan (jura!!!) e cair de amores pela bonita, que é comprometida. Até aí, confesso, tinha esperança de que houvesse uma boa complicação, mas que nada. No desenrolar da trama, a sensação que dá é que não há acaso nenhum. A sensação que dá é que ela tá fazendo um favor em sair com ele. Ué, mas eles não tinham que mostrar um interesse mútuo? Faltou química. Nossa, falta demais. Me contrata por cenzinho que eu olho pra ele com mais paixão que ela em todas as filmagens. Penso estar sendo prolixa ao explicar minha frustração, mas é como se eles fossem completos estranhos, é como se eles estivessem atuando com preguiça e loucos que aquilo acabasse logo. Aff, aceitem minha prolixidade e não desistam de mim.
Sei que é chover no molhado praguejar comédia romântica, visto que elas sempre são um amontoado de clichês, mas convenhamos: há umas deveras queridinhas no mercado do amor hollywoodiano, como 10 Coisas que Eu Odeio em Você, Encontro de Amor, De Repente é Amor, O Diário de Bridget Jones (Bridget que, aliás, já dissequei aqui), Um Lugar Chamado Notting Hill, Uma Linda Mulher, blá, blá, blá, entre outras. Poderíamos até citar também o exemplar péssimo porém didático de Maluca Paixão, resenhada nestas bandas, na qual é possível uma identificação bizarra e assustadoramente crível, por mais louco que isso pareça. Rola, né? É cinema, acontece. Mas, na minha humildinha opinião, não é o que vemos no filme em que somos convidados a deixar rolar. Nem o talento a saúde do Evans salva - e olha que eu só comprei a ideia por ela (mentira, dá pra fantasiar legal com aquele corpo magistral esculpido nas profundezas do inferCALA A BOCA, BRUNA). O filme é chato, enfadonho, sem nexo, sem clima, sem vida. O casalzinho pode até estar vivo na tela, porém não fui informada. O único beijo entre os dois em 89 minutos de ação acontece numa arara de cartões de aniversário no supermercado. Tenha dó! Nem o mais realista dos realistas resiste a tanta sobriedade. Faltou cupido flechando, sei lá eu. Em suma, meus carentinhos, até deixem o filme rolar, deixem mesmo. Só que no mudo.




Oras beijo no mercado!!! Meu leonismo não aguenta tanta mundanice, Evans.






quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Apenas mais uma de sono


Eu gosto tanto de dormir
Que até prefiro omitir
Deixo assim, ficar
No meu olhar reprimido

Como uma ideia que existe na pálpebra
E não tem a menor chance de acontecer

Eu acho tão desgraçado isso
De o sono ser tão feroz, baby
A madrugada é mesmo tão fugaz

É uma ideia que existe na cabeça
E à tarde nunca terá a mínima oportunidade de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então
A alegria que me dá roncar
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
A mijada do chefe que eu ganho, o ônibus que eu perco
Ninguém precisa saber



Bruna Maurícia Pragana dos Santos











terça-feira, 4 de agosto de 2015

Não posso mais ser um prodígio da psicanálise com 9 anos

Quando eu era criança - não que eu não siga -, e brigava com meu irmão por algum motivo que até hoje não sei explicar, meu pai vinha com a cantilena. Corrijo: meu pai, minha mãe ou qualquer adulto que estivesse por perto: ''mas nem bem estavam brincando e já estão de peleia"? Clássico, né? Ou algo do tipo, isto é, se estavam brincando, conversando e rindo, estava expressamente proibido terminarem o show com algum tapão na cara - não que tenha havido, enfim, vocês me entenderam. E não que as coisas precisem terminar com choro e focinheiras, realmente não precisam. Mas isso acontece. Acontece, é da vida. A gente - eu, vocês e todos nós - segue sem se entender no fundo, mas bem no fundinho.
Mais nova, eu me culpava. Achava que a intervenção adulta era sempre muito lógica e providencial. Até pensava com meus botões: ''criança é idiota mesmo, adulto não faz isso''. E deixava-os saborearem aquele trunfo de quem acha que sabe muito sobre a vida. Ai... ai.... seus trouxas.
Sabe, hoje, maior com carteirinha e tudo que sou, eu vejo que, ora, adulto é babaca, É uma criancinha indefesa que paga contas, tem reuniões profissionais e chora no escuro agarrado no travesseiro. E, porra, como chora. Ao menos, a íris fica bem hidratada. A gente segue brigando sem entender. E a gente briga muitas vezes porque, de coração, não se entende. Chega a dar uma peninha. É como se houvesse dois dialetos, não há unidade na linguagem. Posso estar equivocada aqui, mas penso ser seguro afirmar que os seres humanos são universos à parte. Obscuros e reais, muito reais. E o triste é que a gente se ama demais. A gente se gosta, se quer bem, se dói, se sangra, se machuca, se cura. Daí a culpa que eu sentia talvez quando pequena. Não fazia sentido brigar com quem amava. Nunca faz, mas não quer dizer que vamos nos imunizar disto. Até se soubéssemos, penso que faríamos. Mas tcharam, tá aí algo com que a tecnologia nunca nos brindará.
Resvalemos, com louvor, ó, céus, no clichê de que ninguém nos entende. Ninguém me entende. Sim, é bem isso. Parece afirmação de garotinha com ódio do mundo trancada no quarto com 13 anos, mas que nada, ninguém nunca nos entenderá. Só temos a nós mesmos, bipolares do meu coração. Laços de sangue, de amizade, de sexo insano com senha partilhada no Netflix não dão garantia de que nunca haverá farpas. Seria ótimo, lógico. Relações humanas não são contratos, mas ahh, como seriam menos traumáticas se fossem:

FICA ACORDADO QUE, IRMÃOS QUE SÃO, AS PARTES SE COMPROMETEM A NÃO IRRITAREM O OUTRO E DIZEREM NADA QUE SEJA MAL INTERPRETADO, MATE O AMOR PRÓPRIO ALHEIO E LEVE A DISCUSSÕES E/OU CHOROS.

O REFERIDO É VERDADE E DOU FÉ. VÃO LAMBER SABÃO, HUMANOS ESCROTOS.

Sabe, adulto, sabe por que raios a gente seguia brincando com os amigos da rua, mesmo se odiando dali a meia hora? Sabe por quê? PORQUE SOMOS HUMANOS, CARALHO, PORQUE AS RELAÇÕES HUMANAS SÃO ASSIM. PORQUE A GENTE NÃO DESISTE DOS OUTROS, PORQUE A GENTE AMA OS OUTROS, PORQUE AMAMOS NOSSOS, AMIGOS, AMIGAS, IRMÃOS, IRMÃS, PAIS, MÃES, PRIMOS, CACHORROS E PERIQUITOS E ELES NOS FAZEM RIR E TAMBÉM NOS FAZEM MAL. PORQUE NOSSAS PERSONALIDADES SÃO DIFERENTES E ISSO É LINDO E É UMA DESGRAÇA TAMBÉM.


Mas deixa ele lá, achando que tem razão. Agora, estou crescida e não posso voltar no tempo e ser um prodígio da psicanálise com 9 anos. Vai lá, adultão, vai lá chorar depois e ver que não sabe nada.




Auxiliou no post:

Sister morphine - Marianne Faithfull
   





    

sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sobre John Lennon e uma estrada para lugar nenhum

Tenho quase 26 anos, e não sei o que quero da vida. Sim, eu tenho um diploma. Tenho saúde, pelo que dizem os últimos exames. No entanto, tenho sono. Um sono louco e arrebatador. Sono das pessoas. Dos últimos hits do rádio. Das comidas do Instagram. Das frases feitas com um questionável espírito motivacional. Nossa, essas me fazem bocejar. E salivar de ódio. Mas, veja bem, meu bem, eu tenho amor no coração. Eu sou amor da cabeça aos pés. E umas pílulas para ativar serotonina. Se você sabe o que quer da vida, esse texto não é para você. A propósito: pegue sua medalha de maior ser humano na saída. De nada, foi um agrado do meu eu John Lennon a você.
Os boletins do John diziam, na época, que ele era irrecuperável. John era um adolescente bizarro e sem nenhuma perspectiva. Porra, queria ser ele. E ter composto Strawberry Fields Forever. John não sabia para onde ia, mas entrou para a história. Quem sabe eu também consiga. Pensando sobre isso, me vem à cabeça aquela ideia de que deve haver nem que seja uma direção. Tudo bem não saber agora, mas tentar não ficar parado também é importante. Ele gostava de música e formou uma banda. Ok, vai lá, John. Eu sei que não quero marido nem filhos. Ok, Bruna, vai lá. Ou melhor, não vai. Fique longe desse projetinho de família tradicional que tanto lhe causa pânico: mantenha distância de chás de bebê chatíssimos e grupos de casais da igreja mais próxima. Será que eu sei mesmo o que quero? Eu queria fazer sentido - não para milicos, sabe, mas para mim mesma. Eu quero mais, bem mais do que isso que me venderam a vida inteira. Ou menos, vai saber. Menos é mais, dizem.
É claro que rolam objetivos aqui. Estão meio empoeirados na estante, mas seguem lá. Perdoem-me pela comparação escrota, mas a meta precisa existir - nem que a tal seja matar um cantor que cantava pela paz na frente do edifício onde ele morava, fazendo gurias instáveis emocionalmente chorarem de tristeza ao lembrarem disso, em uma noite de tensão pré-menstrual, quase 35 anos depois do ocorrido. Mina louca essa, quem será? A meta tem que existir - só não matem pessoas, muito menos rockstars, se possível. A minha meta está bem encaminhada. Mas eu quero mais. Eu quero arte, conversar com pessoas interessantes, caras com cara de príncipe caído cheirando a whisky. Ou uma metáfora disso. Eu quero metáforas. Quero rock. Quero morrer de dançar. Quero tomar todas. Quero um conto. Quero contar com alguém que me inspire e me faça vender livros. Mas eu não quero só vender. Quero que as vendas caiam. E meu sutiã também. Quero uma estrada que dê para algum lugar, mas que isso não seja só um lugar.


                                                             Você está louca, querida.





Auxiliou no post: 

Road to nowhere - Talking Heads            








terça-feira, 21 de julho de 2015

O casal que não disse obrigado

Eu sou um tipinho atormentado. Artístico incompreendido. Azedo crônico. Faço piadinhas imbecis e comentários inapropriados. Sou medalha de ouro em deixar as pessoas mudas espumando de ódio em virtude de alguma frase atravessada. Aquela coisa das papas na língua, sabe... é, realmente não tenho. Como diria a Modinha para Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim. Ponto. Mas, indo na contramão disso tudo que escrevi, devo confessar que realmente não me considero uma pessoa mal educada, uma pessoa difícil de conviver em sociedade. Eu sou um doce, meus amigos, por mais contaditório que possa parecer. Eu prezo muito por gentileza no momento em que ponho os pés para fora de casa. Nossa, eu não abro mão! Ninguém tem culpa das misérias que enfrentamos, penso eu. Tá, alguém, às vezes, tem, ok. Mas o caixa do mercado, o atendente da loja, a moça que faz a higienização urbana... poxa, eles não têm nada a ver, nunca serei deliberadamente estúpida com quem nunca olhou na minha cara.
Tá, blá, blá, depois dessa introdução chatíssima e egocêntrica, vamos aos fatos. Há uns dias, fui viajar a fim de resolver pendências. Como sempre, na rodoviária, me ofereceram um assento que já estava ocupado no momento em que entrei no ônibus - e bem no fundo do veículo, lugar sempre intragável de viajar por inúmeras razões (eu costumo ficar tonta, por exemplo). Ok, beleza, vida que segue. Após alguns segundos, um casalzinho chegou perto de onde eu me acomodara e chamou minha atenção: pelo que entendi, era um desafio se desgrudarem e viajarem em poltronas distantes. Até procurei notar se eram gêmeos xifópagos, mas ao que tudo indica cada um tinha o seu corpo. Confesso que tal drama começou a me enervar, logo, sugeri que ficassem com meu lugar, enquanto eu sentava em outro já previamente ocupado. Ok, não foi nada demais, mas o fato é que eu não ouvi um obrigado sequer. Ficamos, a moça que também se disponibilizou a fazer a troca e eu, ali, meio embasbacadas com a total falta de tato dos jovens namorados. Quem sabe fossem mudos, cada um com seus problemas. Mas aquilo ficou me martelando a vida. Até pensei: esse desaforo rende uma crônica. Realmente, é sacrifício demais abrir a boca para agradecer por algo. Pedir por favor, dizer com licença, por gentileza, obrigada, essas coisas supérfluas. O mundo é selva, gentileza é para os fracos, os que ainda não entenderam que o sistema é bruto. Caro leitor, cara leitora, reitero:

EU SIMPLESMENTE NÃO TINHA OBRIGAÇÃO NENHUMA DE CEDER LUGAR OU DE ENCHER O SACO DA OUTRA MOÇA ATRÁS DE MIM, A FIM DE QUE OS POMBINHOS PEGASSEM O PRIMEIRO AVIÃO COM DESTINO À FELICIDADE.

O meu conforto estava garantido. Mas as joias sequer me mandaram à merda. Talvez um ''vai à merda'' já tivesse mudado meu dia. Ou quem sabe, dada a apatia e o espírito de servidão, um ''não fez mais que tua obrigação, querida''. Ao menos, eu teria dado risada, visto que seriam humoristas profissionais.
Eu fiquei pensando. Sim, porque eu sempre penso. Tem muita gente incrível e gentil no mundo, mas também tem muito cuzão mal educado, né? Que lástima. Realmente, talvez as palavras não sejam transformadoras no momento em que são ditas. Mas não dizê-las pode ser incrivelmente mais desastroso. Quem não gosta de ser tratado com gentileza? Com um sorriso, um gracejo? Vai saber se aquele ''muito obrigada, moça'' não vai salvar um dia, uma alma carente de calor humano? A gente não sabe, a vida e as conexões são um mistério. E eu sou uma trouxa, sabemos, mas uma trouxa que sempre deixa o interlocutor mudo, então estamos conversados. Gentileza gera gentileza, casal, aprendam isso. Se forem fazer tatuagens, tatuem isso no antebraço, que ao menos não vai rolar laser corretivo depois.





quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sobre o dia piadista do falo

Dia do homem, que lindeza. Só parem! Tá feio, tá escroto, tá bizarro. É pouco politizado e inteligente. Vocês podem mais que isso, galera. Eu começo esse texto cheia de reservas, porque, né, ''ai grande coisa comemorar o dia do homem, é só um agradinho pra estes lindos que nos rodeiam, deixa de ser encrenqueira, Bruna'' - sei que é um pensamento recorrente. Ou se não o clássico da geração falsinha e raivosa da internet ''mais amor, por favor'' - como se para espalhar amor, fosse preciso emburrecer e consumir idiotice do senso comum. Amor uma ova, vamos pensar sobre as coisas?
Eu tenho dois homens maravilhosos na minha vida, além de inúmeros amigos, é bom que se diga. Meu irmão e meu pai são dois alentos para mim, não vivo sem, amo de paixão. Só que existe uma diferença oceânica entre dizer isso e sair propagando em alto e bom som que homem merece um dia para ele também, oras, afinal, a mulher tem o dela em março. É uma bobeira retomar isso, mas, sinceramente, vocês sabem o porquê do dia 8? Têm ideia de quanto sangue escorreu para que este dia simbólico e que não tem nada a ver com promoções de depilação e flores existisse no inconsciente coletivo? Penso que até nem era objetivo das operárias de Nova York que morreram no incêndio, essa coisa de entrar para a história e receber de brinde um dia nojento pontuado por ''homenagens'' sexistas e mensagens cafonas, mas ok, assim foi e assim é em todo ano. Só aí já eliminamos a falácia do dia do homem, ele, o homem, que sempre teve tudo. Sempre pôde tudo.
Talvez vocês pensem que eu levo o feminismo muito a sério. Mas, sinceramente, seria no mínimo covarde da minha parte virar as costas a uma geração de mulheres que tomou as ruas, comprometeu uma vida mansa e confortável, a fim de que nós - vocês também, lindas! - pudéssemos fazer o que bem quisermos da própria vida. Isso parece tão longe, que você precisa adentrar uma fazenda de café para visualizar? Olhe para os lados, vejam bem como ainda há diferenças sutis de tratamento entre os gêneros. Olhe como você ainda não pode colocar uma saia curta, usar um batom de cor mais forte, sair sozinha de uma festa, se dar o luxo de não lavar a louça, porque, ops, quem é a menina da casa? Eu nunca vou me voltar contra essas mulheres que lutaram por mim e lutam diariamente para desconstruir paradigmas mesquinhos em que ainda sigo envolta.
No mais, xinguem, escarneçam da minha boa vontade, fiquem à vontade para seguir entupindo minhas timelines de asneira e piadas bobas sobre churrasco, mulher e cerveja alusivas ao dia falocêntrico. Se possível, esfreguem na minha cara alguma tirada daquela página-mor dos imbecis, a Orgulho de Ser Hétero, porque, afinal, vocês podem, a internet é pura democracia e conceito equivocado. Por ora, dei meu recado. E sei que não tô sozinha.




 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Marisa Monte, miga, volta aqui

Quem me lê há tempos (ninguém), sabe que sou fã da Marisa Monte. Musa suprema, amo, adoro, suas letras são bálsamo para meus ouvidinhos. Óquei. Íntima que me considero, já corrompi uma de suas letras neste espaço zombeteiro. Porque eu posso. Eu e Marisa é amizade daquelas de só se olhar e entender. Beleza.
Aí, aconteceu que, esta noite, eu sonhei com a miga previamente citada. Branca que é uma parede. Os cabelos milimetricamente cacheados e sutilmente presos. Arredia, como ouvi dizer e o inconsciente popular aprendeu a vê-la. A mãe do Mano Wladimir estava, vejam só, no mesmo ponto de ônibus em que Bruninha contava seus níqueis. E cheia de sacolas, gente como a gente.

- Fulana, olha ali, eu não creio, é a Marisa.............
- Que, Bruna? Cuma?
- Ali, fulana... olha ali, porra, é a Marisa Monte!!!!!!

MARISA, COMASSIM, CÊ TÁ FUGINDO, MARISA, EU NÃO MORDO, SÓ QUERO TROCAR UMA IDEIAAAAAAAAAAAA
VOLTA AQUI, MARISAAAAAAAAAAAAAAAAA

Fugiu. Evaporou por entre as catracas imaginárias do meu sonho. Nem um oi, muito menos autógrafo, letra coreografada, consegui. Vai lá, Marisa, vai lá que o boletim do Wladizinho já saiu. O mais bizarro do sonho - como se sonho já não fosse uma enxurrada de nonsense - é que a pessoa que estava comigo não sabia quem ela era. E eu comecei a cantar músicas da Mari como se não houvesse amanhã e pessoas que não gostam de músicas da Mari por perto. Aí eu entoei Na Estrada (favorita de uma vida inteira), Gentileza, O Que Me Importa (até o pianinho do final arranhei). Em Bem Que Se Quis eu desisti, não tinha jeito de saber de quem eu falava. Silêncio. Se bem que a miga estava pálida demais. Terá sido alguma arte do Wlad? Ou de Heleninha? Ou medo de mim?


EXPLICA ESSA, FREUD, NÃO GUENTO MAIS MEUS SONHOS



                                                                      - SAI, LOKA





*Troco o entendimento dos sonhos pela volta dos Tribalistas, se possível. 






quinta-feira, 2 de julho de 2015

Amadeus e eu

Eu vivo no mundo da lua. Ok, todo mundo vive, eu não sou uma exceção, mas como o blog é meu, vamos ser enfáticos no meu umbigo aqui. Eu tô sempre viajando na história, vejam vocês. Viajando por culturas diferentes da minha, por países que não o meu, por músicas e ritmos que só conheço de curiosa mesmo - já que sou uma musicista frustrada. Peguemos a música clássica, por exemplo. Hoje, acordei com uma vontade doente de escutar uma sinfonia específica de Amadeus e seu cabelo ridículo (a propósito, a estética capilar do século XVIII sempre será uma incógnita para esta plebeia que vos fala), Amadeus este, aliás, cuja biografia contada no ótimo filme homônimo, de 1984, me deixou fora da casinha - assisti dia desses, e, olha...  'Ai, Bruna, para de pagar de cult aí, tu nem ouve isso.''
Antes fosse comichão pseudocult, menino, antes fosse. Eu sou tarada por sinfonias, de verdadinha mesmo, e desde muito nova. Me olha bem nos olhos aqui e diz que consegue ficar indiferente a um pianinho do Chopin ou àquela coisa bonita que toca no balé O Lago dos Cisnes. Consegue????????????? KD TEU CORAÇÃO????????????

Sou uma leiga completa nisso, ainda que já tenha buscado entender suas escolas e os contextos históricos em que estes insanos produziram suas relíquias (felizmente, inclusive, tenho uma amiga que estuda a área e me manda achados maravilhosos!). Mas, sabe, em meio a minha tentativa de deliberação intelectual forçada, deixo só uma singela observação: eu ouço porque me toca sei lá que raios dentro do cérebro, dentro da alma. Eu ouço porque me tira do prumo. Eu ouço porque aguça minha criatividade, duvidosa criatividade. Ouço porque dói. 



Eis aqui, absurda de tão linda:


                                                       





  


sábado, 27 de junho de 2015

SHE TALKS TO RAINBOWS

E de repente, não mais que de repente, ficamos coloridinhos nos avatares das nossas redes sociais - e fomos seguidos por nossos amigos em uma espécie de reação em cadeia linda e fraterna. Claro, claro, é uma modinha de rede, um viral repetitivo que acaba nos enchendo o saco a certa altura, mas, neste caso, acho interessante deliberar sobre algumas coisas. É um caso em que penso valer a pena cutucar com maestria o privilégio alheio.
Vivemos um momento progressista bonito em que a representação da diversidade ganha força em campanhas publicitárias e tramas novelísticas. Porém, este também é seguido por escaladas assustadoras de fundamentalistas e ''homens de bem'', temerosos de que os irrisórios avanços sejam a ruína da família tradicional, a ruína de ''nossas crianças" - crianças estas que dão de 10x0 na questão politização, bem longe dos holofotes. O presidente da casa legisladora mais famosa do país é do bem. A política brasileira está infestada de pastores de bem, que pregam enfrentamento e boicotes de ódio em nome de Jesus. Eu sinto medo desse tipo de pensamento limitado e conservador, sinceramente não sei o que pensar. Primeiro, porque a sexualidade alheia não me incomoda. E, segundo, porque tais pessoas têm internet ilimitada e entopem minha timeline de porcaria. É um exercício diário tolerar tanto imbecil. Mas seguimos.
Realmente, ninguém vai mudar pensamento de ninguém com arco-íris, por mais promissor que ele seja. Mas, neste caso, achei importante me posicionar. Em meio a esses exemplos medievais, é necessário marcar bem o lado. Essa coisa de ficar muito quieto quando nossa voz é requisitada, me cheira a comodismo, a fazer coro à voz do opressor. É uma matemática certa, não precisa ser Martin Luther King Jr. para se tocar disso, qualquer cérebro médio consegue. E Deus me livre ser confundida com um discípulo de Malafaia da vida! É muito terror pra uma existência.
Nestes perfis, óbvio, há de tudo. Há o progressista de fachada, o que nem sabe por que raios estão mudando as fotos, o seguidor de modinha, como muito li por aí. Mas também há pessoas heterossexuais, como eu, que simplesmente acreditam na igualdade e se sentem atordoadas pelo seu privilégio ainda ser visto como um absurdo para outras pessoas. Que se sentem impelidas a apoiar uma causa por pura empatia. Poxa, me solidarizo com tua luta! Olha que coisa bonita, não?
Em outras palavras: você, menino, não deixa de ser machão e comedor por mudar seu avatarzinho. Você, moça, não vira um sapatão 42 por colocar um pouco de cor na sua fotinho. Do mesmo jeito que não trocar a cor de seu perfil não faz de você um homofóbico horrendo, não tem nada a ver, adere quem quer - ainda que, evidentemente, muitos homofóbicos não fariam isso de jeito algum. Penso que tudo é uma questão de simbolismo, e esses arco-íris simbolizam muita coisa. Uma delas, mais que o amor, é a vitória da cidadania. Um abraço dizendo: eu tô com vocês!






*Não resisti a fazer trocadilho com a música dos Ramones no título - vocês sabem, estes punks cretinos já estavam mancomunados com a ditadura gayzista há tempos. 





domingo, 14 de junho de 2015

I DROVE ALL NIGHT

Peguei o carro e decidi: eu vou. Abasteci pouco e sem saber se chegaria até lá com o volante em mãos, talvez sucedesse de ser com os pés sangrando coisas absurdas e as solas do coturno cheirando a bizarrices de estrada. A Cyndi cantava ''I drove all night'' num caos insistente e providencialmente coincidente, maldito mp³. E a febre de ver o cara mais uma vez guiou os caminhos, até porque aquele laranja meio magenta da ponta do horizonte parecia abençoar de algum jeito a empreitada. Anoiteceu tudo e nem vi. A loucura colorida da Cyndi era uma coisa muito, muito, muito doída, partia minhas artérias em minivasos de arrependimento futuro e expectativas molhadas de chuva. Mas eu seguia. E sentia tudo queimando, um cheiro de pólvora desejando carne e angústia pedindo redenção em um abraço quente faziam a atmosfera até poética. Poesia vagabunda, mas não menos lírica. Cheguei. Os olhos brilhando de carinho e pensamentos indecentes, uma traquinagem no céu, uma coisa muito paradisíaca e pouco óbvia. Tirei o sobretudo, fiz um rasgo consciente na meia-calça e respirei fundo. Toquei o interfone. Fiz graça com a voz. Senti uma surpresa. Pra mim, que sempre fui previsível, foi um jeito ótimo de virar o jogo. Dormi em pé ali, sonhando, enquanto admirava a cidade que recém descobrira. A chuva tinha parado, mas uma poça de lama e luzinhas coloridas brotou das pedras do estacionamento, onde até deu pra ler umas coisas bobas de quem está prestes a ter uns momentos muito bons e muito errados. Não leio nessa língua - menti pra mim mesma. E enfiei a minha, na boca do cara que chegou com os olhos mais arregalados do universo. A gente sorriu meio sem jeito. Ele gostou. Que bom e que merda! O hall do prédio ficou pequeno. Subimos, deixando algumas paredes envergonhadas, que era esse o objetivo. E, quando a minha pele tocou na pele daquele projeto de eternidade pouco convincente, uma espécie de calor muito sincero se apossou do meu coração e dos lóbulos das minhas orelhas. E, enquanto eu chupava aquele amor todo ali mesmo pra dentro do meu pensamento e das minhas fraquezas, amanheceu. A vida é sempre pouco imaginativa com luz direta, e o sol não carrega um erotismo confiável. Sempre preferi as madrugadas. Eu e a Cyndi, essa doidivanas.



                                                                    MASOOOOOQ







          

sábado, 13 de junho de 2015

SAVE THE DATE II - A SEGUNDA VEZ É COM CHANTILLY


MEU HOMEM ESTÁ ANIVERSARIANDO
NINGUÉM SAIIIIIIIIIII
34 ANINHOS DE TOTAL TIRANIA COM NOSSAS RETINAS
AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE




Primeiramente, um minuto de silêncio a esta senhora que deu à luz tal criatura: 


                                                      Porra, mandou benzão, Dona Lisa! 


                                                   Você fez uma geração mais feliz! Obrigada!



Segundamente... vamos admirar, né, meu povo, já que ninguém aqui vai pegar mesmo. Admirar a total falta de condescendência deste rapazinho para com nossas estruturas: 


                                           Que coisinha mais bem feitinha, né? Desgraçado!



                                        De quatro-olhinhos: agradeço pela representatividade.


                                                        ESTA CARINHA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



                                  Imagina topar com uma secada dessa e perder o rumo de casa. 



                                          No, no, no, no, baby, no, no, no, no, don't lieeeeee



                                                       EITA, BRASILLLLLLLLLLLL



Até de boné o homem fica bem.............


                                              DEVAGAR COM AS PEDRADAS, PARÇA!!!



                                      Afffffff amo homens com esse tipo de roupa. QUERO!


     Essas poses que nos fazem pensar as coisas mais indecentes... 


ZEROU, ZEROU, ZEROU!!!! NUM GUENTO MAIS



NÃO É FÁCIL, HEIN? SOFRO


Terceiramente (kkkkk)... Chris é ótimo! É extremamente simpático, espirituoso e ri de tudo - inclusive dele mesmo. AFF AMO GENTE QUE RI DE SI MESMA
Ama cães, é fã de Alice in Chains, toca piano, tem uma risada deliciosa e sempre se posiciona a favor dos direitos LGBT, até por ter um irmão assumidamente gay com o qual, aliás, se dá maravilhosamente bem. Esse homem é uma instituição, meu povo, uma aparição!!! Sem falar que é geminiano, não há como não se inspirar por eles, confesso que simpatizo deveras. E o fato é que das crushs hollywoodianas da minha vida cinematográfica, tem se mantido em primeiríssimo lugar no meu coração ridículo. Até pelo ocorrido do chantilly ali e tal, isso marca uma pré-adolescência, convenhamos. Bendita cobertura rssssss :)))))))))))) 



Neste vídeo, Chris nos conta que começou a falar erraticamente como seu sobrinho de 3, 4 anos, após uma temporada com a família em Boston - que, por sinal, é meu destino na vida, vocês não duvidem. A propósito, já mencionei que amo as entrevistas dele no Jimmy Fallon? Tenho crises homéricas de riso. Enfim, deliciem-se, que eu vou chorar ali no cantinho. BEIJAS




Auxiliou no post:

O fã é uma coisa ridícula que precisa ser estudada - Bruninha & Banda





segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sobre selfies com teor religioso e ser cristã

Penso nunca ter falado exclusivamente sobre religião, fé, Deus e afins aqui. E, bem no fim, me inspirei, após ter escarnecido lindamente no Twitter de fotos - as chamadas selfies - em que as pessoas citam versículos bíblicos. Se eu fosse alguma coisa de prestígio na vida, eu estaria em O Globo, n'A Folha dando entrevista e tentando contornar a polêmica. Mas como eu sou um nadinha - um nadinha de muito potencial, é bom que se diga -, vou aproveitar minha total anonimidade e deliberar. Selfies com citações religiosas são bizarras. São ridículas. Eu rio pra caralho. A selfie, antropologicamente falando, já carrega um teor de ridículo e presunção, convenhamos. Já postei selfies? Claro! Quem nunca? Mas tenho noção da gama de construções que isso envolve. Eu, ali, me vangloriando de mim mesma e do meu sex appeal questionável, não deixo de ser uma caricatura de mim mesma. A gente é ridículo por natureza, não há por que temer. O problema reside, na minha opinião, em realmente se achar grande coisa ao postar uma foto de um rostinho perfeito, de um corpinho conseguido com muita privação e Whey Protein. Que foco, força e fé o quê, cara? Cê não descobriu a cura do câncer, relaxa aí. Cê só se disciplinou, coisa que qualquer mortal com um mínimo de teimosia e estratégia faz. Beleza. Agora, foto da fuça com citação bíblica realmente desafia meu entendimento da vida. Quer dizer, partindo do que está no livrinho sagrado, o egocentrismo não iria contra toda uma vida de exemplos que Jota Cê nos deu? Jota Cê era humildão. Jota Cê abominava as frivolidades a que a carne humana se prestava, logo, não consigo não problematizar. Elas realmente me aterrorizam. Eu não consigo resistir, pessoal. Rezem um terço pela minha pequeneza espiritual, se a errada for eu.
Voltando ao que foi dito na entrada deste texto... e caso você tenha aguentado aqui, eu realmente não me considero ateia. Sem religião, talvez. Porém, eu acredito em algo superior. Não em um cara barbudo e de olhos azuis, como Hollywood adoraria que fosse. Mas deve haver algo do lado de lá. Para mim - eu digo PARA MIM -, a ideia de algo que continua em outra dimensão me traz paz interior. Acredito em lei do retorno. Acredito em bem, em escolhas e que tudo que fizemos tem uma consequência que ecoa por sei lá quanto tempo. Acredito em empatia e desprendimento. Acredito em Deus? Sim. Apesar de que, como diria Atahualpa Yupanquié seguro que ele almuerza en la mesa del patrón. Eu tenho muitos questionamentos dentro desta cabeça castanha, a propósito até da letra que citei. Mas já rezei e rezo sempre que me encontro atormentada, e sei lá para quem direciono minha fé. Padres e pastores não fazem meu tipo, e eu os respeito tanto quanto um sorvete de casquinha, ou seja. Igrejas idem. Fui batizada, fiz eucaristia e crisma, mas sei lá, muita coisa que a turma do Vaticano pregou e segue pregando me dá vontade de vomitar. Cristianismo e Inquisição, por exemplo, é um caso de amor que não me desce. Ah, claro, vomito como boa cristã, na surdina. Não concordo que religiões governem a vida privada das pessoas e que seus representantes tenham tanto poder político nas mãos - poder este que, aliás, interfere na validade de direitos civis de outros grupos. Serei eu uma menina má? Só o tempo dirá. Quando eu passar para o lado de lá, volto pra contar como é e se estou sendo muito castigada. Mas, por enquanto, seguirei rindo das fotos. Com gosto. 




             
*Falei essencialmente sobre Cristianismo aqui, por ser a doutrina a que fui apresentada desde cedo e com a qual tive relação por muito tempo na vida.  
    

domingo, 7 de junho de 2015

Deveria haver mais Fernandões

O Fernandão, ídolo colorado falecido ano passado em um triste acidente de helicóptero em Goiás, desde que havia ganhado projeção no futebol há alguns anos, sempre me chamou atenção pelo que dizia. É curioso como eu sempre parava para escutar alguma fala sua na televisão, por exemplo. Alguma coisa de fundamento ia sair, era meio sintomático. Destoava até com certa inocência da massa de entrevistas futebolísticas caricatas e que beiram a robotização desde sempre - e que, aliás, vide anos 2010 e tantos, seguem ridículas e previsíveis. Mas não era esnobismo; era lucidez - e esses dois, poxa, são bem diferentes. Me lembro de uma vez - devia eu contar uns 17, 18 anos - ter saído uma reportagem em um jornal impresso de prestígio aqui do estado acerca da homossexualidade no futebol e de como há uma cultura machista e heteronormativa dentro deste espaço, tido ainda como só para machões e gaúchos malvadões e ogros graaaaw. Em meio a falas bizarras e carentes de profundidade, o homem saiu-se com uma que calaria a boca da legião de Malafaias de hoje. Fiquei pensativa. Eu, com o meu gremismo entalado na garganta, não tive outra escolha senão admitir que o cara era de fato inspirador.
Eu realmente não saberia dizer com exatidão como um ídolo é criado ou como seu simbolismo ecoa no inconsciente coletivo de milhares de fanáticos puro coração. Há muitos fatores envolvidos nisso. Em se tratando do capitão, existe toda uma safra de títulos gloriosos e bons resultados dentro de campo - talvez muitos do que lamentam hoje sua partida tão precoce até se lembrem mais disso, em detrimento do lado mais político do jogador. Só sei que o futebol precisa de mais caras assim. De mais pessoas que questionem e que se recusem a serem meros fantoches que lamentam, ensaiados, ''que não deu pra trazer os três pontos, vamo ver o que o professor vai falar'' - cuspida pro lado. Pode soar elitista isso, mas que nada, é bem o contrário. O futebol pode ser, sim, um meio de transgredir e de ser ferramenta política. De azucrinar a acomodação alheia.
Sabe, tenho acompanhado pouco de futebol hoje em dia, já fui bem mais fã. Li algumas coisas aí, fiquei encucada e vi como o meio pode ser mesquinho, perverso e alienante. Sigo gostando de mata-matas que terminam em pênaltis, no entanto. Não nego que ele, o futebol, por toda sua simbologia, mexe com uma parte muito sensível de nós - e que nos deixa abobalhados como uma criança de cinco anos num parque de diversões. Todavia, contudo, entretanto, isso eu também acho em outros esportes, esporte, esse lindo. Só eu sei o que eu sinto quando vejo a bandeira do meu país tremulando no pódio de uma olimpíada. Só a gente sabe. Só os noruegueses sabem a dor e a delícia de serem o que são. Só os senegaleses sabem a dor e a delícia idem. Enfim, o esporte é para todos. Só sei que no futebol, deveria haver mais Fernandões. Deveria haver, além de gols, mais palavras para deixar o rabinho do orgulho do torcedor rival no meio das pernas, fazendo-o engolir umas verdades. 





  

quinta-feira, 21 de maio de 2015

MERITOCRACIA MY ASS

Ando pensativa sobre meritocracia, merecimento, no pain no gain, fika grande porra, cresce caralhNÃO PERA ME PERDI

Voltemos. Eu ando meio incomodada com algumas coisas que vejo por aí - no Facebook, claro, principalmente, porque é ali que a vida acontece - e isso tem me martelado na cabeça. Assim, a gente sabe que merece as coisas, né, poxa, todo mundo merece ser feliz, blá, blá, o sol nasce para todo mundo, ok. Só acho muito curioso que os outros outorguem merecimento a nós. Sério mesmo? A sensação que me dá é que há uma linha divisória entre os que merecem ser felizes e os que não merecem - tudo porque alguns conquistaram um diploma, por exemplo. Ok, um diploma é muito válido, mas convenhamos, muitos de nós que temos um não fizemos mais nada que nossa obrigação, isto é, honramos a caminhada de ter recebido tudo de mão beijada sempre. A ordem natural era essa, não tivemos que sair muito da zona de conforto de termos nos desenvolvido sem grandes traumas. Quer que desenhe? Nunca passamos fome, tivemos teto e cobertas quentinhas, tivemos bons genitores dedicados ao nosso redor, estudamos em escolas razoavelmente bacanas, brincamos saudavelmente..... aquele arroz com feijão básico, mas que muitos por aí não têm ideia do que seja. Eu, por exemplo - só pra vocês não saírem falando que eu aponto o dedo pra vidas que desconheço - tive, tirando algumas chatices comuns no percalço, um desenvolvimento muito sadio e uma vida muito da mansa até hoje em dia. Não falo isso de maneira esnobe, por favor, mas só a fim de ilustrar o ponto onde quero chegar. Muito do meu círculo social e das amigas com quem me relaciono idem. Logo, eu pergunto: qual o meu mérito em ter um diploma, ser uma pessoa decente, essas coisas? Eu não fiz nada mais que o esperado. Parabéns pra mim, valeu, mas ahh não vem comentar em foto minha que ''eu mereço muito'', ''eu sou uma vencedora''. Caro meritocrata, vai tomar no cu.
Dia desses, eu e umas amigas comentávamos sobre um menino que estudou com nós e era conhecido por ser um boçalzinho. Conhecido por nós, claro - já ele, se achava um rei e um rei muito amado, como não. E pior que no perímetro sádico do colégio - aliás, tal colégio era privado, guardem as pistas - ele era realmente. Hoje em dia, ele está bem colocado, é um figurão, um vencedor na vida, isto é, na linguagem dos yuppies de plantão do Patrick Bateman. Mas nós, que convivemos com aquela joia, sabemos bem o cuzão com quem estudamos. Um cuzão inofensivo, claro, pagador de seus impostos e cidadão de bem, mas que atualmente bate panelinha e vai pra rua. Um protótipo nato daqueles bichinhos que são criados em escala industrial nas escolas particulares deste Brasilzão. Mas, sabe, não me entenda mal, ele é merecedor de todo o sucesso de hoje. Eu realmente não acho que ele esteja onde está em virtude de um possível prestígio paterno. Seu diploma ainda deve guardar o suor seco dos dias de sacrifício que possivelmente atravessou. Trata-se de um futuro digno para um rei que sempre foi. Impossível este texto não soar rancoroso e - dada a miopia interpretativa dos que às vezes me leem - invejoso. Eu vou ter que correr o risco, sabe? Meritocracia my ass.





domingo, 10 de maio de 2015

À minha ''baby galota''

Não vou resvalar no clichê de dizer que ''minha mãe é a melhor do mundo'', isso é uma falácia ridícula. Mas, sem dúvida, ela é a melhor que eu poderia ter neste mundo - muitas vezes sem ser digna de tal. Sou abençoada. Só que, segundo ela, eu faço por merecer tudo de maravilhoso que ela faz. "Eu amo meus filhinhos amados'' - ela diz, como que tentando justificar todas as renúncias que fez e faz por mim e meu irmão. E eu rio condescendentemente porque sei que filho também sabe ser bem cruel quando quer. E seguimos neste equilibrar de fraquezas e erros com um balaio de amor e cumplicidade. Porque, apesar das diferenças evidentes, somos cúmplices. E falamos com vozes de criancinha. E eu, passional que nasci, falo tudo que me vem à cabeça com cobertura de chocolate. E chego a enjoá-la de tanto açúcar. Eu enjoo todos, vocês sabem.
A gente não tem uma relação perfeita. A gente já brigou muito. Felizmente, esses tempos ficaram na adolescência, aquela demônia, e hoje em dia quase podemos brincar de perfeição. Atualmente, mais politizada e consciente do meu papel, eu tolero mais, eu converso mais, eu escuto mais a minha amada. Eu trato de fazer valer todo o amor com que fui recebida naquele domingo de 1989 - ensolarado e lindo, como ouvi dizer. Eu trato de ensolarar os dias dela com piadinhas bobas e camas arrumadas, que este capricórnio é uma coisinha irritantemente organizada e avessa a bagunças. Para ela, também não deve ser fácil conviver com um leãozinho imaginativo, preguiçoso - que quer brilhar sem trabalhar muito -  e que tem tendência suicida de brincar com a paciência e os horários alheios. Aliás, tem isso: mamãe é insuportavelmente pontual. ''Tu tem que viver com mais aventura, mãe!'' - eu digo. E a gente cai na risada, porque sabemos que nenhuma de nós vai mudar. Mas a gente se ama. Muito. Demais. Incondicionalmente. E se ajuda, se fortalece, principalmente, porque somos mulheres e entendemos como é ser e vivenciar toda a construção social que deriva disso. Eu empodero minha mãe todos os dias. Mais que tratá-la como uma divindade - que embora eu suspeite que ela é, tamanha dedicação -, eu aprendi a enaltecê-la como sujeito de sua história. Eu escondo aquelas revistas femininas que ela compra, digo que ela é linda e não precisa delas. Ela me xinga e diz para eu parar de ser chata. Eu digo que minha chatice é crônica e necessária, e ensaio um papo cabeça. Ela ouve e arremata: como tu fala bonito, Bruninha! O que seria da minha autoestima jornalística sem essa linda? O que seria de mim sem esse colo que parece me blindar, de maneira sobrenatural, de todo e qualquer mal? Eu seria algo, com certeza, mas possivelmente alguém vazio, alguém opaco e sem vida.
Eu simplesmente amo como ela sabe ser prática e eficiente em tudo que faz, ao contrário de mim, que sou uma lesma e me distraio até com a brisa passando. E amo o fato de ela ter uma espécie de coringa para me consolar sempre que possível - os coringas mudam, mas geralmente atendem pelo nome de ''presente'', do latim agradaris filhes adultis mimadis. E pior que eu nem sinto vergonha. E se não é problema pra mim, não é pra mais ninguém.
Mamãe e eu adoramos ABBA, mas eu queria que dividíssemos mais bandas, aquelas barulheiras que eu escuto e vão ''me deixar surda''. Porém, em algo somos convictas: Crazy, cantada pelo Julio Iglesias, é uma coisinha muito desestabilizadora. Eu fico com os roquinhos e ela fica com as tentativas de me fazer tirar ''aquela merda dos ouvidos'', essa linda, que sabe bem a teimosia que carrego no sangue.
Minha mãe é um doce, um amor, um coração maravilhoso, é o meu coelhinho de estimação, minha terapeuta, minha paz, minha filhotinha, meu amor. Meu irmão e eu somos muito sortudos na vida por ter alguém tão iluminado ao nosso lado. Feliz dia, minha baby galota. Mesmo que seja um dia babaca e comercial e que a gente não precise dele para sentir o laço indescritível que nos une e.........

OK, PAREI.