quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Sobre chifres


- O desgraçado tá me traindo, Bruna!!! Não é possível!!!
- Calma, fulana, não te precipita, quais tuas fontes, indícios disso?

Repórter sempre reportando, né, acho hilária a falta de tato. 

- Tu acha que eu sou trouxa, Bruna? Eu sei bem, ainda mais depois daquela conversa em q...
- Achar, assim, até não acho, mas tu tem uma cariiiinha meio...
- OTÁRIA
- Só pra descontrair, miga, eu também sou trouxa, por isso nos damos tão bem. Trouxice é uma irmandade. 

Silêncio.


Penso que ninguém está imune ao chifre - esta instituição que atravessa os séculos - ainda mais hoje em dia, em tempos de redes sociais e microblogs, extensões de nossos corpos e mentes que interessam meio mundo. É como se a instantaneidade dessas relações modernas - em que praticamente nos fartamos neste buffet de sexos - potencializasse a lascívia que nos habita. Eu tenho pra mim que a gente ainda vai ser chifrado pra caralho. Claro, os alguéns que ainda querem relacionamentos monogâmicos. E, não, do fundo do coraçãozinho que vive neste tórax niilista, não estou sendo irônica - não dessa vez. Só acho que a configuração e a ambiência da modernidade e dos nossos anseios sexuais têm nos levado a isso, a esse caos de sentimentos e pernas. Que horror, cadê Chapolin nessas horas?
É claro que esse problema perpassa coisas como caráter, respeito, fidelidade, confiança, enfim, coisas que, mesmo que paguemos de blasé, ainda nos são muito caras. Quer dizer, imagino, logo, escrevo essas palavras com a sensação de quem mordeu aquele comprimido amargo da porra, ou seja, muito da atordoada. Mas, ainda assim, não vejo jeito de me imunizar quanto a essa farra de beijos. Primeiro, porque, dependendo do ângulo, até que é bom. Segundo, porque viver é quebrar a cara. Terceiro, porque o ser humano é babaca. Eu sou, você é, o carinha que tem namorada mas está lá marcando presença no Tinder idem (tu apareceu pra mim, viu, ciclano? um beijão pra família). 
Sabe, isso deve ter uma explicação mais profunda, essa coisa de querer mesmo já tendo, essa coisa de se enganar e dizer no espelho que gosta de quem está do lado, mas que nada, eu quero é o carinha do trabalho. Talvez uma explicação pouco lisonjeira e até meio animalesca, mas ainda assim válida. Talvez enquanto tivermos capital sexual (BOURDIEU, SEU MALDITO, COMO EU TE ODEIO E TE AMO, VEMK, SEU LINDO, VAMO PROBLEMATIZAR), isto nos cegue e nos deixe à margem de qualquer possibilidade de explicação. Talvez só sendo jovem para entender o que passa em nossas cabeças sedentas por sensações, e, como é de se perceber, um monte de gente já foi jovem um dia: a juventude é um vinho doce barato e sua ressaca, indecifrável. Um dia acharemos a resposta, mas, por enquanto, não ria do chifre alheio. Amanhã é você.



''Apesar de você, amanhã há de ter um novo chifre...''

É até poético.




Auxiliou no post:  

So far away - Dire Straits








domingo, 8 de novembro de 2015

Te amo não é bom dia (mas bem que deveria)

''Te amo não é bom dia'' - dizia a finada comunidade do Orkut nos idos dos anos 2000. E eu até comprava a ideia: acho que sair distribuindo te amos ser ter vivências que nos façam sentir isso é babaquice e mediocridade. Mas fazia ressalvas, claro, acho que nossos queridos, os queridos de sempre, merecem sempre ouvir um pouco mais. Eu falo eu te amo pra caralho. Em família, por exemplo, tenho fama de grudenta. Eu chego a ser insuportável. Poxa, mas eu amo. Do meu jeito meio torto, mas amo. Quero bem, morro por eles. Vivo para eles, mesmo que estejamos fadados a costurar os rasgos de nossas diferenças - e como somos diferentes. Pais, mães, avôs, irmãos, amigos, amigas, os queridos de longe e de perto, essas instituições eternas.... como não viver dizendo que os amamos? Ou como não viver dizendo que amamos nossos bichinhos? Como ver um bichano ronronando no colo e não querer abraçá-lo até o fim dos dias, proferindo te amos em uníssono com os eus que nos habitam? Nem que fujam de mim, nem que rezem por outra dona... coitados, estão condenados a serem amados por mim. Eu não sei viver sem dizer a cada ligação, a cada despedida em rodoviária, a cada saída de casa, a cada olhar no olho. Eu sufoco de amor mesmo.
Eu acho que a gente tem que falar. Falar até passar por carente, chato, pegajoso, não sei, mas economizar nas palavras me soa cruel. Dizer é um ato poderoso. Eu sei que cada um tem seu jeito, mas a brevidade das coisas e dos instantes me apavora e me faz crer que é sempre bom reforçar de novo e de novo e de novo. Como se isso fosse um escudo diante de todo mal e das lacunas. Bom seria...
É sempre muito catártico falar disso, porque pressupõe uma avaliação do que a gente anda fazendo e que prova esse amor todo. Vocês pensaram, né? "Amor é atitude, não palavras''. Eu sei, pessoal, eu sei, mas o fato é que a gente erra. A gente erra, muitas vezes, do fundo do coração, tentando acertar. Sabe aquela frase do pai do Otelo ''Só porque alguém não o ama do jeito que você quer que ame não significa que esse alguém não o ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam, mas simplesmente não sabem demostrar ou viver isso''? Pois é. Dói, mas liberta. 
Eu tenho meu jeito de amar. Amor, para alguém, pode ser postar uma foto linda dela com uma amiga no Facebook, cheia de declarações e mil curtidas a tiracolo. Já para outra, pode ser chegar de surpresa na casa dela e levá-la para beber cerveja no bar da esquina. Quem mede o amor da gente? Eu gosto de amar fazendo os outros rirem e sendo uma panaca agradável de passar as horas. Quem ousa julgar o meu amor como menor? A gente não pode medir o nosso amor segundo o amor (ou a falta de) dos outros. O amor não merece contabilizações, ele merece é emanar por aí e ser sentido, tocando os corações com a maior força possível. Pra mim, te amo é bom dia, sim. Eu falo e lambo os beiços. 







quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sobre a ferida que é o Natal, Norbert falando bulhufas e recalquite aguda - tudo com molho de Kraftwerk

WHATAHELL, IRMÃOZINHO!!!!

Vi, hoje, a primeira vitrine do perímetro que frequento com motivos natalinos e fui fuzilada por um misto de náusea com esperança - esperança tipo aquela que a gente tem quando assiste a um terror pateta, esperando que o mocinho corra pro lado certo, mas que nada, ele nunca corre. Aí fiquei, ali, contemplando aquele Papai Noel bonachão enquanto meu guarda-chuva insistia em ser um lixo e molhar a manga da minha jaqueta cinza. Nhéé, Natal... todo ano essa porcaria agora...

O Natal é como aquela ferida no céu da boca que sararia se a gente pudesse parar de passar a língua nela. Mas a gente não pode. 

É a ambiência da coisa que me dá nos nervos, essa coisa muito bizarra e intrínseca de que algo muito louco está acabando e outro algo muito louco está começando, e parece que eu sou a única aqui de pijama de ursinho, escutando Kraftwerk e tentanto decifrar Norbert Elias. Sim, só tentando porque os escritos deste moçoilo estão em aramaico. Falando nisso, coisa mais assustadora a estética dos meninos Kraftwerk, não? Brancos tal qual uma parede, usando as mesmas camisas e gravatinhas, como aliens yuppies vindos da Quinta Avenida... minha nossa, eu teria uma síncope se os visse ao vivo. Sabe, sempre tem alguém sendo mais amado que nós, essa é a sensação. Sempre tem alguém mais feliz. Sempre tem alguém mais gostoso, mais delicioso aos olhos alheios - os olhos, essas crianças pedindo doce sem parar. O gramado do outro é sempre mais verdinho. Mas ué, eu moro em apartamento.

Dia desses, falava com uma amiga sobre recalque:

- AIN, MIGA, MAS ASSIM, SERÁ QUE RECALQUE É ALGO SUBJETIVO?
- EU NÃO SEI... ÀS VEZES, PARECE QUE ISSO É SÓ ALGO QUE.....

Tipo, todo mundo acha que está sendo invejado, né? É uma injeção de ânimo maravilhosa, mas, sabe, bem menos. Ninguém lembra da nossa reles existência, cara, eis a verdade. Mas e o recalque, que tanto andou em voga por conta do Valeskão e dos funks cariocas, será que existe? Acho péssimo alimentar esse tipo de sentimento, mas né, humanos e babacas que somos, pode acontecer. É da vida, estamos à mercê de variadas sensações, não se pode controlar isso que fica à margem esperando uma brecha que seja para entrar. Tempos atrás, excluí um carinha da outra rede porque ele e vossa namorada passeavam na minha timeline com suas línguas sincronizadas e apaixonadíssimas (pareciam - e parecer é tudo, néam?). Eu ficava tentando digerir todo aquele amor deles e aquela minha dor de cotovelo desgraçadíssima, mas não dava, ia me subindo um ódio, uma gastura... eu ali agonizando de recalquite aguda... não teve jeito: excluí o príncipe do cavalo branco que eu não cavalgOPA QUE QUE É ISSO. Eu sou uma comédia de erros ótima.

Mas ainda bem que tem Natal e eu tô entendendo tudo que o Norbert escreveu. THE LÍ CIA


                                                     Taquipariu, que medo dessa gente.