sexta-feira, 31 de julho de 2015

Sobre John Lennon e uma estrada para lugar nenhum

Tenho quase 26 anos, e não sei o que quero da vida. Sim, eu tenho um diploma. Tenho saúde, pelo que dizem os últimos exames. No entanto, tenho sono. Um sono louco e arrebatador. Sono das pessoas. Dos últimos hits do rádio. Das comidas do Instagram. Das frases feitas com um questionável espírito motivacional. Nossa, essas me fazem bocejar. E salivar de ódio. Mas, veja bem, meu bem, eu tenho amor no coração. Eu sou amor da cabeça aos pés. E umas pílulas para ativar serotonina. Se você sabe o que quer da vida, esse texto não é para você. A propósito: pegue sua medalha de maior ser humano na saída. De nada, foi um agrado do meu eu John Lennon a você.
Os boletins do John diziam, na época, que ele era irrecuperável. John era um adolescente bizarro e sem nenhuma perspectiva. Porra, queria ser ele. E ter composto Strawberry Fields Forever. John não sabia para onde ia, mas entrou para a história. Quem sabe eu também consiga. Pensando sobre isso, me vem à cabeça aquela ideia de que deve haver nem que seja uma direção. Tudo bem não saber agora, mas tentar não ficar parado também é importante. Ele gostava de música e formou uma banda. Ok, vai lá, John. Eu sei que não quero marido nem filhos. Ok, Bruna, vai lá. Ou melhor, não vai. Fique longe desse projetinho de família tradicional que tanto lhe causa pânico: mantenha distância de chás de bebê chatíssimos e grupos de casais da igreja mais próxima. Será que eu sei mesmo o que quero? Eu queria fazer sentido - não para milicos, sabe, mas para mim mesma. Eu quero mais, bem mais do que isso que me venderam a vida inteira. Ou menos, vai saber. Menos é mais, dizem.
É claro que rolam objetivos aqui. Estão meio empoeirados na estante, mas seguem lá. Perdoem-me pela comparação escrota, mas a meta precisa existir - nem que a tal seja matar um cantor que cantava pela paz na frente do edifício onde ele morava, fazendo gurias instáveis emocionalmente chorarem de tristeza ao lembrarem disso, em uma noite de tensão pré-menstrual, quase 35 anos depois do ocorrido. Mina louca essa, quem será? A meta tem que existir - só não matem pessoas, muito menos rockstars, se possível. A minha meta está bem encaminhada. Mas eu quero mais. Eu quero arte, conversar com pessoas interessantes, caras com cara de príncipe caído cheirando a whisky. Ou uma metáfora disso. Eu quero metáforas. Quero rock. Quero morrer de dançar. Quero tomar todas. Quero um conto. Quero contar com alguém que me inspire e me faça vender livros. Mas eu não quero só vender. Quero que as vendas caiam. E meu sutiã também. Quero uma estrada que dê para algum lugar, mas que isso não seja só um lugar.


                                                             Você está louca, querida.





Auxiliou no post: 

Road to nowhere - Talking Heads            








terça-feira, 21 de julho de 2015

O casal que não disse obrigado

Eu sou um tipinho atormentado. Artístico incompreendido. Azedo crônico. Faço piadinhas imbecis e comentários inapropriados. Sou medalha de ouro em deixar as pessoas mudas espumando de ódio em virtude de alguma frase atravessada. Aquela coisa das papas na língua, sabe... é, realmente não tenho. Como diria a Modinha para Gabriela: eu nasci assim, eu cresci assim, eu sou mesmo assim, vou ser sempre assim. Ponto. Mas, indo na contramão disso tudo que escrevi, devo confessar que realmente não me considero uma pessoa mal educada, uma pessoa difícil de conviver em sociedade. Eu sou um doce, meus amigos, por mais contaditório que possa parecer. Eu prezo muito por gentileza no momento em que ponho os pés para fora de casa. Nossa, eu não abro mão! Ninguém tem culpa das misérias que enfrentamos, penso eu. Tá, alguém, às vezes, tem, ok. Mas o caixa do mercado, o atendente da loja, a moça que faz a higienização urbana... poxa, eles não têm nada a ver, nunca serei deliberadamente estúpida com quem nunca olhou na minha cara.
Tá, blá, blá, depois dessa introdução chatíssima e egocêntrica, vamos aos fatos. Há uns dias, fui viajar a fim de resolver pendências. Como sempre, na rodoviária, me ofereceram um assento que já estava ocupado no momento em que entrei no ônibus - e bem no fundo do veículo, lugar sempre intragável de viajar por inúmeras razões (eu costumo ficar tonta, por exemplo). Ok, beleza, vida que segue. Após alguns segundos, um casalzinho chegou perto de onde eu me acomodara e chamou minha atenção: pelo que entendi, era um desafio se desgrudarem e viajarem em poltronas distantes. Até procurei notar se eram gêmeos xifópagos, mas ao que tudo indica cada um tinha o seu corpo. Confesso que tal drama começou a me enervar, logo, sugeri que ficassem com meu lugar, enquanto eu sentava em outro já previamente ocupado. Ok, não foi nada demais, mas o fato é que eu não ouvi um obrigado sequer. Ficamos, a moça que também se disponibilizou a fazer a troca e eu, ali, meio embasbacadas com a total falta de tato dos jovens namorados. Quem sabe fossem mudos, cada um com seus problemas. Mas aquilo ficou me martelando a vida. Até pensei: esse desaforo rende uma crônica. Realmente, é sacrifício demais abrir a boca para agradecer por algo. Pedir por favor, dizer com licença, por gentileza, obrigada, essas coisas supérfluas. O mundo é selva, gentileza é para os fracos, os que ainda não entenderam que o sistema é bruto. Caro leitor, cara leitora, reitero:

EU SIMPLESMENTE NÃO TINHA OBRIGAÇÃO NENHUMA DE CEDER LUGAR OU DE ENCHER O SACO DA OUTRA MOÇA ATRÁS DE MIM, A FIM DE QUE OS POMBINHOS PEGASSEM O PRIMEIRO AVIÃO COM DESTINO À FELICIDADE.

O meu conforto estava garantido. Mas as joias sequer me mandaram à merda. Talvez um ''vai à merda'' já tivesse mudado meu dia. Ou quem sabe, dada a apatia e o espírito de servidão, um ''não fez mais que tua obrigação, querida''. Ao menos, eu teria dado risada, visto que seriam humoristas profissionais.
Eu fiquei pensando. Sim, porque eu sempre penso. Tem muita gente incrível e gentil no mundo, mas também tem muito cuzão mal educado, né? Que lástima. Realmente, talvez as palavras não sejam transformadoras no momento em que são ditas. Mas não dizê-las pode ser incrivelmente mais desastroso. Quem não gosta de ser tratado com gentileza? Com um sorriso, um gracejo? Vai saber se aquele ''muito obrigada, moça'' não vai salvar um dia, uma alma carente de calor humano? A gente não sabe, a vida e as conexões são um mistério. E eu sou uma trouxa, sabemos, mas uma trouxa que sempre deixa o interlocutor mudo, então estamos conversados. Gentileza gera gentileza, casal, aprendam isso. Se forem fazer tatuagens, tatuem isso no antebraço, que ao menos não vai rolar laser corretivo depois.





quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sobre o dia piadista do falo

Dia do homem, que lindeza. Só parem! Tá feio, tá escroto, tá bizarro. É pouco politizado e inteligente. Vocês podem mais que isso, galera. Eu começo esse texto cheia de reservas, porque, né, ''ai grande coisa comemorar o dia do homem, é só um agradinho pra estes lindos que nos rodeiam, deixa de ser encrenqueira, Bruna'' - sei que é um pensamento recorrente. Ou se não o clássico da geração falsinha e raivosa da internet ''mais amor, por favor'' - como se para espalhar amor, fosse preciso emburrecer e consumir idiotice do senso comum. Amor uma ova, vamos pensar sobre as coisas?
Eu tenho dois homens maravilhosos na minha vida, além de inúmeros amigos, é bom que se diga. Meu irmão e meu pai são dois alentos para mim, não vivo sem, amo de paixão. Só que existe uma diferença oceânica entre dizer isso e sair propagando em alto e bom som que homem merece um dia para ele também, oras, afinal, a mulher tem o dela em março. É uma bobeira retomar isso, mas, sinceramente, vocês sabem o porquê do dia 8? Têm ideia de quanto sangue escorreu para que este dia simbólico e que não tem nada a ver com promoções de depilação e flores existisse no inconsciente coletivo? Penso que até nem era objetivo das operárias de Nova York que morreram no incêndio, essa coisa de entrar para a história e receber de brinde um dia nojento pontuado por ''homenagens'' sexistas e mensagens cafonas, mas ok, assim foi e assim é em todo ano. Só aí já eliminamos a falácia do dia do homem, ele, o homem, que sempre teve tudo. Sempre pôde tudo.
Talvez vocês pensem que eu levo o feminismo muito a sério. Mas, sinceramente, seria no mínimo covarde da minha parte virar as costas a uma geração de mulheres que tomou as ruas, comprometeu uma vida mansa e confortável, a fim de que nós - vocês também, lindas! - pudéssemos fazer o que bem quisermos da própria vida. Isso parece tão longe, que você precisa adentrar uma fazenda de café para visualizar? Olhe para os lados, vejam bem como ainda há diferenças sutis de tratamento entre os gêneros. Olhe como você ainda não pode colocar uma saia curta, usar um batom de cor mais forte, sair sozinha de uma festa, se dar o luxo de não lavar a louça, porque, ops, quem é a menina da casa? Eu nunca vou me voltar contra essas mulheres que lutaram por mim e lutam diariamente para desconstruir paradigmas mesquinhos em que ainda sigo envolta.
No mais, xinguem, escarneçam da minha boa vontade, fiquem à vontade para seguir entupindo minhas timelines de asneira e piadas bobas sobre churrasco, mulher e cerveja alusivas ao dia falocêntrico. Se possível, esfreguem na minha cara alguma tirada daquela página-mor dos imbecis, a Orgulho de Ser Hétero, porque, afinal, vocês podem, a internet é pura democracia e conceito equivocado. Por ora, dei meu recado. E sei que não tô sozinha.




 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Marisa Monte, miga, volta aqui

Quem me lê há tempos (ninguém), sabe que sou fã da Marisa Monte. Musa suprema, amo, adoro, suas letras são bálsamo para meus ouvidinhos. Óquei. Íntima que me considero, já corrompi uma de suas letras neste espaço zombeteiro. Porque eu posso. Eu e Marisa é amizade daquelas de só se olhar e entender. Beleza.
Aí, aconteceu que, esta noite, eu sonhei com a miga previamente citada. Branca que é uma parede. Os cabelos milimetricamente cacheados e sutilmente presos. Arredia, como ouvi dizer e o inconsciente popular aprendeu a vê-la. A mãe do Mano Wladimir estava, vejam só, no mesmo ponto de ônibus em que Bruninha contava seus níqueis. E cheia de sacolas, gente como a gente.

- Fulana, olha ali, eu não creio, é a Marisa.............
- Que, Bruna? Cuma?
- Ali, fulana... olha ali, porra, é a Marisa Monte!!!!!!

MARISA, COMASSIM, CÊ TÁ FUGINDO, MARISA, EU NÃO MORDO, SÓ QUERO TROCAR UMA IDEIAAAAAAAAAAAA
VOLTA AQUI, MARISAAAAAAAAAAAAAAAAA

Fugiu. Evaporou por entre as catracas imaginárias do meu sonho. Nem um oi, muito menos autógrafo, letra coreografada, consegui. Vai lá, Marisa, vai lá que o boletim do Wladizinho já saiu. O mais bizarro do sonho - como se sonho já não fosse uma enxurrada de nonsense - é que a pessoa que estava comigo não sabia quem ela era. E eu comecei a cantar músicas da Mari como se não houvesse amanhã e pessoas que não gostam de músicas da Mari por perto. Aí eu entoei Na Estrada (favorita de uma vida inteira), Gentileza, O Que Me Importa (até o pianinho do final arranhei). Em Bem Que Se Quis eu desisti, não tinha jeito de saber de quem eu falava. Silêncio. Se bem que a miga estava pálida demais. Terá sido alguma arte do Wlad? Ou de Heleninha? Ou medo de mim?


EXPLICA ESSA, FREUD, NÃO GUENTO MAIS MEUS SONHOS



                                                                      - SAI, LOKA





*Troco o entendimento dos sonhos pela volta dos Tribalistas, se possível. 






quinta-feira, 2 de julho de 2015

Amadeus e eu

Eu vivo no mundo da lua. Ok, todo mundo vive, eu não sou uma exceção, mas como o blog é meu, vamos ser enfáticos no meu umbigo aqui. Eu tô sempre viajando na história, vejam vocês. Viajando por culturas diferentes da minha, por países que não o meu, por músicas e ritmos que só conheço de curiosa mesmo - já que sou uma musicista frustrada. Peguemos a música clássica, por exemplo. Hoje, acordei com uma vontade doente de escutar uma sinfonia específica de Amadeus e seu cabelo ridículo (a propósito, a estética capilar do século XVIII sempre será uma incógnita para esta plebeia que vos fala), Amadeus este, aliás, cuja biografia contada no ótimo filme homônimo, de 1984, me deixou fora da casinha - assisti dia desses, e, olha...  'Ai, Bruna, para de pagar de cult aí, tu nem ouve isso.''
Antes fosse comichão pseudocult, menino, antes fosse. Eu sou tarada por sinfonias, de verdadinha mesmo, e desde muito nova. Me olha bem nos olhos aqui e diz que consegue ficar indiferente a um pianinho do Chopin ou àquela coisa bonita que toca no balé O Lago dos Cisnes. Consegue????????????? KD TEU CORAÇÃO????????????

Sou uma leiga completa nisso, ainda que já tenha buscado entender suas escolas e os contextos históricos em que estes insanos produziram suas relíquias (felizmente, inclusive, tenho uma amiga que estuda a área e me manda achados maravilhosos!). Mas, sabe, em meio a minha tentativa de deliberação intelectual forçada, deixo só uma singela observação: eu ouço porque me toca sei lá que raios dentro do cérebro, dentro da alma. Eu ouço porque me tira do prumo. Eu ouço porque aguça minha criatividade, duvidosa criatividade. Ouço porque dói. 



Eis aqui, absurda de tão linda: