quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Os 40 anos de Taxi Driver

Coube a um Robert De Niro com um frescor insuspeito de juventude - e recém saído de um Oscar de melhor ator coadjuvante por O Poderoso Chefão: Parte II (1974) - o personagem-título do filme que colocou Martin Scorsese no rol de monstros sagrados de Hollywood. Estava eu, aqui, viajando na maionese, quando me veio a revelação de que essa relíquia completou 40 primaverinhas. Vai ter que ter resenha!
Iniciei o texto falando especialmente do De Niro, porque, de fato, acho sua interpretação primordial para a crueza da porra toda. Reconheçamos o óbvio: o cara está insano. E se você não refez aquela cena dele no espelho falando sozinho com o seu ridículo, não podemos ser amigos. Mas vamos aos fatos. Do que trata Taxi Driver? Travis, Travis Bickle, é um ex-fuzileiro naval (a propósito, isso é o que ele diz) de 26 anos, que sofre de depressão e insônia numa Nova York entregue a problemas comuns a qualquer grande metrópole - caos, solidão, violência, prostituição, corrupção, políticos demagogos, etc. Já que não consegue dormir, ele começa a trabalhar como taxista, percorrendo as ruas da grande maçã e absorvendo toda a realidade latente da cidade e seus tipos arruinados. Percebam, é quase um O Cortiço revisitado em quatro rodas.
Entre um passageiro e outro, ele se depara com duas mulheres que vão mudar sua percepção das coisas. A primeira, por quem se encanta à primeira vista, é Betsy (Cybill Shepherd), que trabalha com a promoção de campanha de um senador que ambiciona a presidência do país. Já a outra, vivida por uma Jodie Foster menina - com apenas 13 aninhos à época - é Iris, que ganha a vida se prostituindo e entra no táxi do anti-herói ao fugir de seu cafetão em uma noite qualquer. Gosto muito da total contradição do nosso protagonista ao se mostrar, ora um atormentado sensível às degradações humanas, tentando inclusive ''salvar'' a mocinha da situação de abuso, ora um completo lunático - por vezes preconceituoso - que leva a moça de seus sonhos para assistir a um filme pornô em um projeto de encontro amoroso. Sim, não tem graça nenhuma, mas eu caio da cadeira rindo disso. É genial, tem todo um quê concebido para mostrar que eles não se entendem. Travis é ingênuo e diz não saber nada sobre música ou política, no entanto discorre sobre filosofias mundanas da melhor qualidade numa mesa de bar. No mínimo, curioso.
Ainda que a história tenha uns coadjuvantes ótimos com rosto e identidade, penso ser o inconsciente do taxista o melhor deles. Merecem atenção especial os diálogos solitários dele escrevendo num rascunho de diário, e também ao volante respirando a atmosfera que acabou por deixá-lo mais doente do que era. Tudo isso, casado a umas expressões faciais de gênio, a uma trilhazinha sonora sorrateira, e a um final surrealíssimo, faz a coisa do Scorsese ser bem fascinante. Não é impunemente que figura sempre entre os melhores nas listas de queridinhos do cinema.    







Auxiliou no post: 

Trans europe express - Kraftwerk 







sexta-feira, 9 de setembro de 2016

I WAS BORN TO LOVE YOU

A voz estaria completando setentinha nesta semana, mais precisamente dia 5 último. Aí eu, que até já debutei na idolatria, entrei numa espiral de Freddie Mercury e até agora não saí. Cataaaaaaaaarse!
Mas quem era o moço, afinal? Segundo biógrafos oficiais - eu -, ele era essa coisa curiosa, dançante, criativa, introspectiva, teatral, demônia, genial, demasiado humana, magnífica, adepta de all stars e regatinhas, cretina, purpurinada, dentuça, gatólatra, estranhamente tímida e engraçadinha dando entrevistas, um amor difícil de esquecer, por supuesto. Foi muito louco, tocava Bohemian Rhapsody numa rádio qualquer, e me lembro de algo ter mudado dentro de mim. CARACA, O QUE É ISSO? Em 2001, nós, projetinhos de adolescentes, falávamos caraca. Era caraca pra tudo, mano. Imagina um pingo de gente metido a glam rocker falando ''caraca''. Era ridículo.
Bom, como boa filha de pais avessos a enlatados, nem um LP da vida consegui nas estantes de casa. Atordoada e sem internet ainda, o jeito foi fazer uma varredura. Foi aí que descobri ser uma digna investigadora - talvez ali tenha nascido o ímpeto da apuração que viria a consumir todas as artérias de meu ser nos anos seguintes. E me transformar nessa stalker graduada com honras na faculdade Que Tempos Loucos São Esses Institute.
Em 1985, um pouco antes do fabuloso A Kind of Magic - último trabalho com turnê do Queen -, o Mercury enveredou numa satisfatória carreira solo com o lançamento de Mr. Bad Guy - uma pequena preciosidade com onze canções escritas pelo próprio. Em um universo paralelo por aí, eu faço duetos eletrizantes com ele nisso aqui:


                                     Por Deus, esse piano tem vida própria.


Sim, nós gritamos como se não houvesse amanhã também. E depois enchemos a cara.