terça-feira, 30 de agosto de 2016

O cachorro sem nome

- Que graça, qual o nome dele?
- Ele não tem nome... nem pensamos nisso. É peludinho, fofinho... sabe...?
- EHEHEHE LEGAL

Sério? Really? Ora não tem nome, que mundo é esse? É quase uma negação à identidade do cão. Não dar nome para um cachorro não é das piores coisas que se veem por aí, claro, mas que a vida perde em encantamento, ah perde. Não perde? Fala sério. Que me perdoem os pragmáticos, mas criatividade é fundamental. Eu me amarro.
Eu, por exemplo, sou mãe, cof cof, do Menelau, do Aquiles e do Ulisses. Vivo rodeada por três felinos gregos. Quem terá a ousadia de dizer que não sou uma desocupada espirituosíssima? Dia desses, revelei o nome do primeiro quando recebi a visita de uma prima, e ela, surpresa, só faltou rir na minha cara. O nome pode até ser feio, mas é de reizinho. Reizinho do meu coração.
A infinidade de possibilidades me faz divagar, e, divagando, não consigo não ficar prostrada quando me deparo com ''peludinhos'', ''fofinhos'', ''bolinhas'', ''pretinhas''. A vida é muito curta para não viajar um pouco e arrancar umas risadas. Batiza aquele ratão que mora no teu telhado de Jerry, batiza. É publicitário? Que tal uma dupla canina chamada Arte-final e Layout? Gosta de ditadores europeus? Que tal a tríade Hitler, Mussolini e Salazar? Credo, vou apagar isso. É amante dos velhos tempos hollywoodianos? Imagine uma gatinha Bette Davis? Meu Deus, ou caturritas afinadíssimas: Maria Callas e Montserrat Caballé!!! Há uns anos, tive, por breves momentos, uma cadelinha de nome Scarlett O'Hara. Diva era pouco. Minha avó, que nunca ouviu Beatles, tinha um rottweiler que atendia por Ringo Starr. E ele tocava bateria.


                                                     Foi mal, Callinhas.



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Let's dance to Joy Division - The Wombats








domingo, 28 de agosto de 2016

Check-in no Aeroporto Charles de Gaulle

Aconteceu há algumas horas. Quando vi, pulava de perfil em perfil, imersa em um mundo que não é o meu, mas é realidade de alguns poucos abastados desse Brasilzão varonil. Não é de hoje que sabemos que redes sociais são uma ilusão muito bem arquitetada para nos odiarmos - nós e nossas vidinhas prosaicas. Só que, às vezes, essa ficha cai como um soco na cara. Maldito Instagram.
Sou uma pessoa demasiado reflexiva - talvez isso vá na minha lápide, vamos torcer - e qualquer mínimo pensamento meu, não raro, desencadeia uma curto-circuito de impressões e revelações - aqui jaz um cérebro doente. Bom, a de hoje é sobre essa vida de faz de conta da confraria de imagens citada. Essa a que aderimos porque não queríamos ficar fora da onda, e, bem no fim, o aplicativo estava tão à mão na tela do celular... essa que alimentamos com fotos previamente produzidas e cheias de efeitos. Meu Deus, o que nos tornamos? Um bando de ostentadores. Ai... isso me parece tão, tão problemático que me corrói. Assim, não me entenda mal, ninguém quer ser visto numa pior - muito menos eu, humana que nasci - mas já era para termos evoluído quanto a esse pecado do exibicionismo (cá entre nós, essa busca é tão cristã e esperada, que Jesus deve estar às lágrimas lendo esse texto). Eu sei, eu sei, dá um prazer supremo, quase sexual, postar uma foto naquele camarote caríssimo - quem quer ser visto em casa no sábado à noite, afinal? Ou postar destinos ricos e barrigas chapadas com frases de efeito que fazem parecer tudo tão simples só porque algum afortunado com uma fé inabalável acreditou que era possível. Eu sei que é legal, é da horíssima. O porém que me arrasa é vivermos num país ainda tão miserável e subnutrido. Sim, esfregar essa felicidade plástica nas fuças alheias me soa cruel, desnecessário. Será que estou falando tanta abobrinha assim?
Não é o fato de as pessoas que jogam no Dream Team do Insta serem desprezíveis e ruins - na maioria das vezes, elas são incrivelmente bacanas e do bem: pagam seus impostos, dizem por favor e compartilham imagens espíritas. Elas são umas fofas, só estão perdidas. E estão deixando alguns olhos que as observam, à margem, doentes de ódio. Dá para sacar onde eu quero chegar, né? Pois é, os esfarrapados não costumam dialogar.
Tudo na nossa vida perpassa relações de consumo. Tudo. Repitam comigo: t u d o. Somos um catálogo ambulante de escolhas monetárias, sociais, de linguagem e o escambau. Estamos diariamente emanando uma mensagem ao mundo, e não sei se tem muito sentido pedir mais essência e menos aparência marcando a arrobinha da marca de bolsa que custa um salário mínimo. Beber chope no barzinho tal da Lapa, check-in no Aeroporto Charles de Gaulle, partiu Xangri-lá, sushizinho top com os melhores... e se lacrássemos mais no escuro do anonimato? Ou, quem sabe, em menores proporções - só uma vez por mês, digamos - para os outros não se sentirem tão lixo por estarem comendo um reles prato de arroz e feijão? Calma, menino Je, não precisa chorar.



                                           Charles de Gaulle is judging you








quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Eu poderia ser genitora dos seus filhos?

Sabe quando você conhece aquele cara? Sim... aquele. Aquele! Aquele nem é mais pronome sem eira nem beira nesse momento, aquele é tudo menos qualquer aquele. Aquele é pronome demonstrativo de que você se ferrou. Ah, é disso que eu tô falando, que saudade. Que curioso, o tempo congelou, as horas pararam. Como se nada tivesse feito sentido antes daquele encontro ridículo em que vocês se pegaram conversando sobre Beavis and Butt-Head e agridoces lembranças de infância - porque o fato é que ambos tiveram infâncias bizarríssimas nos anos 90. Então você também não conseguia dormir por conta das peripécias do chupa-cabra? Que vidinha patética deliciosa. Deita essa cabecinha cansada de tormentos adultos aqui no meu colo, vai.
E você tem certeza de que, na fatídica hora em que aquela dança de retinas agoniadas se desenrolava, tocava um rock muito nervosão. Com uma letra moralmente questionável, uma loucura. Meus delírios sempre têm muito a ver com música, muita música. Sim, eu lembro... era Stooges. Não, pera, era Dead Kennedys. Bauhaus, claro, Bauhaus!!!! Ele odeia roqueiros, que amor.
Você tenta ficar séria, blasé, a circunstância pede - nada de euforia sob luzes. Só que, velho, de um jeito muito sorrateiro, o sorriso dele meio que abocanha um pouco da sua vida e dos seus planos, foi tão rápido, eu tive que engolir a seco. O sorriso mais bonachão e com vestígios de clareamento tamanha a brancura cor de nuvem, você sente os molares dele mastigando todo o seu corpo e coração, hummm, parece gostoso. Algo muito estranho aconteceu: agora, para qualquer lugar que você olhe, aparecem réplicas da boca dele em 40 polegadas. Trata-se de singelas televisõezinhas imaginárias mancomunadas contra seu discernimento. Olha esse labirinto de telas de plasma me perseguindo, socorro.
Sabe quando acontece isso? Sabe quando aparece aquele cara? Por onde a gente andou tanto tempo sem se encontrar? Que absurdo, justo agora. E o pior de tudo é que você se pega pensando em e-mails educadíssimos do tipo:

- Olá, eu poderia ser genitora dos seus filhos?

Att, 

A Gerência

Cacete, eu nem quero ser mãe! Glup, foi enviado.


 



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Atmosphere - Joy Division








segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ouro

Enquanto eu me desmanchava em lágrimas ali, fiquei a pensar no tal do ouro. Porque nós, os chorões, choramos. Choramos porque chorar de alívio traz paz, limpa. Choramos porque chorar também é digno. Choramos porque trazemos o coração meio aos pulos sempre na garganta, agoniados por viver tudo, sentindo o caminhar das coisas dum jeito tão mais diferente, tão mais sensível a tudo. Choramos porque chorar de alegria é o melhor de dois mundos. E aquele sal que cai não faz mal.
A medalha também é minha, é muito minha. É também de todo mundo que se doou, que viu, que vibrou, que torceu, que emanou a mais ínfima energia - vá saber, isso pode ser transformador. Essa medalha é muito minha. É minha porque eu amo esse país. Porque a gente se conhece, se sente, se tolera, se ama e se odeia. É minha porque eu o defendo, brigo por ele. É minha porque conheço sua história toda, sei de suas dores, sei de suas vergonhas e suas glórias. É minha porque quando a gente se olha, simplesmente ri e sabe o que se passa - velhos amigos, velhos cúmplices. É minha porque ser brasileiro é um mistério e uma delícia - e também o pior dos castigos. É minha, porque essa relação não conhece sutilezas, é tudo vivido a cem por hora, do inferno ao paraíso sem escalas.
Pensar nos ouros que vieram, vêm e virão também me faz pensar nos ouros particulares de quem não leva vidas assim tão douradas, esses ouros que chegam a ser simplórios, risíveis e incompreendidos. Esses ouros que são perseguidos à exaustão e só quem os vive sabe a dimensão que carregam. Ouros de tolo, mas quem quer ser esperto a essas alturas? Superar os próprios fantasmas também pode ser uma final. Ah... é sempre final, tudo ou nada. Eu gosto disso. Eu me machuco, mas, se sigo viva, é por algum motivo.
Pensar no ouro me faz querer ganhar. Ganhar é bom e talvez ser viciado nesse êxtase não seja tão ruim assim - de ambição em ambição, vamos fazendo a vida ter sentido. Ganhar é bom. Eu quero ganhar, quero perseguir meus ouros - esses que ninguém faz ideia do que sejam, mas que me fazem sorrir igual a uma criança no final de cada dia. Sem plateia, sem holofote, sem torcida, mas tão valiosos que não há quem diga que não sejam medalhas. Sonhos dourados também se realizam longe de quadras.






segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Para que serve uma Olimpíada?

Sim, eu gosto dela, da Olimpíada. Eu amo, eu entro em parafuso, choro, me descabelo. Lá se vão 20 anos acompanhando. Em Atlanta, 1996, nos primeiros jogos de que tenho recordações, lembro o arremate nos cadernos de esporte das leituras entusiasmadas do primeiro ano escolar. Na manchete do jornal: Gustavo Borges, a lenda das piscinas. E eu sentadinha no chão do escritório de casa - os olhinhos admirados, curiosos, com um horizonte todo pela frente. Acho incrível como essa lembrança segue viva na minha cabeça. Nostalgia boa.  
Eu gosto de esporte desde que me conheço por gente (e não, eu não falei em futebol, seu fanático, mas de qualquer um). Felizmente, sempre tive facilidade em aprendê-los, logo, não houve uma competição em que eu não tenha me metido nos fatídicos anos escolares. Os coletivos sempre foram minha menina-dos-olhos, e o fato é que todo fracasso-social-nem-um-pouco-transante da pior época de nossas vidas acabou sendo transmutado em medalhas. Medalhinhas de latão, material da pior qualidade e das melhores lembranças de adrenalina - aquela que ensina a viver e a lutar, não desistir. Eu desisti algumas vezes, quando os times adversários eram infinitamente superiores, mas também senti o incrível gosto de vencer tantas outras mais. Certa vez, no auge da minha adolescência, vi minha compleição física mediana sucumbir à força alheia e chorei - o deboche conhecido das competições emergindo, pernicioso, na torcida. Calei algumas bocas, fui ameaçada (quem nunca foi jurado de morte em um jogo entre colégios, que atire a primeira pedra), mas no fim daquele dia os roxos das pernas me venceram. Paciência, não se pode ganhar todas, ''só me aguardem no próximo jogo''. E o jogo seguinte sempre chegava, e a Bruna velha de guerra e dos joelhos ralados contava um novo capítulo de sua história anônima, nem que fosse para si mesma.
Então, em época de jogos olímpicos, fico especialmente comovida e à flor da pele, pois os simbolismos são muitos. Toda essa coisa de defender uma bandeira, ainda que poucos conheçam sua cara, sua luta e suas renúncias, me faz pensar em muitas coisas. E inevitavelmente me emociona, choro rios de hinos nacionais. Me entrego de verdade. Seguidamente, me questiono: para que raios serve uma olimpíada, além do ônus econômico que muitos insistem em bradar insistentemente? Talvez ela sirva para fazer seu dia mais feliz, por mais ridículo que pareça. Talvez ela salve um momento, mude uma perspectiva. Talvez aquele atleta que não desistiu seja você amanhã. E talvez aquela final olímpica de vôlei masculino, em 2004, tenha feito aquele ano horrível ser um pouco melhor de atravessar. Fez muito. De coração, obrigada.


   
                                      Te cuida, Michael Phelps! (ok, péssima)
                                            


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Runaways - The Killers









segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Polarização política, sanduíches de mortadela e quiz cristão

A polarização da política brasileira chegou a níveis bizarros, credo. Ao mesmo tempo em que afirmo e reitero sempre que posso que todos, bem no fundinho, têm lado, logo, ficar em cima do muro é doce ilusão, caio em contradição e vejo quão burro é esse afastamento ''ideológico'' - não que ele não precise existir, mas no momento em que sobra mais ódio que debate saudável, é preciso rever certas coisas. Posso estar equivocada, mas penso que a ''coisa'' ganhou mais força após as eleições nacionais de 2014, não? De um lado, um pessoal sedento por mudança de legenda, com indignações diversas (que considero legítimas) e apoiado, mesmo que não queira admitir, por setores conservadores da sociedade. De outro, os miseráveis, os comedores de pão com mortadela (falando nisso, que delícia um sanduichão de mortadela, né, não?), a escória de ladrões e os perdidos tipo nós, que ficamos meio a contragosto ao lado de uma situação ridícula por não ter muito sentido apoiar uma oposição horrorosa. O conhecido ''rir para não chorar'', saca?
Só que aí, o que restou do pleito ganhou outros contornos, nos colocando num verdadeiro ringue de muito ódio, muita patrulha e etc. No âmbito da internet, por exemplo, em que, tempos atrás, era permitido dizer tudo e qualquer coisa sem pensar nas consequências, opa, opa, agora não, meu irmão. E aí eu pergunto: será que isso é tão ruim assim? Não poder mais ridicularizar negros e seus cabelos, homossexuais e suas práticas amorosas, mulheres e outros grupos historicamente marginalizados? Você, cristão frequentador de igrejas e que reza toda noite antes de dormir, acha isso uma censura horrorosa de opiniões ou algo que vai ao encontro do seu sonho de paraíso? - aquela coisa de todos convivendo em paz e respeitando as diferenças? O seu Jesus Cristo teria orgulho do ser humano perseguidor que você é ou tomaria as dores daqueles que você condena ainda que de brincadeirinha? Eu sei, eu sei, o mundo é muito ruim e há muita coisa que merece atenção, mas não tem como começar qualquer debate profundo se vocês insistem em dizer que lutas que desconhecem são bobagem ou vitimização. Bom, se vocês não querem entender, aí já não é problema meu. 
Então, quando um médico - profissão que carrega alto teor de elitismo por n questões - debocha de um paciente e seu modo de escrever em redes sociais para meio mundo ver, é doído, é cruel, a gente vai se revoltar muito mesmo. Pode ter sido uma comoção extremada? Pode. O caso teria a mesma repercussão dez anos atrás? Não sei, não sei mesmo, mas talvez não - a cultura muda através do tempo, e podemos estar vivendo ou uma nova era de vitimismo ou uma nova era de mais empatia e busca por humildade, além de visibilização de direitos: essa janela tem duas percepções. Não penso que é o caso de a pessoa em questão ser crucificada (não se preocupem, com a formação que tem, emprego é o que não vai faltar), pois podemos cair na mesma armadilha de ódio que repudiamos. Todavia, um ''puxão de orelha'' desses pode ecoar construtivamente na classe citada - que, convenhamos, sabe ser bem esnobezinha quando quer. Eu prefiro acreditar que estamos, sim, vivendo um novo tempo de mais respeito a quem sempre foi invisível. E se para vocês nunca foram invisíveis, é porque estavam enxergando bem mal. Ou enxergando só a parte da janela que convém, claro, é sintomático.