sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Orna Donath e o Regretting Motherhood

Lá vamos nós de novo. Acabei lendo uma entrevista de uma socióloga que afirma não existir o tal instinto materno. Polêmica à vista. Aí eu gosto, porque polemizar - dependendo do assunto - nem sempre é gastar energia de graça. Muitas vezes é simplesmente pensar fora da caixa. Que delícia, vocês deveriam experimentar. 
A israelense Orna Donath, em seu recém lançado livro Regretting Motherhood, entrevistou 23 mães que se arrependem de terem tido filhos. Chocados? Que nada, isso deve ser mais comum do que pensamos. E amor não tem nada a ver com a questão. Estou convicta de que se pode amar imensamente um ser, e ter ojeriza à relação e às circunstâncias tidas com esse ser. É claro que se perguntarmos a nossas mães se elas se arrependem da concepção, as coitadas vão desfiar um rosário dizendo que é uma indagação descabida, que fomos a melhor coisa que aconteceu na vida delas e blá blá - e longe de mim ser responsável por um congestionamento nas salas de espera dos terapeutas de vocês -, mas há de se pensar até que ponto nossas pessoinhas foram fontes exclusivas de felicidade. Sempre é complicado falar da experiência alheia, então falo por mim. Creio estar longe de ser uma filha-problema, mas tenho ciência das renúncias e barras que chegaram com o meu nascimento - e felizmente sou bem resolvida quanto a isso. Será tão horrível pensar nisso, adultos que somos? Não sinto que sou menos amada nem que minha vida vale menos por isso. Claro, talvez porque eu me enxergue, nesse aspecto, de maneira mais analítica, como um mero produto da sociedade (sim, eu enxergo todo mundo assim basicamente), mas creio que precisamos de um debate mais profundo sobre trazer vidas ao mundo, ainda mais quando o mundo não anda lá tão convidativo. De preferência, longe desse discurso opressivo de que nascimentos são bênçãos de Deus. Viva! Que traga muitas alegrias! Claro, até ter que estudar com o seu reizinho no colégio e ele precisar conviver com aquele desafortunado, filho de sei lá quem. 
No nosso top10 de hits, o ''ai mas quem vai cuidar de você na velhice'' segue imbatível. Que raio de pensamento utilitarista é esse? É só a isso então quer serve a tal empreitada? Seguido, claro, do clássico familiar ''mas fulana quer ser avó''. Que amor, fulana quer ser avó. Pois ela que adote uns netinhos de estimação, os abrigos estão cheios. Já pararam para pensar em quantas meninas estão tomadas por esse pensamento católico, quando não tem estruturas nem amparo para gestarem a tal ''bênção''? Será que elas realmente querem ser mães? Será que está sendo ensinado a elas que está tudo bem não quererem? Que elas não precisam bancar as heroínas, terem uma rotina exaustiva e não dormirem uma noite inteira para terem valor? Pode parecer um paralelo muito minucioso, mas quantas crianças vieram ao mundo sem sentido, e hoje engrossam o caldo da marginalidade, essa mesma marginalidade que vocês amaldiçoam nos portais de notícia? Com quantas ''bênçãos'' vocês, cidadãos de bem, estão tendo que conviver hoje em dia será? Que loucura, não? Essas bênçãos se tornarão adultas... e aí é o grande drama. Ser mãe não é essa Disney vendida aí nas propagandas do Boticário, meu povo. Vocês vão ganhar um cartão ridículo em maio, claro, mas talvez ele não supra o desgaste emocional. 








terça-feira, 11 de outubro de 2016

Dia mundial de amar o Cartola

Eu tinha tudo para dar certo na vida, mas conheci o Cartola com 15 anos. Juventude roubada é pouco.
Foi assim, eu fui ver Cazuza - O Tempo não Para no cinema sozinha (ênfase no ''sozinha'', porque amo ir sem ninguém mesmo), e naquela cena fatídica em que Roberto Frejat todo mauzão dá um chilique dizendo que o Barão toca rock, porra!!!! e começa aquela intro doída de "O mundo é um moinho", eu entendi um pouco da vida. Aí não teve jeito. O Agenor Cazuza deixou o Barão Vermelho, e eu deixei a sala, maravilhada, conhecendo uma pista do Angenor de Oliveira, ou se preferirem... Cartola. Aqui até cabe uma curiosidade: diz que o exagerado detestava se chamar assim, porém passou a gostar quando descobriu a coincidência com o icônico mangueirense - que teve a letra n adicionada ao nome devido a um erro de registro. Espero que eles tenham falado disso quando se encontraram.
Gosto muito de ambos, mas o sambista me comove, me deixa catatônica. É muita sabedoria para alguém que não teve nada por muito tempo na vida. Para alguém cujo talento ficou à sombra anos e anos. É uma doçura que não sei explicar. Será que nasce um assim toda hora? Acho difícil. Só posso agradecer por esta joia brasileira ter existido - e hoje embalar muito da minha existência, das minhas madrugadas, das minhas veias. Adeptos do sambinha tristeprometem manter sua obra viva aonde forem. Eu prometo, meu amado. Já que o mundo é mesmo um moinho e vai reduzir nossas ilusões a pó.




                                                             MONSTRO







 

sábado, 8 de outubro de 2016

As questões dos minions e da passagem do tempo

Um dos maiores medos da minha vida é começar a compartilhar Minions Irônicos ou Qualquer Personagem De Novela Indelicado na rede ao lado sem nenhum pudor. Imagina só, ir dormir sendo um ser humano normal e acordar no outro dia... glup, uma tiazona. Se eu começar a compartilhar videozinho de receita, aí é pulinho do 13º andar. Que terror. É claro que eu tenho medo de envelhecer. Rezo para envelhecer cabeça e bem, com o mínimo de sintomas possível. E sem minions, lógico, que moda desgraçada. Mas queria mesmo é fugir dessa obrigação de passar os anos. A juventude é tão boa. Inebriante. É ter uma folha de papel em branco no caderninho da vida (cristo, que cafona isso!). Dá para escrever qualquer coisa ali, tudo é permitido. Talvez por isso estejamos tão doentes e ansiosos: diante de todas as possibilidades do mundo, bugamos e congelamos nas próprias ambições. A juventude é um concerto de rock, uma madrugada insana na rua, no copo, desce mais uma dose que hoje eu vou me acabar! Coisa boa esse sentimento que não se pode nominar, só viver. E ele vai escorrendo pelas mãos, inútil tentar pará-lo. Piscou, passou.
Falava disso, há alguns dias, com não sei quem, mas algo ficou martelando. Tinha a ver com o recém encerrado pleito e em como há uma tendência para bundificarmos nossas existências. Claro, porque faz mais sentido sonhar em mudar o mundo com 20 e poucos. Aos 40, com pouca - ou nenhuma - mudança -, a tendência é endurecer e perceber o mundo com olhos mais cínicos e conformados. Será esse o meu futuro? Será que eu ainda vou ler essas bobagens que já escrevi e rolar de rir? Temos que fazer escolhas agora pensando no futuro? E se o futuro não chegar? O futuro já não é agora quando se vive? Ficaremos sozinhos? Os laços são eternos? Eternidade não é uma ilusão? As certezas se vão? Solidão é assim tão ruim? Tem algum jeito de existir para sempre? Qual o sentido da vida? Por que o fone sempre começa a falhar de um lado só? Precisava ter matado o Derek, sua demônia? São questões...
O que será que me aguarda? O que será que nos aguarda? Aquele futuro dos campeões, esperando pelo ponto de segunda, assistindo, com dor, ao domingo horroroso de sempre, torcendo por sol a fim de lavar as roupas no próximo sábado. E que ninguém nunca desconfie da metade ali pulsando. A metade que fez strip-tease na mesa do bar, foi uma piranha com p maiúsculo, pichou parede, invadiu camarins e morreu de tanto se drogar. Morreu jovem mas mais feliz que muita gente.


                          Você namoraria alguém que compartilha Minions Irônicos?




Vou lá cuidar do meu futuro promissor, dá licença.