segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sobre "Ratatouille"

           Já deveria ter escrito algo a respeito de Ratatouille e esse fascínio que causa em mim, mas só hoje levei o impulso adiante. Pois então, digo que ele é uma delícia, é uma lição de vida, é uma graça, é charmoso, é inteligente, é bem roteirizado, é mais que uma animação e muito mais que um filme "de bichinho" para distrair numa tarde chuvosa. Quando a ótima Isabela Boscov afirma que se trata de “uma odisséia com um rato”, não há exagero: há um fato irrefutável. Rémy e suas peraltices com os ingredientes são um soco filosófico na boca do estômago, seguido de recuperação lenta. Muito lenta.
           Não sei se vocês já viram, gostaram ou tiveram vontade de jogar o DVD no lixo, após os créditos aparecerem na TV. Só penso que, se houver ainda um pouquinho de sonho latejando em vossos corações, será impossível não se envolver com a saga do tal Rémy na busca de vencer na Paris dos grandes chefs. Tudo é tão bem arquitetado, que - como também diria a crítica de cinema – não se consegue achar estranho um rato dentro de uma cozinha. Bom, falo por mim: não achei estranho, achei lindo. Tive vontade de ninar aquele adorável roedor, proveniente do submundo do esgoto parisiense, e adotá-lo como meu amigo, meu filho, meu chef particular. Impossível não amar.
           Ainda que eu seja louca da vida por desenhos, confesso não gostar muito de filmes com essa temática. Porém, sempre há as exceções. E essa história despretensiosa e meio amalucada sobre um ratinho simpático que deseja cozinhar e ser feliz me fez sentir ternura profunda. Nem falemos da trilha sonora, que é igualmente uma delícia, assim como todo o encadeamento de ideias – um prato cheio para quem gosta da sempre aconchegante música francesa. Enfim, há uma química muito particular em toda a sequência e em seus núcleos paralelos, que contam com mistérios sobre paternidade, amor que nasce entre colegas de trabalho e um crítico gastronômico amargurado, cuja alegria parece ser infernizar a vida alheia. Emoções fortes, meus caros, só digo isso.
            O fato é que o filme ensina. É humano e extremamente feliz no seu propósito de mostrar como as coisas podem ser possíveis e em como perdemos tempo, achando que não vamos conseguir. Basta aparecer essa figurinha genial, meio vesga e cheia de si, bolando mil estratégias, a fim de realizar o desejo que move sua singela existência, para nos deixar com a cara no chão. Sem falar na espécie de admiração irresistível que ocorre pela trama e vontade de vencer a qualquer custo, tal qual o cozinheirinho fã de queijo, assim que o fim invade a tela. E pensar que eu, há três anos, ia devolver essa epopeia à locadora, sem assistir? Bendita hora em que eu extrapolei o prazo de devolução e fui obrigada a pagar mais uma diária.


        






terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sobre pensamentos e rosquinhas

       O cérebro, esse artista, faz gato e sapato de nós. Ok, ele pode. Se houvesse uma hierarquia no corpo humano, eu diria que ele é a última bolacha do pacote mesmo. Possui a racionalidade que falta ao coração e é a morada das grandes sacadas. É bem verdade que muita gente por aí anda negligenciando o coitado, se negando a utilizá-lo, mas, ainda assim, outorgo que ele é o fodão. Seu único problema é separar os pensamentos mais corrosivos para os momentos mais impróprios. Impossível fugir do susto. Pensou? Dançou, meu amigo. Digeriu? Vai ter úlcera, vai somatizar, sim. As lágrimas vão cair. O drama vai nascer tímido, mas, ainda assim, dono de si, invadindo seus ossos e seu semblante e convidando a uma deliciosa DR com você mesmo - ou, vá lá, seu alter ego.
       Você está lá, quietinho (a) na sua, varrendo seu quarto, ajeitando sua escrivaninha das escritas insones, quando, de repente, uma música tocando no rádio é o passaporte para um divã silencioso e leviano. Nesse instante, os acordes têm gosto, cheiro, sensações levemente ressuscitadas e o levam a lugares já deixados, onde as imagens encontram-se inertes, em preto e branco. Seu olhar escapa até a maçaneta da porta, meio perdido, buscando sair daquele inferninho, mas, adivinhem, já tomou conta. Pensou, dançou. É assim. Não adianta tentar trocar de estação ou fingir indiferença: você vai ruminar a respeito por semanas. Talvez meses. Ou anos, nunca se sabe até onde sua mente desgraçada pode ir. Boa viagem! Se conseguir voltar, traga umas rosquinhas da padaria - mas não antes de engolir esse choro, a propósito.
        E agora o que fazer? Os pensamentos comandam os instintos, que comandam as ações e não há nada animador com que presentear o mundo: olhos vagos e com pupilas questionadoras e ressabiadas. Sorriso forçado e coadjuvante. Fala pausada e meramente protocolar. Justo hoje que você precisava parecer a mais feliz das criaturas? Não é uma coisa grata, até parece pegadinha. O que fazer com o turbilhão de emoções que insiste em sair de casa? Como reagir diante desse emaranhado de impressões cheirando à pólvora? Esqueça de esquecer, não vai passar tão fácil. Siga no piloto automático, agonizando sozinho, sem companhia, até se sentir adulto novamente. Ou melhor, tente ignorar o fel escorrendo no canto da boca e apreciar as rosquinhas. Açúcar sempre é uma boa pedida.
 

domingo, 16 de outubro de 2011

Focas

         Sempre quis escrever a respeito de estudantes de jornalismo e seus variados perfis. Na maior cara de pau leiga que eu tenho, considero isso um achado da análise comportamental. Sejamos francos: ainda que se busquem profissionais-dínamos-com-super-poderes-e-que-amem-todas-as-mídias, não há como abraçar tudo, não acham? Eu acho.
         Se não fui xingada até agora, creio que vamos inaugurar os trabalhos com esse post. É bem verdade que, hoje em dia, com toda essa selva louca e coleguinhas muy amigos e prontos para puxar nosso tapete, devemos nos blindar e tentar aprender o máximo que pudermos, enquanto meras testemunhas do mágico mundo acadêmico - aqui entram leituras, reflexões e, óbvio, a prática. Sei que o conhecimento jornalístico em todos os âmbitos é o básico para quem almeja sucesso profissional na área, mas, ainda assim, terei que discordar de quem enche a boca para dizer que ve-ne-ra tudo que é inerente a essa confraria de doidos. Se você topar com alguém assim, no mínimo, trata-se de um lunático. Sério.
         Não há como enganar quem está ao redor. No fundo dos olhos de cada projetinho de repórter, é possível notar se "sicrano quer só aparecer na TV", "não entende patavina de texto" ou "é mais alienado que uma criança de três anos". E nessa perigosa ação de elencar interesses, observo detalhes instigantes dos tais focas. Há aqueles muito técnicos e pouco fervilhantes; Há aqueles nascidos para a docência. Há os de mercado, eternos compulsivos por café e por manchetes; Há aqueles, cujo caráter inexiste - acontece; Há os da espécie Chatus Braziliensis, burocráticos e perfeitos para as corporações - esses enfrentam o exército de um czar pela empresa; Há os ingênuos, fãs de O Pasquim e que acham (ainda!) que vão mudar o mundo e fazer la revolución; Enfim...
         O jornalismo é contraditório, atordoa seus neurônios, aniquila os sonhos um por um, faz chantagem emocional e paga muito pouco. Mas ainda assim, é fascinante, reconheço. Sinceramente, acho que nem todos são dignos de sua natureza. Talvez nem eu seja - quem me garante que eu não frequentei o prédio errado da faculdade, durante todos esses dias? Bom, se eu achar um Muro de Berlim sendo derrubado outra vez, faço um post mais amorzinho e mudo de opinião.


                          Focas in love? Só no mundo animal, meu caro.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Desencontros Drummondianos

        Cazalberto tinha uma queda por Ana Banana, que arrastava um caminhão por Zé Ruela, que era gamado por Mariazinha, que era louca da vida por Fulano De Tal, que dava uns pega na Branca de Neve.
        Cazalberto passou no vestibular e foi morar no raio que o parta, Ana Banana entrou para um convento no interior de Minas, Zé Ruela casou e teve 13726 filhos, Mariazinha cansou de esperar pelo príncipe e virou uma piranha com P maiúsculo, Fulano De Tal morreu de cirrose hepática, e a Branca de Neve... bom, a Branca voltou para os sete anões, que era mais negócio.
        Já dizia Vinicius: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida...”



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Se o Nando foi lá e fez...

          Já ouviram falar do avião que caiu, há exatos 39 anos, no meio da gélida cadeia de montanhas andinas, em um episódio que transcendeu o campo da fatalidade e virou, praticamente, uma lenda? Eu já. E conto a vocês que essa história mexe comigo de uma maneira que nem sei explicar. Me lembro de ter visto, muito novinha, algo na TV a respeito, e depois, mais velha, seguir o faro natural de quem se recusa a ficar só com as manchetes e as metades. Enfim, tratei de investigar e matar minha curiosidade pela raiz.
          Fiquei vidrada. A saga do tal time de rugby uruguaio, na tentativa de vencer a cordilheira e voltar à vida foi algo com que, honestamente, me solidarizei, principalmente, quando percebi o quão improvável era escapar daquele inferno gelado. Li, há três anos, a narração comprometida de Fernando Parrado - um dos sobreviventes da tragédia e figura fundamental no processo de resgate - sobre o episódio em questão, em um livro arrebatador e cru. A obra, intitulada "Milagre nos Andes", antes de qualquer coisa trata-se de uma homenagem muito digna aos envolvidos, que se viram obrigados a conviver com a morte rondando soberana e com os cadáveres dos colegas sobre a neve, durante 72 dias. Todos incomunicáveis, a esmo, sem comida e feridos de resignação mortal - uma vez que as buscas pelos destroços da fuselagem foram encerradas, cerca de uma semana após o ocorrido. Penso que seria fácil enlouquecer, não acham?
          O fato é que, ignorando a loucura que se mostrava iminente e caminhava a passos largos, Parrado desbravou os Andes e rascunhou a própria sorte, contando, é claro, com a ajuda agregadora de Roberto Canessa - também sobrevivente e estudante de medicina, na época. Sempre que me recordo dessa mítica novela no meio do nada, é impossível não ficar maravilhada, apesar de todo o drama. Se o Nando foi lá e fez, quem sou eu para desistir?






quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Guardem segredo

         Não sou muito partidária de fazer posts temáticos. Sabem? Dia daquilo, dia daquele outro... acho pouco original, sem falar que, para mim, dia do ser humano é todo dia. Sempre é válido homenagear anônimos, conhecidos, amigos e afins pela diferença que fazem em nossas vidas. Mas abro exceções, lógico, não sou inflexível - na real, o que trago na caixa torácica é manteiga derretida pura - por isso, em virtude da data alusiva aos pequenos, resolvi falar um pouco sobre o universo das crianças.
         Mas, peraí, esqueçam questões pragmáticas e de cunho elucidativo. Vim falar mesmo é sobre meu período de criança. Eu sei que acontece com vocês do mesmo jeito: basta relembrar a fase em que só estudávamos, olhávamos desenhos incríveis na TV, fazíamos umas artes medonhas e não víamos a hora de crescermos, para as lágrimas ensaiarem uma descida básica pelo rosto. Falando nisso, por que diabos nos tornamos "grandes"? Grande porcaria essa que nos aguardava, né, não? Se soubéssemos o tamanho da encrenca pela qual pedíamos, ávidos, com certeza daríamos um jeito de calar a boca e trazer mais gente para brincar de esconde-esconde, com direito ao mico clássico de fim dos trabalhos - mães gritando, esbaforidas, para a galera mirim entrar pro banho ou a casa ia cair.
          Claro, sei que nem todos tiveram a sorte de viver uma fase bacana, regada a estripulias, brinquedos e poucas preocupações. Infelizmente, há muitas crianças por aí, vivendo como adultos, perdendo a essência cada vez mais cedo e sendo tragadas pelos vícios, pelo trabalho escravo, pela prostituição e pela própria miséria existencial - que trapaceia a todos sem dó nem piedade. Sei disso e lamento, pois tive o privilégio de ser uma cria, na mais correta acepção da palavra: cozinhei pratos magistrais no meu fogãozinho de sucata, customizei modelitos baphônicos para as minhas barbies lindas (modéstia à parte, eu daria uma baita estilista. rs), ralei os joelhos milhares de vezes, ao bancar a atleta de interséries, escalei árvores bem ao estilo Amyr Klink de ser, entre outras façanhas que eu guardo como relíquias pessoais.
           Não sei por vocês, mas eu sigo disciplinada, cultivando alguns hábitos tidos como infantis. Dou muita risada fora de hora, leio meus gibis bestas da Turma da Mônica, assisto aos meus personagens preferidos até enjoar, além de procurar, sempre que possível, emprestar um olhar mais doce às coisas que eu presencio por aí - tudo para não endurecer de vez nesse mundinho, vulgo "selva". No fundo, acho que nunca cresci. Guardem segredo: tô é fingindo, todos os dias, que não quero sair correndo atrás da minha casa na árvore imaginária.

                             Em algum bailinho de carnaval dos anos 90

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pedaços de carne

          "O mundo está ao contrário, e ninguém reparou." Inicio o post de hoje com esse clichezão proveniente da caixola genial de Sir Nando Reis, pois, realmente, no momento, não vejo frase mais cabal para ilustrar o amontoado de pensamentos que acamparam em mim. Eu sei, o mundo e as pessoas são o que são - esse nada flutuante acontecendo em meio a esse lapso de tempo que ninguém consegue assimilar direito - mas certas coisas ainda fogem a minha compreensão. Não adianta, não entram na cabeça. Vejamos... no campo dos relacionamentos, por exemplo.
           Não entendo uma pessoa estar com uma outra pessoa, olhar todo dia bem nos olhos dela, deixar trocentas declarações - de amor questionável, by the way - em redes e etc, e chifrá-la como se não houvesse amanhã com o primeiro (a) que aparece louco por um sexo selvagem. Não entendo. Como diria a sempre sensata Martha, deve ser medo de intimidade - estado que abrange muito mais que uma noitada vazia. A geral clama tanto por caráter e dignidade, mas perde-se, justamente, quando tem de fazer o dever de casa: respeitar e cuidar quem está ao lado. O que mais me incomoda nesse comportamento é essa necessidade de ir atrás de pensamentos genéricos. Ou seja, se você foi passado para trás, o negócio é dar o troco. Se levou um pé, deve catar desesperadamente um novo substituto. E logo, a propósito, já que ninguém pode saber que existia verdade em seu coraçãozinho espezinhado. Não pega bem admitir que você é um ET que (ainda!) se importa com os sentimentos alheios, nesse planeta que só bonifica quem é malandruxo e sacaneia quem vier pela frente.
            O fato é que não estou aqui tentando difundir a moral e os bons costumes, apenas trazendo à tona essa promiscuidade nas relações humanas com que - ao meu ver - devemos nos habituar, já que é o normal. Pelo que me parece, não há mais chance para amores brotarem honestamente, conquistarmos pessoas pelo que dizemos e pensamos, em detrimento do ângulo do decote, ou cultivarmos laços mais sólidos. É possível que a culpa seja das propagandas das festas com que somos bombardeados todos os dias, nos incitando a beijar móóóóito, beber até vomitar, trepar com o primeiro panaca que fizer um elogio e etc. Mas e se for uma epidemia de falta de personalidade? O raciocínio é lógico: se não tem nada a oferecer além de aparência, um agitozinho superficial está de bom tamanho. Qual é, povo? Princípios vêm antes de qualquer opinião de amigo (a), letra escrota de sertanejo ou tendências ridículas dessa sociedade de alienados. Ou se tem ou não se tem.
             Não há como falar do assunto, sem parecer um tanto antiquada. Imaginem o que quiserem, só sei que precisava falar de como me enoja o fato de pessoas tratarem umas às outras como meros "pedaços de carne". Quanto mais, melhor. Se não está da maneira desejada, joga-se fora. Penso que continuar colocando sentimentos nobres para rodar nessa ciranda-cirandinha do mal é a maior furada. O jeito é aprender a viver, esperando pela deslealdade, pela decepção e por tudo de ruim que seres humanos sabem fazer - e fazem bem. Só deixo um questionamento: quando foi que esse estágio irreversível de mediocridade aguda se instalou entre nós mesmo?
  

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Da série: diálogos agridoces

MOONLIGHT SERENADE

- Quero ficar com esse teu moletom puído hoje. Me dá? Me dá?
- Mas por quê?
- Porque eu não posso te acorrentar aqui comigo, então quero, ao menos, um souvenir... para atravessar os dias longos que vêm por aí.
- Adoro teu senso de humor trash.
- E eu adoro a tua combinação de barba milimetricamente mal feita mais moletom mezzo adolescente/mezzo adulto, fazendo um estrago desgraçado nas minhas retinas.
- Vou ficar mal acostumado com tantos elogios.
- Tu merece. Ou melhor, não merece, mas quem decide sou eu.. cala a boca e tira a droga do moletom.
- Chega de brincadeira. Eu preciso ir...
- Vai, mas deixa o fofinho do capuz. Enfim, se não quiser se desfazer dessa peça de roupa, que tem estranhos poderes sobre mim, aliás, a ideia do acorrentamento ainda segue atazanando meus instintos... que tal?
- Não dá. A gente precisa voltar para o mundo real. Contingências diárias gritam lá fora.
- Droga! Jurei que poderíamos ficar por Neverland dessa vez...
- Hum, então quer ser minha Alice, tipo, para sempre?
- Quer parar de confundir Peter Pan com Alice no País das Maravilhas e me beijar, tipo, para sempre? Não levo mais fé nos teus papos sobre eternidade.
- Mas me intimou a te beijar até o fim dos tempos. Sabia que eu também adoro tuas contradições?
- Uma hora tudo vai acabar. Sempre acaba.
- O quê? Tuas contradições?
- Não, o beijo, tuas declarações e Moonlight Serenade, que tá tocando ali naquela salinha de espera e me lembra do dia em que nos conhecemos. Quanto às minhas incoerências... poxa, te fizeram vir até mim, não quero mudar.
- Peraí, que papo é esse de Moonlight Serenade? Tu nunca me falou disso.
- Por que será? Glenn Miller, certamente, se reviraria no túmulo, quando eu te contasse e tu debochasse do meu romantismo barato de guria da década de 40.
- Esqueceu que eu curto Coltrane e Chet Baker? É linda.
(silêncio)
- Eu ou a música?
- A música, mina! Tu é irritante... ainda mais com esse arzinho de quem tá certa que vai ficar com meu moletom preferido.
- Viu? Se ficássemos presos a correntes, seria mais fácil.
- Fácil de te matar, né?
- Sabe, a intensidade do som do sax nos meus ouvidos é diretamente proporcional à paixão com que eu te observo no momento.
- Vai contar ou não o motivo da lembrança?
- Óbvio que não. Se não, a magia toda se esvai.
- Gracinha!
- Ah, sei lá, a composição é velha. Vai ver é porque eu teimo em acreditar que nosso lance é de muito tempo atrás. Mistérios...
- Tá, tu é linda também. E prolixa como ninguém...
- Ih, acho que tu perdeu o avião, meu amor. Não precisarei mais apelar para medidas carcerárias.


domingo, 2 de outubro de 2011

Por Dios, madrecita!

          E eis que ficou com cara de nada olhando para a porta da redação barulhenta do jornal, onde, geralmente, escrevia seus poemas secretos. Foi rápido, mas, de repente, já não estava mais ali. Malagueña Salerosa tocava distante, ainda que claramente audível. Foi aí que tudo fez sentido. Descobriu estar trajando um vestido preto, dono uma generosa fenda, carregar uma flor vermelha entre os cabelos revoltos e negros e estar sendo embalada por um gentil cavalheiro, cujas feições brincavam com seu discernimento - não sabia de quem se tratava, mas até que funcionavam bem juntos. Ele dançava com ela, que dançava com os olhos amendoados e promissores dele. Havia uma plateia de curiosos em volta, mas já estavam de partida. Daqui a pouco, ali, seriam só aqueles petulantes e a luz como cúmplice. A música parecia não ter fim, o momento pedia para ser congelado - poucos merecem ser eternos nessa vida, e aquele precisava.
          A letra, ainda que contasse o lamento de um amor fadado ao insucesso, inundava de alegria dois corações. Tais corações, perdidos no labirinto um do outro e naquela melodia hispânica incandescente e fascinante. Talvez estivessem em Málaga ou em um lugar sem nome, que só existisse para eles. Olhou para o lado e teve um sobressalto: o moço dos movimentos habilidosos fugira. O olhar, de imediato, o procurou por entre os rostos estranhos e os feixes de loucura ainda imponentes na multidão. Busca infrutífera. Queria mais um pouco dele. Queria girar sincronizada outra vez. Recuou num querer fingido que gritava o contrário e pedia por acordes mais reveladores. Até que as mãos colaram-se novamente, era tudo verdade. A canção sedutora tocou para sempre. Contudo, o fulgor não impediu o regresso, emburrado, à sala apática de outrora. Por Dios, madrecita! Tô atrasada para fazer a entrevista! - gritou, entre gravadores e leads raivosos.