sábado, 31 de dezembro de 2011

Ten years gone

          Parem esse mundo imediatamente, que eu quero descer já! Fui acometida por uma crise terrível de nostalgia aguda. Putz... ao dar uma passeada por sites e redes por aí, acabei me dando conta de que, dia 29, fez dez anos da morte da cantora Cássia Eller. Não tentem me entender, não sairá nada que preste dessa postagem, mas sabem quando acontece uma coisa meio lispectoriana? Estava eu, aqui, bem serena e distraída, quando caí na real de que há uma década, eu era uma cria pré-adolescente e...
          O que eu tava fazendo que não vi o tempo passar? Nossa, parar um segundo para analisar um período tão grande provoca uma canseira desgraçada, além de um sentimento de saudade inexplicável, umas risadas bobas saltando dos lábios e algumas conclusões meio tortas: sabem como é, nunca se sabe se o caminho percorrido até o presente foi o mais acertado. A gente vai vivendo, vivendo, vai levando, vai se enfiando em umas tramas sem pé nem cabeça, em uns roteiros meio vagabundos que não dão garantia nenhuma de sucesso, até que chega onde tá, no hoje e no agora. Aí se enxerga no espelho, faz um muxoxo e diz para si mesmo: "até que não tá nada mal" ou um "caraca, velho, que que é isso, pode me explicar?" E segue, porque sempre haverá caminho, enquanto houver respiração. "É tão estranho carregar uma vida inteira no corpo e ninguém suspeitar dos traumas, das quedas, dos medos, dos choros''. E não é assim mesmo, Seu Caio?
          O ano era 2001. KLB dominava as paradas de sucesso e Leandro, o meu coração e meu guarda-roupa com seus pôsteres espalhados. rs // E a tal cantora de voz contundente nos deixava. Perceber isso me fez ficar igual a uma estátua, relembrando idiotices características dos meus onze/doze aninhos, umas histórias absurdamente ridículas e fantásticas e, como não poderia deixar de ser, pessoas que passaram por mim. Quanta gente é possível conhecer numa vida? A Bruna de dez anos atrás é a mesma dos dias atuais?
Ah! Podiam lançar um álbum de inéditas da Mrs. Eller, né?

É, Led que o diga... "ten years gone..."

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

"NADA HAVER"

         Já havia feito um post muito didático e fofinho com dicas lindas de Português, baseadas no meu reles conhecimento na área, né? Também já falei que eu sou uma entusiasta da palavra bem escrita e empregada, né? Claro, claro, não sou isenta de erros, tenho meus deslizes, odeio escrever algo errado (dia desses, coloquei acento em "melancia" KKK), mas nunca negligencio minhas ações: ando com um dicionário fascinante a tiracolo. (e morro de amores pela minha gramática do terceirão!) Amo eles, somos grudados! s2 // Faço erratas, enfim, não me lixo para o que escrevo. Onde já se viu uma foca recém saída dos corredores acadêmicos, sem capricho gramatical? Penso que isso seja elementar, meu caro Watson.
          É bem verdade que eu apanho lindamente da ênclise, da mesóclise e da próclise e de alguns hífens cretinos, mas podem ter certeza de que o ato de usá-los corretamente já está na minha lista prioritária de coisas a se fazer no novo ano que aponta no horizonte. rs // Cara, tô enrolando e enrolando, mas a verdade é que no meio de tanto assassinato linguístico, há um que anda me irritando de uma maneira singular. Nesse mar imenso de "concertezas", "simplismentes", "encômodos" e tal, o "nada haver" tem despertado meu ódio mais insano. Não sei se há explicação plausível para o verbo haver usurpar descaradamente o lugar da preposição "a" e do verbo "ver", mas, poxa, né? O Google tá aí, lindo, leve e solto, sem falar que, hoje em dia, tanta bobagem é pesquisada na internet... penso que não custaria nada dar uma olhada em sites de ajuda e afins para tentar não escrever tanta asneira. Honestamente, nada haver não tem NADA A VER!
          Deixem titio Pasquale orgulhoso, amem a língua e não sejam relapsos: parem de se exibir com músculos e bundas e tentem ganhar a admiração alheia pelo que escrevem e dizem. Que tal? Tô tão careca de ler esse tipo de coisa, que quando vejo um "nada haver" maroto por aí, só consigo imaginar um papo indígena, galera:

- O que houve nessa taba, camarada?
- CACIQUE DIZER QUE NADA HAVER NA TRIBO, RUMM!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Da série: diálogos agridoces

QUE FASE!

- Bem no fim, às vezes a gente foge é pra não ficar refém mesmo.
- É... pode ser isso, por mais que eu não assimile muito bem.
- É o álibi dos medrosos, percebe? Eu assumo.
- Ou dos sensatos, vai saber...
- Eu nunca fui sensata, amiga.
- Taí uma verdade, hein? É medo, então.
- Tá, pode ser sensatez mesmo. Acho que tem um momento em que tu vê que tomou tanto na cara, que se obriga a fugir, ou melhor, ser sensato. Nem que seja uma sensatez velada...
- Grata por confundir minha cabeça. Tu me fez ver que tô na mesma sinuca.
- Lembra quando eu te disse que amava ele de um jeito meio doente, de um jeito que tava me deixando meio doente..?
- Não foi comigo que tu falou isso, meu caro Watson.
- Puta merda! Será que eu sonhei, falei isso com alguém ou disse isso in loco pra criatura?
- Certeza que o argumento de "Insensato Coração" foi inspirado na tua vida amorosa, cara.
(risos)
- Certeza que tu tá me tirando, sua louca! Nem olhava essa novelinha de quinta. Lembra da conversa, né?
- Não, não foi comigo. Do jeito que tu é surtada, é bem capaz de tu ter ligado pro Don Juan de Marco de araque e falado palavra por palavra.
- Aí me lasquei, né? O gelo teria explicação, ele deve achar que eu sou uma psicopata.
- E taria muito certo na observação, não?
- Cadê tua porção compreensiva quando eu preciso dela?
- Ai, não é tão mau assim, amiga! Se falou, acho muito digno.
- Ah, sim, digníssimo! Ainda mais bêbada!! Quem vai querer uma esposinha com cadeira cativa no AA?
(risos quilométricos)
- E se tu não tava bêbada? Uma vez tu me disse que se declarou, sóbria, à tarde, no hall de entrada do escritório...
- Ih, pior que foi, mas meu príncipe é tão malandro que nem notou. Usei mensagens subliminares, ele boiou total.
- Ninguém entende tuas subliminaridades, maninha, vai por mim.
- Tá curtindo me zoar hoje, né? Acho que vou ali no apartamento do lado dizer pra um tal de Carlos Eduardo que ele tem uma voyeur que gosta de espiá-lo nu, há uns...
- SHHHHHHHHHHHHHH fica quietaaaaaaaaaa.
- Tá, e se eu tava bêbada de paixão? Sacumé eu apaixonada... não respondo por mim.
(risos)
- Ah, cara, eu sei como tu se sente.
- Qualquer uma sabe como eu me sinto. Somos membros de uma confraria, querida.
- Tá, mas o que tu ia dizer mesmo.. sobre o fato de amar o primogênito dos Irmãos Metralha lá?
- Ah, pois é.. eu ia dizer que a gente sabe muito bem quando uma conversa tem fim. Só que em relação a ele, é como se sempre houvesse reticências e reticências... uma coisa meio sem final, sabe?
(silêncio)
- Pois eu te digo que, euquanto houver reticências perdidas no meio da história, vai ter o que contar. Ponto.
- Não acredito que eu tô tendo esse papo contigo às 5h da matina. Voltamos a ter 13 anos, sério.
- A gente misturou muito ódio e orgulho ferido com vodka vencida. Já ouviu falar em ressaca de emoções?
- Na boa, preferia a ressaca convencional.
- Que fase!
(risos)
RETOMADA DE ASSUNTO DE UNS 8596576 FINAIS DE SEMANA ATRÁS
- Pois é, né... mas aquela vez, lembra? Ele tão lindo, dispensou aquela piranha oxigenada só pra me levar pra casa. Tipo???
- É... aquela vez foi golpe de mestre, reconheço.
- Desgraçado!
- Gênio!
(risos)
- É... acho que o negócio é ir dormir, já que a nossa saidinha foi pro ralo. Trate de esquecer esse cafa.
- Trate de me acordar, tô podre e possivelmente vou dormir mais que a cama.
- Eu tava lembrando de um negócio aqui.. meu, sério, que situação...
- O quêêêêê?
- Tu falou mesmo que, se ele quisesse ser cúmplice da tua idiotice, era só ir contigo? Jura que tu foi piegas nesse nível absurdo?
- CINCO CAIPIRINHAS ME FIZERAM DIZER ISSO, OK?
(risos quilométricos)
- É por isso que eu te amo, sua doente!
- Vaza, cretina, me deixa sonhar com meu príncipe filho da puta!
- Por via das dúvidas, hoje teu celular fica comigo.
- Por via das dúvidas, vou colar um esparadrapo na boca, quando vê-lo.
- Não sei o que seria de mim, sem tuas histórias incrivelmente micadas.
- CAAAAARLOOOOOOOOOOS EDUAAAAAAARDOOOOOOOOOO!

sábado, 24 de dezembro de 2011

Quando der na telha...

Olá, pessoas!

          Tirei duas semaninhas sabáticas para fazer o que sei de melhor: procrastinar. Ah, sei lá, acho que depois da centésima, fiquei meio bloqueada - como sempre ocorre em finais de ano, diga-se de passagem. Ando cheia de ideias, mas com certa dificuldade de materializar... acho que nunca comentei por aqui, mas o fato é que basta o último mês do ano dar as caras, para eu marcar presença no time dos introspectivos. E essa introspecção, invariavelmente, acompanha minhas palavras: penso, penso, arquiteto postagens, e, não saio do lugar. É o mal de dezembro me pegando de jeito.
           Bom, já que eu ando um zero à esquerda para propor qualquer debate no recinto, sugiro que falemos do já mencionado "mal de dezembro" - que, tenho certeza, tira com a cara de mais gente por aí. O que vem a ser tal coisa? Trata-se da ansiedade típica dos finais, uma espécie de obrigação de ser feliz e esfregar isso na cara de quem quer que seja: a vontade pode até ser de tomar estricnina, mas para todos os efeitos, a alegria deve imperar na vitrine. Até parece que só a gente vai ficar fora desse banquete farto de comemorações, né? O negócio é se jogar na vodka e guardar os mimimis no armário, já que na primeira sexta-feira chuvosa de janeiro, eles retornarão triunfantes e lépidos mesmo.
           É bem provável que vocês, amados agridoces, pensem que eu esteja numa deprê desgraçada com esse papinho barato da trupe dos ansiosos e bla bla bla, mas devo alertá-los de que não é nada disso. Tô numa nice, numa legal, mas o que me ocorre é que eu teimo em observar as coisas, percebem? Tenho um faro muito aguçado para captar falsos sorrisos, alegrias capitalistas vazias que só se sustentam no dia da compra, declarações medíocres de "Feliz Natal" por e-mail, acompanhadas das últimas promoções de não-sei-qual-loja, entre outras manifestações doentias desse câncer chamado "sociedade". Sinto que há uma afobação meio geral em querer demonstrar "felicidade" quando na real, ninguém está tão feliz assim.
           Honestamente, anseio por mais verdade. Menos trânsito. Menos caos e gente intransigente. Menos formalidades e améns para as convenções. Mais risos até doer a barriga. Mais brincar com cachorro. Mais desejos reais de bons começos para todos. Menos esnobismo e protocolo. Mais brilho no olho e altruísmo. Menos fotos previsíveis. Mais momentos sublimes sem testemunhas. Mais pessoas pensando por si próprias. Mais originalidade. Menos catar trecho de livro famoso na internet sem nunca ter entrado numa biblioteca. Menos preconceitos. Mais música boa e difusão de conhecimento. Eu quero mais ser feliz quando der na telha, e não porque "hoje é um novo dia de um novo tempo que começou".

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Cem

         Cem postagens, é isso? Cheguei à centésima ladainha agridoce? Hum, e agora? Continuo? Para que lado vou? Fico parada à margem dos meus questionamentos ou sigo nadando em círculos só pelo prazer do exercício? Cem textos, cem tentativas, cem gritos, cem anos de solidão trancafiada nesse porão do Blogspot. Cem caminhos, cem atalhos, cem emoções, cem trechos azedos para cem parágrafos doces. Menina cem vergonha.
         A centésima vem com gosto de resignação, mas ainda comporta rebeldia pueril e uma pitada de esperança - que é para a receita não desandar de vez. A centésima traz na mala um monte de vivências fadadas a ser o que são, cem grandes sobressaltos: tudo que esteve aqui, assim foi por uma razão. E estamos ótimos. Peraí, tá errado, estamos péssimos: também há por essas bandas cem mentirinhas contadas para entretê-los. A graça é a abstração, não? Conversinha cem fundamento.
         A centésima vem com ares de grande coisa, parecendo flagrar meus titubeios e ordenando que sejam digitados os medos que corroem o bom do meu discernimento agridoce, só para ver se alguns fantasminhas são exorcizados. Coitada, mal sabe que já está tudo no acervo ao lado, nas suas noventa e nove irmãs de natureza inquieta e agoniada, meio ressabiadas com tanta informação. Talvez nem a centésima entenda sua dona, a essa altura do campeonato. E então isso fica cem solução.
         Cem vezes os portões foram abertos, cem vezes eu quis sumir e me esconder atrás de palavras, cem vezes elas buscaram acalmar minha errância particular. Cem vezes, minha insanidade soprou em meu ouvido que, enquanto eu escrevesse, seríamos boas amigas. Faz cem postagens que ando contando um pouco do que se passa, ainda que por linhas tortas. Faz mais de cem dias que ando assim desse jeito sem saber até quando, em centenas de retratos adornando a parede. Cem querer ser chata, cêis tão gostando?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Detalhes

        Sim, mulheres gostam de detalhes. Não nos perguntem por que, rapazes, apenas é assim. Detalhes são do sexo feminino, não se iludam com o artigo. Detalhes grudam na massa cinzenta e não há quem dê jeito nisso: uma vez processados pelo cérebro, está feita a droga. Detalhe guardado é açúcar escorrendo do livro de romance na hora de ler. Devanear torna-se tarefa fácil.
        Ela nunca disse, mas lembra até hoje da sua carinha ciumenta quando comentou que o primo lindo dela passaria as férias na cidade. Ela lembra da camiseta branca que você usou naquela festa e o fez parecer o cara mais irritantemente gostoso da face da terra. Ela lembra daquela noite terrível de inverno, em que você sorriu do jeito mais enigmático que os olhos dela poderiam testemunhar. Ela lembra de todas as suas gírias - de quem passa mais tempo na rua do que em casa, sob os cuidados da vovó. Ela lembra da sua mania antiga de olhar fixamente para alguma coisa no horizonte como se quisesse abraçar o mundo.
        Detalhes são adereços, são sorrisos pela metade encobertos pela timidez. Detalhes são cores em dias que insistem em ser cinzas, são risos que escapam quando o silêncio impera no ambiente. Detalhes são datas que se perderam no calendário, mas alguém ainda comemora. São companhia em noites solitárias e chuvosas. Detalhes permanecem, detalhes criam raízes no inconsciente, detalhes são rascunhos de algo maior que pode ou não ter dado certo. Detalhes são frios na barriga que não conseguem ser disfarçados. Detalhes são obscenos em sua natureza, pois tiram a roupa da fragilidade que tanto procura se esconder.            
         São peritos em dissecação, pois expõem fraquezas, contam segredos, gritam verdades sufocadas. Detalhes são protagonistas de sonhos, algozes de noites mal dormidas. Detalhes sempre têm morada dentro de nós, de certa forma, relacionam-se com o mistério de cada um. Os detalhes rondam e não nos deixam em paz, pois, no fundo, apresentam minuciosamente todos os pedaços de que somos feitos. E isso sempre atordoa um pouquinho - querendo ou não.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Eu e o estresse em Arial 12

          Quem lê meu blog, deve ter uma leve noção de que eu faço tempestade em copo d'água. Não é muita coisa, mas a tendência à tragicomédia existe e arrebata algumas postagens instintivamente, em uma frase que outra. Sabem aquela coisa meio shakespeariana, meio "Os sofrimentos do Jovem Werther"? Pois é, adoro um teatro, um drama, uma cena meio Televisa... rs // Tergiversadores, como eu, sabem bem como é.
           Enfim, o vendaval da vez atendeu pelo nome de monografia, e eu honrei o script de forma irretocável, literalmente. Teve muita rajada de vento, raios, trovoadas, além da clássica penumonia por não estar devidamente agasalhada e ter pegado chuva na volta para casa. Lindo de ver! Cheguei a sonhar com o tal trabalhinho acadêmico, somatizei horrores essa droga, e não me perguntem o porquê, apenas foi assim. Claro, qualquer um que já esteja a léguas dessa fase, trilhando os caminhos dos mestrados e das dissertações da vida, dirá que minha conversinha é pra boi dormir, mas, cara, foi um drama mesmo! Dores no peito, braços formigando, taquicardia, respiração ofegante... creio que já tive uns cinco infartos imaginários nas últimas semanas. rs
           Não sei se acontece com todos, lógico, mas penso que seja impossível fugir do frio na barriga. Poxa, os questionamentos tomam conta da cabeça! Será que eu tenho cacife para estruturar um texto científico de fundamento? Será que eu não passo de um pesquisadorzinho de meia-tigela? Será que eu serei bom o bastante para defender meu ponto de vista? Será que eu escrevi tudo que precisava ser escrito? Será que eu fiz os espaçamentos certos naquela porcaria? Será que eu fiz o sumário corretamente? Será que eu vou gaguejar na hora de apresentar? Será que a banca vai me trucidar e eu vou entrar para a história da universidade como a maior retardada dentre as retardadas? Será que eu toco o foda-se, corro pro bar mais próximo e paro de me martirizar? Já escrevi aqui em outra ocasião, "será" é verbo do mal. Muito do mal.
            O fato é que meu cérebro anda meio avariado com toda essa conclusão. Com todo esse final. Com todas as correlações e etc. Com todas essas normas malditas da ABNT - que, lógico, percebo necessárias, não sou alienada. Com todos esses sentimentos misturados que, ora brigam, ora são cúmplices. Talvez muitos se identifiquem com o meu causo de hoje. Talvez alguns achem que eu não tinha nada de mais interessante para postar - e estarão certos. Para mim, só fica uma certeza: esse estresse em Arial 12 foi só o começo. Vem muito mais por aí.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Verborragia

          Fiquei parada, mas não disse nada, não podia dar o braço a torcer, sei lá se fiz certo, talvez eu tenha deixado escapar uma puta chance de morder essa felicidade insuspeita com todos os dentes, o que me lembra que amanhã tenho consulta no dentista, nossa, eu morro de medo daqueles aparelhinhos que fazem um barulho meio como o da motosserra do Jason, talvez eu tenha me livrado de uma cilada, vai saber, falando nisso, por que diabos tiraram o seriado do Bino do ar? Era legalzinho.
          Tá tudo meio estranho, ando inspirada pelas coisas mais toscas e abismantes, pelas conversas mais casuais e improváveis, pelos momentos mais bobos e coadjuvantes. Preciso materializar essa inspiração que anda me tirando o sono, não acredito que vou arrumar uma insônia pra me atazanar justo agora no final do ano, caraca, esses finais de ano me deprimem um pouco, é muito consumismo pra quase nada de espírito reflexivo, pensando bem, não vou mais refletir porcaria nenhuma, vou ligar, mandar mensagem e propor uma viagem a dois. Acho que quero férias de mim.
          Pensava que nunca ia descobrir quem canta essa música da vinheta da VH1, mil vezes raios, fazia uns 2 anos que andava atrás dessa do Buddy Holly, putaquepariu, que coisa mais linda, nunca vou enjoar, bah, honestamente, uns versinhos desses com saxofone é pra me matar do coração. Será que eu sou cardíaca? Tenho que parar com essa mania de somatizar tudo que é chatice que me acontece. Agora, presta atenção, moça, tu vai se focar no que tu quer. Respira, respira e ignora esses comentários de gente que nunca te quis como amiga. Ah, daí sim que acabou meu esmalte?
          Incrível, por que eu ri disso na cara da pessoa? Nem fiz de propósito, só não entendo quem não acha graça das coisas, vive reclamando, fazendo intriga, espalhando mediocridade por onde passa, credo, se eu não começar a ver maldade em tudo, ainda vou me estrepar muito nessa vida. Será que meu livro venderia? Criei uns personagens ótimos, que linda essa história que eu inventei, ai, tô pensando seriamente em cortar o cabelo de novo. Vou assistir Friends, preciso rir até doer a barriga das carinhas de paisagem do Ross.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Palavras de uma Cartólatra

          Encerro o mês de novembro com uma homenagem ao saudoso Angenor de Oliveira - ou Cartola, como ficou eternizado - cujo aniversário de morte se dá hoje, dia 30. Tenho fascinação pela história desse homem, que, mesmo tendo origem humilde, trilhou um caminho brilhante na música brasileira. É o tipo de figura pela qual tenho interesse genuíno, uma admiração gratuita, um carinho inexplicável, sem que seja necessário racionalizar. Sentir está de bom tamanho. E Cartola inunda meu coração tímido e boêmio de sentimentos, assim meio que de graça, sabem?
          Mais que a doçura de suas canções, o que me instiga mesmo é a trajetória marcada por percalços que protagonizou ao longo da vida - em que sua arte escandalosa conviveu com a mesquinharia e sua genialidade com o abandono. O famoso mangueirense, ainda que compusesse verdadeiras relíquias, foi em boa parte de sua existência, um andarilho, sem eira nem beira, trabalhando em atividades que pouco contemplavam suas habilidades artísticas e vendo seus sambas serem regravados por outros cantores - à época, já de renome no cenário nacional. Não foi uma coisa justa, percebem?
          Em um mundo que superestima pessoas com milhões de formações e afins, a inteligência de Cartola no propósito de declamar poesia velha com aura de novidade soa como uma revolução - dessas que seguem vivas no inconsciente popular, mesmo após anos e anos. Ele não tinha instrução, aprendeu seus primeiros acordes sozinho, sem companhia, rabiscava em papéis velhos os versos que arrebatariam gerações mais tarde, e, literalmente, padeceu até desfrutar do prestígio que lhe foi traiçoeiro durante certo tempo. Gravou seu primeiro disco só aos 65 anos de idade, no entanto, quando o fez, foi certeiro: levou consigo meio mundo encantado pelo seu talento.
           Lógico, sou suspeitíssima para falar qualquer coisa, já que tenho profundo respeito pela memória desse artista autenticamente brasileiro e pela sua obra. Mas encho a boca para elogiá-lo, porque, antes de tudo, sou uma apaixonada por gente humilde. E meu ilustre sambista, mais que cultivar humildade, ensinou a cantar o amor e a vida de forma simples e digna - mesmo tendo sofrido tanto ao longo de sua "mocidade", como ele mesmo dizia. Bem no fim, escutá-lo é quase como um gentil convite a agarrar a sabedoria com as duas mãos e não soltar mais. Palavras de uma Cartólatra.


                                "Eu e meu violão vamos rogando em vão o seu regresso..."


domingo, 27 de novembro de 2011

Freddie vive

         No último dia 24, completaram-se 20 anos da morte de Freddie Mercury - meu vocalista preferido, desde o tempo em que eu nem suspeitava que fosse gostar de Queen. Nunca havia escrito nada muito organizado para ele, então, hoje, resolvi deixar registrada a minha louca admiração por esse exemplar purpurinado do rock mundial. E não é crônica, a propósito. Vou chamar de declaração passional de uma fã bem intencionada e que tem a mania irritante de ser efusiva. Bora pagar pau pro Farrokh Bulsara?
         Cara, eu amo o Freddie! Amo as gayzices dele, amo as dancinhas, amo a genialidade, amo a audácia de misturar muito dignamente ópera com rock n' roll, amo o talento ímpar, amo seus figurinos bizarros, amo sua virtuosidade para instrumentos musicais, amo sua timidez nas raras entrevistas que concedia, amo seu humor involuntário, amo o lirismo de suas canções, amo as palavras malcriadas que ele disse no Queen live at Wembley '86 - em resposta a um rumor de dissolução da banda - e amo, mais que tudo, a sua voz incrível! Que voz! Veludo sonoro a enfeitiçar meus ouvidos exigentes.
         Claro, qualquer um que leu um pouco a respeito da sua vida louca, sabe de sua fama de menino mau, da promiscuidade, dos escândalos e etc. Até já escutei muito por aí "ai, aquele louco veado..?", como se ele não tivesse feito nada na vida, além de tomar porres e participar de bacanais e toda sua obra magnífica devesse ser condenada a viver no ostracismo. Santa ignorância, Batman! Aqui vai um segredo para vocês: nunca me interessou o que ele fazia na sua conturbada intimidade, mas, sim, sua insanidade, sua criatividade, seu gênio incompreendido - fundamentais na trajetória dele nos palcos. Freddie vive nos meus fones e no meu coração e é isso o que importa.
          Já diria Martha Medeiros..."(...) se fôssemos admirar apenas o trabalho dos bons moços, teríamos que ignorar Oscar Wilde, Chet Baker, William Burroughs, Janis Joplin, Eric Clapton, Billie Holiday, Kurt Cobain, Pablo Picasso, Jack Kerouac, Ernest Hemingway, pra citar apenas alguns nomes de uma longa lista de alcoolistas, viciados em drogas, pervertidos, egocêntricos, petulantes, loucos e geniais." Endosso com louvor! Um viva à loucura do Freddie e um silêncio bem gostoso à miséria existencial de quem não o compreende, porque, né? Resto, a gente ignora.



sábado, 19 de novembro de 2011

O cara

        Basta ele entrar no recinto, para todas torcerem os pescocinhos esperançosos em sua direção. Talvez nem quisesse chamar tanta atenção, mas o fato é que chama. Ele é o cara, não se discute. Entretanto, não age como se fosse o maioral. Não faz o tipo exibido, daqueles que adoram contar vantagem para os amigos. Apenas desfila com uma confiança marota, exalando, humildemente, seus feromônios para a plateia de lobas salivando. Chega, na dele, sossegado, troca algumas palavras com um conhecido que encontrou, ali, por acaso. Ri uma gargalhada gostosa e indecifrável, enquanto seu sensor de macho que sabe o que quer capta tudo o que acontece à volta. Usa um perfume que embriaga qualquer mocinha incauta que ouse chegar perto. Ninguém sabe o nome da fragrância, mas certamente é responsável por uma espécie de paralisia. Pobres das mortais que sentirem, nem vão dormir à noite. Ah, tem mais essa: ele tira o sono, o cara.
         O cara é um ponto de interrogação que não foi desvendado nem pela mãe dele. No fundo, ele não sabe o que tem. Só sabe que tem. E não é um deus grego da beleza, como poderia se supor. É atraente, lógico, mas não tem cargo vitalício na academia, tampouco uma carinha de parar o trânsito. Se bem que disso ele entende, essa história de parar trânsitos. Que estrago olhar para esse moço! O forte dele é o charme, e isso nasceu com o filho da mãe, não foi encomendado das Lojas Americanas. Tudo ajuda, claro. O cabelo farto, que vive milimetricamente bagunçado de propósito. Os olhos amendoados e espertos, que vasculham sua alma, antes mesmo de você pensar em dizer "oi". A barba mal feita perfeitamente talhada para os ângulos de seu rosto. O sorriso envolvente e caprichoso, que, aliás, ele não distribui tão fácil (dá para acreditar que ele brinca de tímido?), dentre outros artifícios físicos que ele usa muito bem - ainda que sem querer.
         O cara foi abençoado pela natureza, ok. Mas nada disso valeria, se não tivesse essa coisa que é só dele, isso que ele traz nos movimentos, no jeito de andar, de torcer pelo time, de fazer um elogio. E de vestir, ia esquecendo. Maldito bom gosto involuntário. Definitivamente, ele fica bem com qualquer trapo. Sabe aquela camisa xadrez meio marginalizada pela sociedade? Aquela havaiana condenada a viver no submundo da área de serviço? Aquele moletom com capuz que você imaginou poder ser usado só pelo seu priminho de 10 anos de idade? Pois é, tudo fica lindo no nosso imã masculino, digo, no cara. Porque ele é o cara. E não ganhou esse título impunemente. Ninguém mandou ser irresistível, manjar sobre qualquer filosofia de botequim e citar Hermann Hesse. Ser um poço de gentileza e ser o pai dos mistérios. Tudo é culpa dele, oras. Há boatos de que até adivinhe pensamentos e desejos. Mas isso ainda é mera especulação.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Alma doidivana

Olá, meus anônimos preferidos!

       Tô passando rapidinho hoje! Nada de reflexão, diálogo ou resenha passional de filme. Vim deixar uma letra que eu amo de paixão e que serviu de inspiração para um blog que criei, em outubro de 2010 - um pouquinho antes de eu trazer minhas tralhas, em definitivo, pro endereço agridoce. Cêis sabem que eu curto música, tipo demais, né? Cêis sabem também que eu vivo grudada com meus fones de ouvido, né? Pois bem... "Cena Beatnik", do Nei Lisboa, apareceu aleatoriamente aqui no meu radim, e eu pensei em dividir com vossas senhorias a energia fofa que ela me transmite.
       Meu extinto recanto, "Alma Doidivana", me dá uma saudadinha, mas a inspiração foi para sempre. Sabem por quê? Porque, no fundo, sei que qualquer um pode ser um pouco doidivana, carregar na alma um doce devaneio, um velho desatino. Ou ter, quem sabe, no caminho, algum doidivana que inspire os mais velhos devaneios e os mais doces desatinos. Vai saber, né? Isso fica por conta da imaginação de vocês...

Já não passa nada
Já nem peço por favor
Eu tô abrindo a estrada
Que chega aonde eu for
Eu tô na madrugada
Tô na chuva pelo calor
Eu tô na luta armada
E o perigo me cercou

E o acaso me deixou na porta da tua casa
Faz silêncio e faz de conta que já me esperava
Que eu tava pra chegar
Pra ficar e pra sumir sem dar explicação
Pra me livrar da prisão

Ou só pra te ouvir dizer que não
Só pra torcer o pé
Descendo a escada
De quem não me quer

Ei, ei, ei
Alma doidivana
Doce devaneio
Velho desatino
Ei, ei, ei
Cena beatnik
Clock sem um click

Já não passa nada
Já nem peço por favor
Eu tô abrindo a estrada
Que chega aonde eu for
Eu tô na madrugada
Tô na chuva pelo calor
Eu tô na luta armada
Disfarçado de cantor

E o acaso me deixou na porta da tua casa
Faz silêncio e faz de conta que já me esperava
Que eu tava pra chegar
Pra ficar e pra sumir sem dar explicação
Pra libertar a nação

Ou só pra te ouvir dizer...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Senza fine

         Nós fomos um porre, cuja ressaca ainda provoca alucinação e dor de cabeça. Nós fomos um vendaval, um dia de calor escaldante, um típico feriado de outono. Nós fomos o incenso que queimou e só deixou o cheiro impregnando o ambiente. Nós fomos chuva com sol, culpa e redenção. Nós fomos mais que cúmplices, fomos membros de uma seita secreta. Nós fomos a turnê que foi cancelada, os ingressos de uma peça que nunca foi ensaiada. Nós fomos uma cena do Tarantino, daquelas bem ridículas e fascinantes. Fomos uma tela audaciosa do Dalí, um parágrafo de um livro do Freud que encalhou na prateleira, porque assustou muita gente.
          Nós fomos equação sem solução, uma questão dissertativa, cuja resposta não convenceu a professora. Nós fomos a música que a gravadora dispensou por ter um refrão incompreensível e ser pouco comercial. Nós fomos inconsequência travestida de lugar-comum, uma poesia concretista, uma barra de chocolate meio amargo. Nós fomos marketing viral, pauta sem fonte, fonte sem nome, nome sem dicionário, dicionário sem biblioteca. Fomos eu e você só que ao contrário. Nós fomos o contrário do que sempre foi. Nós fomos aquele machucado que cicatrizaria, caso fosse tratado, mas ninguém soube como cuidar. Nós fomos figura de linguagem, um belo apagão em pleno baile de carnaval.
           Nós fomos etecetera que sumiu sem dizer a que veio. Fomos história que estava se contando aos poucos, mas todo mundo desistiu de escutar. Nós fomos comédia pastelão, garganta seca implorando por um gole de água. Fomos beco sem saída, trânsito congestionado, sinaleira com defeito. Fomos um neologismo esquecido, letargia a brincar com os sentidos. Fomos João e Maria enfrentando os batalhões e os alemães e seus canhões. Fomos gargalhada e dentada na maçã da luxúria, para quê? Porque fomos senza fine.  


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Da série: diálogos agridoces

O PIADISTA E A NUDEZ COMPARTILHADA

-Eu nunca deveria ter me despido pra ti!
-Ah, mas foi tão bom... é tão bom.. hehe
-IDIOTA! Falei metaforicamente...
-Tu e tua velha insistência em colocar poesia onde não existe...
-Tu e tua velha mente que só pensa em sacanagem...
-Tu gostou da sacanagem também, poetisa!
-Sim, mas agora quero filosofar. Posso?
-Não, não pode. Não, sem antes vestir algo, né... (risos maliciosos)
-Vou ficar do jeito que tô. E trata de prestar atenção.
-Tá legal, mas por que tu falou nisso justo agora?
-Porque eu sei que isso é um erro.
-Erro incrível... vamos cometer de novo?
-IDIOTA! Me refiro ao que te disse antes... fiquei nua quando falei de sentimentos.
-Não tem nada de errado nisso...
-Tem, sim. Sei que tu vai usar tudo isso contra mim, mais cedo ou mais tarde.
-Por que tanta certeza?
-Eu sei bem com quem tô lidando...
-Não parece.
-Opa, por que eu deveria pensar diferente?
-Sei lá, eu gosto de ti também...
-Ai, e eu quero tanto essa nudez compartilhada...
-AH, JÁ É, GATA!
-Chega, tu não leva nada a sério! Nem sei por que insisto nessas DRs, se a gente nem é um casal...
-Claro que somos!
-Claro que tu só quer me comer!
(silêncio)
-Cara, teus medos são os mesmos que os meus... a diferença é que tu fala.
-Então por que tu não vê que eu quero tua transparência, outro tipo de nudez?
-Tô ficando confuso...
-Tu tá é saindo pela tangente, bem teu papel...
-Eu não sei o que há com a gente, mas é especial...
-E eu não caio mais nessa... me dá minha blusa dali, por gentileza.
-Por que tu ficou assim?
-Ah, porque eu sou uma idiota mesmo!
-Eu fico nu pra você!
(risos)
-Mas que piadista, hein? Tô boba com a tua lábia!
-Sempre quis ser comediante stand-up!
-E eu sempre quis entender por que vivo caindo nessa tua conversa furada.
-Talvez tu me ame, saca?
-Talvez eu te mate com a faca da cozinha, esconda o corpo e tu pare de se achar, saca?
-Não fala assim...
-Ah, para de me olhar desse jeito, caralho!
-Deixa ele fora dessa história, linda. Bora pedir uma pizza?




domingo, 13 de novembro de 2011

Nunca foi fofa

         As fotos não mentem: ela havia sido um bebê fofo. Nossa, que menina graciosa e dotada de movimentos angelicais: bochechas convidativas, olhares espertos, trejeitos açucarados para qualquer estranho. Esboços de palavras proferidos com o melhor da meiguice infantil. Uma lady do berçário. Fofa! Sem mais. Quem viu, corrobora.
         Porém, bastou uma passagem de tempo e lá se foi a fofura. Começava a era da obscuridade. A criança passou a falar com propriedade. E, falando, passou a presentear a família e os agregados com pérolas descabidas. Os pais imploravam por compaixão, para que fosse uma garotinha tímida como as outras. Que nada! A não fofa sabia que tinha uma missão a cumprir. Contava causos cabulosos em aniversários, piadas em casamentos, dava uns cascudos lendários nos primos menores - eternizados em filmagens dessas reuniões de parentes, aliás - fazia umas artes terríveis no quintal da sua infância e intrigava a todos com sua língua ferina, que, diga-se de passagem, a transformou em uma adolescente também desprovida de fofura. Inquieta, passou a opinar sobre qualquer coisa. A responder perguntas de forma atravessada e displicente, munindo-se de uma extasiante e particular maneira de ver a vida. Não tinha vergonha de falar com estranhos, nem sentia a face corar por qualquer ladainha. Nunca teve problemas em apresentar trabalhos no colégio, comprava briga com qualquer um que ousasse roubar do seu time. Era temida pelas coleguinhas. Não pela compleição física, e, sim, pela combinação explosiva de não fofura com declarações desconcertantes: “Não fala com ela, não. Ela grita! Outro dia, ela discutiu com a professora e chamou a coitada de Free Willy mal amado, essa esquisitona de uniforme!”
          O engraçado é que ela sempre foi fã inveterada de exemplares masculinos dotados de fofura em níveis estratosféricos. Daqueles que carregam violões nas costas e canções carregadas de simbolismo no inconsciente. Dos que leem para alimentar a existência e usam umas camisetinhas cretinas com dizeres apocalípticos. Dos fofos que insistem em não ser fofos, mas não conseguem esconder a fofura por muito tempo e deixam escorrê-la no canto dos olhos, justamente quando o mulherio está distraído - e só as observadoras a capturam no ar. Vai entender. Durante certo tempo, perguntou-se por que nunca fora fofa. Raios! Qual o segredo da fofura, que ela tanto desconhecia? Nunca foi fofa. Não sabia ser fofa. A arte de ser agridoce, dominava, ok. Mas a de ser fofa, putz... faltou a essa aula, certeza. Sofreu terrivelmente de amor ao longo dos agoniantes anos escolares, lógico, mas nem assim teve dias de fofa. Tratava de ler algum livro, conversar com algum amigo imaginário, escrever abobrinhas sacanas e não fofas em algum diário velho, para aplacar a dor. E até que passava. Nenhum gostosão mirim soube do buraco que provocou na alma da menina, ainda que sua paixão mal resolvida pelo artilheiro mais másculo da história dos jogos interséries ecoe até hoje por esses becos da vida colegial. E um pouquinho em suas lembranças casuais.
          No fundinho, não quer ser fofa. Ser dona de gestos cinderélicos e meigos e queridos e doces e engraçadinhos e zás? Ela não sabe. É estabanada, verborrágica, vive no mundo da lua, tropeça em qualquer coisa inanimada, senta no chão, fica elétrica e dispersiva quando apaixonada, ri alto e emudece pessoas que estão acostumadas só com as fofas - vulgo insossas de plantão. Será sempre uma não fofa incorrigível. Talvez só quisesse mesmo é ver como é o lado de lá, esse mundo da fofura que parece tão tentador e mágico - ao menos para ela, que ignora outro jeito de viver por aí.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Barraco? No, thanks

        Acho curioso quando flagro alguma pessoa dizer em alto e bom som: "Bla bla bla, ai, não levo desaforo para casa". Bom, acredito que "levar desaforo para casa" não seja o projeto de vida de ninguém nesse mundo - nem o meu - mas muito me impressiona o ar convencido que quase sempre sai junto de tais palavrinhas. Percebem? Para mim, é como se fosse uma declaração de amor indireta ao barraco - sonho de consumo dos que não conseguem ser notados por meios mais dignos.
         Disse que acho curioso? Menti, gente. Acho é pobre de espírito; Acho decadente; Acho pernóstico. Quando presencio uma afirmação desse tipo, creio que seja possível me ver salivando de ódio, olhando fixamente para o ser humano genérico e carente de argumentos, autor da frase-escândalo. Desconfio que tal desprezo seja pelo fato de eu tentar, sempre que possível, avaliar fatos e circunstâncias de maneira fria e analítica. É aquela velha mania de ser sensata, sabem? Mas sei que a coisa é mais profunda do que parece. Nada é tão simples quando falamos em pessoas.
         Sinto-me uma estrangeira em terra de baixo nível, porque entendo que brigar nunca é o melhor remédio - ainda que seja um esporte bastante praticado por aí. Ideias são mais úteis que gritos e afins. Sempre fui do time que procura fundamentar o que diz, em detrimento de sair aterrorizando a geral com frases feitas e pouca educação. E não pensem que eu tenho sangue de barata, por obséquio. O que ocorre é uma insistência em ver as coisas por ângulos diferentes, buscando enxergar o que ficou encoberto por ações impensadas, relativizando o que insiste em tomar dimensões desnecessárias. Não há nada de fraco nisso, anônimos da minha vida. Só os fortes entendem.
          É óbvio que já estive em situações desagradáveis em que precisei levantar a voz e "fazer a revoltada". Sim, já briguei um bocado nessa jornada, quando mais nova. Só que hoje percebo o quão medíocre é apelar sempre ao quebra-pau. Mediocridade essa, aliás, que talvez passe despercebida em meio ao glamour que é "discutir e fazer e acontecer uhul", vai saber. Na dúvida, sejam elegantes - que elegância é item em extinção nesse mundinho lixo. Se também forem lacônicos com uma pitadinha de sarcasmo, então, considerem-se mais agridoces do que imaginam.

Beijos

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre "De repente é amor"

         Muitos diretores de comédias românticas não se dão conta de que precisam de pouquíssimo para entreter o público e, de quebra, fazê-lo acreditar em amores fulminantes e verdadeiros. Nadando contra essa maré de desavisados, Nigel Cole conseguiu fazer "De repente é amor", filme que, além de barato - obviamente, em se tratando de orçamentos hollywoodianos - envolve e faz rir, amparado por um roteiro que prima, brilhantemente, pela casualidade - item que mexe com os corações, desde que o mundo é mundo.
         O mote da história é o encontro inusitado de Oliver Martin e Emily Friehl - respectivamente interpretados por Ashton Kutcher e Amanda Peet - que, em um voo de Los Angeles a Nova York, acabam tendo um envolvimento totalmente nonsense que irá uni-los sempre dali em diante. Claro, nosso casal de mutantes passa por muitos desencontros até se dar conta de que a ficada em pleno avião foi para valer: é curioso como os obstáculos que se opõem à consolidação da união não são criados por crises existenciais deles e melodrama sem fim, mas, sim, por contingências terríveis da vida de cada um. Os dois são uma espécie de tutores relapsos desse amor - que nasceu, petulante e certeiro quando os olhos se bateram, e, no entanto, não foi considerado como tal, por puro capricho. Por pura distração, quem sabe.
         A sinopse acompanha os 7 anos, em que Oliver e Emily enovelam-se a ponto de não poderem voltar atrás: em dado momento, é como se ambos colocassem a mão na cabeça e repetissem à exaustão o quanto estão ligados, o quanto se conhecem, o quanto se divertem na companhia um do outro. Trata-se de uma teia muito suave, que costura detalhes e boa música, em sequências leves e divertidas, fazendo a gente refletir sobre isso que chamam de "acaso". Há boatos de que Brighter than sunshine seja a grande causa de anestesia em seres do sexo feminino, enquanto assistem à trama do Nigel - mas não mais que o Kutcher dedilhando desajeitadamente I'll be there for you na guitarra para a mocinha, é bom deixar claro. Em qualquer dos casos, é convite para sonoros ãããããins, seguidos de paixonite incurável.
          A química dos dois é inegável e convida a adoráveis sonhos à noite. Porque o filme, meus caros, nada mais é que isso: uma delícia que faz qualquer um sonhar e se perguntar se é possível tanta coincidência nessa droga de vidinha - apesar de todos os clichês possíveis e já conhecidos. Não são todos os filmes do gênero que me arrebatam, ainda que eu seja uma entusiasta de casais fofinhos do cinema e de suas historinhas água com açúcar. Todavia, há um quê a mais nesse amontoado de cenas bobinhas, recheadas com o melhor do previsível, que faz com que eu volte a ter 13 anos. Não sei, talvez algo sem nome.


                                            #ChicagoFeelings

sábado, 5 de novembro de 2011

Expectativa, sua criada

         Você convive com ela, desde que se conhece por gente. Penetrante e manipuladora, a tal corrompe suas noites de sono sem pestanejar: basta um segundo de distração e já levou sua paz. Às vezes, você tenta não entrar no seu joguinho, se fazer de difícil, continuar cuidadoso e fingir esperteza. Ledo engano, my dear! Nesse momento, ela surge, triunfante, e anuncia ter tomado para si até sua alma. A denominação da cascavel? Expectativa, sua criada.
          Expectativa! Expectativa! Expectativa!! Expectativa, como deve ser do conhecimento de todos, vem do vocábulo espera. Eu espero, tu esperas, ele espera... esperamos pelo que, afinal? Por quem? Não se sabe ao certo, mas é fato que aguardamos, ansiosos, por algo que se perde no horizonte. Queremos essa coisa que insiste em escorrer pelas mãos, esse alguém, cujo endereço sumiu do mapa, essa manchete de jornal que não tem jeito de ser noticiada. Espera-se de maneira insana e doente. A expectativa está impregnada nas roupas, nos trechos de músicas, nos passeios desesperados de sábado, nos pesadelos súbitos, no soluço bandido a convulsionar a fala. É tortura sem fim.
         Você conheceu um cara interessantíssimo na locadora e espera que ele não seja casado; Você espera que aquela garota por quem se apaixonou não seja uma vadia graduada; Você espera que o presenteiem com educação e sinceridade do mesmo jeito que faz com os outros; Você espera que seu time não saia nas oitavas de final do campeonato para o maior rival; Você espera sol e bandeira verde naquele fim de semana no litoral. Que praga, hein? Expectativa é câncer desgraçado, cujo estágio terminal atende pelo nome de decepção – que é quando já nos encontramos agonizando, sufocados por nós na garganta, traídos pelas impressões mentirosas e sendo mastigados por dores existenciais terríveis. É muito difícil fugir desse saldo. Tô errada, agridoces?
         Claro, sobreviver é de praxe: ninguém morre de síndrome da expectativa frustrada com complicação no mediastino. Sempre fazemos pouco caso do estrago e logo já estamos serelepes, outra vez, nos agarrando a alguma nova ilusão para preencher os dias modorrentos. Porém, imagino que, mesmo com toda essa necessidade instintiva de (re)acreditar, o desafio maior seja o de tentar esperar pelo nada: um branco total no pensamento, sem martírios e cobranças. Aposto que, dessa maneira, as chances de lucro serão, além de maiores, muito mais reais. Só me digam qual o caminho para isso, por gentileza.


      

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A liberdade e o Sete de Setembro

         A gente enche a boca para dizer que é livre, que exerce o livre arbítrio do jeito que bem entende e tal. Balela! Por gentileza, se existir no mundo alguém que faça só o que realmente quiser, me apresente. Longe de mim duvidar da palavra de algum romântico por aí, que acredita que é possível levar a essência das vontades ao pé da letra, mas não posso evitar o espanto, uma vez que a gente se importa, sim, muito com a opinião alheia ainda. Tem de ser dito e assumido: somos uma espécie de eternos serviçais, prontos a agradar a terceiros, nos lixando para o que queremos de verdade.
         Parece muita pretensão eu querer falar por todo mundo, mas estou convicta de que se trata de um “mal” que acomete mó galera nas redondezas. Claro, não chega a deixar a geral prostrada numa cama, sem ter forças para nada, mas o fato é que incomoda, né? Confessem aí, que vivem pensando no que devem ou não fazer, em como devem ou não agir. Eu, ao menos, sou uns 68,23% assim. Gasto boa parte da vida, maquinando sobre qual será a decisão acertada para todos os meus dilemas. Será que eu pergunto por que aquela criatura é tão irritante e parece fazer questão de ser nas horas mais impróprias? Devo tomar a iniciativa em relação a ele, afinal amo aquele par de olhos azuis desaforados, desde que o mundo é mundo? Ponho aquele vestido amarelo, mesmo correndo o risco de ser confundida com uma gema ambulante? Falo para a moça que ela acaba de dar o meu troco errado, além de ter colocado sal no meu café? Esquece, eu curto um exotismo culinário. Quem já não se viu diante de pequenas dúvidas parecidas com essas? E mais, se perguntando o que os outros iriam pensar a seu respeito depois de tomar essa ou aquela atitude? Olha, aposto que o número é alto. E não condeno também, pois sei que é sintomático do mundo anormal que habitamos. Salve!
         Estava eu, dia desses, assistindo a uma reportagem de moda, em que uma consultora da área dava dicas aos telespectadores de como vestirem-se bem, e isso aguçou minha reflexão, uma vez que já passei pelo exercício irritante de escolher determinada peça de roupa e acabar desistindo de usá-la, pelo fato de não ser algo totalmente dentro do padrão do que se convencionou chamar de bonito. Não estou subestimando - é bom deixar claro - o profissionalismo da moça convidada a opinar e tal, mas muito me impressionou o fato de darmos mais crédito a esses profissionais que a nossa vontade genuína de vestir o trapo que der na telha, mesmo sob pena de passar por desatualizados, cafonas, alienados e sei lá mais o quê. Eu gosto de me vestir bem. A vizinha também. Você, certamente, não abre mão. Mas, sinceramente, não dá para se denominar cheio de personalidade, livre, se, a cada nova moda lançada pela protagonista da novela das oito, lá estamos nós, ávidos por adquirir tudo que aparece na televisão. Que raio de liberdade é essa?
          Enfim, o case da moça doutorada em bom gosto me pareceu um bom referencial de discussão. Queria ser uma mosquinha, só para ver quantas criaturas ficaram em frente ao vídeo, desesperadas por não deixar passar nenhuma informação e depois - creio eu - vestir roupas pouco condizentes com sua personalidade e biótipo - tudo pela conquista do suprassumo fashion. Isso vale para tudo na vida, não somente em relação ao guarda-roupa e às ações cotidianas. Penso que trair o que soluça dentro de nós é mesquinho demais. Nem que provoque taquicardia e estômago embrulhado, é preciso falar, agir, gritar, se declarar, chorar, rir com gosto. E, principalmente, usar o vestido amarelo. No desfile de Sete de Setembro. rs

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Nós, os humanos

         Nessa era obscura em que redes sociais nos intimam, de maneira irritante, a definir o que somos, o exercício da descrição chega a ser uma parábola para mim. Acho um saco essas tentativas de definição, além de preguiçosas e inúteis. Penso que a gente nunca é uma coisa só. Tentamos ser cúmplices de nós mesmos, mas muitas vezes ficamos reféns das circunstâncias. Escapamos, ilesos, ainda que meio desorientados, habitando um universo à parte, e torcendo por compreensão alheia. Somos pedaços, somos impressões, somos insuportáveis para quem não nos conhece - e mais ainda para quem nos acompanha desde sempre. Somos aquilo que, como diria a Marthinha da elite, ninguém vê.
         Ainda que o fato de falar disso provoque meus olhares desconfiados, me sinto profundamente intrigada: trata-se de um grande mistério da humanidade, hein? Os dogmas da igreja católica ficariam no chinelo, se comparados com o que nós, os humanos, trazemos na cabeça, no coração, arraigado na vida toda, nas relações pessoais e afins. Quando falamos que somos complicados, não estamos fazendo charminho: talvez até estejamos sendo econômicos na afirmação. É uma complicação meio instintiva, não há nada de maquiavélico na coisa. Somos milhões de issos, trajando um bonézinho com um ponto de interrogação. E será assim por mais um zilhão de anos.
         Quantos de nós já não deitaram a cabecinha no travesseiro, à noite, e sentiram o cérebro fritar à procura de certezas, respostas, terra firme para poder pisar? Acontece com todos, somos brothers de jornada e de experiências que se cruzam. Uns mais discretos, outros mais efusivos, mas igualmente viajantes do mesmo barco. Tentar definir é perda de tempo, só provoca sofrimento. Você ama andar de montanha-russa, mas padece de medo irracional de avião. Detesta demonstrações de imaturidade, mas só dorme de luz acesa. Ninguém é totalmente mau, totalmente diplomático, totalmente altruísta - há vãos na personalidade de cada um que dispensam rótulos e permanecerão assustando, conquistando, repelindo e acorrentando quem estiver pelo caminho.
          Somos tudo e nada. Somos a lascívia do rock n' roll e a candura da bossa nova. Somos doces e azedos. Somos meio psicólogos, meio médicos, meio feiticeiros, meio boêmios, meio poetas, meio Mae Wests e Al Capones. Nunca é uma coisa só. Cada um tem seu ponto fraco, seu baú de dores, seu sorriso secreto, seu espetáculo ensaiado. Nós, os humanos, somos assim, porque somos. Porque a vida nos fez assim. Ou porque os sonhos não deram certo. Ou porque apanhamos tanto que perdemos a capacidade de acreditar em dias melhores. Ninguém sabe ao certo, nem eu. Somos o que somos, porque, no fundinho, há razões para isso... mas aí já é outra história.




segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sobre "Ratatouille"

           Já deveria ter escrito algo a respeito de Ratatouille e esse fascínio que causa em mim, mas só hoje levei o impulso adiante. Pois então, digo que ele é uma delícia, é uma lição de vida, é uma graça, é charmoso, é inteligente, é bem roteirizado, é mais que uma animação e muito mais que um filme "de bichinho" para distrair numa tarde chuvosa. Quando a ótima Isabela Boscov afirma que se trata de “uma odisséia com um rato”, não há exagero: há um fato irrefutável. Rémy e suas peraltices com os ingredientes são um soco filosófico na boca do estômago, seguido de recuperação lenta. Muito lenta.
           Não sei se vocês já viram, gostaram ou tiveram vontade de jogar o DVD no lixo, após os créditos aparecerem na TV. Só penso que, se houver ainda um pouquinho de sonho latejando em vossos corações, será impossível não se envolver com a saga do tal Rémy na busca de vencer na Paris dos grandes chefs. Tudo é tão bem arquitetado, que - como também diria a crítica de cinema – não se consegue achar estranho um rato dentro de uma cozinha. Bom, falo por mim: não achei estranho, achei lindo. Tive vontade de ninar aquele adorável roedor, proveniente do submundo do esgoto parisiense, e adotá-lo como meu amigo, meu filho, meu chef particular. Impossível não amar.
           Ainda que eu seja louca da vida por desenhos, confesso não gostar muito de filmes com essa temática. Porém, sempre há as exceções. E essa história despretensiosa e meio amalucada sobre um ratinho simpático que deseja cozinhar e ser feliz me fez sentir ternura profunda. Nem falemos da trilha sonora, que é igualmente uma delícia, assim como todo o encadeamento de ideias – um prato cheio para quem gosta da sempre aconchegante música francesa. Enfim, há uma química muito particular em toda a sequência e em seus núcleos paralelos, que contam com mistérios sobre paternidade, amor que nasce entre colegas de trabalho e um crítico gastronômico amargurado, cuja alegria parece ser infernizar a vida alheia. Emoções fortes, meus caros, só digo isso.
            O fato é que o filme ensina. É humano e extremamente feliz no seu propósito de mostrar como as coisas podem ser possíveis e em como perdemos tempo, achando que não vamos conseguir. Basta aparecer essa figurinha genial, meio vesga e cheia de si, bolando mil estratégias, a fim de realizar o desejo que move sua singela existência, para nos deixar com a cara no chão. Sem falar na espécie de admiração irresistível que ocorre pela trama e vontade de vencer a qualquer custo, tal qual o cozinheirinho fã de queijo, assim que o fim invade a tela. E pensar que eu, há três anos, ia devolver essa epopeia à locadora, sem assistir? Bendita hora em que eu extrapolei o prazo de devolução e fui obrigada a pagar mais uma diária.


        






terça-feira, 18 de outubro de 2011

Sobre pensamentos e rosquinhas

       O cérebro, esse artista, faz gato e sapato de nós. Ok, ele pode. Se houvesse uma hierarquia no corpo humano, eu diria que ele é a última bolacha do pacote mesmo. Possui a racionalidade que falta ao coração e é a morada das grandes sacadas. É bem verdade que muita gente por aí anda negligenciando o coitado, se negando a utilizá-lo, mas, ainda assim, outorgo que ele é o fodão. Seu único problema é separar os pensamentos mais corrosivos para os momentos mais impróprios. Impossível fugir do susto. Pensou? Dançou, meu amigo. Digeriu? Vai ter úlcera, vai somatizar, sim. As lágrimas vão cair. O drama vai nascer tímido, mas, ainda assim, dono de si, invadindo seus ossos e seu semblante e convidando a uma deliciosa DR com você mesmo - ou, vá lá, seu alter ego.
       Você está lá, quietinho (a) na sua, varrendo seu quarto, ajeitando sua escrivaninha das escritas insones, quando, de repente, uma música tocando no rádio é o passaporte para um divã silencioso e leviano. Nesse instante, os acordes têm gosto, cheiro, sensações levemente ressuscitadas e o levam a lugares já deixados, onde as imagens encontram-se inertes, em preto e branco. Seu olhar escapa até a maçaneta da porta, meio perdido, buscando sair daquele inferninho, mas, adivinhem, já tomou conta. Pensou, dançou. É assim. Não adianta tentar trocar de estação ou fingir indiferença: você vai ruminar a respeito por semanas. Talvez meses. Ou anos, nunca se sabe até onde sua mente desgraçada pode ir. Boa viagem! Se conseguir voltar, traga umas rosquinhas da padaria - mas não antes de engolir esse choro, a propósito.
        E agora o que fazer? Os pensamentos comandam os instintos, que comandam as ações e não há nada animador com que presentear o mundo: olhos vagos e com pupilas questionadoras e ressabiadas. Sorriso forçado e coadjuvante. Fala pausada e meramente protocolar. Justo hoje que você precisava parecer a mais feliz das criaturas? Não é uma coisa grata, até parece pegadinha. O que fazer com o turbilhão de emoções que insiste em sair de casa? Como reagir diante desse emaranhado de impressões cheirando à pólvora? Esqueça de esquecer, não vai passar tão fácil. Siga no piloto automático, agonizando sozinho, sem companhia, até se sentir adulto novamente. Ou melhor, tente ignorar o fel escorrendo no canto da boca e apreciar as rosquinhas. Açúcar sempre é uma boa pedida.
 

domingo, 16 de outubro de 2011

Focas

         Sempre quis escrever a respeito de estudantes de jornalismo e seus variados perfis. Na maior cara de pau leiga que eu tenho, considero isso um achado da análise comportamental. Sejamos francos: ainda que se busquem profissionais-dínamos-com-super-poderes-e-que-amem-todas-as-mídias, não há como abraçar tudo, não acham? Eu acho.
         Se não fui xingada até agora, creio que vamos inaugurar os trabalhos com esse post. É bem verdade que, hoje em dia, com toda essa selva louca e coleguinhas muy amigos e prontos para puxar nosso tapete, devemos nos blindar e tentar aprender o máximo que pudermos, enquanto meras testemunhas do mágico mundo acadêmico - aqui entram leituras, reflexões e, óbvio, a prática. Sei que o conhecimento jornalístico em todos os âmbitos é o básico para quem almeja sucesso profissional na área, mas, ainda assim, terei que discordar de quem enche a boca para dizer que ve-ne-ra tudo que é inerente a essa confraria de doidos. Se você topar com alguém assim, no mínimo, trata-se de um lunático. Sério.
         Não há como enganar quem está ao redor. No fundo dos olhos de cada projetinho de repórter, é possível notar se "sicrano quer só aparecer na TV", "não entende patavina de texto" ou "é mais alienado que uma criança de três anos". E nessa perigosa ação de elencar interesses, observo detalhes instigantes dos tais focas. Há aqueles muito técnicos e pouco fervilhantes; Há aqueles nascidos para a docência. Há os de mercado, eternos compulsivos por café e por manchetes; Há aqueles, cujo caráter inexiste - acontece; Há os da espécie Chatus Braziliensis, burocráticos e perfeitos para as corporações - esses enfrentam o exército de um czar pela empresa; Há os ingênuos, fãs de O Pasquim e que acham (ainda!) que vão mudar o mundo e fazer la revolución; Enfim...
         O jornalismo é contraditório, atordoa seus neurônios, aniquila os sonhos um por um, faz chantagem emocional e paga muito pouco. Mas ainda assim, é fascinante, reconheço. Sinceramente, acho que nem todos são dignos de sua natureza. Talvez nem eu seja - quem me garante que eu não frequentei o prédio errado da faculdade, durante todos esses dias? Bom, se eu achar um Muro de Berlim sendo derrubado outra vez, faço um post mais amorzinho e mudo de opinião.


                          Focas in love? Só no mundo animal, meu caro.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Desencontros Drummondianos

        Cazalberto tinha uma queda por Ana Banana, que arrastava um caminhão por Zé Ruela, que era gamado por Mariazinha, que era louca da vida por Fulano De Tal, que dava uns pega na Branca de Neve.
        Cazalberto passou no vestibular e foi morar no raio que o parta, Ana Banana entrou para um convento no interior de Minas, Zé Ruela casou e teve 13726 filhos, Mariazinha cansou de esperar pelo príncipe e virou uma piranha com P maiúsculo, Fulano De Tal morreu de cirrose hepática, e a Branca de Neve... bom, a Branca voltou para os sete anões, que era mais negócio.
        Já dizia Vinicius: “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida...”



quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Se o Nando foi lá e fez...

          Já ouviram falar do avião que caiu, há exatos 39 anos, no meio da gélida cadeia de montanhas andinas, em um episódio que transcendeu o campo da fatalidade e virou, praticamente, uma lenda? Eu já. E conto a vocês que essa história mexe comigo de uma maneira que nem sei explicar. Me lembro de ter visto, muito novinha, algo na TV a respeito, e depois, mais velha, seguir o faro natural de quem se recusa a ficar só com as manchetes e as metades. Enfim, tratei de investigar e matar minha curiosidade pela raiz.
          Fiquei vidrada. A saga do tal time de rugby uruguaio, na tentativa de vencer a cordilheira e voltar à vida foi algo com que, honestamente, me solidarizei, principalmente, quando percebi o quão improvável era escapar daquele inferno gelado. Li, há três anos, a narração comprometida de Fernando Parrado - um dos sobreviventes da tragédia e figura fundamental no processo de resgate - sobre o episódio em questão, em um livro arrebatador e cru. A obra, intitulada "Milagre nos Andes", antes de qualquer coisa trata-se de uma homenagem muito digna aos envolvidos, que se viram obrigados a conviver com a morte rondando soberana e com os cadáveres dos colegas sobre a neve, durante 72 dias. Todos incomunicáveis, a esmo, sem comida e feridos de resignação mortal - uma vez que as buscas pelos destroços da fuselagem foram encerradas, cerca de uma semana após o ocorrido. Penso que seria fácil enlouquecer, não acham?
          O fato é que, ignorando a loucura que se mostrava iminente e caminhava a passos largos, Parrado desbravou os Andes e rascunhou a própria sorte, contando, é claro, com a ajuda agregadora de Roberto Canessa - também sobrevivente e estudante de medicina, na época. Sempre que me recordo dessa mítica novela no meio do nada, é impossível não ficar maravilhada, apesar de todo o drama. Se o Nando foi lá e fez, quem sou eu para desistir?






quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Guardem segredo

         Não sou muito partidária de fazer posts temáticos. Sabem? Dia daquilo, dia daquele outro... acho pouco original, sem falar que, para mim, dia do ser humano é todo dia. Sempre é válido homenagear anônimos, conhecidos, amigos e afins pela diferença que fazem em nossas vidas. Mas abro exceções, lógico, não sou inflexível - na real, o que trago na caixa torácica é manteiga derretida pura - por isso, em virtude da data alusiva aos pequenos, resolvi falar um pouco sobre o universo das crianças.
         Mas, peraí, esqueçam questões pragmáticas e de cunho elucidativo. Vim falar mesmo é sobre meu período de criança. Eu sei que acontece com vocês do mesmo jeito: basta relembrar a fase em que só estudávamos, olhávamos desenhos incríveis na TV, fazíamos umas artes medonhas e não víamos a hora de crescermos, para as lágrimas ensaiarem uma descida básica pelo rosto. Falando nisso, por que diabos nos tornamos "grandes"? Grande porcaria essa que nos aguardava, né, não? Se soubéssemos o tamanho da encrenca pela qual pedíamos, ávidos, com certeza daríamos um jeito de calar a boca e trazer mais gente para brincar de esconde-esconde, com direito ao mico clássico de fim dos trabalhos - mães gritando, esbaforidas, para a galera mirim entrar pro banho ou a casa ia cair.
          Claro, sei que nem todos tiveram a sorte de viver uma fase bacana, regada a estripulias, brinquedos e poucas preocupações. Infelizmente, há muitas crianças por aí, vivendo como adultos, perdendo a essência cada vez mais cedo e sendo tragadas pelos vícios, pelo trabalho escravo, pela prostituição e pela própria miséria existencial - que trapaceia a todos sem dó nem piedade. Sei disso e lamento, pois tive o privilégio de ser uma cria, na mais correta acepção da palavra: cozinhei pratos magistrais no meu fogãozinho de sucata, customizei modelitos baphônicos para as minhas barbies lindas (modéstia à parte, eu daria uma baita estilista. rs), ralei os joelhos milhares de vezes, ao bancar a atleta de interséries, escalei árvores bem ao estilo Amyr Klink de ser, entre outras façanhas que eu guardo como relíquias pessoais.
           Não sei por vocês, mas eu sigo disciplinada, cultivando alguns hábitos tidos como infantis. Dou muita risada fora de hora, leio meus gibis bestas da Turma da Mônica, assisto aos meus personagens preferidos até enjoar, além de procurar, sempre que possível, emprestar um olhar mais doce às coisas que eu presencio por aí - tudo para não endurecer de vez nesse mundinho, vulgo "selva". No fundo, acho que nunca cresci. Guardem segredo: tô é fingindo, todos os dias, que não quero sair correndo atrás da minha casa na árvore imaginária.

                             Em algum bailinho de carnaval dos anos 90

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Pedaços de carne

          "O mundo está ao contrário, e ninguém reparou." Inicio o post de hoje com esse clichezão proveniente da caixola genial de Sir Nando Reis, pois, realmente, no momento, não vejo frase mais cabal para ilustrar o amontoado de pensamentos que acamparam em mim. Eu sei, o mundo e as pessoas são o que são - esse nada flutuante acontecendo em meio a esse lapso de tempo que ninguém consegue assimilar direito - mas certas coisas ainda fogem a minha compreensão. Não adianta, não entram na cabeça. Vejamos... no campo dos relacionamentos, por exemplo.
           Não entendo uma pessoa estar com uma outra pessoa, olhar todo dia bem nos olhos dela, deixar trocentas declarações - de amor questionável, by the way - em redes e etc, e chifrá-la como se não houvesse amanhã com o primeiro (a) que aparece louco por um sexo selvagem. Não entendo. Como diria a sempre sensata Martha, deve ser medo de intimidade - estado que abrange muito mais que uma noitada vazia. A geral clama tanto por caráter e dignidade, mas perde-se, justamente, quando tem de fazer o dever de casa: respeitar e cuidar quem está ao lado. O que mais me incomoda nesse comportamento é essa necessidade de ir atrás de pensamentos genéricos. Ou seja, se você foi passado para trás, o negócio é dar o troco. Se levou um pé, deve catar desesperadamente um novo substituto. E logo, a propósito, já que ninguém pode saber que existia verdade em seu coraçãozinho espezinhado. Não pega bem admitir que você é um ET que (ainda!) se importa com os sentimentos alheios, nesse planeta que só bonifica quem é malandruxo e sacaneia quem vier pela frente.
            O fato é que não estou aqui tentando difundir a moral e os bons costumes, apenas trazendo à tona essa promiscuidade nas relações humanas com que - ao meu ver - devemos nos habituar, já que é o normal. Pelo que me parece, não há mais chance para amores brotarem honestamente, conquistarmos pessoas pelo que dizemos e pensamos, em detrimento do ângulo do decote, ou cultivarmos laços mais sólidos. É possível que a culpa seja das propagandas das festas com que somos bombardeados todos os dias, nos incitando a beijar móóóóito, beber até vomitar, trepar com o primeiro panaca que fizer um elogio e etc. Mas e se for uma epidemia de falta de personalidade? O raciocínio é lógico: se não tem nada a oferecer além de aparência, um agitozinho superficial está de bom tamanho. Qual é, povo? Princípios vêm antes de qualquer opinião de amigo (a), letra escrota de sertanejo ou tendências ridículas dessa sociedade de alienados. Ou se tem ou não se tem.
             Não há como falar do assunto, sem parecer um tanto antiquada. Imaginem o que quiserem, só sei que precisava falar de como me enoja o fato de pessoas tratarem umas às outras como meros "pedaços de carne". Quanto mais, melhor. Se não está da maneira desejada, joga-se fora. Penso que continuar colocando sentimentos nobres para rodar nessa ciranda-cirandinha do mal é a maior furada. O jeito é aprender a viver, esperando pela deslealdade, pela decepção e por tudo de ruim que seres humanos sabem fazer - e fazem bem. Só deixo um questionamento: quando foi que esse estágio irreversível de mediocridade aguda se instalou entre nós mesmo?
  

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Da série: diálogos agridoces

MOONLIGHT SERENADE

- Quero ficar com esse teu moletom puído hoje. Me dá? Me dá?
- Mas por quê?
- Porque eu não posso te acorrentar aqui comigo, então quero, ao menos, um souvenir... para atravessar os dias longos que vêm por aí.
- Adoro teu senso de humor trash.
- E eu adoro a tua combinação de barba milimetricamente mal feita mais moletom mezzo adolescente/mezzo adulto, fazendo um estrago desgraçado nas minhas retinas.
- Vou ficar mal acostumado com tantos elogios.
- Tu merece. Ou melhor, não merece, mas quem decide sou eu.. cala a boca e tira a droga do moletom.
- Chega de brincadeira. Eu preciso ir...
- Vai, mas deixa o fofinho do capuz. Enfim, se não quiser se desfazer dessa peça de roupa, que tem estranhos poderes sobre mim, aliás, a ideia do acorrentamento ainda segue atazanando meus instintos... que tal?
- Não dá. A gente precisa voltar para o mundo real. Contingências diárias gritam lá fora.
- Droga! Jurei que poderíamos ficar por Neverland dessa vez...
- Hum, então quer ser minha Alice, tipo, para sempre?
- Quer parar de confundir Peter Pan com Alice no País das Maravilhas e me beijar, tipo, para sempre? Não levo mais fé nos teus papos sobre eternidade.
- Mas me intimou a te beijar até o fim dos tempos. Sabia que eu também adoro tuas contradições?
- Uma hora tudo vai acabar. Sempre acaba.
- O quê? Tuas contradições?
- Não, o beijo, tuas declarações e Moonlight Serenade, que tá tocando ali naquela salinha de espera e me lembra do dia em que nos conhecemos. Quanto às minhas incoerências... poxa, te fizeram vir até mim, não quero mudar.
- Peraí, que papo é esse de Moonlight Serenade? Tu nunca me falou disso.
- Por que será? Glenn Miller, certamente, se reviraria no túmulo, quando eu te contasse e tu debochasse do meu romantismo barato de guria da década de 40.
- Esqueceu que eu curto Coltrane e Chet Baker? É linda.
(silêncio)
- Eu ou a música?
- A música, mina! Tu é irritante... ainda mais com esse arzinho de quem tá certa que vai ficar com meu moletom preferido.
- Viu? Se ficássemos presos a correntes, seria mais fácil.
- Fácil de te matar, né?
- Sabe, a intensidade do som do sax nos meus ouvidos é diretamente proporcional à paixão com que eu te observo no momento.
- Vai contar ou não o motivo da lembrança?
- Óbvio que não. Se não, a magia toda se esvai.
- Gracinha!
- Ah, sei lá, a composição é velha. Vai ver é porque eu teimo em acreditar que nosso lance é de muito tempo atrás. Mistérios...
- Tá, tu é linda também. E prolixa como ninguém...
- Ih, acho que tu perdeu o avião, meu amor. Não precisarei mais apelar para medidas carcerárias.


domingo, 2 de outubro de 2011

Por Dios, madrecita!

          E eis que ficou com cara de nada olhando para a porta da redação barulhenta do jornal, onde, geralmente, escrevia seus poemas secretos. Foi rápido, mas, de repente, já não estava mais ali. Malagueña Salerosa tocava distante, ainda que claramente audível. Foi aí que tudo fez sentido. Descobriu estar trajando um vestido preto, dono uma generosa fenda, carregar uma flor vermelha entre os cabelos revoltos e negros e estar sendo embalada por um gentil cavalheiro, cujas feições brincavam com seu discernimento - não sabia de quem se tratava, mas até que funcionavam bem juntos. Ele dançava com ela, que dançava com os olhos amendoados e promissores dele. Havia uma plateia de curiosos em volta, mas já estavam de partida. Daqui a pouco, ali, seriam só aqueles petulantes e a luz como cúmplice. A música parecia não ter fim, o momento pedia para ser congelado - poucos merecem ser eternos nessa vida, e aquele precisava.
          A letra, ainda que contasse o lamento de um amor fadado ao insucesso, inundava de alegria dois corações. Tais corações, perdidos no labirinto um do outro e naquela melodia hispânica incandescente e fascinante. Talvez estivessem em Málaga ou em um lugar sem nome, que só existisse para eles. Olhou para o lado e teve um sobressalto: o moço dos movimentos habilidosos fugira. O olhar, de imediato, o procurou por entre os rostos estranhos e os feixes de loucura ainda imponentes na multidão. Busca infrutífera. Queria mais um pouco dele. Queria girar sincronizada outra vez. Recuou num querer fingido que gritava o contrário e pedia por acordes mais reveladores. Até que as mãos colaram-se novamente, era tudo verdade. A canção sedutora tocou para sempre. Contudo, o fulgor não impediu o regresso, emburrado, à sala apática de outrora. Por Dios, madrecita! Tô atrasada para fazer a entrevista! - gritou, entre gravadores e leads raivosos.

domingo, 25 de setembro de 2011

S.O.S

         As artes não resolvem nada, mas são um baita consolo. Eu acho. Tô sempre à procura de uma música que traduza meus lapsos bipolares, uma citação de livro que acalme minha errância sem fim, uma cena de filme que faça o riso jorrar apenas para mim e sem cúmplices. Trata-se de uma busca meio arraigada, já que a vida real anda cada vez mais sem graça. Ainda que não traga grandes mudanças, sacia um pouco da vontade de sarar alguns machucados existenciais que - não sejam tolinhos - permanecem tatuados na alma, na pele, na vivência toda.
         Em relação aos livros, um quê hiperativo tem roubado minha atenção. Tô às voltas com uns exemplares burocráticos e técnicos - devido à produção do enrolation acadêmico clássico dos que desejam findar a graduação (Sim, TCC! Um Suflair para quem desvendou meu eufemismo malcriado) - mas louca da vida para ler outras coisas mais bestas e menos casadas com o ideal de difundir teorias sociais e humanas. Não que sejam ruins, mas, sabem? Não é o momento. Erramos de caminho. Talvez eu esteja atrás de algo que nunca foi escrito. Ou ande procurando nas bibliotecas erradas...
         Bendita hora em que dei uma chance à saga de Jean Valjean e sua trupe francesa, assim, sem esperar quase nada. Sei lá, a vibe era boa, nosso encontro foi providencial, achei tudo encantador e me apaixonei pela história - fato este que nos leva a uma percepção mais profunda: só daremos valor ao que lermos, se estivermos receptivos a tal. No caso do romance do Victor Hugo, houve química. Só isso. Não criei grandes expectativas, contudo, até hoje sinto saudades daquela sensação de supresa grata e vento fresco tocando o rosto e colocando tudo no seu devido lugar. Tempo bom. Leitura enternecedora.
         Acontece seguidamente. Vem um pensamento solto, que não tem nada a ver com nada, e sou flagrada por mim mesma num jogo de palavras que pergunta quem poderia explicar tantas teorias infundadas. Carpinejar mostra-se solícito. Gabito foi uma recente e extasiante descoberta. Tentei reler Kundera, mas não tô com saco para triângulo amoroso - ainda mais, passado no insosso Leste Europeu. Enfim, desejo ler algo que me defina nem que seja por um minuto. Quero me agarrar às páginas eleitas, para depois, eufórica, comentar com alguém que era exatamente aquilo que meus olhos precisavam testemunhar. Pode até ser preguiça de continuar erguendo a voz para quem não quer escutar, mas preciso mesmo é de uma gentileza literária que fale por mim e me faça sorrir, serena, diante desses dias que parecem ser todos iguais.
                      

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Plantão agridoce

          Dear God, e eu pensando que eu era a única agridoce que estufava o peito e assumia, sem nenhuma culpa, carregar genes docinhos e azedinhos no corpo? Momento Maysa Matarazzo: meu mundinho caiu. Há mais blogs agridoces na vizinhança, gente! Com algumas variantes, lógico, mas o adjetivo garanhão marca presença em mais páginas da web, sim, senhor. Seria eu uma fraude? Em instantes, no Globo Repórter. rs
          Não, não sou. Abomino cópias. Acho que não se pode fugir de inspiração - coisa bem diferente, aliás. A minha, no caso, brota de muita galera literária e casual por aí, mas o fato é que eu nunca seria ridícula a ponto de plagiar a ideia de outrem. Sou ridícula em outras situações, mas não, assim, ferindo meu orgulho leonino. rs // Gosto do que eu faço: ruim, bom, regular, meia-boca, whatever, mas prezo por originalidade e brio. Logo, se vocês virem algo parecido, sei lá eu, não pensem que eu me prestei a homenagear a pessoa em questão. Já expliquei por aqui como surgiu o título do meu bloguinho-filho-querido, né? Eu tenho passion por tal palavra, acho que a madame eufemiza muito dignamente isso que nós todos não conseguimos explicar direito dentro de nós: o anjinho e o diabinho atazanando os dois lados do cérebro. E ponto. Se tive o mesmo insight criativo de algum mortal por aí, o negócio é relativizar. Aqui, só tem bobagem fresquinha proveniente da minha caixola.
          É, o mimimi tá brabo! E eu, como sempre, tô me blindando com aquilo com que fui agraciada em doses cavalares: bom humor! Fiquei meio surpresa, ao constatar que já haviam utilizado a minha matéria-prima, mas, enfim, já virei a página. Só achei pertinente avisá-los. Acreditam que cheguei a flagrar em um blog-primo-distante, uma crônica de-li-cio-sa a respeito do Chico? Deixou a minha no chinelo, obviamente. Uma joia! http://dialetica.org/agridoce/2006/11/17/ora-o-chico-buarque-e-uma-farsa/

Ah, não desistam de mim! Não tô tão inspirada nesse setembro de postagens magras, mas nunca me esqueço de vocês.

Beijos

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

We'll always have Paris

         Não sabia por onde começar. Nem se devia começar. Bebericou mais um pouco do martini e, aproveitando que estava a anos-luz do território da dignidade, despejou várias palavras feridas e sem nexo no ar. No corredor onde todas as vozes tinham o mesmo tom, ergueu-se um eco de mágoa que se sobressaiu a quase crível harmonia. A intenção era clara e muito bem arquitetada: provocar dor igual ou maior que a sentida. Havia um quê de justiça insistindo em marcar presença naquele jantar dos corações espezinhados. Bebidas diversas para ressuscitar velhos silêncios que não se explicaram. Tortinhas de melancolia servidas para fazer qualquer um morrer de indigestão. Equações sem prova real, emoções à flor da pele, grande palhaçada sem freio.
          Era tanta lembrança que precisava ser exorcizada. Tanto papel que precisava ser jogado fora, tanto ponto que precisava honrar seu destino. Buscou um banheiro e ensaiou no espelho. Que bobeira, não havia nada que pudesse voltar. Verborragia gêmea do ridículo que nem o reflexo sujo na superfície merecia ouvir. O álcool barato no sangue e a sofreguidão arrematada nas pálpebras com sombra roxa eram o resumo do caos. Do ciúme que fazia todos os poros da pele berrarem em uníssono uma cantiga infernal de desabafo. Estava entregue a si mesma, buscando consolo numa das cenas finais de Casablanca, em que Rick diz a Ilsa que eles sempre terão o que os uniu uma vez. "We'll always have Paris". Frase linda e mentirosa a que se agarrava, já que o vazio parecia criar raízes - talvez ainda tivessem algo.
          Naquela fatídica hora, o viu comemorando, rindo meio com vergonha dos estranhos, fugindo discretamente dos chatos de plantão, sendo assediado pelos olhos femininos - deliciados em ver tamanha segurança. Não entendia como sabia ser incrivelmente magnético, ainda que parecesse ter vestido a primeira camiseta puída que achou no guarda-roupa. Ele tinha o dom. Ficou a lembrar como idealizou estar no mesmo momento, admirando aquele sorriso doce e cafajeste, sendo a namorada que lhe deu sorte, o amando quieta e sendo desejada pelos seus hormônios e pelas suas mãos de espírito juvenil. Ela havia sido, mas, agora, os soluços roubavam a cena. Choro patético de uma patética ainda apaixonada. Nem Humphrey Bogart, nem as taças do líquido vulgar, nem ninguém salvaria a madrugada. Contudo, eis que a porta daquele palco solitário se abriu. Teria sido o vento ou a personificação do monólogo que acabara de ser encenado para as paredes?








terça-feira, 13 de setembro de 2011

Antro dos potinhos verdes e rosas

         Certa vez, falei aqui que eu detestava ir ao super. Reitero a posição: tenho calafrios só de pensar em ir até lá, mesmo sabendo que é para comprar comida. Não gosto, tenho pânico, sempre dou de cara com algum conhecido, cuja fuça me dá vontade de vomitar, nunca encontro nada, acho tudo muito caro e vivo pagando micos. Tô para resolver isso num divã, me aguardem.
         Mas, se o mercado é meu calvário, as farmácias são a minha redenção. Não sei, deve haver algo que explique minha fascinação por todos aqueles produtos que marcam presença nas prateleiras, me incitando a torrar dinheiro em shampoos milagrosos, creminhos adoráveis pro cabelo - entre outros itens básicos da sobrevivência feminina - e também, é claro, nos esmaltes - anõezinhos coloridos que fazem meu coração pulular dentro do peito. Cara, aquilo ali é a minha Disney!
         Sou uma fresca, eu sei, mas o fato é que adoro esse universo da higiene pessoal - tanto que, hoje, ao lembrar que meu condicionador acabou, resolvi falar desse maravilhoso nicho do comércio para vocês, leitores dessa idiota que vos escreve. Na real, eu tinha tudo para ter pavor do lugar "farmácia", uma vez que abomino tomar remédios - moradores notórios de lá - e fui uma assídua visitante do recinto, por conta das injeções que tomava, quando criança, devido às amigdalites ferozes. Vai saber, ficou só o amor...
         Se eu estiver perto de alguma, é certeza que vou adentrar e ficar xeretando. Não resisto, sempre levo alguma coisinha. Uma vitamina para um banho de creme (só mulheres entenderão!), um sabonete de bebê (sim!! quem mais usa?), uma acetona, um chicletinho Valda ou um 40º graus, da Colorama - a quem, aliás, já jurei amor eterno. Quando eu quero dar um up na vida, me jogo naquele antro dos potinhos verdes e rosas e não tem erro! rs

domingo, 11 de setembro de 2011

Da série: diálogos agridoces

IDEIA ESTÚPIDA

- Às vezes, é melhor dormir com a impressão mentirosa que perder o sono pensando na obviedade que fere.
- Não acho.
- Tem certeza?
- Não, não tenho, só queria te contrariar.
- Bem teu papel.
- E o teu é se iludir, não?
- Talvez. Mas não deixa de ser mais digno. Na minha ilusão, eu sou feliz e não machuco ninguém.
- Hum, captei o sarcasmo.
- Nada além do previsível. Lembra? Pra ti, eu sempre fui previsível.
- Quem sabe eu esteja arrependido.
- Quem sabe seja tarde demais.
- Pra dizer adeus ou pra dizer jamais?
- Incrível como "jamais" combina com a gente.
- Nossa, com isso eu concordo.
- Pra mim, tanto faz.
- O mesmo ceticismo barato de sempre...
- Por que eu mudaria?
- Porque é um hábito terrível.
- Pode até ser, mas não é o pior.
- Qual é o pior?
- Gostar de ti até os ossos.
- É sério?
- É, preciso parar com essa ideia nociva e estúpida de te querer mais que a mim mesma.
- Não vai conseguir.
- Como é que tu sabe?
- Tô vendo nos teus olhos...

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mea-culpa

           E não é que eu voltei àquela confraria de doidos, chamada Twitter? Até pensei aqui com meus botões: poxa, aí eu desço o pau em cima das redes e bla bla bla, e agora, volto com uma cara de gato de botas para um dos canais, outrora, humilhados? Credibilidade vai bem, obrigada. Não acho que eu deva satisfação a vocês – sejam quem forem – mas, enfim, vim fazer meu mea-culpa. Mais que tentar sair por cima, vou buscar refletir (mais uma vez)! Sigam-me os filhos pródigos.
           Confesso, senti falta. Das idiotices, de saber das notícias (?), de uns perfis ótimos que eu seguia e etc, pois, querendo ou não, aquela droga alucinógena pautava muitos dos assuntos do meu cotidiano. Isso é um fato para o qual não posso torcer o nariz, por mais pupila do Che que eu queira ser: faço parte desse mundinho intrigante da web e ficar à margem pode ser perigoso - ainda mais, sendo estudante da área já mencionada por aqui em outros posts. Não que estar dentro seja garantia de algum bônus também. Enfim. Mas não pensem, meus caros, que o caminho da volta foi imune a crises de consciência e martírio existencial: tive colapsos medonhos até me dar o direito de regressar. rs (#DramaQueen) // Eu tinha uma palavra a zelar. Uma escolha para sustentar. Ninguém quer ser tachado de volúvel, não é mesmo? Nem a agridoce, que falou mal, mas agora encontra-se lá, super fútil e feliz da vida, falando merda para quem quiser ler.
           Ainda tô meio ressabiada, lógico, no entanto, a moral da história é o exercício de se permitir um olhar diferente, mesmo com todas as convicções e pré-julgamentos. Quem disse que temos que pensar sempre do mesmo jeito? Seremos menos dignos de crédito, se ousarmos mudar de opinião? Imagino que, se os princípios pagarem a conta, o devaneio tá liberado. O fato é que estamos sempre em constante mutação, mesmo que enchamos a boca para reafirmar velhas ideias - e, no fundo, acabaremos por ficar reféns de tudo que seguirmos, por mais libertadores que pareçam os caminhos, no momento. No fim, a angústia é a mesma, não acham? Já mudei muitas visões que eu tinha, ao longo da minha breve e contraditória biografia, e isso só me fez ver o quão patético é tentar repreender aquilo que grita dentro de nós e, muitas vezes, está além da nossa própria compreensão - o tal do pensamento. "(...) os bons meninos de hoje eram os rebeldes da outra estação.." Adoro essa música e, hoje, ela me absolve! Bem no fim, andamos em círculos e nem notamos...