segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Deixem rolar - só que no mudo

Sabe aquele filme ruim? Mas ruim mesmo, de sentir vergonha alheia pelos atores que se meteram numa história tão ridícula? Pois é, fui acometida pelo sentimento repetidas vezes enquanto assistia à última água com açúcar em que o menino Evans se meteu, o tal Playing it cool - "Deixa Rolar" em português. Assim, não é que a comédia romântica tenha que nos virar a cabeça - somos grandinhos, sabemos o que esperar -, mas com o mínimo de borboletas no estômago é de praxe que sejamos brindados, poxa, está escrito no menu da obra (e nossa fome, mesmo que disfarcemos, não é pouca). O fato é que sigo faminta. E com uma certa raivinha, sabe, aquela gana de dar uns sopapos na cara do diretor.
Bom, o Chris dá vida a um escritor que não acredita no amor, porém é recrutado para dar forma a um roteiro romântico que virará filme em seguida. É tipo uma metalinguagem de Chris Evans, percebam. Só que o ceticismo dele dura até conhecer a personagem da Michelle Monaghan (jura!!!) e cair de amores pela bonita, que é comprometida. Até aí, confesso, tinha esperança de que houvesse uma boa complicação, mas que nada. No desenrolar da trama, a sensação que dá é que não há acaso nenhum. A sensação que dá é que ela tá fazendo um favor em sair com ele. Ué, mas eles não tinham que mostrar um interesse mútuo? Faltou química. Nossa, falta demais. Me contrata por cenzinho que eu olho pra ele com mais paixão que ela em todas as filmagens. Penso estar sendo prolixa ao explicar minha frustração, mas é como se eles fossem completos estranhos, é como se eles estivessem atuando com preguiça e loucos que aquilo acabasse logo. Aff, aceitem minha prolixidade e não desistam de mim.
Sei que é chover no molhado praguejar comédia romântica, visto que elas sempre são um amontoado de clichês, mas convenhamos: há umas deveras queridinhas no mercado do amor hollywoodiano, como 10 Coisas que Eu Odeio em Você, Encontro de Amor, De Repente é Amor, O Diário de Bridget Jones (Bridget que, aliás, já dissequei aqui), Um Lugar Chamado Notting Hill, Uma Linda Mulher, blá, blá, blá, entre outras. Poderíamos até citar também o exemplar péssimo porém didático de Maluca Paixão, resenhada nestas bandas, na qual é possível uma identificação bizarra e assustadoramente crível, por mais louco que isso pareça. Rola, né? É cinema, acontece. Mas, na minha humildinha opinião, não é o que vemos no filme em que somos convidados a deixar rolar. Nem o talento a saúde do Evans salva - e olha que eu só comprei a ideia por ela (mentira, dá pra fantasiar legal com aquele corpo magistral esculpido nas profundezas do inferCALA A BOCA, BRUNA). O filme é chato, enfadonho, sem nexo, sem clima, sem vida. O casalzinho pode até estar vivo na tela, porém não fui informada. O único beijo entre os dois em 89 minutos de ação acontece numa arara de cartões de aniversário no supermercado. Tenha dó! Nem o mais realista dos realistas resiste a tanta sobriedade. Faltou cupido flechando, sei lá eu. Em suma, meus carentinhos, até deixem o filme rolar, deixem mesmo. Só que no mudo.




Oras beijo no mercado!!! Meu leonismo não aguenta tanta mundanice, Evans.






quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Apenas mais uma de sono


Eu gosto tanto de dormir
Que até prefiro omitir
Deixo assim, ficar
No meu olhar reprimido

Como uma ideia que existe na pálpebra
E não tem a menor chance de acontecer

Eu acho tão desgraçado isso
De o sono ser tão feroz, baby
A madrugada é mesmo tão fugaz

É uma ideia que existe na cabeça
E à tarde nunca terá a mínima oportunidade de acontecer

Pode até parecer fraqueza
Pois que seja fraqueza então
A alegria que me dá roncar
Isso vai sem eu dizer

Se amanhã não for nada disso
Caberá só a mim esquecer
A mijada do chefe que eu ganho, o ônibus que eu perco
Ninguém precisa saber



Bruna Maurícia Pragana dos Santos











terça-feira, 4 de agosto de 2015

Não posso mais ser um prodígio da psicanálise com 9 anos

Quando eu era criança - não que eu não siga -, e brigava com meu irmão por algum motivo que até hoje não sei explicar, meu pai vinha com a cantilena. Corrijo: meu pai, minha mãe ou qualquer adulto que estivesse por perto: ''mas nem bem estavam brincando e já estão de peleia"? Clássico, né? Ou algo do tipo, isto é, se estavam brincando, conversando e rindo, estava expressamente proibido terminarem o show com algum tapão na cara - não que tenha havido, enfim, vocês me entenderam. E não que as coisas precisem terminar com choro e focinheiras, realmente não precisam. Mas isso acontece. Acontece, é da vida. A gente - eu, vocês e todos nós - segue sem se entender no fundo, mas bem no fundinho.
Mais nova, eu me culpava. Achava que a intervenção adulta era sempre muito lógica e providencial. Até pensava com meus botões: ''criança é idiota mesmo, adulto não faz isso''. E deixava-os saborearem aquele trunfo de quem acha que sabe muito sobre a vida. Ai... ai.... seus trouxas.
Sabe, hoje, maior com carteirinha e tudo que sou, eu vejo que, ora, adulto é babaca, É uma criancinha indefesa que paga contas, tem reuniões profissionais e chora no escuro agarrado no travesseiro. E, porra, como chora. Ao menos, a íris fica bem hidratada. A gente segue brigando sem entender. E a gente briga muitas vezes porque, de coração, não se entende. Chega a dar uma peninha. É como se houvesse dois dialetos, não há unidade na linguagem. Posso estar equivocada aqui, mas penso ser seguro afirmar que os seres humanos são universos à parte. Obscuros e reais, muito reais. E o triste é que a gente se ama demais. A gente se gosta, se quer bem, se dói, se sangra, se machuca, se cura. Daí a culpa que eu sentia talvez quando pequena. Não fazia sentido brigar com quem amava. Nunca faz, mas não quer dizer que vamos nos imunizar disto. Até se soubéssemos, penso que faríamos. Mas tcharam, tá aí algo com que a tecnologia nunca nos brindará.
Resvalemos, com louvor, ó, céus, no clichê de que ninguém nos entende. Ninguém me entende. Sim, é bem isso. Parece afirmação de garotinha com ódio do mundo trancada no quarto com 13 anos, mas que nada, ninguém nunca nos entenderá. Só temos a nós mesmos, bipolares do meu coração. Laços de sangue, de amizade, de sexo insano com senha partilhada no Netflix não dão garantia de que nunca haverá farpas. Seria ótimo, lógico. Relações humanas não são contratos, mas ahh, como seriam menos traumáticas se fossem:

FICA ACORDADO QUE, IRMÃOS QUE SÃO, AS PARTES SE COMPROMETEM A NÃO IRRITAREM O OUTRO E DIZEREM NADA QUE SEJA MAL INTERPRETADO, MATE O AMOR PRÓPRIO ALHEIO E LEVE A DISCUSSÕES E/OU CHOROS.

O REFERIDO É VERDADE E DOU FÉ. VÃO LAMBER SABÃO, HUMANOS ESCROTOS.

Sabe, adulto, sabe por que raios a gente seguia brincando com os amigos da rua, mesmo se odiando dali a meia hora? Sabe por quê? PORQUE SOMOS HUMANOS, CARALHO, PORQUE AS RELAÇÕES HUMANAS SÃO ASSIM. PORQUE A GENTE NÃO DESISTE DOS OUTROS, PORQUE A GENTE AMA OS OUTROS, PORQUE AMAMOS NOSSOS, AMIGOS, AMIGAS, IRMÃOS, IRMÃS, PAIS, MÃES, PRIMOS, CACHORROS E PERIQUITOS E ELES NOS FAZEM RIR E TAMBÉM NOS FAZEM MAL. PORQUE NOSSAS PERSONALIDADES SÃO DIFERENTES E ISSO É LINDO E É UMA DESGRAÇA TAMBÉM.


Mas deixa ele lá, achando que tem razão. Agora, estou crescida e não posso voltar no tempo e ser um prodígio da psicanálise com 9 anos. Vai lá, adultão, vai lá chorar depois e ver que não sabe nada.




Auxiliou no post:

Sister morphine - Marianne Faithfull