sábado, 17 de dezembro de 2016

A garota de rosa shocking fez trintão

Deem uma sobrevida às ombreiras e ao fixador de cabelo, pois vem aí uma resenha super deluxe edition dos 30 anos de Pretty in Pink: sim, a garota de rosa shocking agora é uma simpática balzaquiana. Chama a mamãe, pois estou convicta de que ela já quis dar uns beijos no Andrew McCarthy - o bonitinho, logo ali em 1989, seria um dos patetas hilários que descobre o chefe morto num final de semana na praia e resolve fingir que nada aconteceu. Todo mundo completamente doido na década de 80 ou nem?
Lançado em fevereiro de 1986 e dirigido pelo magnata das comédias adolescentes oitentistas, John Hughes, o filme, ao longo dos anos, saiu da sombra de mero entretenimento jovem e acabou ganhando roupagem cult. Aconteceu o mesmo com Curtindo a Vida Adoidado e Clube dos Cinco - ambos também dirigidos por Hughes. O porquê disso? Boa pergunta. A ambiência hipster cinematográfica, ela não tem limite. Ou, quem sabe, o diretor seja mais profundo do que eu imagino.
A comédia romântica é protagonizada pelo já mencionado McCarthy e pela ruivinha, ícone teen, Molly Ringwald, contando com coadjuvação de luxo de um Jon Cryer promissor, já possivelmente antecipando a veia cômica que o levaria ao estrelato. Ele, Duckie Dale, está enamorado da amiga Andie Walsh, que está é derretida por Blane McDonough, o príncipe yuppie do colégio - hoje em dia, por exemplo, Blane seria o que chamamos de bundinha. Andie vê Duckie somente como um amigo divertido e fiel, mas, vocês sabem, ele está crente de que pode conquistá-la. Enquanto ela foge das investidas do moço, sonha com a bundinha de Blane, digo, sonha com ele, além de ter que suportar as agruras de estudar em um lugar que parece jogar na sua cara todas as diferenças existentes entre os descamisados e os bem nascidos da cidade. Mal sabe ela que o objeto de suas afeições também está de olho em suas madeixas vermelhas. Ah... os amores óbvios de Hollywood.
Em um Estados Unidos neoliberal, na época governado por Ronald Reagan e etc, me parece que essa luta silenciosa de classes consegue transcender a tela. Mas é só uma impressão mesmo. Talvez resida aí a profundidade da coisa, não? Sabemos bem que os dilemas do consumo sabem azedar as relações humanas. Blane é uma gracinha, um anjinho que caiu da nuvem sorrindo, mas nem sempre isso é suficiente. Em contrapartida, gosto muito da postura decidida e madura de Andie, ao aconselhar seu pai em alguns diálogos comoventes e ao lutar dignamente pelo seu amor-próprio - em uma referência clara ao nome do filme. Vestir rosa pink também é empoderar-se. E isso, lá na década perdida, talvez tenha soado revolucionário.





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Turning japanese - The Vapors






        

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Ex-gremista também ama

Oi, sumidos!
Vi que vocês não têm visitado mais o site... queria saber se tá tudo bem...


A ambiência futebolística zoadíssima que deu as caras domingo merecia que eu escrevesse umas palavrinhas nostálgicas - uma espécie de recompensa pelos anos de serviços prestados à instituição Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, pois, sim, já fui bem fanática por aquela desgraça. Quem sabe eu tento a sorte na crônica esportiva? Já ensaiei tímidas escritas em jornais tenebrosos nesta senda de vitórias. Hah    
Eu realmente nunca achei que o Internacional fosse ser rebaixado, não sei, mas isso me parecia um castigo exclusivo para quem ousava torcer pelo seu oponente. Fala sério, o Grêmio é muito inacreditável. Tem que ter uma boa dose de coragem para abraçar aquele azul, preto e branco na vida. É uma disposição natural para ir às maiores glórias e às maiores derrocadas em questão de meses, jogos, acréscimos. Quem consegue levar 5x0 numa final de Libertadores? Quem consegue ganhar um jogo, pegando um pênalti de antecedentes dramáticos e fazendo um gol logo em seguida num contra-ataque com sete jogadores em campo? Deve ter algo ali além do que julga nossa vã filosofia, não há dúvida.
Mas como foi que eu tive coragem? Eu, como nasci no final da década de 80, peguei uma fase muito gloriosa do menino da Azenha - agora menino do Humaitá - quando criança. Nos anos 90, só deu ele. Terá sido isso? Terá sido o Grêmio daquele tempo um corruptor ardiloso de criancinhas incautas filhas de colorados? Sabe de quem eu me lembro muito, ainda que vagamente? Do Danrlei. A imagem dele é a que mais me vem à cabeça quando recordo essa safra vencedora, esse clube raçudo que aprendi a amar sem saber quase nada da vida. É uma lembrança muito boa que eu tenho. Ou, vai ver, foi tudo culpa das madeixas douradas de Paulo Nunes naquele inesquecível corte tigelinha... mistério...
Os anos passaram, e eu me tornei uma adulta um tanto nauseada com a facilidade que o futebol tem de legitimar opressões, questões sociais que ainda doem em muita gente. Dei uma parada, dei uma refletida. Não conseguia mais ficar perto de uma atmosfera tão tóxica. De uma atmosfera que acha inofensivo chamar o adversário de ''macaco'' e mentir à própria inteligência, dizendo que ''são coisas do jogo''. É impossível conceber como um esporte tão democrático pode ser tão excludente ao mesmo tempo. Se me oponho a isso hoje em dia, não sei que tipo de torcedora fui - talvez uma lunática, façam seus julgamentos. Porém sei que tipo de torcedora sou (sou ainda?). Política, sempre. Raramente adepta a cornetas, pois escutá-las de volta de quem amo é draaaaaaama. Debochada somente quando a piada é realmente muito boa: ser imortal mas morrer sempre, time grande não cai, etc. Passional, claro - no jogo de volta daquela semifinal pavorosa contra o Santos, em 2007, me joguei no chão algumas vezes. Felizmente, não houve desfibriladores. Joguinho desgraçado. Enfim, acho que sou uma ex-gremista que ainda sente o coraçãozinho acelerado por conta de certas camisas. Ex-gremista que sente a garganta seca e um orgulhinho incrédulo ao olhar sincronias perfeitas de certas torcidas na televisão. Ex-gremista mesmo quando tenta disfarçar não ter ex nenhum. Vi isso quarta-feira passada. Amiga, nem sabe... sigo apaixonada. Argh.        




                                                                  BU







sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Orna Donath e o Regretting Motherhood

Lá vamos nós de novo. Acabei lendo uma entrevista de uma socióloga que afirma não existir o tal instinto materno. Polêmica à vista. Aí eu gosto, porque polemizar - dependendo do assunto - nem sempre é gastar energia de graça. Muitas vezes é simplesmente pensar fora da caixa. Que delícia, vocês deveriam experimentar. 
A israelense Orna Donath, em seu recém lançado livro Regretting Motherhood, entrevistou 23 mães que se arrependem de terem tido filhos. Chocados? Que nada, isso deve ser mais comum do que pensamos. E amor não tem nada a ver com a questão. Estou convicta de que se pode amar imensamente um ser, e ter ojeriza à relação e às circunstâncias tidas com esse ser. É claro que se perguntarmos a nossas mães se elas se arrependem da concepção, as coitadas vão desfiar um rosário dizendo que é uma indagação descabida, que fomos a melhor coisa que aconteceu na vida delas e blá blá - e longe de mim ser responsável por um congestionamento nas salas de espera dos terapeutas de vocês -, mas há de se pensar até que ponto nossas pessoinhas foram fontes exclusivas de felicidade. Sempre é complicado falar da experiência alheia, então falo por mim. Creio estar longe de ser uma filha-problema, mas tenho ciência das renúncias e barras que chegaram com o meu nascimento - e felizmente sou bem resolvida quanto a isso. Será tão horrível pensar nisso, adultos que somos? Não sinto que sou menos amada nem que minha vida vale menos por isso. Claro, talvez porque eu me enxergue, nesse aspecto, de maneira mais analítica, como um mero produto da sociedade (sim, eu enxergo todo mundo assim basicamente), mas creio que precisamos de um debate mais profundo sobre trazer vidas ao mundo, ainda mais quando o mundo não anda lá tão convidativo. De preferência, longe desse discurso opressivo de que nascimentos são bênçãos de Deus. Viva! Que traga muitas alegrias! Claro, até ter que estudar com o seu reizinho no colégio e ele precisar conviver com aquele desafortunado, filho de sei lá quem. 
No nosso top10 de hits, o ''ai mas quem vai cuidar de você na velhice'' segue imbatível. Que raio de pensamento utilitarista é esse? É só a isso então quer serve a tal empreitada? Seguido, claro, do clássico familiar ''mas fulana quer ser avó''. Que amor, fulana quer ser avó. Pois ela que adote uns netinhos de estimação, os abrigos estão cheios. Já pararam para pensar em quantas meninas estão tomadas por esse pensamento católico, quando não tem estruturas nem amparo para gestarem a tal ''bênção''? Será que elas realmente querem ser mães? Será que está sendo ensinado a elas que está tudo bem não quererem? Que elas não precisam bancar as heroínas, terem uma rotina exaustiva e não dormirem uma noite inteira para terem valor? Pode parecer um paralelo muito minucioso, mas quantas crianças vieram ao mundo sem sentido, e hoje engrossam o caldo da marginalidade, essa mesma marginalidade que vocês amaldiçoam nos portais de notícia? Com quantas ''bênçãos'' vocês, cidadãos de bem, estão tendo que conviver hoje em dia será? Que loucura, não? Essas bênçãos se tornarão adultas... e aí é o grande drama. Ser mãe não é essa Disney vendida aí nas propagandas do Boticário, meu povo. Vocês vão ganhar um cartão ridículo em maio, claro, mas talvez ele não supra o desgaste emocional. 








terça-feira, 11 de outubro de 2016

Dia mundial de amar o Cartola

Eu tinha tudo para dar certo na vida, mas conheci o Cartola com 15 anos. Juventude roubada é pouco.
Foi assim, eu fui ver Cazuza - O Tempo não Para no cinema sozinha (ênfase no ''sozinha'', porque amo ir sem ninguém mesmo), e naquela cena fatídica em que Roberto Frejat todo mauzão dá um chilique dizendo que o Barão toca rock, porra!!!! e começa aquela intro doída de "O mundo é um moinho", eu entendi um pouco da vida. Aí não teve jeito. O Agenor Cazuza deixou o Barão Vermelho, e eu deixei a sala, maravilhada, conhecendo uma pista do Angenor de Oliveira, ou se preferirem... Cartola. Aqui até cabe uma curiosidade: diz que o exagerado detestava se chamar assim, porém passou a gostar quando descobriu a coincidência com o icônico mangueirense - que teve a letra n adicionada ao nome devido a um erro de registro. Espero que eles tenham falado disso quando se encontraram.
Gosto muito de ambos, mas o sambista me comove, me deixa catatônica. É muita sabedoria para alguém que não teve nada por muito tempo na vida. Para alguém cujo talento ficou à sombra anos e anos. É uma doçura que não sei explicar. Será que nasce um assim toda hora? Acho difícil. Só posso agradecer por esta joia brasileira ter existido - e hoje embalar muito da minha existência, das minhas madrugadas, das minhas veias. Adeptos do sambinha tristeprometem manter sua obra viva aonde forem. Eu prometo, meu amado. Já que o mundo é mesmo um moinho e vai reduzir nossas ilusões a pó.




                                                             MONSTRO







 

sábado, 8 de outubro de 2016

As questões dos minions e da passagem do tempo

Um dos maiores medos da minha vida é começar a compartilhar Minions Irônicos ou Qualquer Personagem De Novela Indelicado na rede ao lado sem nenhum pudor. Imagina só, ir dormir sendo um ser humano normal e acordar no outro dia... glup, uma tiazona. Se eu começar a compartilhar videozinho de receita, aí é pulinho do 13º andar. Que terror. É claro que eu tenho medo de envelhecer. Rezo para envelhecer cabeça e bem, com o mínimo de sintomas possível. E sem minions, lógico, que moda desgraçada. Mas queria mesmo é fugir dessa obrigação de passar os anos. A juventude é tão boa. Inebriante. É ter uma folha de papel em branco no caderninho da vida (cristo, que cafona isso!). Dá para escrever qualquer coisa ali, tudo é permitido. Talvez por isso estejamos tão doentes e ansiosos: diante de todas as possibilidades do mundo, bugamos e congelamos nas próprias ambições. A juventude é um concerto de rock, uma madrugada insana na rua, no copo, desce mais uma dose que hoje eu vou me acabar! Coisa boa esse sentimento que não se pode nominar, só viver. E ele vai escorrendo pelas mãos, inútil tentar pará-lo. Piscou, passou.
Falava disso, há alguns dias, com não sei quem, mas algo ficou martelando. Tinha a ver com o recém encerrado pleito e em como há uma tendência para bundificarmos nossas existências. Claro, porque faz mais sentido sonhar em mudar o mundo com 20 e poucos. Aos 40, com pouca - ou nenhuma - mudança -, a tendência é endurecer e perceber o mundo com olhos mais cínicos e conformados. Será esse o meu futuro? Será que eu ainda vou ler essas bobagens que já escrevi e rolar de rir? Temos que fazer escolhas agora pensando no futuro? E se o futuro não chegar? O futuro já não é agora quando se vive? Ficaremos sozinhos? Os laços são eternos? Eternidade não é uma ilusão? As certezas se vão? Solidão é assim tão ruim? Tem algum jeito de existir para sempre? Qual o sentido da vida? Por que o fone sempre começa a falhar de um lado só? Precisava ter matado o Derek, sua demônia? São questões...
O que será que me aguarda? O que será que nos aguarda? Aquele futuro dos campeões, esperando pelo ponto de segunda, assistindo, com dor, ao domingo horroroso de sempre, torcendo por sol a fim de lavar as roupas no próximo sábado. E que ninguém nunca desconfie da metade ali pulsando. A metade que fez strip-tease na mesa do bar, foi uma piranha com p maiúsculo, pichou parede, invadiu camarins e morreu de tanto se drogar. Morreu jovem mas mais feliz que muita gente.


                          Você namoraria alguém que compartilha Minions Irônicos?




Vou lá cuidar do meu futuro promissor, dá licença.








quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Os 40 anos de Taxi Driver

Coube a um Robert De Niro com um frescor insuspeito de juventude - e recém saído de um Oscar de melhor ator coadjuvante por O Poderoso Chefão: Parte II (1974) - o personagem-título do filme que colocou Martin Scorsese no rol de monstros sagrados de Hollywood. Estava eu, aqui, viajando na maionese, quando me veio a revelação de que essa relíquia completou 40 primaverinhas. Vai ter que ter resenha!
Iniciei o texto falando especialmente do De Niro, porque, de fato, acho sua interpretação primordial para a crueza da porra toda. Reconheçamos o óbvio: o cara está insano. E se você não refez aquela cena dele no espelho falando sozinho com o seu ridículo, não podemos ser amigos. Mas vamos aos fatos. Do que trata Taxi Driver? Travis, Travis Bickle, é um ex-fuzileiro naval (a propósito, isso é o que ele diz) de 26 anos, que sofre de depressão e insônia numa Nova York entregue a problemas comuns a qualquer grande metrópole - caos, solidão, violência, prostituição, corrupção, políticos demagogos, etc. Já que não consegue dormir, ele começa a trabalhar como taxista, percorrendo as ruas da grande maçã e absorvendo toda a realidade latente da cidade e seus tipos arruinados. Percebam, é quase um O Cortiço revisitado em quatro rodas.
Entre um passageiro e outro, ele se depara com duas mulheres que vão mudar sua percepção das coisas. A primeira, por quem se encanta à primeira vista, é Betsy (Cybill Shepherd), que trabalha com a promoção de campanha de um senador que ambiciona a presidência do país. Já a outra, vivida por uma Jodie Foster menina - com apenas 13 aninhos à época - é Iris, que ganha a vida se prostituindo e entra no táxi do anti-herói ao fugir de seu cafetão em uma noite qualquer. Gosto muito da total contradição do nosso protagonista ao se mostrar, ora um atormentado sensível às degradações humanas, tentando inclusive ''salvar'' a mocinha da situação de abuso, ora um completo lunático - por vezes preconceituoso - que leva a moça de seus sonhos para assistir a um filme pornô em um projeto de encontro amoroso. Sim, não tem graça nenhuma, mas eu caio da cadeira rindo disso. É genial, tem todo um quê concebido para mostrar que eles não se entendem. Travis é ingênuo e diz não saber nada sobre música ou política, no entanto discorre sobre filosofias mundanas da melhor qualidade numa mesa de bar. No mínimo, curioso.
Ainda que a história tenha uns coadjuvantes ótimos com rosto e identidade, penso ser o inconsciente do taxista o melhor deles. Merecem atenção especial os diálogos solitários dele escrevendo num rascunho de diário, e também ao volante respirando a atmosfera que acabou por deixá-lo mais doente do que era. Tudo isso, casado a umas expressões faciais de gênio, a uma trilhazinha sonora sorrateira, e a um final surrealíssimo, faz a coisa do Scorsese ser bem fascinante. Não é impunemente que figura sempre entre os melhores nas listas de queridinhos do cinema.    







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Trans europe express - Kraftwerk 







sexta-feira, 9 de setembro de 2016

I WAS BORN TO LOVE YOU

A voz estaria completando setentinha nesta semana, mais precisamente dia 5 último. Aí eu, que até já debutei na idolatria, entrei numa espiral de Freddie Mercury e até agora não saí. Cataaaaaaaaarse!
Mas quem era o moço, afinal? Segundo biógrafos oficiais - eu -, ele era essa coisa curiosa, dançante, criativa, introspectiva, teatral, demônia, genial, demasiado humana, magnífica, adepta de all stars e regatinhas, cretina, purpurinada, dentuça, gatólatra, estranhamente tímida e engraçadinha dando entrevistas, um amor difícil de esquecer, por supuesto. Foi muito louco, tocava Bohemian Rhapsody numa rádio qualquer, e me lembro de algo ter mudado dentro de mim. CARACA, O QUE É ISSO? Em 2001, nós, projetinhos de adolescentes, falávamos caraca. Era caraca pra tudo, mano. Imagina um pingo de gente metido a glam rocker falando ''caraca''. Era ridículo.
Bom, como boa filha de pais avessos a enlatados, nem um LP da vida consegui nas estantes de casa. Atordoada e sem internet ainda, o jeito foi fazer uma varredura. Foi aí que descobri ser uma digna investigadora - talvez ali tenha nascido o ímpeto da apuração que viria a consumir todas as artérias de meu ser nos anos seguintes. E me transformar nessa stalker graduada com honras na faculdade Que Tempos Loucos São Esses Institute.
Em 1985, um pouco antes do fabuloso A Kind of Magic - último trabalho com turnê do Queen -, o Mercury enveredou numa satisfatória carreira solo com o lançamento de Mr. Bad Guy - uma pequena preciosidade com onze canções escritas pelo próprio. Em um universo paralelo por aí, eu faço duetos eletrizantes com ele nisso aqui:


                                     Por Deus, esse piano tem vida própria.


Sim, nós gritamos como se não houvesse amanhã também. E depois enchemos a cara.  








terça-feira, 30 de agosto de 2016

O cachorro sem nome

- Que graça, qual o nome dele?
- Ele não tem nome... nem pensamos nisso. É peludinho, fofinho... sabe...?
- EHEHEHE LEGAL

Sério? Really? Ora não tem nome, que mundo é esse? É quase uma negação à identidade do cão. Não dar nome para um cachorro não é das piores coisas que se veem por aí, claro, mas que a vida perde em encantamento, ah perde. Não perde? Fala sério. Que me perdoem os pragmáticos, mas criatividade é fundamental. Eu me amarro.
Eu, por exemplo, sou mãe, cof cof, do Menelau, do Aquiles e do Ulisses. Vivo rodeada por três felinos gregos. Quem terá a ousadia de dizer que não sou uma desocupada espirituosíssima? Dia desses, revelei o nome do primeiro quando recebi a visita de uma prima, e ela, surpresa, só faltou rir na minha cara. O nome pode até ser feio, mas é de reizinho. Reizinho do meu coração.
A infinidade de possibilidades me faz divagar, e, divagando, não consigo não ficar prostrada quando me deparo com ''peludinhos'', ''fofinhos'', ''bolinhas'', ''pretinhas''. A vida é muito curta para não viajar um pouco e arrancar umas risadas. Batiza aquele ratão que mora no teu telhado de Jerry, batiza. É publicitário? Que tal uma dupla canina chamada Arte-final e Layout? Gosta de ditadores europeus? Que tal a tríade Hitler, Mussolini e Salazar? Credo, vou apagar isso. É amante dos velhos tempos hollywoodianos? Imagine uma gatinha Bette Davis? Meu Deus, ou caturritas afinadíssimas: Maria Callas e Montserrat Caballé!!! Há uns anos, tive, por breves momentos, uma cadelinha de nome Scarlett O'Hara. Diva era pouco. Minha avó, que nunca ouviu Beatles, tinha um rottweiler que atendia por Ringo Starr. E ele tocava bateria.


                                                     Foi mal, Callinhas.



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Let's dance to Joy Division - The Wombats








domingo, 28 de agosto de 2016

Check-in no Aeroporto Charles de Gaulle

Aconteceu há algumas horas. Quando vi, pulava de perfil em perfil, imersa em um mundo que não é o meu, mas é realidade de alguns poucos abastados desse Brasilzão varonil. Não é de hoje que sabemos que redes sociais são uma ilusão muito bem arquitetada para nos odiarmos - nós e nossas vidinhas prosaicas. Só que, às vezes, essa ficha cai como um soco na cara. Maldito Instagram.
Sou uma pessoa demasiado reflexiva - talvez isso vá na minha lápide, vamos torcer - e qualquer mínimo pensamento meu, não raro, desencadeia uma curto-circuito de impressões e revelações - aqui jaz um cérebro doente. Bom, a de hoje é sobre essa vida de faz de conta da confraria de imagens citada. Essa a que aderimos porque não queríamos ficar fora da onda, e, bem no fim, o aplicativo estava tão à mão na tela do celular... essa que alimentamos com fotos previamente produzidas e cheias de efeitos. Meu Deus, o que nos tornamos? Um bando de ostentadores. Ai... isso me parece tão, tão problemático que me corrói. Assim, não me entenda mal, ninguém quer ser visto numa pior - muito menos eu, humana que nasci - mas já era para termos evoluído quanto a esse pecado do exibicionismo (cá entre nós, essa busca é tão cristã e esperada, que Jesus deve estar às lágrimas lendo esse texto). Eu sei, eu sei, dá um prazer supremo, quase sexual, postar uma foto naquele camarote caríssimo - quem quer ser visto em casa no sábado à noite, afinal? Ou postar destinos ricos e barrigas chapadas com frases de efeito que fazem parecer tudo tão simples só porque algum afortunado com uma fé inabalável acreditou que era possível. Eu sei que é legal, é da horíssima. O porém que me arrasa é vivermos num país ainda tão miserável e subnutrido. Sim, esfregar essa felicidade plástica nas fuças alheias me soa cruel, desnecessário. Será que estou falando tanta abobrinha assim?
Não é o fato de as pessoas que jogam no Dream Team do Insta serem desprezíveis e ruins - na maioria das vezes, elas são incrivelmente bacanas e do bem: pagam seus impostos, dizem por favor e compartilham imagens espíritas. Elas são umas fofas, só estão perdidas. E estão deixando alguns olhos que as observam, à margem, doentes de ódio. Dá para sacar onde eu quero chegar, né? Pois é, os esfarrapados não costumam dialogar.
Tudo na nossa vida perpassa relações de consumo. Tudo. Repitam comigo: t u d o. Somos um catálogo ambulante de escolhas monetárias, sociais, de linguagem e o escambau. Estamos diariamente emanando uma mensagem ao mundo, e não sei se tem muito sentido pedir mais essência e menos aparência marcando a arrobinha da marca de bolsa que custa um salário mínimo. Beber chope no barzinho tal da Lapa, check-in no Aeroporto Charles de Gaulle, partiu Xangri-lá, sushizinho top com os melhores... e se lacrássemos mais no escuro do anonimato? Ou, quem sabe, em menores proporções - só uma vez por mês, digamos - para os outros não se sentirem tão lixo por estarem comendo um reles prato de arroz e feijão? Calma, menino Je, não precisa chorar.



                                           Charles de Gaulle is judging you








quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Eu poderia ser genitora dos seus filhos?

Sabe quando você conhece aquele cara? Sim... aquele. Aquele! Aquele nem é mais pronome sem eira nem beira nesse momento, aquele é tudo menos qualquer aquele. Aquele é pronome demonstrativo de que você se ferrou. Ah, é disso que eu tô falando, que saudade. Que curioso, o tempo congelou, as horas pararam. Como se nada tivesse feito sentido antes daquele encontro ridículo em que vocês se pegaram conversando sobre Beavis and Butt-Head e agridoces lembranças de infância - porque o fato é que ambos tiveram infâncias bizarríssimas nos anos 90. Então você também não conseguia dormir por conta das peripécias do chupa-cabra? Que vidinha patética deliciosa. Deita essa cabecinha cansada de tormentos adultos aqui no meu colo, vai.
E você tem certeza de que, na fatídica hora em que aquela dança de retinas agoniadas se desenrolava, tocava um rock muito nervosão. Com uma letra moralmente questionável, uma loucura. Meus delírios sempre têm muito a ver com música, muita música. Sim, eu lembro... era Stooges. Não, pera, era Dead Kennedys. Bauhaus, claro, Bauhaus!!!! Ele odeia roqueiros, que amor.
Você tenta ficar séria, blasé, a circunstância pede - nada de euforia sob luzes. Só que, velho, de um jeito muito sorrateiro, o sorriso dele meio que abocanha um pouco da sua vida e dos seus planos, foi tão rápido, eu tive que engolir a seco. O sorriso mais bonachão e com vestígios de clareamento tamanha a brancura cor de nuvem, você sente os molares dele mastigando todo o seu corpo e coração, hummm, parece gostoso. Algo muito estranho aconteceu: agora, para qualquer lugar que você olhe, aparecem réplicas da boca dele em 40 polegadas. Trata-se de singelas televisõezinhas imaginárias mancomunadas contra seu discernimento. Olha esse labirinto de telas de plasma me perseguindo, socorro.
Sabe quando acontece isso? Sabe quando aparece aquele cara? Por onde a gente andou tanto tempo sem se encontrar? Que absurdo, justo agora. E o pior de tudo é que você se pega pensando em e-mails educadíssimos do tipo:

- Olá, eu poderia ser genitora dos seus filhos?

Att, 

A Gerência

Cacete, eu nem quero ser mãe! Glup, foi enviado.


 



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Atmosphere - Joy Division








segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ouro

Enquanto eu me desmanchava em lágrimas ali, fiquei a pensar no tal do ouro. Porque nós, os chorões, choramos. Choramos porque chorar de alívio traz paz, limpa. Choramos porque chorar também é digno. Choramos porque trazemos o coração meio aos pulos sempre na garganta, agoniados por viver tudo, sentindo o caminhar das coisas dum jeito tão mais diferente, tão mais sensível a tudo. Choramos porque chorar de alegria é o melhor de dois mundos. E aquele sal que cai não faz mal.
A medalha também é minha, é muito minha. É também de todo mundo que se doou, que viu, que vibrou, que torceu, que emanou a mais ínfima energia - vá saber, isso pode ser transformador. Essa medalha é muito minha. É minha porque eu amo esse país. Porque a gente se conhece, se sente, se tolera, se ama e se odeia. É minha porque eu o defendo, brigo por ele. É minha porque conheço sua história toda, sei de suas dores, sei de suas vergonhas e suas glórias. É minha porque quando a gente se olha, simplesmente ri e sabe o que se passa - velhos amigos, velhos cúmplices. É minha porque ser brasileiro é um mistério e uma delícia - e também o pior dos castigos. É minha, porque essa relação não conhece sutilezas, é tudo vivido a cem por hora, do inferno ao paraíso sem escalas.
Pensar nos ouros que vieram, vêm e virão também me faz pensar nos ouros particulares de quem não leva vidas assim tão douradas, esses ouros que chegam a ser simplórios, risíveis e incompreendidos. Esses ouros que são perseguidos à exaustão e só quem os vive sabe a dimensão que carregam. Ouros de tolo, mas quem quer ser esperto a essas alturas? Superar os próprios fantasmas também pode ser uma final. Ah... é sempre final, tudo ou nada. Eu gosto disso. Eu me machuco, mas, se sigo viva, é por algum motivo.
Pensar no ouro me faz querer ganhar. Ganhar é bom e talvez ser viciado nesse êxtase não seja tão ruim assim - de ambição em ambição, vamos fazendo a vida ter sentido. Ganhar é bom. Eu quero ganhar, quero perseguir meus ouros - esses que ninguém faz ideia do que sejam, mas que me fazem sorrir igual a uma criança no final de cada dia. Sem plateia, sem holofote, sem torcida, mas tão valiosos que não há quem diga que não sejam medalhas. Sonhos dourados também se realizam longe de quadras.






segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Para que serve uma Olimpíada?

Sim, eu gosto dela, da Olimpíada. Eu amo, eu entro em parafuso, choro, me descabelo. Lá se vão 20 anos acompanhando. Em Atlanta, 1996, nos primeiros jogos de que tenho recordações, lembro o arremate nos cadernos de esporte das leituras entusiasmadas do primeiro ano escolar. Na manchete do jornal: Gustavo Borges, a lenda das piscinas. E eu sentadinha no chão do escritório de casa - os olhinhos admirados, curiosos, com um horizonte todo pela frente. Acho incrível como essa lembrança segue viva na minha cabeça. Nostalgia boa.  
Eu gosto de esporte desde que me conheço por gente (e não, eu não falei em futebol, seu fanático, mas de qualquer um). Felizmente, sempre tive facilidade em aprendê-los, logo, não houve uma competição em que eu não tenha me metido nos fatídicos anos escolares. Os coletivos sempre foram minha menina-dos-olhos, e o fato é que todo fracasso-social-nem-um-pouco-transante da pior época de nossas vidas acabou sendo transmutado em medalhas. Medalhinhas de latão, material da pior qualidade e das melhores lembranças de adrenalina - aquela que ensina a viver e a lutar, não desistir. Eu desisti algumas vezes, quando os times adversários eram infinitamente superiores, mas também senti o incrível gosto de vencer tantas outras mais. Certa vez, no auge da minha adolescência, vi minha compleição física mediana sucumbir à força alheia e chorei - o deboche conhecido das competições emergindo, pernicioso, na torcida. Calei algumas bocas, fui ameaçada (quem nunca foi jurado de morte em um jogo entre colégios, que atire a primeira pedra), mas no fim daquele dia os roxos das pernas me venceram. Paciência, não se pode ganhar todas, ''só me aguardem no próximo jogo''. E o jogo seguinte sempre chegava, e a Bruna velha de guerra e dos joelhos ralados contava um novo capítulo de sua história anônima, nem que fosse para si mesma.
Então, em época de jogos olímpicos, fico especialmente comovida e à flor da pele, pois os simbolismos são muitos. Toda essa coisa de defender uma bandeira, ainda que poucos conheçam sua cara, sua luta e suas renúncias, me faz pensar em muitas coisas. E inevitavelmente me emociona, choro rios de hinos nacionais. Me entrego de verdade. Seguidamente, me questiono: para que raios serve uma olimpíada, além do ônus econômico que muitos insistem em bradar insistentemente? Talvez ela sirva para fazer seu dia mais feliz, por mais ridículo que pareça. Talvez ela salve um momento, mude uma perspectiva. Talvez aquele atleta que não desistiu seja você amanhã. E talvez aquela final olímpica de vôlei masculino, em 2004, tenha feito aquele ano horrível ser um pouco melhor de atravessar. Fez muito. De coração, obrigada.


   
                                      Te cuida, Michael Phelps! (ok, péssima)
                                            


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Runaways - The Killers









segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Polarização política, sanduíches de mortadela e quiz cristão

A polarização da política brasileira chegou a níveis bizarros, credo. Ao mesmo tempo em que afirmo e reitero sempre que posso que todos, bem no fundinho, têm lado, logo, ficar em cima do muro é doce ilusão, caio em contradição e vejo quão burro é esse afastamento ''ideológico'' - não que ele não precise existir, mas no momento em que sobra mais ódio que debate saudável, é preciso rever certas coisas. Posso estar equivocada, mas penso que a ''coisa'' ganhou mais força após as eleições nacionais de 2014, não? De um lado, um pessoal sedento por mudança de legenda, com indignações diversas (que considero legítimas) e apoiado, mesmo que não queira admitir, por setores conservadores da sociedade. De outro, os miseráveis, os comedores de pão com mortadela (falando nisso, que delícia um sanduichão de mortadela, né, não?), a escória de ladrões e os perdidos tipo nós, que ficamos meio a contragosto ao lado de uma situação ridícula por não ter muito sentido apoiar uma oposição horrorosa. O conhecido ''rir para não chorar'', saca?
Só que aí, o que restou do pleito ganhou outros contornos, nos colocando num verdadeiro ringue de muito ódio, muita patrulha e etc. No âmbito da internet, por exemplo, em que, tempos atrás, era permitido dizer tudo e qualquer coisa sem pensar nas consequências, opa, opa, agora não, meu irmão. E aí eu pergunto: será que isso é tão ruim assim? Não poder mais ridicularizar negros e seus cabelos, homossexuais e suas práticas amorosas, mulheres e outros grupos historicamente marginalizados? Você, cristão frequentador de igrejas e que reza toda noite antes de dormir, acha isso uma censura horrorosa de opiniões ou algo que vai ao encontro do seu sonho de paraíso? - aquela coisa de todos convivendo em paz e respeitando as diferenças? O seu Jesus Cristo teria orgulho do ser humano perseguidor que você é ou tomaria as dores daqueles que você condena ainda que de brincadeirinha? Eu sei, eu sei, o mundo é muito ruim e há muita coisa que merece atenção, mas não tem como começar qualquer debate profundo se vocês insistem em dizer que lutas que desconhecem são bobagem ou vitimização. Bom, se vocês não querem entender, aí já não é problema meu. 
Então, quando um médico - profissão que carrega alto teor de elitismo por n questões - debocha de um paciente e seu modo de escrever em redes sociais para meio mundo ver, é doído, é cruel, a gente vai se revoltar muito mesmo. Pode ter sido uma comoção extremada? Pode. O caso teria a mesma repercussão dez anos atrás? Não sei, não sei mesmo, mas talvez não - a cultura muda através do tempo, e podemos estar vivendo ou uma nova era de vitimismo ou uma nova era de mais empatia e busca por humildade, além de visibilização de direitos: essa janela tem duas percepções. Não penso que é o caso de a pessoa em questão ser crucificada (não se preocupem, com a formação que tem, emprego é o que não vai faltar), pois podemos cair na mesma armadilha de ódio que repudiamos. Todavia, um ''puxão de orelha'' desses pode ecoar construtivamente na classe citada - que, convenhamos, sabe ser bem esnobezinha quando quer. Eu prefiro acreditar que estamos, sim, vivendo um novo tempo de mais respeito a quem sempre foi invisível. E se para vocês nunca foram invisíveis, é porque estavam enxergando bem mal. Ou enxergando só a parte da janela que convém, claro, é sintomático.    





         

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Gradicida, escrivinhadores

O povo acha que a gente começou a escrever ontem, né? Só a título de carteiraço literário desnecessário e escrotão: eu sou graduada no Liceu Clarice Lispector de Epifanias, tá? Também me especializei com louvor no Instituto Machado de Assis de Sarcasmo Aplicado e na Academia Inglesa de Sentimentos Obscuros Byronianos. Catarse aqui não é pouca coisa, percebam.
É inegável que eu tenho influências. Muitas, incontáveis. Qualquer coisa me inspira. Adoro autores que conseguem extrair boniteza das misérias humanas... convenhamos, que misérias ambulantes nós, entregues às mais provincianas das sensações, aos mais privadíssimos traumas. Morro de peninha e de amores - aquela relação doentia de sempre.
Gosto de ler me doendo, me remoendo, me gastando, me perdendo, me achando, mea culpa. É destrutivo, mas sempre me faz renascer. Eu sempre renasço, guarde aí. Ou quase isso. Então hoje, dia nacional do escritor, é dia também de me dar um afaguinho que seja, um abraço mais demorado. De mim para mim, porque - apesar dos ridículos que são muitos e também incontáveis - eu escrevo. Escrevo muito. Escrevo até quando não escrevo: não raro estou escrevendo em sonho e sempre levanto rindo horrores - autossuficiente em piadas que nasci. Se tem algo que eu nunca vou mendigar nessa vida, é piada. Saravá!
É dia também de agradecer à Clarice, à Cecília Meireles, à Lygia Fagundes Telles, à Rachel de Queiroz, ao Saramago, ao Drummondzão véio de guerra, ao Victor Hugo, ao Quintana, às frias carnes do cadáver de Brás Cubas, digo, Machado de Assis, ao Caio Fernando, ao Vini, poetinha, diplomata e compositor de sambinhas, ao Gabo, ao Castrinho Alves, awnnn, quantos recreios em tua companhia, hein, maravilhoso? Ao Leminski, ao Rubem Fonseca, que até hoje me dá calafrios, ao Shakespeare, ao Fausto, ou melhor, ao Goethe - nunca sei quem é quem -, ao George Orwell e seu grande irmão, àquela debochada fabulosa da Natalia Klein, grata surpresa cronística dos anos recentes, ao Bernard Shaw, ao Nelson Rodrigues, pervertido e genial, ao Galeano, ao Antonio Prata, ao meu marido Daniel Galera (kkkk ai, Bru, se mata), ao Luis Fernando Veríssimo, ao Guimarães Rosa - uma rosa para você, Guima, cê é demais -, à Claudinha Tajes, que me faz doer a barriga de tanto rir (e o coração de tanto chorar baixinho), ao Hemingway e esses sinos rebeldes que dobram, ao Benedetti, ao Neruda, ao Kundera, àquele russo, aquele das noites brancas, sabe? Você sabe... só amor. Às lindas da infância e que ainda acalentam meu todo criança: Tatiana Belinky, Lygia Bojunga Nunes, Sylvia Orthof, Ana Maria Machado e Ruth Rocha. Quanta coisa guardada nesse meu cérebro imaginativo... aos tantos e tantas que ainda vou ler e aos tantos e tantas que nunca lerei mas que guardo com amor no coração e no pensamento por terem, ao menos, me atiçado as ideias. Obrigada. Sigam escrevendo por mim. Por nós. Fosse o lendário Chico Bento que estivesse atrás desse teclado, ele diria: ''gradicido, escrivinhadores''.





   

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Beijos à vontade, almas em pedaços

Quem ele queria no comecinho? Mas bem no comecinho? Hum, não era eu... era a minha amiga. Hum, era a cunhada da prima da melhor amiga de sei lá eu quem, acontece. A gente nunca sabe que tipo de carência está preenchendo, que tipo de vivência está querendo abraçar, que pessoa está idealizando. Quem é você? O que quer de mim afinal?
Já devo ter escrito isso nestes anos de labuta incansável - previsível que sou - porque segue me atormentando: essa conexão de amores e quase-amores é uma selva de esparadrapos ambulantes. Sim, prazer, os esparadrapos ambulantes somos nós, sendo usados para curar sabe-se lá quais dores. De repente até rola, que sei eu das ideias que vocês cultivam sobre amor e resiliência emocional, não é mesmo? Mas por outro lado... hum, que ideia bem problemática. Nada como um amor novo para esquecer um velho - eles dizem. Jura mesmo? Pessoas tapando buracos que elas sequer fizeram? Ok, então. Beijos à vontade, olhos fechados para não ver o caos, almas em pedaços, toques mentirosos. 
Não, não é bem sobre castidade que falo - e se vocês entenderam isso, voltemos às aulas de interpretação com urgência -, mas, sim, sobre se responsabilizar pelas próprias vontades. Ser responsável pelo tipo de sentimento que pode estar despertando por puro capricho, por pura vaidade. É tão errado assim ficar sozinho? Apreciar a própria companhia não é bem sobre solidão. 
Eu sei, não somos mais crianças e já temos uma coleção de adagas lacerando o peito... ah, a passagem dos anos... a cada aniversário, mais velhos e mais cínicos. Cinismo a essa altura do campeonato é até poético. Será isso o máximo que merecemos? Amores pela metade? Pessoas que até estão com nós, mas na verdade estão vivendo no ano passado? Talvez seja uma egotrip desgraçada, não sei, estou na cordinha-linha-tênue-bamba entre amor-próprio e fé cega no melhor do meu coração, mas me recuso a acreditar que só sirvo - servimos - para aplacar meros sofrimentos. Eu quero nem que seja um sofrimento novo, nada de restos. Sai do meu colo, filhão. Feridas só fecham se paramos de cutucá-las, se deixamos-as sozinhas para doerem o que têm de doer. Melhor ainda, inclusive, se não envolvermos terceiros na jornada pedregosa de regeneração - porque, sim, eu acredito ser possível. Se não acreditarmos... pobres de nós. 



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Disfarça e chora - Cartola







sexta-feira, 1 de julho de 2016

Só Pra Contrariar feat. MC Tinder

Estou conversando com umas cinco pessoas
Mas meu superlike vai ser pra sempre teu
O que as circunstâncias tecnológicas fazem
A alma perdoa
Tanta enganação
Quase me enlouqueceu

Vou mandar um emoji de amor
Vou mandar um coração
E dizer o que eu sinto
Com certo nojinho
Pensando em você
Vou bloquear, o que for
E com toda emoção
A verdade é que eu minto
Que esse celular tá cheio de contatinho
Não sei te esquecer

E depois não rolou
Ilusão que eu criei
Bateria foi embora
E a gente só pede
Pra algo menos tedioso aparecer
Já não sei quem me elogiou
Que será que eu falei
Dá pra ver nessa hora
Que o amor-próprio só se mede
Depois de o porre ceder

Fica dentro do meu histórico
Sempre uma vontade
Só pensando nas tuas fotinhos
Eu me encanto de verdade
E quando eu instalo o Tinder de novo
É teu nome que eu chamo
Posso até dar match com alguém
Mas é você que eu amo  quero muito dar uns pegas 




                                               Quem foi trouxa de novo?????









quarta-feira, 29 de junho de 2016

A gata no fundo da fiorino e a conjuntura sertaneja atual

Credo, esse post sertanejo aí embaixo anda me aterrorizando a existência. Nada contra a cultura sertaneja em absoluto, até porque procedo de uma linhagem muito simpática de caipiras - interiorana que nasci. O pavor reside muito é na questão de em segundos me imaginar em um camarote de uma baladinha #top rodeada de agroboys, vendo quem gasta mais em vodkas e energéticos variados, e no dia seguinte aparecer em alguma foto na página "Os Brutos da Agricultura'', fazendo paz e amor com a palma da mão virada pra dentro. Terror da melhor qualidade. É questão de tempo para o John Carpenter filmar algo bem trash com a temática. ''O ataque zumbi de Munhoz e Mariano no Camaro amarelo'' - já imagino em neon em um universo paralelo por aí.  
Bom, como diz nosso amigo da cerveja artesanal e do post catatônico: vamos abrir os trabalhos. Ou melhor, continuá-lo. Ando postando pouco. Não que eu pense pouco, claro, isso nunca, pensadores de pensações que não levam a lugar nenhum, como eu, não entregam os pontos. Aproveitando o ensejo: até andava muito pensativa sobre os desdobramentos do sertanejo na sociedade atual. Está disseminado, entrou em nossas casas, está no ar que respiramos. Mas isso dá dinheiro, então eu acho é ótimo, viva o empreendedorismo financiado pelas calças apertadinhas do Doug e do Cezinha. Ou do Marquinho e do Pablinho. Ou quem sabe do Thiaguinho e Thieferson, a sensação do momento. Não é de todo mal, alguém precisa ir para a frente nessa vida. Que, então, sejam eles que cantam tão lindamente o amor, jogando a gata no fundo da Fiorino. 
Quem vê essas barbaridades contra esses poetas modernos, deve imaginar que eu falo que sertanejo não é cultura. Ou que odeio o mainstream e quero é pagar de profunda, escutando enlatado para vender imagem de sabichona. Longe disso, meus caros reizinhos do camarote, eu cresci ouvindo sertanejo noventista de raiz, e, olha... até que ele era bem bonitinho, uma graça. Coisas como pegar o primeiro avião com destino à felicidade ou sacar que é o amor que mexe com a minha cabeça e me deixa assim ainda repousam timidamente nessa espécie de coração, não sei bem o que é, que trago dentro. E sertanejo, inclusive essa praga do universitário, é cultura sim - o que não quer dizer que sejamos obrigados a consumi-la, claro. Estou mais interessada é em observá-la, ainda que empiricamente, e ver como consegue pautar discursos que vão de paixão à classe social - principalmente classe social. Vide os agros, esses maravilhosos que, além de serem audiência maior dos emergentes em questão, são donos dos meios de produção, alimentam nossas famílias e vestem-se todos iguais. Porém com fivelas de ouro, Bruna, é bom frisar.



                                                          Que medo!!!!! 




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Come on - The Jesus and Mary Chain









quarta-feira, 22 de junho de 2016

A música do violão e do cachorro

Zoei Henrique e Juliano magistralmente aqui, mas aparentemente fui castigada pelos deuses sertanejos, pois me encontro viciadíssima no arquivo intitulado "Meu violão e o nosso cachorro'', das, outrora, desconhecidas por mim Simone e Simaria - lê-se com entonação no ''ma'', não como em sesmaria, leitor. Amanhã, certamente terá passado, o encantamento é chuva de verão, conheço bem. Mas, olha, enquanto isso... gente... eu tô sentindo a dor dessa mulher aqui de casa. Como grita a coitada!

''Se o nosso amor se acabaaaaaar
Eu de você não quero naaaaada...''

CATAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARSE
AAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHH (se joga no chão)

Tem muito sentimento ali, cara. Um sentimento que não emanou dos cores de Henrique e Juliano pra mim. Minha implicância com esses meninos baseia-se, basicamente, em um ódio platônico à primeira vista, não há nada de científico na minha análise. Pois bem, a tacada de beisebol das coleguinhas - segundo minha investigação, as bonitas são conhecidas assim - em meu cerebelo impressionável foi tanta que até clipe fui catar. Não demorou muito para eu estar tal qual Marcos Mion e Mionzinho naquele quadro engraçadíssimo do Descarga MTV (saudades, inclusive!!!) em que eles faziam playback e dramatizavam uma música qualquer. Mas, assim, eu estava gri-tan-do esta canção do violão e do cachorro. E meu gato Menelau ao lado bem admirado. Enfim...

CATAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAARSE


Eis aqui a história, com violão, cachorro - que, não duvidem, foi primordial para o sucesso do hit, pois cachorros <3 - e tudo mais. Se fosse gato, estaria eu de faixinha na cabeça? Nunca saberemos. 




AH VAI SE FODER QUE TU PEGA O SIDNEY SAMPAIO, SIMARIA? OU SIMONE, SEI LÁ EU





  

sexta-feira, 3 de junho de 2016

Yo soy doida pelos sultões do balanço

Dire Straits é uma banda, né? Não, não precisa nem concordar, cala a boca e escuta. Põe sua faixinha a la Knopfler na cabeça e vem com a fanática. Me lembro de ser bem pequena e ver o Mark uma vez num desses clipes antigos que passavam na televisão - e, meu!!!, ele era a cara de um tio meu muito querido, hoje até falecido infelizmente. Não sei vocês, mas eu achava a latinha mesmo. Então, para todos os efeitos, ele sempre foi da família, ainda que só mais velha eu tenha ido atrás das canções de sua bandinha inglesa (malditos ingleses e suas bandas viciantes).
Pois bem, com o delay imperdoável de um ano, vim falar dos 30 anos do lançamento de Brothers in Arms, o único disco dos sultões do balanço a figurar na lista dos 200 álbuns definitivos no Rock and Roll Hall of Fame. Para ser franca, nem é meu favorito, mas aparentemente estar nesse rol é grande coisa, então vamos entrar no joguinho - sem falar que nele repousa a belíssima música que dá nome ao álbum e é uma das minhas favoritas. Como descrever Brothers in arms? Olha, amigo, eu também não sei.   
O projeto conta com a inesquecível Money for nothing, cujo clipe foi o primeiro da história a passar na MTV europeia. Sem falar na letra, que tem um sarcasminho ótimo e faz meu coraçãozinho debochado não guentar, não. É aquela velha história: roqueiros bem-intencionados ironizando o consumo, mas sendo consumidos pelo mercado. Já So far away, uma autêntica baladinha oitentista, conta a história de um alguém que ama um outro alguém, porém está tão tão longe deste alguém. Faço das palavras deste alguém as minhas, pois I'm tired of being in love and being all alone, when you're so far away from me, I'm tired of making out on the telephone 'cause you're so far away from me. Fica a dica, tá? Então tá. Sabe aquela música das propagandas cafoníssimas da RBS promovendo campanhas comunitárias na década de 90? Pois é, é a intro de Walk of life, mas vale lembrar que ela não tem culpa de nada e segue sendo muito boa. Além disso, duvido ser possível escutá-la sem sair fazendo passinhos pela casa. Sim, nós estamos falando da canção mais alegrinha do planeta. Em suma, irmãos, Dire Straits faz bem para ela, a saúde dos ouvidos. Apreciem sem moderação. Apreciem pra caralho.

    
*A capa é em azul e tem a imagem das nuvens, a fim de nos fazer pensar que estamos no céu quando escutamos o álbum.................... ok, nem é, mas totalmente mentira não deve ser.  



                                DESTRÓI ESSA GUITARRINHA PRA NÓIS, MARK!!!




Auxiliou no post: adivinha aí. 





                                               
     

terça-feira, 31 de maio de 2016

Só vitórias

Terminei o mês de maio - mês das noivas, da música do Kid Abelha e das mães - maravilhosamente bem. Primeiro acordei como se estivesse embebida em uma poça de lágrimas - antes fosse, mas não era, vejam só. Comecei uns 45 remédios novos para tratar ansiedade - esse mal do século e rido por todos -, e aparentemente as drogas, quando combinadas, têm esse leve efeito que é o de nos fazer suar como porcos. Uma das melhores coisas da vida é ir dormir quentinha & limpinha, e acordar tragada pelo frio de um suorzinho seco no corpo. Isso depois de ter sonhos lúcidos a noite inteira com gente que eu quero esquecer que existe - só que sem o glamour de Vanilla Sky e sem Tom Cruise, claro. Recomendo como um domingo em Trancoso na Bahia.
Depois de trocar meu pijaminha roxo, fui soltar meus dois cãezinhos, que estavam mais ensandecidos que três Inri Cristos de lambreta. Onde foram parar aqueles bebês que acalentei em meus braços e agora sujam meu pijama recém trocado de barro mortal com suas patinhas? Suja mais, porra, tá pouco sujo. Ó, céus, um deles ainda machucou minha mão com a corrente, e agora exibo na pele um rasgo magistral que combina muito bem com o anel que vovó me deu. Obrigada, Nina, gentileza sua. 
Vamos adiante. Uma olhada no espelho e um tapinha no visual moreno e sedutor. Franja maldita, por que me magoas? Franja é aquele negócio: entre fazer e não fazer, escolha a segunda opção. O tapa no visual quase se converte em um soco no olho para deixar de ser burra. Assim, eu amo mudar meu cabelo, usaria facilmente uma peruca diferente por dia. Mas quando vem aquele comichão camaleônico, eu nunca equalizo o custo-benefício do modo certo, só penso em tesouras e nada mais. Vai mais uma vida para aprender isso. Mas sigo linda. Por dentro.   
Logo em seguida um tiro no peito à queima-roupa: meu superlike não foi aceito. Pausa. Não é muito bom se dar conta disto após um embate entre você e sua franja do mal. Respira. O triste mesmo é que pelas minhas contas essa foi a segunda recusa, quer dizer, eu, além de brasileira e não desistir nunca, sou uma sociopata graduada. O cara deve estar achando que eu sou uma doente-mental-apaixonada-stalker-incurável ou sei lá eu. O que não é totalmente mentira. Mas nem totalmente verdade, vai. Enquanto isso, na salinha de espera do aplicativo, três matchs ridículos me aguardam para mais umas sessões de conversa sem sal. Sabia que tua franja tá linda? Vamos lá, é o amor batendo na porta.
Também recebi um e-mail de trabalho incrível e motivador. Com um único porém: nunca foi escrito pra mim, visto que não fui aceita na seleção do fatídico emprego. Ah, foi um engano, isso acontece. E é claro que eu li toda a mensagem com um sorriso no rosto e em nenhum momento dei um soco na mesa com minha falange outrora esfacelada pelo meu cãozinho amor. 
Agora, escrevo este texto com uma semimão e com o coração inundado de amor por ter fodido meu computador de vírus variados, após baixar um programa de origem duvidosa. Sim, porque eu sou uma noob desgraçada que só queria jogar um joguinho tosco mais velho que Tutankamon de achar pistinhas de assassinatos. Nem vou falar que é aquele da Agatha Christie, porque eu ainda tenho um resquício de vergonha na cara. Vou ali dormir e suar, até mais.

   





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Not if you were the last junkie on earth - The Dandy Warhols 







segunda-feira, 30 de maio de 2016

Vadia

Ei, menina, deixa eu contar um segredo: você não é especial. Não aos olhos de um mundo de supremacia masculina em todos os âmbitos da sociedade. É válido sempre colocar a máxima em cima da mesa: não se trata de um jogo em que você compete com as outras mulheres para ver qual merece mais ser feliz. Ser feliz por andar na linha, ser feliz por beber pouco numa festa e ser discreta diante dos amigos daquele bostinha que tanto quer impressionar. Ser feliz por ficar sexta à noite em casa e tirar fotos dizendo que é pra casar, afinal, isso vai lhe garantir um príncipe montado num pangaré e fazer da sua vida um conto de fadas morno e sem sal. Ser feliz por julgar aquelas periguetes que saem de barriga de fora e vestidos minúsculos. As periguetes e você estão todas no mesmíssimo barco.
Para todos os efeitos, você será uma vadia, puta, vagabunda em algum momento da vida. Vadia porque deu. Vadia porque não deu. Vadia porque deu muito. Vadia porque deu de menos. Vadia porque é direta. Vadia porque quer que as coisas vão mais devagar, afinal, isso é coisa de vadiazinha fazida. Vadia porque não quis trabalhar. Vadia porque só quis trabalhar. Vadia porque quer estudar. Vadia porque é inteligente. Vadia porque não estudou e, claro, isso só pode levar a um golpe do baú. Vadia porque não quer ter filhos. Vadia porque teve filhos demais. Vadia porque abortou. Vadia porque não abortou e colocou no mundo um filho que se sentia incapaz de cuidar. Vadia porque diz o que pensa. Vadia porque nunca diz nada. Vadia porque quis se separar. Vadia porque não quis se separar. Vadia porque mora sozinha. Vadia porque mora com os pais, baita vadiazinha sustentada pelo pai essa daí. Vadia eternamente. Vadia simplesmente por existir. Você não é diferente, não é uma iluminada olhando de cima essas pobres mulheres que não se ''dão o valor''. Você vai ser elas em alguma circunstância. Essa lógica perversa vai doer em você, porque ela sempre dói. 




        

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Christine me mata

Preciso falar sobre Christine.




Não, pera, não é a Fernandes, errei. É essa aqui, ó:




Sim, essa, porque tal carro é uma menina muito temperamental. Não tá entendendo nada, né? Eu menos. Sempre fui chegada numa coisinha trash dos anos 80, quer dizer, aquilo ali é meu território. É, amigo... polainas, cabelo ridículo, cor neon, dancinhas pop, ombreiras, dramaticidade, Blitz, exagero, Cyndi Lauper... desta cafonice vim e dela renasço.
Mas me cagar de medo dessa coisa ridícula do John Carpenter depõe muito contra minha pessoa. Sim, porque eu me cago. Não literalmente, caro leitor doente, mas que fico agoniada, fico. Já procurei nos vãos mais obscuros da minha alma por que raios ela, Chris, me assusta tanto. Vai ver, eu fui morta por um Plymouth Fury 1958 vermelho e branco em outra vida, após uma perseguição básica madrugada adentro. Bem meu papel.
Pra quem não sabe, a patacoada oitentista é fruto do livro de mesmo nome do escritor Stephen King, o reizinho literário do horror - e talvez isso me absolva a little bit. Também são do americano, clássicos como O Iluminado, Carrie - A Estranha, It: A Coisa, entre outras coisinhas bizarras e horripilantes.
Ei, eu já sonhei que pegava um táxi dirigido pelo Pennywise sabe-se lá pra onde. Acho melhor parar com o deboche. Ufa, confessei.


                            Então a senhorita anda ironizando minha co-irmãzinha?




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Tudo pode mudar - Metrô







domingo, 15 de maio de 2016

Clube da Luta

Desde que comecei com minhas abobrinhas, venho negligenciando Fight Club, então vamos lá. Que puta filme! Que senhor nó na cabeça. É bem verdade que, 15 anos após seu lançamento, a sinopse sobre dois marmanjos que resolvem trocar uns socos a troco de nada parece ser a preferida de 11 entre 10 adolescentes revoltados com a existência e o preço do lanche do colégio. Porém não sejamos levianos: tem profundidade das boas no filme de David Fincher. Tem profundidade demais - demais - naquela carinha linda e cheia de hematomas do Jack.
Na história, nosso narrador - que até então não tem nome -, interpretado pelo fabuloso Edward Norton, é um analista de seguros extremamente consumista e de saco cheio. Sua gana de adquirir o último catálogo da Macy's é diretamente proporcional ao seu niilismo diante da vida e do seu lugar no mundo. Com um pequeno detalhe: ele sofre de insônia galopante. Por conta deste problema, o jovem vai acabar conhecendo umas figuras bem curiosas, como uma tal Marla Singer (Helena Bonham Carter), moça com sérias tendências suicidas, além de Tyler Durden, um vendedor excêntrico de sabonetes - papel que coube a um Brad Pitt deveras bronzeado e robusto. A partir daí, esta turminha vai aprontar altas confusões na sua sessão da tarde. Tá, sério. Mas vai rolar uma complicação... hum, fodidaça. Na primeira vez em que assisti, jurei ter perdido algo. Deve ser uma sensação recorrente a todos que embarcam sem anestesia na psicodelia fincheriana.
Gosto de imaginar que Clube da Luta é o gêmeo bivitelino de Beleza Americana, aquele deboche maravilhoso orquestrado por Sam Mendes e, coincidentemente, também lançado em 1999. Caricatos? Pode até ser, mas não menos verossímeis. Mais verossímil ainda é o semblante desesperado e esquálido do Jack, porque é o mesmo que o meu, em franca ascendência rumo ao nada com 20 e quase todos. Sem dramas, sabemos bem o que vivemos, mas não deixa de ser corrosivo enxergar-se com tanta exatidão. ''Você compra coisas que não precisa com dinheiro que não tem para impressionar pessoas de que não gosta'' é a lápide de uma geração. Sempre será genial viver se dando tanta importância enquanto existirem vitrines e outdoors.
Clube da Luta é muito mais que um filme sobre socos e rostos desfigurados pela ânsia de se sentirem vivos. E é perturbador, porque mexe com a inércia de toda uma modernidade presa em estereótipos. Nós não somos espertos. Estamos condenados a ser quem somos e esse é o pior castigo.


                  
                Pfff Brad Pitt.... só tenho olhos é pra esse magrelinho sociopatinha awn





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Buddy Holly - Weezer







segunda-feira, 2 de maio de 2016

Dia de gordinha tensa

HMMMMM GORDICES~~
GORDINHAS TENSAS~~
SENDO GORDAS~~
SENDO GORDOS~~
DIA DE GORDICE~~
HOJE É DIA DE SER GORDO~~

Porra!!!! Que merda, sabe? Tem pouca gente dentro do padrão legendando foto feia, mal tirada e previsível com as citações acima. Pode muito mais. Manda mais, miga, sua loka!!!!!!!

DIA DE GORDINHA TENSA COM MINHAS MELHORES E MUITO BRIGADEIRO AWNNNNNNN SUAS LINDAS AMOOOOO #TOP #MINHASMELHORES #CATS

Veja bem, eu sempre fui magra. Sempre fui magra, mas somente há uns três anos reconheci meu privilégio magro. Não fiquei imune aos sofrimentos e reprovações sobre o meu corpo quando adolescente - isso é praticamente um bônus de ser mulher -, TODAVIA achar que minhas encanações foram e são iguais às de meninas gordas é no mínimo má-fé. Burrice. Alienação. Eu e mais uma penca de gurias sempre reconhecemos nossos corpos na televisão. Na capa da Boa Forma, nas passarelas de moda, nesses flyers idiotas de empresinhas mequetrefes de suplementação alimentar. Nós sempre fomos padrão. Nunca recebemos um olhar sequer de condenação da família ao irmos às panelas. E se fomos interpeladas, sempre foi em tom elogioso, como que pertencendo a uma casta iluminada e abençoada pelas harpas celestiais: ''Veja como essa menina é demais. Come, come, e não engorda, pode até ser modelo."
Então, quando você está dentro do padrão e se utiliza destas expressões para afirmar sua posição de mero consumidor de um bolinho inocente, você inferioriza pessoas realmente gordas e que sofrem com um mundo que insiste diariamente que elas existem de modo errado. É a mesma coisa com o termo ''negrice'', tão horroroso que me enjoa só de ler aqui. Quer dizer, isso aqui é coisa de gordo e tão nojento e deplorável, mas que bom que eu posso, né?
Ok, cat, você e suas melhores podem não ter noção do que fazem, visto que o mundo é assim desde que é, e ser magro é lindo e presente dos céus, mas imagina que louco ter ciência de que se é um ser político e começar a pensar sobre variados privilégios? Imagina que louco quando a gente se der conta de que não existimos sozinhos e somos, sim, seres fazendo política diariamente em linguagem, ações e pensamento? Vai ser épico, quem sabe o implante capilar do Eduardo Cunha até caia.  


*Em hipótese alguma quero roubar lugar de fala nesse texto, logo, caso se interessem pelo tema, busquem umas gurias tri inteligentes e gordas - realmente gordas - falando do tema aí nos googles da vida. E tentem ser menos imbecis, vlw flw. 



                                                   cai, implantezinho, cai




                                        



quinta-feira, 14 de abril de 2016

Águas de abril

São as águas de abril iniciando o outono
É a promessa de vida no meu mais singelo sono

Aqui - sim, você sabe, bem aqui - caiu uma chuva fina e gelada à tarde, como que antecipando a melancolia dos dias frios que esperamos, agoniados. Chuva é ótimo para materializar insights criativos. E mergulhar no obscuro da alma, das divagações. Pra mim, que sou uma uma curiosa eterna das fraquezas humanas, é um deleite calmo e contemplativo. Tom Zé e seu Tribunal do Feicebuqui (2013) me acompanham na empreitada. Tom e outros absurdos vivendo à margem dos holofotes de feicebuqui, bem no fim, penso serem melhor apreciados nas madrugadas da vida. Alguém tem a ousadia de explicar este homem? Por que MPB aninha-se tanto com o escuro das noites e o silêncio dos atormentados? Questões.... questões. Questiono, questiono, quanto mais o faço, mais fico sem dono.

Mas me fala aqui, por favor, a quantas anda você?

Eu quero saber a quantas anda você
Se está zen ou deprê
Up to date ou tipo demodê
Quero saber a quantas anda você
Se popular ou privê
Se animada ou blasé

Se está longe numa sonda
espacial em marte, além do que os olhos podem ver
Ou num deserto esperando
a próxima miragem, sem ter alguém para onde correr
Ou por aí, em qualquer parte, vendo a sessão da tarde na tv

Eu quero saber
Como está mesmo você
Transparente ou fumê
Rapadura ou glacê

Eu quero saber
A quantas anda você
Reggae ou mpb
Alta costura ou pret-à-porter
Pret-à-porter e frenesi

Se em uma gôndola bucólica em Veneza
Ou presa num rancho na marginal do Tietê
Se cantando no chuveiro, se achando estrela
Se arriscando em concursos de karaokê
Ou vestida numa casca de banana nanica
Na pista de dança ao som de Beyoncé

Eu quero saber
A quantas anda você
Se vai de chá ou de saquê
Se lê caras ou malarmé
Eu quero saber
Como está mesmo você
Se vai lembrar ou esquecer

A nossa dor, o nosso prazer
A nossa dor, o nosso prazer
A nossa dor, o nosso prazer
A quantas anda você
A quantas anda você
A quantas anda você


Conte-me longe do tribunal, eu prefiro.










segunda-feira, 21 de março de 2016

O Brasil pede menos fuças

Trata-se de uma coisa que me deixa agoniada. Desconcertada. Intrigada. Meio sem palavras. Fascinada. Comovida. Dadas as circunstâncias, até meio invejosa. São tempos difíceis para se gostar da própria cara, reconheçamos o óbvio. E as pessoas conseguem. Resistem. Na tela do celular. Na capa da outra rede. Jesus Maria José, na área de trabalho do computador pessoal!!! Meus olhinhos com astigmatismo chegam a brilhar.
São infindáveis as opções para se ilustrar estes espaços, vocês hão de convir comigo. O mundo está cheio de belezas. De feiuras igualmente admiráveis e passíveis de significado. Cachorrinhos. Gatinhos. Ornitorrincos. Um filhinho. Família. Mamãe. Papai. Vovozinhos. A Grande Família. O Tuco e o Popozão. Papagaios - o verde deles está em alta com essa onda verde-amarela, não acham? O lábaro que ostentas estrelado. Qualquer lábaro, até do Tio Sam tá valendo. Abaporu. O seu cu. Quadros do Romero Britto. Guernica. Capa de algum álbum do Amado Batista. Ou do Arctic Monkeys. Jorge e Mateus. O clareamento dental do Gusttavo Lima e você. Dedo do meio. O mãozinha da Família Addams. Desenhos em geral - eu usaria o Pé de Pano, melhor equino da história. Filtro dos sonhos - sei que ninguém mais aguenta, mas estamos falando de soluções rápidas aqui, não? Filtros de café, acho conceitual. Seguindo no perímetro alimentício, frango com batata doce. Ou um pote de Whey Protein? Batata frita com ketchup. O próprio tubo de ketchup. Christian Bale com a cara ensanguentada de Patrick Bateman. Christian Bale em qualquer personagem. Batman. O Alfred com aquela cara sonsa - melhor que a sua cara sonsa sem dúvida é. Uma árvore. Uma flor. Uma poesia. Uma dor. Um cobertor. Uma Hattori Hanzo. O Pai Mei. O bigodão gigante do Pai Mei. O bigode do Emiliano Zapata. Ok, qualquer bigode, eles são tão engraçados. Qualquer frase genérica daquela página maldita Cifras. Qualquer frase da Clarice Lispector atribuída à Martha Medeiros. Qualquer frase do Bob Marley atribuída ao Arnaldo Jabor. Qualquer frase anônima atribuída a algum filósofo que nunca foi lido. Qualquer frase dizendo positividade ou que seja doce - argh, e o pessoal diabético que se dane, né? Um saco de açúcar. O saco do seu namorado. O seu namorado e o seu ficante na mesma foto, total vanguarda. A foto da foto. Nenhuma foto, que tal uma artezinha rupestre? Mas nãããão, por ora, as próprias fuças seguem imbatíveis. E montagens com v á r i a s fotos das fuças? Que coisa. A psicanálise, o FBI, Papa Francis, sei lá, alguém precisa nos dar respostas urgentes.

.............



                                                                HEHE




Auxiliou no post: 

Nothing's gonna hurt you, baby - Cigarettes After Sex







                                             


domingo, 20 de março de 2016

¯\_(ツ)_/¯

Juro que, ao falar em política brasileira atualmente, me vem à mente esta simbólica carinha:
¯\_(ツ)_/¯ 
S o m e n t e ela. 
Sério - seríssimo -, eu queria opinar simplesmente em toda e qualquer conversa política com essa carinha. E sair soberana. Eu diria que os emojis nos dão alento para viver. Porque não está fácil viver. Se está fácil pra você, faça um canal no youtube e dê umas dicas pra nós, reles mortais que estamos nos arrastando neste jogo diário de suportar o peso da existência. Argh, o peso da existência. Porque existir pesa. Dá trabalho, cansa, martiriza, produz dúvidas. Não aguento mais ler sobre política. Não aguento mais ser um ser político. Aristóteles, seu magnânimo filho da puta, como eu te odeio.  
Eu só sei duvidar. Eu não aguento mais duvidar. Quem sabe, por isso, eu seja uma gênia. Mas não é assim que me sinto. Me sinto apática e completamente perdida. Não sei o que esperar dos próximos acontecimentos. Que a corrupção é uma desgraça crônica da nossa pátria, já sabemos. Jânio Quadros está até hoje varrendo tudo.......... varre, Jânio, varre. Então, o que fazer? Pra quem correr? 
¯\_(ツ)_/¯
¯\_(ツ)_/¯
Minhas convicções políticas tendem a seguir o viés canhoto, é inegável. Não dá para esperar muito de uma jornalista que quer achar um sentido para viver na antropologia. A esquerda me fode a vida, mas eu sigo meio encantada, vocês sabem, sou previsível. No entanto, não morro de amores pelo Luiz Inácio e rio da cara de quem chama o governo petista de comuna. Cá entre nós, até eu dividindo meus Bis sou mais comunista que o PT. Não existe comunismo em país onde banco tem recorde de lucro. 
Eu queria ir pra rua. Ir pra rua é fantástico. Eu tô só por depor um presidente e sentir que sou um híbrido de cara-pintada e Heloísa de Anos Rebeldes (1992)*. Mas como ir pra rua com gente que chama beneficiário de Bolsa Família de vagabundo que não quer trabalhar? Como ir pra rua com viúvas de Médicis e Figueiredos? Choram Marias e Clarices....
Desculpe, mas não dá. Dedico este texto à primeira dúvida que roeu os frios neurônios do meu cérebro. Sim, porque aparentemente eu deixei de acreditar e congelei. Gigante uma ova. 



*A propósito, deem um jeito de assistir a Anos Rebeldes. É demais!



                                            Status: mais lacônica que Helô





quinta-feira, 10 de março de 2016

Feminista eu? Tá louca, Bruna!

O rótulo ''feminista'' assusta, né? Onde já se viu ser chamada dessa coisa horrenda aí. Eu não sou feminista, sou feminina, meu bem. Argh, pausa pra vômito. Como se uma coisa excluísse a outra. Nenhuma mulher deve ser coagida a se denominar feminista, mas fazer suposições sobre uma palavra cujo significado verdadeiro se desconhece é desonestidade intelectual. Burrice, sabe.
Eu já elenquei neste espaço os momentos que despertaram em mim uma consciência feminista e não vou entrar em detalhes novamente, mas queria deixar claro que eu também morria de medo de ser ''tachada'' de. Sei lá, não me sentia confortável. Mas isso era quando eu não tinha lido nada profundamente. Pois aí eu fui ler, estudar - sim, porque é um estudo - e aprender. Em suma, sair das trevas da ignorância.
Você, amiga que me lê no momento, pode até espernear e dizer que não é feminista, mas, se por algum motivo, já se sentiu discriminada única e exclusivamente por ser mulher, devo dizer que carrega um ímpeto dele, o feminismo, no peito. Se já deixou de colocar uma roupa, porque sabia que na esquina de casa haveria homens ''mexendo'' com você, e ficou chateada por isso, saiba que carrega uma faísca feminista no coração. Ai, Bruna, mas os homens são assim desde sempre, eles mexem, eles brincam. O nome disso é machismo, minha cara. O mundo é machista desde que é mundo porque foi feito para homens e funciona segundo suas leis e princípios. Não quero soar academicista, até porque não tenho propriedade pra isso, mas vivemos, desde que as coisas são o que são, em um sistema de opressão chamado patriarcado. Busquem saber as amarras que advêm disso, politizem-se. Não para impressionar os outros, mas para viverem melhor, para terem consciência dos meandros sociais e políticos em que estão envoltas. Saca os sonhos de uma estudante de Ciências Sociais............
Eu sei, eu sei, temos homens maravilhosos convivendo com nós. Ai, Bruna, que horror, meu namorado não é machista, tá louca? Ele é, amiga, ele é; não porque é o cramunhão, e, sim, porque reproduz os privilégios aos quais seu gênero está habituado há séculos. Reproduzir discursos privilegiados é mais fácil que andar pra frente.
Meu pai é um baita cara, mas é machista. Não um machista que espanca mulheres e as assedia na rua, mas um machista que se recusa a lavar uma louça, por exemplo. E eu sigo amando ele mais que tudo na vida. Todos nós, homens e mulheres, estamos à mercê da nocividade do machismo e ele aparece em diferentes níveis de opressão. Tem mulheres que sofrem mais e outras que sofrem menos, sempre, claro, levando em conta os importantíssimos recortes étnicos e de classe. Viram a gravidade de sair despejando asneira sem nem saber do que as coisas tratam?
O machismo me enoja, por exemplo, quando eu preciso sair sozinha à noite. E sei que enoja vocês também. Eu sei, eu sei, a violência é cruel com homens e mulheres, mas homens não sentem medo de serem estuprados. O machismo me enoja quando eu vivo num país onde o aborto é ilegal, restringindo o direito sobre o meu corpo. Não me interessa sua crença, meu bem, eu não quero ser obrigada a ter um filho que não planejei e ter que criá-lo como um castigo por ter ''aberto as pernas''. O machismo me enojou quando eu tive que trabalhar numa redação de jornal cheia de homens e tive que conviver com insinuações sexuais sobre o meu corpo, porque eu era ''uma novinha bonitinha''.
Sabe, se vocês se reconheceram nesses relatos, que podem até soar bobos, saibam que possuem uma célula feminista pulsando aí dentro de vocês. E não existe motivo para se envergonhar disso.






       

terça-feira, 8 de março de 2016

Mulher de verdade

Sou uma feminista medíocre, raramente milito em detrimento de minhas rotinas pessoais. Mas nunca fui escrachada ou tive minha ''carteirinha'' confiscada no movimento. Sigo me depilando, usando maquiagem e sendo uma romântica insuspeitíssima (é a vênus em libra, perdoa). Eu sou uma mulher de verdade, sabe? Mas também tem mulher de verdade que não é feminista. Mulher de verdade que nem sabe o que é feminismo e por algum motivo acha-o dispensável em sua vida. Também tem mulher de verdade que é feminista e, ao contrário de mim, escolheu não se depilar, usar maquiagem ou acreditar no amor. E tá tudo bem igual. Todas são mulheres de verdade. Todas têm suas dores e vivem segundo as circunstâncias que acharam em seus caminhos. Tem mulher de verdade que gosta de rosas e mulher de verdade que acha isso um saco, tipo eu. Posso receber minha parte esmagando gatinhos?
Tem mulher de verdade que já abortou, muita mulher de verdade que ainda vai abortar. Tem mulher de verdade que já traiu o marido, o namorado. Mulher de verdade que ama outras mulheres. Mulher de verdade que ama mulheres e homens. Mulher de verdade que, por algum motivo, não exerce a maternidade do jeito que disseram que era o certo: ela é solteira e sai todo final de semana para beber com as amigas, mas segue sendo uma puta mulher. Todas nós somos putas. Tem mulher de verdade que nasceu biologicamente com um pênis, e quem é você para dizer que ela não pode? Tem mulher de verdade que milita no movimento negro, mulher de verdade que sofre preconceito étnico, mulher de verdade de dreadlocks e tranças, tem mulher de verdade que alisa o cabelo. Tem muita mulher de verdade nas tribos indígenas que resistem nesse país imenso. Tem mulher de verdade gorda e magra. Tem mulher de verdade com deficiência física. Tem mulher de verdade que não quer ter filhos. Tem mulher de verdade que teve filhos mas não queria. Casou mas não queria. Tem mulher de verdade que quer casar e cuidar somente da casa, qual o problema? Pensar que só essa vida é bacana é que é problemático.
Tem mulher de verdade que é chamada de guerreira, mas intimamente está cansada desse embate em que só ela cozinha, só ela limpa, só ela cuida, só ela organiza, só ela, só ela, porque culturalmente foi ensinada que só ela DEVE - do contrário, seria uma pessoa sem brio. Ou alguém que não valeria a pena ter ao lado como namorada, esposa. Sabe, você não é guerreira, você é oprimida. Mas isso não é vergonhoso. Vergonha é oprimir, protegido pelo manto sagrado do ''mamãe me ama, faz tudo por mim''. Vergonha é não lavar um copo sequer na pia, já que ''aquela moça que trabalha aqui é paga pra isso.'' Não é?
Tem mulher de verdade de tudo que é jeito. E todas elas são muito de verdade, porque só elas sabem a delícia e a dor de serem o que são. Menos florzinha e promoção sexista e mais empatia, que tal?







segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Leozinho e minha preguiça de existir

E aí, insuportáveis?

Me dei umas férias após o carnaval, sabe como é, muito glitter pra tirar do cu, muio pensamento pra colocar em ordem, aquela coisa preguiçosa de janeiros e fevereiros em que a gente só quer sombra e água fresca. E, sim, eu começo texto com pronome oblíquo, porque a caralha do blog é minha e esse é o meu jeitinho.
Pois bem, não posso fugir da ovação do dia, DiCaprio finalmente levou aquele bonequinho dourado engraçado pra ornamentar a estante de casa. Mas, olha, no Oscar do meu coração, ele já tinha copado desde aquele doido do Billy Costigan de Os Infiltrados (2006). Ai, posso falar? Amo um problemático de camiseta branca assim, todo arruinado dos neurônios, todo sexy de barbinha por fazer, todo pedOK, ESTÁ ÓTIMO, PESSOAL.  

                                             NÃO FAZ ASSIMMMMMMMMMMMMM

Bom, embora pareça, não vim falar sobre Jack Dawson, mas divagar sobre preguiça - e até rolou um trocadilho maroto aí. Devagar estamos. De vagar, queremos trégua. Sei lá, tenho problemas com o fim do verão e das férias. Vocês não? Só sei dizer que tá um marasmo esse regresso. Sei que o ano começou há dois meses, mas a cabeça não acompanha o sentimento de oba-oba proporcionado por esses meses sabáticos - ao menos na teoria. Não quero corrompê-los com minha má vontade, mas algo me diz que vocês me entendem. Não há por que ter vergonha da preguiça de existir, quando o mundo não anda assim tão convidativo. Blá, blá, blá, eu sei, vamos seguir. Se ao menos a gente pudesse dar uma pegada na estatueta do Leozinho como motivação, né? Aff




Auxiliou no post: 

Alone - Bee Gees