segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Procrastinação e castigo

           Aí você poderia ter feito antes, e não fez. Sei lá, arrumou até uma receita diferente para cozinhar, se matriculou na turma de Pilates, foi fazer trilha ecológica na Pedra da Gávea, mas o que tinha, efetivamente, de concluir: nananinanão. Sacumé, né? Procrastinar é uma arte. Se você tem talento para a coisa, é certo que vai se destacar na multidão. No momento em que se procrastina, sente-se meio invencível, se tem a convicção de que haverá triunfo em meio a qualquer intempérie. É fácil pensar isso, porque há uma leve impressão de que se pode controlar o andamento dos fatos. Ledo engano! Nada fica sem punição.
            Bom, quando, finalmente, você resolver dar jeito na tal coisa que foi "procrastinada", adivinhe? O universo não vai conspirar a favor, meu querido, pode começar a espernear. Vai acontecer uma catástrofe atrás da outra. Vai ser o Apocalipse. Vai faltar luz. Você vai derrubar ketchup na camisa branca, minutos antes de sair de casa. Você vai perder o ônibus. Você vai gastar R$ 50,00 de táxi. Todas as portas estarão fechadas, lógico. Todas as pessoas com quem precisar falar estarão em férias no Azerbaijão. Nenhum telefone será atendido. As filas serão dez vezes mais quilométricas. Você será atendido somente por pessoas sonolentas e que, provavelmente, estarão de ressaca. Vai chover granizo e por aí vai. Ou seja, todo o período ocioso será convertido em caos, e o sentimento de impotência - do latim tomei no cu - será inevitável.
            Para cada minuto contado de atividade retomada, deve-se contar 58949 minutos de imprevisto - eis uma verdade incontestável. Trata-se de um círculo vicioso, cuja voz ecoa dentro do canal auditivo mais profundo amargos "por que não fiz enquanto tinha tempo? por que não fiz enquanto tinha tempo? por que não fiz enquanto tinha tempo?", a cada 5 minutos. Todo mundo procrastina algo nessa vida, nem venham me dizer que não. Eu tenho as minhas culpas, tamo junto. Dostoiévski escreveu Crime e Castigo, e eu... bom, eu vou escrever "Procrastinação e Castigo". Aguardem nas piores livrarias.


domingo, 26 de fevereiro de 2012

Ode ao ódio

           Vocês sabem, odiar é o nosso esporte favorito. Odiamos o gosto musical excêntrico do nosso vizinho. Odiamos o fato de ele não se contentar somente com os fones de ouvido. Odiamos esperar - essa é clássica. Odiamos fofocas - exceto, é claro, quando somos os leva-e-traz da vez. Odiamos quando começa a chover exatamente no momento em que pretendemos sair de casa. Odiamos internet lenta. São ódios meio genéricos, mas o fato é que odiamos de tudo um pouco. , , o amor é um amorzinho, uma graça, mas outra hora eu falo dele. Hoje, vamos brincar de odiar.
            Eu, por exemplo, odeio quando tentam manter diálogos comigo, enquanto luto ferozmente para continuar de olhos fechados - leia-se dormindo. Odeio também de um modo meio infantil e Tarantiano, burocracias de qualquer espécie. Nossa, como odeio. Odeio tanto que amo odiá-las. Já viram essa de amar odiando? Pois é, o negócio é surreal. Claro, meu ódio é ingênuo, coitado, acaba resignado e escondido em alguma gaveta por aí. Mas enganam-se aqueles que pensam que o ódio não pode ser algo produtivo. O meu, invariavelmente, acaba passando por alguma mutação.
             O ódio - esse sentimento condenado a viver no ostracismo e temido por toda a família dos pecados capitais - deve ter uma história meio obscura, arrisco. Vai saber por que esquinas anda se manisfestando, hein? Ninguém sabe ao certo. Mistério. E todas as letras lindas que falam de desilusões amorosas, por exemplo? Ouso dizer que há resquícios dele em alguns acordes, algumas rimas. Ninguém pode dizer que não. Quantas vezes morremos de ódio na vida, e, no entanto, seguimos ressuscitando? Sabem, meus melhores textos são dele. Meus melhores choros e momentos de catarse idem. Que me perdoem os cheios de amor para dar, mas, para mim, o ódio é fundamental - em doses homeopáticas, claro, que um felzinho criativo, tal qual o ócio, tem seu valor.


segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Algumas considerações a respeito do Phoda-C

           Eu, que costumo ser uma flor de diplomacia, não nego que o "foda-se" é libertador. Gritar sem pudor um "foda-se" com todos os seus fonemas tremulando na língua e sua carga existencialista lambuzando a boca é, de fato, impagável. Mas não se enganem: ele conhece todos os nossos titubeios, todas as nossas inseguranças, todas as nossas dores. Malandro velho, vê de longe quando é banalizado, seu faro é aguçadíssimo. Eu, por exemplo, cada vez mais tenho certeza de que sua essência percorre caminhos mais sutis e pouco audíveis a ouvidos nus.
           Vão dizer? Geralmente, recorremos ao ato de pouco nos fodermos para algo, quando estamos p. da vida com alguma coisa, com alguém, com alguma circunstância, ou whatever. Meio sem saída, ao olhar para os lados, gritamos para quem quiser escutar que, vejam vocês, estamos querendo que o motivo de nossa cara de poucos amigos se lasque, se foda, se estrepe. E que ninguém ouse perguntar o porquê de tanta rebeldia, porque, né? Estamos bravíssimos e muito decididos em mandar o mundo à puta que pariu. Somos muito do mal. Que meda.
           Exaltamos o "foda-se" em letras garrafais nas internetchy da vida, muito ferozes e maquiavélicos - se bobear, saímos até com um chapéu anunciando que, olhem só, estamos desejando que tudo a nossa volta foda-se bem fodido. Mas é exatamente aí que eu entro com minha teoria furada, meus caros. Penso que, quanto mais berramos - verbalmente e por escrito - mais estamos nos "importando", mais estamos deixando que aquilo - sejá lá o que for - nos roube a atenção e algumas horinhas de sono. Se estivéssemos, de fato, honrando a dignidade do "foda-se", não nos daríamos ao trabalho nem mesmo de comentar, de falar a respeito. Simplesmente, deixaríamos a vida correr, sem sobressaltos, sem grandes mistérios. Já ouviram falar em indiferença? Pois é, creio que seja bem por aí.
            No fundinho, sabemos que a vontade de sair dizendo em alto e bom som que "fodam-se tudo e todos" é diretamente proporcional ao nível de envolvimento com a coisa, com a situação. E deveríamos saber também que o ato de realmente deixar de se importar com deteminada "coisa" vem de dentro, vem espontaneamente, vem livre e desimpedido, e, nunca pressionado por fatores externos. As verdadeiras cápsulas de Phoda-C não são encontradas em quaisquer farmácia e horário, e não passeiam impunemente pela cabeceira de qualquer desavisado por aí. Todavia, quando aparecem - sempre aparecem - milagrosas que são, provocam mudanças drásticas. Quem tomou, corrobora.





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Gentileza gera...

          Percebam como é fácil afagar um coração leonino e despertar nele o sentimento mais puro de gratidão. rs // Estava eu, no último sábado, na fila do mercado - lugar já citado aqui por mim como uma amostra maior do tédio na terra - com um irrisório iogurte em mãos, esperando pela minha vez de pagar e escapar das garras do fabuloso Nacional. Tudo indo como o previsível: fila que não andava, fome que apertava, vontade de desistir que aumentava... quando eis que uma senhorita - muito educada, por sinal - que estava a alguns metros de onde eu estava, proferiu as seguintes palavrinhas mágicas: MOÇA, VOCÊ GOSTARIA DE PASSAR NA MINHA FRENTE?
          Minha colega de compras deveria estar tão estafada quanto eu, sem falar nos dois carrinhos lotados que trazia consigo, mas vejam que cena amável que protagonizou, não? Claro, qualquer um que ler isso, vai pensar que não custava nada realmente ela ter feito isso, ou seja, deixar a moça do iogurtezinho passar a sua frente, salvando-a de morrer de inanição em frente aos caixas (rs), mas o fato é que ela não tinha obrigação alguma de me ajudar. Percebem? Quem, hoje em dia, se importa com o outro, tem sensibilidade de parar um segundo e olhar além do próprio umbigo ou faz uma boa ação sem esperar absolutamente nada em troca? Quase ninguém, e vocês sabem disso. Não se trata de drama, é só uma constatação. O espírito de "selva" é constante e anula miseravelmente qualquer bom-mocismo.
           Porém, ignorando as estatísticas, a gentil moça cedeu por alguns segundos sua vez e deixou que eu efetuasse primeiro o pagamento do meu reles iogurtezinho. Para a maioria, talvez isso soe como a banalidade do dia, mas ninguém me tira da cabeça que a grandeza de sua ação reside na espontaneidade, na iniciativa de fazer a diferença, no "ter a sensibilidade de ver o outro", e isso, ao menos para mim, tem um valor inestimável. Claro, não sei seu nome, seu endereço, tampouco vou poder retribuir a gentileza com que fui agraciada no sábado. Todavia, em algum momento lembrarei de sua atitude e tratarei de passá-la adiante, pois, como diria aquele saudoso profeta que andava com uma túnica branca pelo Rio de Janeiro: "gentileza gera gentileza..."

Talvez não agora, mas sempre gera.

          

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Para sempre sua esposinha

            E aí acabou, né? Findaram-se todas as traquinagens no campus, os flertes fatais pelos corredores acadêmicos, as matadas de aula abençoadas pelo dever de socialização entre graduações – adorava trocar ideias com meus co-irmãos. Findou-se tudo, tudinho. As idas à biblioteca e meus micos clássicos de estudante avoadinha, porém sempre com boas intenções na busca pelo conhecimento jornalístico e pelo acervo de revistas Manchete – penso, a essa altura, que eu era a única criatura que achava graça naquelas velharias. Eu, eu mesma e o bonitinho daquele curso que até hoje eu não sei qual é.
            Minhas risadas descontroladas enquanto tentava ficar séria para gravar os telejornais. Minhas piadinhas Chandler Bing style em pleno silêncio da sala de aula e concentração alheia para ler aqueles textos pavorosos e sem fim sobre a Escola de Frankfurt e seus pupilos. Minha seriedade inconfessa quando encarnava a repórter: de repente, ali, eu era quase uma Diane Sawyer dos pampas, dando uma notícia bombástica sobre a renúncia de algum estadista fodão dos Emirados Árabes Unidos e sei lá mais o quê. Podem rir, lindos. Meu interesse pela Semiótica e pela fatia de loucura que vinha no seu encalço – mentira, ninguém é louco por gostar dela, apenas fiquei mais sagaz no propósito de ler mentes. Cuidado comigo. Meu dom para gastar dinheiro em pastéis gigantes e fazer coleção de papéis de Sonho de Valsa em cima da mesa.
           Até parece que foi ontem que eu entrei naquela universidade, atrasada para a primeira aula de Teoria da Comunicação I e fazendo questão de tropeçar em uma classe na frente de meus coleguinhas – cena digna dos começos aflitos: ninguém quer errar, mas sempre tem um voluntário para iniciar os trabalhos. Até parece que foi ontem que eu levei uns ovos na cabeça, de uma galera que eu não conhecia e tive vontade de esganar lentamente cada veterano meu, pela humilhação passada. É o suprassumo dos clichês, ok, mas, cara, parece que foi ontem mesmo (!!!!) que entrei no Curso de Jornalismo, ainda meio amasiada com o Direito e dando umas piscadelas para a vida de andarilha boêmia que vai ganhar uns trocados pintando retratos em Buenos Aires. Sei lá, nunca se sabe, até que eu desenho maizoumeno.
           No fundo, sei que não havia dúvidas, era tudo uma questão de deixar o interesse vir à tona. Sei que nasci para isso e não posso fugir dessa atmosfera a que estou habituada, há quatro anos: pautas, freelas, fontes, leads e mais um escambau da informação a tiracolo. Uma curiosidade genuína por coisas que nem deveriam me interessar, uma bagunça cretina e clássica rondando os neurônios, um sorriso meio infantil saltando dos lábios por algo que ninguém saiba e talvez renda uma boa história a ser ouvida...

É, amigo... entrei nessa vida bagaceira do Jornalismo e não tem jeito: serei para sempre sua esposinha malcriada.




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Por um mundo

         Por um mundo onde velhos tarados nas esquinas transformem-se em Malvinos Salvadores e Jakes Gyllenhaals. Por um mundo onde as bases e demais esmaltes tenham duração infinita e não nos deixem a ver navios. Por um mundo onde as unhas não nos iludam que aguentam qualquer parada e sigam lindamente quadradas, fazendo a inveja alheia. Por um mundo onde pessoas tenham a língua grudada no céu da boca, se pensarem em fazer alguma fofoca. Por um mundo onde as mesmas pessoas não repassem boatos, tampouco aumentem fatos, cuja procedência desconhecem. E, não sabendo, que não falem, apenas mudem de assunto.            
          Por um mundo onde moços que nos deixaram levitando de paixão, devido a uma fatalidade da vida, sejam acometidos pela mesmíssima paixão, grudem em nós, nos surpreendam com sua personalidade e caráter e só nos deixem, quando, obviamente, já estivermos curadas daquele encantamento gratuito e desgraçado. Por um mundo onde tais moços esqueçam propositalmente de fazer a barba. E que fiquem uma coisa meio "sou charmoso, morra de tanto me olhar", e nunca bom velhinho style. Por um mundo onde desconhecidos que têm o prazer de viajar ao nosso lado nos ônibus da vida tenham as fuças do Bradley Cooper, sejam solteiros e fiquem com nossos telefones. Tô cansada de viajar ao lado de crianças chatas e vovós que babam, e vocês, gurias?
          Por um mundo onde nossas madeixas estejam sedosas como as da Rachel Green, caso sejamos convidadas para sair de última hora numa sexta-feira à noite. Por um mundo onde as caixas de Bis façam mitose na geladeira, sempre que a TPM nossa de cada mês botar as manguinhas de fora. Por um mundo onde possamos achar alguns trocados nas calças jeans surradas, sempre que as levarmos à área de serviço. E que esses trocados financiem com dignidade a saída de mais tarde com os migos. Por um mundo onde pessoas sejam mais sensatas e não entupam nossos e-mails de correntes. Por um mundo onde os potes de sorvete armazenem sorvetes mesmo, e não, feijão.
           Por um mundo onde passem nossos filmes preferidos na TV, caso estejamos curtindo uma solidão forçada em casa, num sábado de frio e chuva. Por um mundo onde existam máquinas do tempo à venda por dérreal, e possamos usá-las para rebobinar momentos e aproveitar mais uma vez. Agarrar segundos preciosos com a boca, morder sensações e saborear o melhor. E depois sei lá, congelar naquele lapso perfeito de existência. Por um mundo onde essa postagem besta seja facilmente compreendida e amada, em virtude de uma safra pobrinha de ideias dessa blogueira que vos fala.

Beijim procêis!