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Mostrando postagens de Fevereiro, 2012

Procrastinação e castigo

Aí você poderia ter feito antes, e não fez. Sei lá, arrumou até uma receita diferente para cozinhar, se matriculou na turma de Pilates, foi fazer trilha ecológica na Pedra da Gávea, mas o que tinha, efetivamente, de concluir: nananinanão. Sacumé, né? Procrastinar é uma arte. Se você tem talento para a coisa, é certo que vai se destacar na multidão. No momento em que se procrastina, sente-se meio invencível, se tem a convicção de que haverá triunfo em meio a qualquer intempérie. É fácil pensar isso, porque há uma leve impressão de que se pode controlar o andamento dos fatos. Ledo engano! Nada fica sem punição. Bom, quando, finalmente, você resolver dar jeito na tal coisa que foi "procrastinada", adivinhe? O universo não vai conspirar a favor, meu querido, pode começar a espernear. Vai acontecer uma catástrofe atrás da outra. Vai ser o Apocalipse. Vai faltar luz. Você vai derrubar ketchup na camisa branca, minutos antes de sair de casa. Você vai perder o ônibus. Você vai gast…

Ode ao ódio

Vocês sabem, odiar é o nosso esporte favorito. Odiamos o gosto musical excêntrico do nosso vizinho. Odiamos o fato de ele não se contentar somente com os fones de ouvido. Odiamos esperar - essa é clássica. Odiamos fofocas - exceto, é claro, quando somos os leva-e-traz da vez. Odiamos quando começa a chover exatamente no momento em que pretendemos sair de casa. Odiamos internet lenta. São ódios meio genéricos, mas o fato é que odiamos de tudo um pouco. , , o amor é um amorzinho, uma graça, mas outra hora eu falo dele. Hoje, vamos brincar de odiar. Eu, por exemplo, odeio quando tentam manter diálogos comigo, enquanto luto ferozmente para continuar de olhos fechados - leia-se dormindo. Odeio também de um modo meio infantil e Tarantiano, burocracias de qualquer espécie. Nossa, como odeio. Odeio tanto que amo odiá-las. Já viram essa de amar odiando? Pois é, o negócio é surreal. Claro, meu ódio é ingênuo, coitado, acaba resignado e escondido em alguma gaveta por aí. Mas enganam-se aque…

Algumas considerações a respeito do Phoda-C

Eu, que costumo ser uma flor de diplomacia, não nego que o "foda-se" é libertador. Gritar sem pudor um "foda-se" com todos os seus fonemas tremulando na língua e sua carga existencialista lambuzando a boca é, de fato, impagável. Mas não se enganem: ele conhece todos os nossos titubeios, todas as nossas inseguranças, todas as nossas dores. Malandro velho, vê de longe quando é banalizado, seu faro é aguçadíssimo. Eu, por exemplo, cada vez mais tenho certeza de que sua essência percorre caminhos mais sutis e pouco audíveis a ouvidos nus.
           Vão dizer? Geralmente, recorremos ao ato de pouco nos fodermos para algo, quando estamos p. da vida com alguma coisa, com alguém, com alguma circunstância, ou whatever. Meio sem saída, ao olhar para os lados, gritamos para quem quiser escutar que, vejam vocês, estamos querendo que o motivo de nossa cara de poucos amigos se lasque, se foda, se estrepe. E que ninguém ouse perguntar o porquê de tanta rebeldia, porq…

Gentileza gera...

Percebam como é fácil afagar um coração leonino e despertar nele o sentimento mais puro de gratidão. rs // Estava eu, no último sábado, na fila do mercado - lugar já citado aqui por mim como uma amostra maior do tédio na terra - com um irrisório iogurte em mãos, esperando pela minha vez de pagar e escapar das garras do fabuloso Nacional. Tudo indo como o previsível: fila que não andava, fome que apertava, vontade de desistir que aumentava... quando eis que uma senhorita - muito educada, por sinal - que estava a alguns metros de onde eu estava, proferiu as seguintes palavrinhas mágicas: MOÇA, VOCÊ GOSTARIA DE PASSAR NA MINHA FRENTE?
          Minha colega de compras deveria estar tão estafada quanto eu, sem falar nos dois carrinhos lotados que trazia consigo, mas vejam que cena amável que protagonizou, não? Claro, qualquer um que ler isso, vai pensar que não custava nada realmente ela ter feito isso, ou seja, deixar a moça do iogurtezinho passar a sua frente, salvando-a de m…

Para sempre sua esposinha

E aí acabou, né? Findaram-se todas as traquinagens no campus, os flertes fatais pelos corredores acadêmicos, as matadas de aula abençoadas pelo dever de socialização entre graduações – adorava trocar ideias com meus co-irmãos. Findou-se tudo, tudinho. As idas à biblioteca e meus micos clássicos de estudante avoadinha, porém sempre com boas intenções na busca pelo conhecimento jornalístico e pelo acervo de revistas Manchete – penso, a essa altura, que eu era a única criatura que achava graça naquelas velharias. Eu, eu mesma e o bonitinho daquele curso que até hoje eu não sei qual é.
            Minhas risadas descontroladas enquanto tentava ficar séria para gravar os telejornais. Minhas piadinhas Chandler Bing style em pleno silêncio da sala de aula e concentração alheia para ler aqueles textos pavorosos e sem fim sobre a Escola de Frankfurt e seus pupilos. Minha seriedade inconfessa quando encarnava a repórter: de repente, ali, eu era quase uma Diane Sawyer dos pampas, dan…

Por um mundo

Por um mundo onde velhos tarados nas esquinas transformem-se em Malvinos Salvadores e Jakes Gyllenhaals. Por um mundo onde as bases e demais esmaltes tenham duração infinita e não nos deixem a ver navios. Por um mundo onde as unhas não nos iludam que aguentam qualquer parada e sigam lindamente quadradas, fazendo a inveja alheia. Por um mundo onde pessoas tenham a língua grudada no céu da boca, se pensarem em fazer alguma fofoca. Por um mundo onde as mesmas pessoas não repassem boatos, tampouco aumentem fatos, cuja procedência desconhecem. E, não sabendo, que não falem, apenas mudem de assunto.            
          Por um mundo onde moços que nos deixaram levitando de paixão, devido a uma fatalidade da vida, sejam acometidos pela mesmíssima paixão, grudem em nós, nos surpreendam com sua personalidade e caráter e só nos deixem, quando, obviamente, já estivermos curadas daquele encantamento gratuito e desgraçado. Por um mundo onde tais moços esqueçam propositalmente de fazer a…