terça-feira, 31 de maio de 2016

Só vitórias

Terminei o mês de maio - mês das noivas, da música do Kid Abelha e das mães - maravilhosamente bem. Primeiro acordei como se estivesse embebida em uma poça de lágrimas - antes fosse, mas não era, vejam só. Comecei uns 45 remédios novos para tratar ansiedade - esse mal do século e rido por todos -, e aparentemente as drogas, quando combinadas, têm esse leve efeito que é o de nos fazer suar como porcos. Uma das melhores coisas da vida é ir dormir quentinha & limpinha, e acordar tragada pelo frio de um suorzinho seco no corpo. Isso depois de ter sonhos lúcidos a noite inteira com gente que eu quero esquecer que existe - só que sem o glamour de Vanilla Sky e sem Tom Cruise, claro. Recomendo como um domingo em Trancoso na Bahia.
Depois de trocar meu pijaminha roxo, fui soltar meus dois cãezinhos, que estavam mais ensandecidos que três Inri Cristos de lambreta. Onde foram parar aqueles bebês que acalentei em meus braços e agora sujam meu pijama recém trocado de barro mortal com suas patinhas? Suja mais, porra, tá pouco sujo. Ó, céus, um deles ainda machucou minha mão com a corrente, e agora exibo na pele um rasgo magistral que combina muito bem com o anel que vovó me deu. Obrigada, Nina, gentileza sua. 
Vamos adiante. Uma olhada no espelho e um tapinha no visual moreno e sedutor. Franja maldita, por que me magoas? Franja é aquele negócio: entre fazer e não fazer, escolha a segunda opção. O tapa no visual quase se converte em um soco no olho para deixar de ser burra. Assim, eu amo mudar meu cabelo, usaria facilmente uma peruca diferente por dia. Mas quando vem aquele comichão camaleônico, eu nunca equalizo o custo-benefício do modo certo, só penso em tesouras e nada mais. Vai mais uma vida para aprender isso. Mas sigo linda. Por dentro.   
Logo em seguida um tiro no peito à queima-roupa: meu superlike não foi aceito. Pausa. Não é muito bom se dar conta disto após um embate entre você e sua franja do mal. Respira. O triste mesmo é que pelas minhas contas essa foi a segunda recusa, quer dizer, eu, além de brasileira e não desistir nunca, sou uma sociopata graduada. O cara deve estar achando que eu sou uma doente-mental-apaixonada-stalker-incurável ou sei lá eu. O que não é totalmente mentira. Mas nem totalmente verdade, vai. Enquanto isso, na salinha de espera do aplicativo, três matchs ridículos me aguardam para mais umas sessões de conversa sem sal. Sabia que tua franja tá linda? Vamos lá, é o amor batendo na porta.
Também recebi um e-mail de trabalho incrível e motivador. Com um único porém: nunca foi escrito pra mim, visto que não fui aceita na seleção do fatídico emprego. Ah, foi um engano, isso acontece. E é claro que eu li toda a mensagem com um sorriso no rosto e em nenhum momento dei um soco na mesa com minha falange outrora esfacelada pelo meu cãozinho amor. 
Agora, escrevo este texto com uma semimão e com o coração inundado de amor por ter fodido meu computador de vírus variados, após baixar um programa de origem duvidosa. Sim, porque eu sou uma noob desgraçada que só queria jogar um joguinho tosco mais velho que Tutankamon de achar pistinhas de assassinatos. Nem vou falar que é aquele da Agatha Christie, porque eu ainda tenho um resquício de vergonha na cara. Vou ali dormir e suar, até mais.

   





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Not if you were the last junkie on earth - The Dandy Warhols 







segunda-feira, 30 de maio de 2016

Vadia

Ei, menina, deixa eu contar um segredo: você não é especial. Não aos olhos de um mundo de supremacia masculina em todos os âmbitos da sociedade. É válido sempre colocar a máxima em cima da mesa: não se trata de um jogo em que você compete com as outras mulheres para ver qual merece mais ser feliz. Ser feliz por andar na linha, ser feliz por beber pouco numa festa e ser discreta diante dos amigos daquele bostinha que tanto quer impressionar. Ser feliz por ficar sexta à noite em casa e tirar fotos dizendo que é pra casar, afinal, isso vai lhe garantir um príncipe montado num pangaré e fazer da sua vida um conto de fadas morno e sem sal. Ser feliz por julgar aquelas periguetes que saem de barriga de fora e vestidos minúsculos. As periguetes e você estão todas no mesmíssimo barco.
Para todos os efeitos, você será uma vadia, puta, vagabunda em algum momento da vida. Vadia porque deu. Vadia porque não deu. Vadia porque deu muito. Vadia porque deu de menos. Vadia porque é direta. Vadia porque quer que as coisas vão mais devagar, afinal, isso é coisa de vadiazinha fazida. Vadia porque não quis trabalhar. Vadia porque só quis trabalhar. Vadia porque quer estudar. Vadia porque é inteligente. Vadia porque não estudou e, claro, isso só pode levar a um golpe do baú. Vadia porque não quer ter filhos. Vadia porque teve filhos demais. Vadia porque abortou. Vadia porque não abortou e colocou no mundo um filho que se sentia incapaz de cuidar. Vadia porque diz o que pensa. Vadia porque nunca diz nada. Vadia porque quis se separar. Vadia porque não quis se separar. Vadia porque mora sozinha. Vadia porque mora com os pais, baita vadiazinha sustentada pelo pai essa daí. Vadia eternamente. Vadia simplesmente por existir. Você não é diferente, não é uma iluminada olhando de cima essas pobres mulheres que não se ''dão o valor''. Você vai ser elas em alguma circunstância. Essa lógica perversa vai doer em você, porque ela sempre dói. 




        

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Christine me mata

Preciso falar sobre Christine.




Não, pera, não é a Fernandes, errei. É essa aqui, ó:




Sim, essa, porque tal carro é uma menina muito temperamental. Não tá entendendo nada, né? Eu menos. Sempre fui chegada numa coisinha trash dos anos 80, quer dizer, aquilo ali é meu território. É, amigo... polainas, cabelo ridículo, cor neon, dancinhas pop, ombreiras, dramaticidade, Blitz, exagero, Cyndi Lauper... desta cafonice vim e dela renasço.
Mas me cagar de medo dessa coisa ridícula do John Carpenter depõe muito contra minha pessoa. Sim, porque eu me cago. Não literalmente, caro leitor doente, mas que fico agoniada, fico. Já procurei nos vãos mais obscuros da minha alma por que raios ela, Chris, me assusta tanto. Vai ver, eu fui morta por um Plymouth Fury 1958 vermelho e branco em outra vida, após uma perseguição básica madrugada adentro. Bem meu papel.
Pra quem não sabe, a patacoada oitentista é fruto do livro de mesmo nome do escritor Stephen King, o reizinho literário do horror - e talvez isso me absolva a little bit. Também são do americano, clássicos como O Iluminado, Carrie - A Estranha, It: A Coisa, entre outras coisinhas bizarras e horripilantes.
Ei, eu já sonhei que pegava um táxi dirigido pelo Pennywise sabe-se lá pra onde. Acho melhor parar com o deboche. Ufa, confessei.


                            Então a senhorita anda ironizando minha co-irmãzinha?




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Tudo pode mudar - Metrô







domingo, 15 de maio de 2016

Clube da Luta

Desde que comecei com minhas abobrinhas, venho negligenciando Fight Club, então vamos lá. Que puta filme! Que senhor nó na cabeça. É bem verdade que, 15 anos após seu lançamento, a sinopse sobre dois marmanjos que resolvem trocar uns socos a troco de nada parece ser a preferida de 11 entre 10 adolescentes revoltados com a existência e o preço do lanche do colégio. Porém não sejamos levianos: tem profundidade das boas no filme de David Fincher. Tem profundidade demais - demais - naquela carinha linda e cheia de hematomas do Jack.
Na história, nosso narrador - que até então não tem nome -, interpretado pelo fabuloso Edward Norton, é um analista de seguros extremamente consumista e de saco cheio. Sua gana de adquirir o último catálogo da Macy's é diretamente proporcional ao seu niilismo diante da vida e do seu lugar no mundo. Com um pequeno detalhe: ele sofre de insônia galopante. Por conta deste problema, o jovem vai acabar conhecendo umas figuras bem curiosas, como uma tal Marla Singer (Helena Bonham Carter), moça com sérias tendências suicidas, além de Tyler Durden, um vendedor excêntrico de sabonetes - papel que coube a um Brad Pitt deveras bronzeado e robusto. A partir daí, esta turminha vai aprontar altas confusões na sua sessão da tarde. Tá, sério. Mas vai rolar uma complicação... hum, fodidaça. Na primeira vez em que assisti, jurei ter perdido algo. Deve ser uma sensação recorrente a todos que embarcam sem anestesia na psicodelia fincheriana.
Gosto de imaginar que Clube da Luta é o gêmeo bivitelino de Beleza Americana, aquele deboche maravilhoso orquestrado por Sam Mendes e, coincidentemente, também lançado em 1999. Caricatos? Pode até ser, mas não menos verossímeis. Mais verossímil ainda é o semblante desesperado e esquálido do Jack, porque é o mesmo que o meu, em franca ascendência rumo ao nada com 20 e quase todos. Sem dramas, sabemos bem o que vivemos, mas não deixa de ser corrosivo enxergar-se com tanta exatidão. ''Você compra coisas que não precisa com dinheiro que não tem para impressionar pessoas de que não gosta'' é a lápide de uma geração. Sempre será genial viver se dando tanta importância enquanto existirem vitrines e outdoors.
Clube da Luta é muito mais que um filme sobre socos e rostos desfigurados pela ânsia de se sentirem vivos. E é perturbador, porque mexe com a inércia de toda uma modernidade presa em estereótipos. Nós não somos espertos. Estamos condenados a ser quem somos e esse é o pior castigo.


                  
                Pfff Brad Pitt.... só tenho olhos é pra esse magrelinho sociopatinha awn





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Buddy Holly - Weezer







segunda-feira, 2 de maio de 2016

Dia de gordinha tensa

HMMMMM GORDICES~~
GORDINHAS TENSAS~~
SENDO GORDAS~~
SENDO GORDOS~~
DIA DE GORDICE~~
HOJE É DIA DE SER GORDO~~

Porra!!!! Que merda, sabe? Tem pouca gente dentro do padrão legendando foto feia, mal tirada e previsível com as citações acima. Pode muito mais. Manda mais, miga, sua loka!!!!!!!

DIA DE GORDINHA TENSA COM MINHAS MELHORES E MUITO BRIGADEIRO AWNNNNNNN SUAS LINDAS AMOOOOO #TOP #MINHASMELHORES #CATS

Veja bem, eu sempre fui magra. Sempre fui magra, mas somente há uns três anos reconheci meu privilégio magro. Não fiquei imune aos sofrimentos e reprovações sobre o meu corpo quando adolescente - isso é praticamente um bônus de ser mulher -, TODAVIA achar que minhas encanações foram e são iguais às de meninas gordas é no mínimo má-fé. Burrice. Alienação. Eu e mais uma penca de gurias sempre reconhecemos nossos corpos na televisão. Na capa da Boa Forma, nas passarelas de moda, nesses flyers idiotas de empresinhas mequetrefes de suplementação alimentar. Nós sempre fomos padrão. Nunca recebemos um olhar sequer de condenação da família ao irmos às panelas. E se fomos interpeladas, sempre foi em tom elogioso, como que pertencendo a uma casta iluminada e abençoada pelas harpas celestiais: ''Veja como essa menina é demais. Come, come, e não engorda, pode até ser modelo."
Então, quando você está dentro do padrão e se utiliza destas expressões para afirmar sua posição de mero consumidor de um bolinho inocente, você inferioriza pessoas realmente gordas e que sofrem com um mundo que insiste diariamente que elas existem de modo errado. É a mesma coisa com o termo ''negrice'', tão horroroso que me enjoa só de ler aqui. Quer dizer, isso aqui é coisa de gordo e tão nojento e deplorável, mas que bom que eu posso, né?
Ok, cat, você e suas melhores podem não ter noção do que fazem, visto que o mundo é assim desde que é, e ser magro é lindo e presente dos céus, mas imagina que louco ter ciência de que se é um ser político e começar a pensar sobre variados privilégios? Imagina que louco quando a gente se der conta de que não existimos sozinhos e somos, sim, seres fazendo política diariamente em linguagem, ações e pensamento? Vai ser épico, quem sabe o implante capilar do Eduardo Cunha até caia.  


*Em hipótese alguma quero roubar lugar de fala nesse texto, logo, caso se interessem pelo tema, busquem umas gurias tri inteligentes e gordas - realmente gordas - falando do tema aí nos googles da vida. E tentem ser menos imbecis, vlw flw. 



                                                   cai, implantezinho, cai