domingo, 26 de junho de 2011

Xenofobia às avessas

(A disciplina de Mídia e Cultura Brasileira expandiu meus horizontes nesse semestre. Acompanhem esse artigo, feito com carinho sobre um assunto discutido em aula e que deveria interessar a todos vocês.)




        A sociedade brasileira evidencia-se por uma incrível síntese de origens. Ainda que tal afirmação possa remeter à desordem, há certa coerência em seu conteúdo, uma vez que, enraizado, no seio da colonização portuguesa, o solo tupiniquim abriga os mais variados troncos provenientes da terra de Cabral.
        É muito simplista aqui, entretanto, voltar as atenções apenas a essa irrefutável riqueza cultural. O que se discute no momento é o fato de haver várias facetas de um povo que carrega profundas heranças, muitas, fruto do domínio imperialista. No artigo "Plural, mas não caótico", do historiador Alfredo Bosi, vemos bem esse conflito de conceitos. Enquanto uns insistem em manter a solidez do legado português e daquilo que ganhou forma, genuinamente, no país, outros preferem marginalizar as expressões nascidas aqui para reverenciar uma cultura estrangeira, fortalecendo a máxima de que "só o que é de fora tem valor" e cultivando o poder simbólico que advém desse consumo. 
        Trata-se de um controle, ainda que velado, de países tidos como superiores intelectualmente. Quantos de nós já não "encheram a boca" para falar de algum filme norte-americano e de seus fantásticos efeitos hollywoodianos, em detrimento de tantos outros bons filmes nacionais - em sua maioria, incompreendidos em sua estética original? Podemos, obviamente, justificar essa atitude como sendo natural, uma vez que lá dispõe-se de mais recursos, além do inegável glamour, porém isso nada mais é que ignorância coletiva. Enquanto houver essa "xenofobia às avessas" e eterna relutância em ver graça no que há de bonito ganhando forma na pátria, dificilmente, haverá compreensão do que se é e do que se pode esperar dela. 
        É fato que uma cultura incrustada em um histórico de exploração e submissão sempre será renegada pela maioria. Contudo, insisto que devemos cultivar mais tolerância e espírito contemplativo, se quisermos um olhar renovado diante do que parece tão obsoleto e pequeno.




  

Vivendo na heresia

(A crônica a seguir é uma espécie de xodó para mim. Não que seja da conta de vocês, mas foi com ela que ganhei o Prêmio Talento Júnior/Crônica, da semana acadêmica do meu curso, em junho de 2008. Escrita em 24/05 do mesmo ano, sob forte estado de raiva e comoção.)

      
      Um pai e dois filhos caminham por uma rua do Rio de Janeiro e, de repente, quase são atropelados por um automóvel dirigido por um sujeito que atravessou o sinal vermelho. O pai, indignado, esbraveja em defesa sua e dos seus, entretanto, é, covardemente, espancado pelo fulano inconsequente, com uma barra de ferro até agonizar ensanguentado em frente aos filhos - a essa altura, em estado de choque.
      Barbárie, heresia! Como é possível que nem na calmaria de uma saída a passeio em família tenhamos garantia de retorno com vida para casa? Não podemos sequer exigir que os motoristas não passem por cima dos pedestres, pois corremos o risco de parar em um hospital por coisa muito pior. É triste, mas, quando somos tomados por notícias como essas, nos damos conta de que o "emocional" do país está em frangalhos: a sociedade respira medo, afugenta-se em grades e em protestos silenciosos à frente do noticiário, com a certeza de que vive esperando pelo drama. Pelos catastróficos atos cometidos por cidadãos - aparentemente - inofensivos que, ainda que carreguem barras de ferro em seus carros, passam despercebidos em meio às dezenas de criminosos escancarados que julgamos serem mais perigosos. 
       Fernando Gabeira disse, certa vez, que estamos, permanentemente, sob forte emoção, que a normalidade não volta mais, em virtude de os crimes violentos sucederem-se a cada semana. É uma verdade desoladora, mas, realmente, tudo isso tornou-se costumeiro para nós. Nada mais nos abala a ponto de nos fazer tomar partido em prol dos direitos humanos, que - embora não pareça - ainda existem. Em vez disso, preferimos nos esconder e intensificar o uso de dispositivos de segurança. Nada mais. O medo é maior que qualquer vontade de lutar por justiça. 
       Em se tratando da nossa inércia frente a esses fatos horrendos, pouco há a ser feito, embora a indignação clássica seja um bom começo, já que nos ajuda e desconfiar de quem não é bandido, aos olhos de muita gente ingênua. Quanto ao constante pavor a que estamos expostos, à constante falta de civilidade de que somos vítimas, as expectativas são ainda mais inexpressivas, uma vez que qualquer um de nós pode se deparar com um louco por aí, parecido com o da historinha macabra, contada acima.   

domingo, 19 de junho de 2011

Pizza de contradição

        Não vejo palavra mais cabal que "contradição" para definir vida. Vivo pensando nisso.. nas contradições do mundo, nas contradições das pessoas, nas minhas próprias. Penso que o "caos" a que estamos sujeitos, diariamente, são as variadas expressões da talzinha ganhando forma e gritando na nossa cara. A questão ambiental apavorante é uma delas. Contradição pura, permeada por interesses mesquinhos e por hipocrisia escancarada. Seguimos vivendo até que a ruína iminente nos alcançe na próxima esquina. Vamos chorar para quem? Não perguntem a mim, sou contraditória demais.  
         Falei aqui em um plano social, mas, tranquilamente, pode-se verter o exemplo àquele da gente com a gente mesmo. Sabem aqueles momentos em que a gente tá sozinho, pensando naquilo que é e naquilo que quer/pode ser? Então, é aí que meu mundinho cai. Momentos desgraçados, em que vejo que nada que eu faça é só meu. Nada é genuíno. Tudo é fruto de múltiplas vivências, ora, incrustadas em abstrações que fogem do meu controle. Do seu. Do nosso. Ainda que seja desestimulante, procuro pensar na contradição-nossa-de-cada-dia como uma parceira de jornada. Anda no nosso encalço sempre, pior é tentar fugir.
         Ela me faz sentir mais viva. Me faz sentir uma idiota. Me faz rir feito louca e chorar atordoada. Me faz discutir por bobagens e defender causas perdidas. Me faz sentir orgulho de mim e desprezo por outros. Me faz repensar velhas idéias e explorar outros caminhos. Me faz guardar secretos sentimentos e repetidas histórias na memória. Me faz ser essa salada itinerante que não se entende direito e vive pregando peças em si mesma.
         Ouso dizer que é assim com meio mundo. Mas vai saber, né? Não sei se vocês se sentem assim como eu... confusos errantes sem pátria. Por acaso, algum de vocês abomina pizza de queijo, mas não abre mão dele em qualquer outra combinação gastronômica? Prefere mil vezes uma Coca-Cola gelada a um café burocrático e cheio de frescura no inverno? Sente o coração cada vez mais frágil e medroso, ainda que a idade aumente a cada ano? (Só para citar algumas pequenas contradições que vi aferradas em mim, agorinha.)


E as de vocês quais são?
                             

sábado, 18 de junho de 2011

Secreto respirar

        Nossa! Um mês certinho que não ponho meus pés nesse porão empoeirado. Um mês! Tô me sentindo com a cara no chão, meio sem argumentos para explicar o hiato de silêncio que se estendeu até hoje. Hum, como fazer? Bom, não vou voltar àquele bla bla bla brunístico de que "às vezes eu sumo e não dou satisfação". Ok, vocês já sabem disso, está claríssimo que eu abraço meus ímpetos de solidão sem coerções e fico uns dias sem dar as caras. Ponto. Contudo, ainda sinto necessidade de explicar certas reticências...
        Meu cérebro, esse lindo, esteve deveras atarefado nos últimos 30 dias. Foi de tudo um pouco: congresso de comunicação, tensão pré-apresentação de trabalho para uma sala de aula inteira, projeto de monografia etc. E outros fatores bem menos relevantes com os quais não soube lidar e que me fizeram procrastinar: frio, preguiça, falta de inspiração, minhoca na cabeça, leve desgaste de relação entre mim e esse blog maroto e por aí foi. Não dá para explicar a ausência, porém ela soube se impor e acabou me deixando sem  
resistência. Anda sendo fácil ganhar de mim.
        Se eu pudesse, me dedicava só a escrever aqui. Juro! Tô contando em primeira mão para vocês, sintam-se importantes. Certa vez, lendo um texto sobre o pintor brasileiro Cândido Portinari, vi uma frase deliciosa, que julgo pertinente reproduzir agora para ilustrar meu estranho amor: "(...) a pintura era o seu secreto respirar.." Coisa linda, não? É, a escrita é meu secreto respirar. Sempre foi. Talvez por isso eu estivesse me sentindo um pouco morta por não vir aqui, nos últimos dias.