sexta-feira, 29 de junho de 2012

Torto amor



          Bem, o que eu posso dizer? Apesar de tudo, um orgulho ressentido invade meu semblante. Você teve três namoradas depois de mim, e nem em cem vidas elas saberiam tanto da sua como eu sei. Eu sei mais que as três juntas o que toda e qualquer franzida de testa que vem do seu rosto quer dizer. Sei que você padece de um pavor irracional de trovões, sei que banho de chuva não é seu esporte preferido – ao contrário de mim, que sempre fiz questão de aproveitar os pingos recém caídos na janela para sair sorrindo para estranhos na rua. Eu sei que ama bolo de cenoura com calda de chocolate, e erra a quantidade de açúcar cada vez que vai prepará-la. Você é doce demais e eu sinto falta disso, já que meus dias ficaram insuportavelmente amargos desde que meu ciúme levou-o para um itinerário longe de mim. Sei que você fazia a barba toda vez que eu ia viajar a trabalho; porém deixava sua carinha ser engolida por ela no resto dos dias, porque isso renovava minha paixão. O fato é que você foi o algoz de todas as minhas vontades, enfim.
           É por essas e outras, que não deixo você em paz e vivo seguindo-o pelos lugares e pelas festas aonde você insiste em ir, quando as vagabundas com quem sai não cuidam do seu melhor. Ainda que eu tenha sufocado seu coração com incontáveis cobranças e cenas melodramáticas, ninguém nunca cuidou dele melhor que eu; seu músculo cardíaco reconhece meu nome, me visita seguidamente em sonho, pedindo para voltar. Agora mesmo, em um senhor exercício de abstração movido pela saudade, posso vê-lo jogado no sofá do seu apartamento, assistindo David Letterman, rodeado por cervejas quentes e barulhos estranhos. Seu telefone no silencioso é a prova de que não quer ser incomodado, mas eu quero mais é que as lembranças de mim enrolada nos cobertores da sua cama ecoem pelas paredes até você enlouquecer. Quero que gritem e façam você enxergar o que é relegado, há tanto tempo: que meu orgulho é a coisa mais certa que ficou de nós, pois, querendo ou não, não há lugar mais apropriado para sua solidão que meu amor. Torto amor.





quarta-feira, 27 de junho de 2012

Diga-me se ris e te direi quem és

          Duvido muito da sanidade de quem insiste em levar uma vida amarga, uma vida algemada a chateações, uma vida órfã de riso - ato de mostrar os dentes, buscando alimentar, inconscientemente, a alma ferida de misérias cotidianas e pontuais. Riso, riso, riso. Rir é remédio, ainda que não cure todos os males. Eu, se ainda não ficou claro a vocês, estimados leitores, sou da turma que paga por uma bela gargalhada. Não vivo sem. Sou do time dos piadistas incompreendidos anônimos, sou da família dos bobos alegres, daqueles que se entregam pelo sorriso. Sou uma completa idiota, sim, mas, honesta.
          difícil para todo mundo, tem uma selva desgraçada depois dos nossos portões. O tempo é inimigo, aniquila nossos suadíssimos momentos de alegria sem dó, passa como vendaval, só nos faz deixar atordoados. Somos obrigados a mostrar cada vez mais às organizações que morremos e vamos até o fim do mundo por nossos chefes - eles que, não raro, mal sabem nosso nome. Precisamos consumir freneticamente, adquirir bens, fazer o dinheiro circular - do contrário não temos valor perante ninguém. Temos que sorrir em fotos, mesmo estando com o coração em frangalhos. Se não gargalharmos um pouco que seja para a vida, de que jeito levar, dadas essas circunstâncias? De que jeito levar?
          Amargor alheio não é para ser julgado, como diria meu baiano preferido: "cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é". Cada um na sua, ninguém nunca sabe o que se passa na cabeça do outro, realmente - eis uma verdade da vida, senhores. Somos mistério até para nós mesmos, não há por que alimentar maquiavelismos, uma vez que estamos todos no mesmo barco à deriva. Todavia, também penso ser a cara amarrada o passo mais certo rumo ao precipício, à derrocada melancólica no mesmo barquinho. Penso que rir das topadas na parede seja a melhor pedida, sempre. Como se fosse uma espécie de técnica de sobrevivência, percebem? Tudo bem que o Frejat cantou que "rir de tudo é desespero", mas, ainda assim, poxa! Encontrar um equilíbrio é tarefa para toda uma vida, pelo jeito.
           Eu sou a prova. No momento, me sinto profundamente puta da cara, chateada, decepcionada, com vontade de gritar uma meia hora sem cessar, aqui na janela, o quanto sinto meus neurônios fritando de raiva. Sem falar que sigo faminta, após degustar uma das piores pizzas já feitas na história da humanidade. Entretanto, decidi rir como se estivesse assistindo pela primeira vez ao primeiro episódio da sétima temporada de Friends. aqui, igual a uma pateta, escrevendo essa crônica e imaginando como minha vida caberia num stand up no barzinho da rua de baixo. Pronto, já esqueci. Indolor. (Que mentira deslavada!)






  

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Pingos nos is

            Tá, agora é sério, vamos colocar os pingos nos is. Vou falar umas verdades e não quero escutar um pio no recinto. Desde que cheguei ao mundo - em agosto de 89 - notei que há uma eterna briga no meio musical, a fim de outorgar quem é ruim, quem é genial, quem é clássico, quem é escroto, quem vale o preço do ingresso, quem não vale nem um centavo e por aí vai. Não condeno o fato de haver essa segregação natural entre ''escutadores de música''. É da vida, ótimo, estamos conversados. Mas muito me intrigam os critérios para classificar algo como fantástico e outro algo como apenas medíocre. Aqui vai um segredo em primeira mão: não há critérios. Há bagunça, uma miscelânea sem volta, isso sim.
            Depois de refletir um bocado sobre o porquê de as coisas serem como são, me surpreendi com a conclusão que se aninhou em minha cabecinha castanha: vamos nos permitir escutar o que der na telha, o ritmo que agrada aos ouvidos e ao coração, o resto é discursinho de reacionário - e isso a gente deixa nos anos 60. Cansei de mané querendo pagar de cult, enchendo a boca para dizer que gosta da banda lá de não sei onde só porque metade dos mortais com que convive não conhece tal "preciosidade" - cuja grande parte da genialidade provem de carreiras infinitas de pó. Cansei da mídia e das trilhas sonoras da televisão aberta querendo enfiar goela abaixo músicas chatinhas, sendo que tem por aí muito mais pagode e sertanejo bacana para se escutar - e dançar! Cansei até mesmo das minhas ideias antiquadas e das minhas conclusões fajutas a respeito. Se eu louca da vida, aqui, escutando "Love in this club", do tal Usher - que, em seu ápice de sedução, canta que "quer pegar a gata e fazer amor nessa boate" - quem sou eu para tripudiar em cima do Teló, que só tentando levar a gatinha dele para conhecer sua humilde residência? Não procede.
             Guns é clássico! Indie é porcaria! Madonna é a verdadeira rainha! A voz da Britney é sofrível! Metal é só gritaria! Sertanejo é um lixo! Beatles é unanimidade! Quem certo e quem errado? Quem tem razão? Quem é digno de crédito? Grande porcaria! Tirando alguns poucos sortudos que são pagos para criticarem e darem veredictos sobre bandas e canções, a maioria é chato tentando fazer lavagem cerebral. Penso que a tal música é o exercício mais genuíno de nossas contradições. Por exemplo? Nada contra o gostosinho do Jim, mas acho The Doors um saco saquíssimo - ainda que Light my fire, literalmente, consiga me incendiar. Fiquei feliz da vida quando soube que Edson e Hudson voltaram a ser uma duplinha sertaneja. E um dos caras que sabe me acalmar atende pela alcunha de Frederic Chopin. Pra que fanatismo? Isso é coisa de gente chata. Sejamos conhecedores, curiosos. Não, generais.


         

Não se apaixone, vá tomar banho

- Pode parar, Bruna, tu que é a mais chata com vírgula e não sei o quê, nem deu bola que o guri escrevia tudo errado? Quem é que “brochava” com falta de capricho gramatical e bla bla bla? VAI TOMAR BANHO



           E depois dessa frase malcriada proferida a mim, fiquei a pensar em como elegi, durante certo tempo, critérios a caras bacanas com quem gostaria de ter romances fofos, e nunca segui as indicações à risca. O fato é que eu gosto, realmente, do tal capricho gramatical. Sabem aqueles caras que escrevem, ao menos, se fazendo entender? Sem frescura, apenas com postura de quem entende que uma vírgula bem empregada faz a diferença? Pois é, fico fantasiando em como o cara, ao valorizar uma reles vírgula, também pode prestar atenção na alma feminina, e não só no derrière, enfim. Tem quem goste de sons de carro ensurdecedores. Bem, eu gosto de babacas que curtem colocar vírgulas em suas frases, acho um charme.
           Acho válido discutir algumas cositas a respeito desse encantamento gratuito com que somos atacados várias vezes na vida, a dita paixão. Voltemos a minha análise provinciana: mas e quando há o encantamento paralisante agudo antes de qualquer imunidade? Antes de trocar ideias por escrito? Aí que me refiro, meu caro Watson. Eu nunca quis admitir, mas creio que deva começar a considerar a teoria que diz que nos apaixonamos sem querer. Que nos apaixonamos por ilusões dentro da nossa cabeça. Que nos apaixonamos por jeitos de ser, e não por roupas de marca ou, vá lá, capricho gramatical. Tais detalhes podem realmente fazer algo crescer ou morrer em pouco tempo, mas acho que as paixões nascem do nada mesmo. Quando a droga dos olhares insistem em se cruzar e conversar um dialeto próprio. Que sina, caros humanos, que sina...
           O fato é que, depois de vasta experiência no ramo da decepção galopante citada, fiquei mais esperta. Não a ponto de não me apaixonar mais na vida, claro, até porque, diga-se de passagem, sempre existem por aí professores solícitos de judô nos prédios vizinhos, esportistas sarados que levam seus Goldens Retrievers para passearem na praça mais próxima, ou bateristas de bandinhas de garagem donos de cintilantes olhos azuis, a fim de alimentar platonismos e viagens na maionese. Sigo constantemente apaixonada - nem que seja por Malvino Salvador e seu corpo moreno definido da cor do pecado - me refiro, isso sim, à fatídica constatação de que, provavelmente, vamos nos encantar pela criatura mais improvável na face da terra sempre. Os hormônios de Mariazinha só saltitavam por metaleiros tatuados e com rostinhos de mafiosos italianos, mas, eis que em um belo dia, viu-se perdida de amores por um corretor yuppie da bolsa de valores que, praticamente, vivia acampado na Avenida Paulista. Reflitam.
            Já escreveu a sempre espirituosa Martha Medeiros, que nos apaixonamos pelo mistério, pelo tormento provocado, pelo cheiro que invade; nada de referências criteriosas, nada de muito racional, nada de muito seguro. A paixão, como se viu no início do texto, corrompe qualquer credibilidade - possivelmente ninguém mais vai me dar atenção quando eu disser que sofri uma desilusão ortográfico-amorosa. A paixão é uma raposa, uma vaca, ninguém sabe de onde veio, ninguém sabe aonde vai, é a capitã-mor do caos, não? Quisera eu ter aprendido isso antes, ou, quem sabe, ter tomado um banho gelado - como gritaram na minha carinha.

 

sexta-feira, 8 de junho de 2012

Sobre músicas e garotinhos


             Se você é um louco descontrolado por música como yo, vai ter a mesma ideia a respeito: se queremos escutar a música, tem que ser já, tem que ser agora, tem que ser sem demora, não podemos ficar um segundo sem ouvir o ritmo que toca todas as válvulas do coração e faz o sangue enlouquecer dentro das veias. Tem que ser pra hoje! Tem que ser já, caramba! Num guentamos esperar nem mais um segundo, né mermo? Incrível que nem sempre querer é poder nesses casos, a droga da cançãozinha vai baixar (termos dos anos 2000, quem diria, não?) quando quiser - se quiser.
              Acontece seguidamente comigo, não sei com vocês. Dia desses, eu queria porque queria escutar “Human”, dos Pretenders. É, I play a good game but not as good as you... I can be a little cold, but you can be so cruel... Tava louca da vida para cantar a plenos pulmões junto com a minha miguxa Chrissie Hynde, acordar quarteirões inteiros com meu sofrível, porém bem intencionado, inglês, mas adivinhem??? A porcaria do download não quis finalizar, algumas solicitações sequer saíram do chão. E outras foram até a metade, ficaram nos seus 25, 30, 45%, mas, no fim, só me iludiram. Cozinharam minha boa vontade, minha paciência e meu bom-mocismo - ironicamente, tal qual alguns garotinhos com quem cruzei por aí nessas ruas nada discretas da vida.
              Pode parecer idiotice compará-los com canções, mas penso que eles têm lá suas afinidades. Alguns são hits do momento, mas não têm nada a oferecer além de fama; alguns têm refrões previsíveis e manjados; alguns hipnotizam na primeira "escutada"; alguns sempre vão render uma história para ser contada; alguns vão enojar para todo sempre; alguns têm arranjos refinados que ninguém entende assim tão fácil; alguns são clássicos: todo mundo ama e não se discute; alguns são "escutados" à exaustão, que chega uma hora em que se tornam dispensáveis - na verdade, nunca fizeram falta - e por aí vaí. Mas o que eu queria mesmo dizer é que, às vezes, queremos tanto determinada música - ou, vá lá, garotinho da mamãe - 
que esquecemos de olhar para os outros singles disponíveis no mercado. Bela porcaria, não? Ninguém mandou ser teimosa, rockstar.
               No fundo, essa comparaçãozinha vulgar foi mais mesmo para divagar sobre isso que parece ser um dos grandes males da humanidade: querer cada vez mais o que insiste em dar passos largos rumo à escapada melancólica e triunfal de nossas mãos cansadas. Talvez seja para escutarmos outra coisa, pararmos de ser tão perseguidores e obcecados (as). Talvez haja uma recompensa guardada atrás de tanta vontade de "escutar". Ou talvez seja hora de dar uma conferida para ver se, finalmente, Human está em meus domínios. Ô musiquinha chata de conseguir essa, hein?





quinta-feira, 7 de junho de 2012

SOUL

Quando leio esse “quem sou eu” aí do lado, dou uma mordiscada marota no lábio inferior e gargalho por dentro. Honestamente, foi-se o tempo em que eu me importava com definições, com respostas prontas para pessoas que nem me conhecem. Sou isso aí, uma curiosa, uma andarilha, um nada no planeta, um tudo no meu planetinha, uma filha. Sou morena, mas, às vezes, posso ser grisalha. Quase sempre sou canalha. Comigo mesma.
 É do fundo do coração, eu não dou a mínima. Eu amo ser assim. Também odeio ser assim. Mas é o que temos para o momento: trata-se de um irresistível casamento. Tem dias em que eu não sei que parte ficou dormindo e qual saiu para a rua, mas para que perder tempo útil de vida tentando definir a tua? Se martirizando com rótulos? Sou jornalista, e não sou fanática por café. Sou adulta, e amo rir fora de hora. Vê se colabora com meu riso, é tudo improviso.
           Se eu escrevo que “foi-se o tempo”, é porque ele existiu. E até resistiu. Tempinho imprestável: tratei de matá-lo; ele riu. Agora, somos amigos, típicos amigos de protocolo. Não é para ele que eu peço colo. Conviver bem com a minha indefinição, hoje, para mim, é lei. Eu quero é sorrir na frente do espelho, mesmo sem ter respostas para aquilo que me fez perder o sono. Eu quero é sorrir sem ter motivo. Ou talvez por perceber que, apesar de tudo, sobrevivo.
           Rimas cretinas para um dilema eterno. Eu sou o que posso, o que quero, o que me obrigo, o que me satisfaz, o que quase ninguém entende. Eu sou isso aí. Esse isso ambulante, esse isso errante, esse isso apaixonante, esse isso detestável. Eu insisto em ser amável. Eu grito You oughta know, da Alanis, eu grito Cry babyda Janis, mas susurro Me and Mrs. Jones. Eu sou um pouco Bridget Jones. Eu sou soul mais que rock. Sou mais palavra que toque, mas uma dica: não me provoque, pois sou agridoce, sou um doce.  
   

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Plantão Agridoce

 Após passar mal durante evento, congressista faz planos
 - marcar presença no próximo Intercom sem vomitar é uma das metas -


          Uma das primeiras coisas que Bruna Daniele Souza de Castro fez, ao chegar em sua casa em Cruz Alta, no noroeste gaúcho, no último sábado, dia 2, foi chorar desconsolada nos braços de sua mãe - que a esperava, aflita, depois de saber que sua primogênita passara terrivelmente mal em Santa Catarina, onde se encontrava. A jovem participava do IntercomSul - conhecido congresso de comunicação da região sul do país - com colegas da Unicruz - Universidade de Cruz Alta - e já, na quinta-feira, quando chegou à cidade de Chapecó, teria demonstrado certa indisposição - que, segundo testemunhas, teria começado no próprio trajeto da excursão, na quinta-feira, dia 31.
           De acordo com a estudante, o motivo do mal-estar - que durou cerca de três dias - teria começado quando ingeriu uma certa bebida láctea, cuja energia dá gosto, na casa de uma amiga antes de viajar, e foi potencializado quando, já à noite e no estado vizinho, comeu um certo lanche feliz e muito amado por todos. "Sempre como o mesmo, mas resolvi experimentar o convidativo em questão, com aquele maldito cheddar e um molho carregado de sei lá o quê, e não deu outra. Foi aí que me estrepei, pois o outro alimento já não havia "sentado bem" - recorda, com ódio nas retinas. A partir daí, segundo ela, sua estada na cidade transformou-se em um tour exaustivo a banheiros das mais desconhecidas procedências e a farmácias atrás de remédios que aplacassem seus enjoos e dores de cabeça - sem falar, obviamente, no cosplay involuntário de zumbi, com que agraciou colegas e amigos pelos corredores do hotel e da universidade onde ocorreu a programação.
           Ainda que tenha ficado extremamente decepcionada com todo o script dos horrores contado acima, a chorona, err, digo, moçoila sonha com um futuro promissor nos eventos acadêmicos que vêm por aí. Planeja voltar ao tal Intercom em uma circunstância mais leve e livre de regurgitações (risos da redação), além de apresentar outros trabalhinhos graciosos para a geral. "Eu voltarei triunfante, muahahahahaha" - profetiza.


Por: Criatura Agridoce