quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Lorena e Vítor - o começo

Estava eu aqui de bobeira, cá com meus botões, e me toquei de não ter dado satisfações nenhumas sobre a Lorena e o Vítor. Caso não se lembrem deles, aqui tem dica.

Vítor e Lorena, o casal que nunca foi, mas que, depois que deixou de não ter sido, deu certa saudade. Eram muito improváveis os dois. Conheci bem de perto. Nem imaginam, aliás, que os desnudo por essas bandas. Não contem, a propósito, our little secret

Lorena segue vivíssima, mas vou conjugá-la no passado. Era um tipo curioso. Fumante crônica. Chata convicta. Petulante, estudava arquitetura, mas era boa mesmo em arquitetar meios de se esconder de si mesma. Toda problemática, detestava o curso, escolhido a esmo, tudo porque ela era muito boa em desenhar janelas. Gostava de dançar Lust for life pelada em frente ao espelho, com os peitos balançando, sonhadores, enquanto achava que ninguém podia vê-la. Servia mesas num barzinho onde um cara tocava piano magistralmente - era o Vítor. O Vítor era músico e ator, mas não ganhava dinheiro com nenhuma das duas artes. Era um tipo que dá vontade de morder - eu tranquilamente morderia o Vítor, se o visse em cima duma mesa dando sopa -, olhar, cheirar, querer. O Vítor era um romântico. E tinha uns olhos que faziam perder o rumo de casa. O Vítor também era bonachão - todas as mulheres queriam sentar-se no amor do Vitinho. Uma espécie de Edu, Coração de Ouro dos anos dois mil. Só que Loreninha nem aí. E ele lá, tocando de boinha seus Chopins, só imaginando como seria interessante ter aquela doidivana mais perto que o usual. Até que um dia, aconteceu. Eu vi tudo, por trás de uma árvore. O bloquinho em mãos, só esperando o cataclisma.
Se apaixonaram, vai saber como, vai saber por quê. Acho que tudo começou naquela tarde em que a Lorena foi trabalhar com a blusa virada, era a marca registrada da nossa heroína: as etiquetas acenando por fora da roupa. O Vítor não deixou barato e disse algo espirituoso, como era do seu feitio. Ela quis fazer a superior, mas não se conteve e ficou só de sutiã ali mesmo, rindo, entregue àquela novidade de reconhecer no colega de trabalho uma nova saída. Aí, meus amigos, ela chegou bem perto dele, com os olhinhos imaginando traquinagem, semidespida metafórica e literalmente, e lhe deu um beijo no rosto. Um simples beijo queimando de curiosidade.

Deve ter sido ali, mas não tenho certeza. A fumaça do cigarro da Lorena me fez sair de lá.










sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Queria Talking Heads, mas só consegui gauchinho pernóstico

Uma noite dessas, eu fiquei meio louca despirocada, querendo ir a uma festa especial Talking Heads. Minha nossa, preciso ir pra algum lugar que toque Talking Heads a noite inteira. Puta merda, onde, Osíris? Deve haver algum lugar nesse mundo, nessa cidade, nesse perímetro. Eu necessito fazer as dancinhas dos anos 80 desesperadamente. Até minha camiseta das cabeças dançantes eu encomendei, porcaria. Por um mundo onde eu possa ser new wave sem culpa, sem restrição, sem medo.

AJUDA LUCIANO
AS CABEÇAS VERMELHAS DANÇANTES NÃO PODEM ESPERAR

Mas terão. Terminei numa Quartaneja, desejando não ter nascido. Porque a neja, ela te faz sentir assim. E porque cada um tem o que merece. Eu, certamente, estava em dívida com o cosmos. Mas, sabe, bem modéstia à parte, eu sei criar personagens ótimos para atravessar umas horas de tortura social longe da minha bolha. Até que me saio bem, pois, havendo cascata sem fim de cevada, a gente se amortece de si mesmo e entra no joguinho. Só que dessa vez não foi assim. E, sabe, eu não consigo levar nenhum papinho de night a sério, escutando música que eu detesto. Pena pros desavisados. Vamos queimar um aqui e agora. 

TIPO, A CRIATURA VEM ME TROVAR DE BOMBACHA

Digerindo.................................................

E de alpargata. E de boina. E eu realmente não entendi onde foi que ele achou que eu era o tipo dele. Vai ver, eu era o tipo dele só por ter um par de peitos, não? Eu devia ter ido com aquela camiseta do Pantera que eu nunca comprei, porque nunca gostei deles, mas que, ao menos, me livraria dessas ciladas.   
Mas que estereótipo é esse do gauchinho que vai caçar nas baladas? Será que ele está indo combater tropas imperiais depois da festinha? Fuja, querido, fuja.  

Sirvam nossas façanhas de modelo a toda terra? 

NÃO, NÃO SIRVAM
QUE TÁ BEM CAFONA
E RIDÍCULO


Longe do meu portão com essa tradição falida. Obrigada, de nada.








  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ode a Chandler Bing

Eu curto caras abobados. Vou explicar.

Há tempos, venho confirmando que, do sexteto que monopoliza o Central Perk descaradamente, Chanandler Bong é o que mais me arranca contorcionismos provenientes de riso. Ai, riso. Quem não gosta de ter alguém irresistivelmente engraçado ao lado? Quem não quer companhia passível de fazer rir em qualquer momento da vida? Ai, preciso, desculpa. Eu gosto é de gente abobada, dá licença. Caras abobados, então, passam na fila do meu coração facim facim. Curiosa, ao menos, eu vou ficar.
Porque o abobado, geralmente, ele sabe rir de si mesmo. E pessoas que sabem se zoar são uma graça e um alento neste mundinho de esquetes prontas e gravando. Af.
Mas, voltando ao Bing, o Bing é uma delícia. E eu seguidamente me reconheço em cada imbecilidade que ele faz.

MENHA NOSSA, EU SOU UM CHANDLER DE SAIAS

Por aí. A identificação beira o ridículo. Seguidamente, coloco as mãos no rosto: não aguento me assistir duas vezes. Chandler é muito zoado. Chandler se dá muito mal no amor - aliás, ele não sabe lidar com a práxis do amor. Exceto quando finally percebe a Monica, mas não vou dar spoilers (como se houvesse alguém que ainda não conhece a história, né, mas ok). Às vezes, lembro de umas vozes que já ecoaram em minha mente: ''tu não é uma pessoa séria, Bruna, tu não é uma pessoa séria.....''
E, então, fazer esse texto também serve como terapia.
Enquanto houver Chandler Bing dançando daquele jeito fascinante e peculiar, existirão festas para mim, para que eu finja que me levo muito a sério. Haverá vida para mim. Obrigada por existir, amor. Obrigada por este sarcasmo maravilhoso - e que, não raro, afasta as pessoas. Eu fico contigo.





ESSA CARA







sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Desapaixonar-se

Se apaixonar é bom. Se for correspondida, melhor ainda, viu, amiga catártica?
R I S O S

Não, sério, se apaixonar é bom, é saudável, é curioso, é engraçado, é bizarro e é bonitinho. Mas desapaixonar....... olha, sei lá, não sei muita coisa da vida, mas diria que se desapaixonar é o nirvana.

Tô brincandinho, migos buditas, não me xinguem.

Mas que é libertador, isso é. É uma sensação única de reencontro com você mesmo. De apaixonamento gratuito por você mesmo. Porque você fica naquela, né, encantado por aquele outro ser, meio hipnotizado por aquela outra vida tão simplória e óbvia, que vai esquecendo gradativamente da sua obviedade. Sei que não posso falar por todos, mas geralmente não sabemos brincar de paixão de outro jeito: invariavelmente a gente sofre pra caralho, se destrói, se martiriza, ficando na ponte aérea paraíso-inferno com escalas masoquistas nos condados de ciúme e possessividade. A gente é feliz também, mas é aquela coisa, tudo muito pautado por uma realidade comercial e escrota contra a qual lutamos inutilmente.
Pode haver abnegados por aí que amem de outro jeito, mas a maioria ainda é protagonista do filmezinho acima. Me inclua nesse pacote, claro, como não.
Quando finalmente você se desapaixona, algo muito novo e muito velho renasce: a sua vida. Seus gostos, seus filmes, suas músicas, suas gírias, seu jeito estranho e único de ser, além dela, a sua autoestima. Uma salva de palmas para a autoestima, que ela merece:




Qualquer esperto aí vai me gritar ''mas, ô, Bru, gostar tanto de alguém a ponto de aniquilar a autoestima não é amor, hein?''. Eu sei, amigão, mas quem nunca, né? Quem nunca. A gente gosta e se perde. Quem sabe, achar o limite seja o grande desafio. Uma vez, gostei tanto de um cara, que me destruí. Perdi a vontade de viver. Não de um modo dramático, como, possivelmente, vocês estão desenhando aí no paint de suas cabeças doentes. Foi algo muito sorrateiro e capcioso. Foi sem eu perceber. Eu simplesmente deixei de me querer. E deixar de se querer é o fim de tudo.
Confesso que isso não vai durar muito, essa vibe do texto, porque a gente sempre anda arrastando a asa para alguém, ainda que inconscientemente - eita sina desgraçada. Mas, por ora, vou aproveitar esse sentimento de que tem gente aí que não cabe mais na minha vida. Gente que é tipo aquele meu pijama rosa sem elástico - só serve pra fins de sono mesmo.
Como diria aquele bigode sagrado da música brasileira, ''no presente, a mente, o corpo é diferente... e o passado é uma roupa que não nos serve mais...''









quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Eu te amo, meu Brasil, eu te amo

A história do desaparecimento do pai do Marcelo Rubens Paiva foi algo que me marcou ali pelos 17 anos. Quando li pela primeira vez Feliz Ano Velho, a passagem em que ele narra o dia em que militares invadiram sua casa e levaram seu pai arrastado - para nunca mais - calou profundamente em mim. Até hoje, mexe comigo, me dá vontade de chorar. Ele nunca mais viu o pai. E é uma narrativa parecida com muitas de um passado bem recente do país - e ao qual, vejam só, muitos imbecis travestidos de sujeitos de bem fazem coro, pedindo sua volta. Se tá complicado de assimilar, digite aí no seu buscador do Google: desaparecidos políticos. Se quiser variar, tempere a pesquisa com ditadura chilena, ditadura brasileira, ditadura argentina, ditadura cubana - sim, cubana, porque toda ditadura é terrível - e reflita um pouco. Há um número bizarro de pessoas que nunca foram encontradas. Nunca houve paradeiro. Seus descendentes já morreram - e grande parte sem saber que fim tiveram seus pais, irmãs, tios, primas. Não há cemitério para levar flores, chorar de saudade. Não há corpo - os restos mortais confundiram-se com o pó. Parece poesia, mas quem dera. Viraram indigentes, suas vivências foram aniquiladas. E seus assassinos e torturadores vivem à sombra de um estado que os perdoou com honras e méritos. Anistia geral para os que ficaram. Ustras da vida que o digam.
Como não tivemos nenhum exemplar de esquerda no quintal brazuca, foquemos na atuação de extrema direita que assombrou gerações. Como pode haver pessoas exigindo outra intervenção militar? Como pode não sentirem empatia por essas famílias, cujos parentes perderam-se no tempo? Imagine que você fosse filho de Rubens Paiva, imagine que fosse um dia como outro qualquer. Aí, do nada, milicos invadem sua casa sem qualquer cerimônia. Quais são seus direitos? Que direitos, minha senhora? Seu marido é um subversivo. Qual o crime que ele cometeu? Ser contra o regime. Mas ele é uma pessoa de bem. Ah é? Ele que vá explicar isso lá tomando um choquezinho no saco, esse comuna de merda.
Imagine que você fosse filho do Herzog, então. Aí, do nada, seu pai é convidado a prestar esclarecimentos, de boinha, numa nice, no II Exército. Coisa rápida, ué, afinal, ele não deve nada a ninguém. Só que, dias mais tarde, sua família recebe a notícia de que ele se suicidou, uma coisa inexplicável. Você corre para quem?
Vamos mais longe: imagine que seu pai não figurou em livro nenhum. Não era um político influente tampouco jornalista. Seu crime? Ser um reles operário que ousava fazer parte do movimento sindicalista, lutar por uma vida mais digna para seus filhos. Enfim, ele não aceita as condições sub-humanas em que é obrigado a trabalhar, não concorda com a tirania de simplesmente não poder fazer greve, sob o risco de levar uma bala na cara. Enfim, ele é um prato cheio para os déspotas que iludem meio mundo cantando "Eu te amo, meu Brasil, eu te amo....'' Até que um dia ele cai. Ele é torturado. Espancado por ter ousado desafiar o patrão. Mais um desaparecido, quiçá. Ninguém mandou estar ''fazendo merda'', não é mesmo? Ninguém mandou não trabalhar quieto, enquanto via seu salário não valer nada diante dos preços que subiam assombrosamente nos mercados, não é mesmo?      
Mas, quem sabe, você só seja mais um filho de um empresário cheio da grana, tendo tudo do bom e do melhor, simplesmente não entendendo de onde vem tanto ódio por um governo bonzinho patriota, que até faz adesivos de carro com o slogan ''Brasil: ame-o ou deixe-o'', a fim de comemorar essa beleza de país, onde, vejam só, a ordem é tanta, que nem greve existe mais. Tudo funciona. E todo mundo pode ter uma televisão a cores para assistir O Bem Amado.   



                                                     Poxa, eu sou um vovozinho tão legal.