quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Palavras de uma Cartólatra

          Encerro o mês de novembro com uma homenagem ao saudoso Angenor de Oliveira - ou Cartola, como ficou eternizado - cujo aniversário de morte se dá hoje, dia 30. Tenho fascinação pela história desse homem, que, mesmo tendo origem humilde, trilhou um caminho brilhante na música brasileira. É o tipo de figura pela qual tenho interesse genuíno, uma admiração gratuita, um carinho inexplicável, sem que seja necessário racionalizar. Sentir está de bom tamanho. E Cartola inunda meu coração tímido e boêmio de sentimentos, assim meio que de graça, sabem?
          Mais que a doçura de suas canções, o que me instiga mesmo é a trajetória marcada por percalços que protagonizou ao longo da vida - em que sua arte escandalosa conviveu com a mesquinharia e sua genialidade com o abandono. O famoso mangueirense, ainda que compusesse verdadeiras relíquias, foi em boa parte de sua existência, um andarilho, sem eira nem beira, trabalhando em atividades que pouco contemplavam suas habilidades artísticas e vendo seus sambas serem regravados por outros cantores - à época, já de renome no cenário nacional. Não foi uma coisa justa, percebem?
          Em um mundo que superestima pessoas com milhões de formações e afins, a inteligência de Cartola no propósito de declamar poesia velha com aura de novidade soa como uma revolução - dessas que seguem vivas no inconsciente popular, mesmo após anos e anos. Ele não tinha instrução, aprendeu seus primeiros acordes sozinho, sem companhia, rabiscava em papéis velhos os versos que arrebatariam gerações mais tarde, e, literalmente, padeceu até desfrutar do prestígio que lhe foi traiçoeiro durante certo tempo. Gravou seu primeiro disco só aos 65 anos de idade, no entanto, quando o fez, foi certeiro: levou consigo meio mundo encantado pelo seu talento.
           Lógico, sou suspeitíssima para falar qualquer coisa, já que tenho profundo respeito pela memória desse artista autenticamente brasileiro e pela sua obra. Mas encho a boca para elogiá-lo, porque, antes de tudo, sou uma apaixonada por gente humilde. E meu ilustre sambista, mais que cultivar humildade, ensinou a cantar o amor e a vida de forma simples e digna - mesmo tendo sofrido tanto ao longo de sua "mocidade", como ele mesmo dizia. Bem no fim, escutá-lo é quase como um gentil convite a agarrar a sabedoria com as duas mãos e não soltar mais. Palavras de uma Cartólatra.


                                "Eu e meu violão vamos rogando em vão o seu regresso..."


domingo, 27 de novembro de 2011

Freddie vive

         No último dia 24, completaram-se 20 anos da morte de Freddie Mercury - meu vocalista preferido, desde o tempo em que eu nem suspeitava que fosse gostar de Queen. Nunca havia escrito nada muito organizado para ele, então, hoje, resolvi deixar registrada a minha louca admiração por esse exemplar purpurinado do rock mundial. E não é crônica, a propósito. Vou chamar de declaração passional de uma fã bem intencionada e que tem a mania irritante de ser efusiva. Bora pagar pau pro Farrokh Bulsara?
         Cara, eu amo o Freddie! Amo as gayzices dele, amo as dancinhas, amo a genialidade, amo a audácia de misturar muito dignamente ópera com rock n' roll, amo o talento ímpar, amo seus figurinos bizarros, amo sua virtuosidade para instrumentos musicais, amo sua timidez nas raras entrevistas que concedia, amo seu humor involuntário, amo o lirismo de suas canções, amo as palavras malcriadas que ele disse no Queen live at Wembley '86 - em resposta a um rumor de dissolução da banda - e amo, mais que tudo, a sua voz incrível! Que voz! Veludo sonoro a enfeitiçar meus ouvidos exigentes.
         Claro, qualquer um que leu um pouco a respeito da sua vida louca, sabe de sua fama de menino mau, da promiscuidade, dos escândalos e etc. Até já escutei muito por aí "ai, aquele louco veado..?", como se ele não tivesse feito nada na vida, além de tomar porres e participar de bacanais e toda sua obra magnífica devesse ser condenada a viver no ostracismo. Santa ignorância, Batman! Aqui vai um segredo para vocês: nunca me interessou o que ele fazia na sua conturbada intimidade, mas, sim, sua insanidade, sua criatividade, seu gênio incompreendido - fundamentais na trajetória dele nos palcos. Freddie vive nos meus fones e no meu coração e é isso o que importa.
          Já diria Martha Medeiros..."(...) se fôssemos admirar apenas o trabalho dos bons moços, teríamos que ignorar Oscar Wilde, Chet Baker, William Burroughs, Janis Joplin, Eric Clapton, Billie Holiday, Kurt Cobain, Pablo Picasso, Jack Kerouac, Ernest Hemingway, pra citar apenas alguns nomes de uma longa lista de alcoolistas, viciados em drogas, pervertidos, egocêntricos, petulantes, loucos e geniais." Endosso com louvor! Um viva à loucura do Freddie e um silêncio bem gostoso à miséria existencial de quem não o compreende, porque, né? Resto, a gente ignora.



sábado, 19 de novembro de 2011

O cara

        Basta ele entrar no recinto, para todas torcerem os pescocinhos esperançosos em sua direção. Talvez nem quisesse chamar tanta atenção, mas o fato é que chama. Ele é o cara, não se discute. Entretanto, não age como se fosse o maioral. Não faz o tipo exibido, daqueles que adoram contar vantagem para os amigos. Apenas desfila com uma confiança marota, exalando, humildemente, seus feromônios para a plateia de lobas salivando. Chega, na dele, sossegado, troca algumas palavras com um conhecido que encontrou, ali, por acaso. Ri uma gargalhada gostosa e indecifrável, enquanto seu sensor de macho que sabe o que quer capta tudo o que acontece à volta. Usa um perfume que embriaga qualquer mocinha incauta que ouse chegar perto. Ninguém sabe o nome da fragrância, mas certamente é responsável por uma espécie de paralisia. Pobres das mortais que sentirem, nem vão dormir à noite. Ah, tem mais essa: ele tira o sono, o cara.
         O cara é um ponto de interrogação que não foi desvendado nem pela mãe dele. No fundo, ele não sabe o que tem. Só sabe que tem. E não é um deus grego da beleza, como poderia se supor. É atraente, lógico, mas não tem cargo vitalício na academia, tampouco uma carinha de parar o trânsito. Se bem que disso ele entende, essa história de parar trânsitos. Que estrago olhar para esse moço! O forte dele é o charme, e isso nasceu com o filho da mãe, não foi encomendado das Lojas Americanas. Tudo ajuda, claro. O cabelo farto, que vive milimetricamente bagunçado de propósito. Os olhos amendoados e espertos, que vasculham sua alma, antes mesmo de você pensar em dizer "oi". A barba mal feita perfeitamente talhada para os ângulos de seu rosto. O sorriso envolvente e caprichoso, que, aliás, ele não distribui tão fácil (dá para acreditar que ele brinca de tímido?), dentre outros artifícios físicos que ele usa muito bem - ainda que sem querer.
         O cara foi abençoado pela natureza, ok. Mas nada disso valeria, se não tivesse essa coisa que é só dele, isso que ele traz nos movimentos, no jeito de andar, de torcer pelo time, de fazer um elogio. E de vestir, ia esquecendo. Maldito bom gosto involuntário. Definitivamente, ele fica bem com qualquer trapo. Sabe aquela camisa xadrez meio marginalizada pela sociedade? Aquela havaiana condenada a viver no submundo da área de serviço? Aquele moletom com capuz que você imaginou poder ser usado só pelo seu priminho de 10 anos de idade? Pois é, tudo fica lindo no nosso imã masculino, digo, no cara. Porque ele é o cara. E não ganhou esse título impunemente. Ninguém mandou ser irresistível, manjar sobre qualquer filosofia de botequim e citar Hermann Hesse. Ser um poço de gentileza e ser o pai dos mistérios. Tudo é culpa dele, oras. Há boatos de que até adivinhe pensamentos e desejos. Mas isso ainda é mera especulação.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Alma doidivana

Olá, meus anônimos preferidos!

       Tô passando rapidinho hoje! Nada de reflexão, diálogo ou resenha passional de filme. Vim deixar uma letra que eu amo de paixão e que serviu de inspiração para um blog que criei, em outubro de 2010 - um pouquinho antes de eu trazer minhas tralhas, em definitivo, pro endereço agridoce. Cêis sabem que eu curto música, tipo demais, né? Cêis sabem também que eu vivo grudada com meus fones de ouvido, né? Pois bem... "Cena Beatnik", do Nei Lisboa, apareceu aleatoriamente aqui no meu radim, e eu pensei em dividir com vossas senhorias a energia fofa que ela me transmite.
       Meu extinto recanto, "Alma Doidivana", me dá uma saudadinha, mas a inspiração foi para sempre. Sabem por quê? Porque, no fundo, sei que qualquer um pode ser um pouco doidivana, carregar na alma um doce devaneio, um velho desatino. Ou ter, quem sabe, no caminho, algum doidivana que inspire os mais velhos devaneios e os mais doces desatinos. Vai saber, né? Isso fica por conta da imaginação de vocês...

Já não passa nada
Já nem peço por favor
Eu tô abrindo a estrada
Que chega aonde eu for
Eu tô na madrugada
Tô na chuva pelo calor
Eu tô na luta armada
E o perigo me cercou

E o acaso me deixou na porta da tua casa
Faz silêncio e faz de conta que já me esperava
Que eu tava pra chegar
Pra ficar e pra sumir sem dar explicação
Pra me livrar da prisão

Ou só pra te ouvir dizer que não
Só pra torcer o pé
Descendo a escada
De quem não me quer

Ei, ei, ei
Alma doidivana
Doce devaneio
Velho desatino
Ei, ei, ei
Cena beatnik
Clock sem um click

Já não passa nada
Já nem peço por favor
Eu tô abrindo a estrada
Que chega aonde eu for
Eu tô na madrugada
Tô na chuva pelo calor
Eu tô na luta armada
Disfarçado de cantor

E o acaso me deixou na porta da tua casa
Faz silêncio e faz de conta que já me esperava
Que eu tava pra chegar
Pra ficar e pra sumir sem dar explicação
Pra libertar a nação

Ou só pra te ouvir dizer...

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Senza fine

         Nós fomos um porre, cuja ressaca ainda provoca alucinação e dor de cabeça. Nós fomos um vendaval, um dia de calor escaldante, um típico feriado de outono. Nós fomos o incenso que queimou e só deixou o cheiro impregnando o ambiente. Nós fomos chuva com sol, culpa e redenção. Nós fomos mais que cúmplices, fomos membros de uma seita secreta. Nós fomos a turnê que foi cancelada, os ingressos de uma peça que nunca foi ensaiada. Nós fomos uma cena do Tarantino, daquelas bem ridículas e fascinantes. Fomos uma tela audaciosa do Dalí, um parágrafo de um livro do Freud que encalhou na prateleira, porque assustou muita gente.
          Nós fomos equação sem solução, uma questão dissertativa, cuja resposta não convenceu a professora. Nós fomos a música que a gravadora dispensou por ter um refrão incompreensível e ser pouco comercial. Nós fomos inconsequência travestida de lugar-comum, uma poesia concretista, uma barra de chocolate meio amargo. Nós fomos marketing viral, pauta sem fonte, fonte sem nome, nome sem dicionário, dicionário sem biblioteca. Fomos eu e você só que ao contrário. Nós fomos o contrário do que sempre foi. Nós fomos aquele machucado que cicatrizaria, caso fosse tratado, mas ninguém soube como cuidar. Nós fomos figura de linguagem, um belo apagão em pleno baile de carnaval.
           Nós fomos etecetera que sumiu sem dizer a que veio. Fomos história que estava se contando aos poucos, mas todo mundo desistiu de escutar. Nós fomos comédia pastelão, garganta seca implorando por um gole de água. Fomos beco sem saída, trânsito congestionado, sinaleira com defeito. Fomos um neologismo esquecido, letargia a brincar com os sentidos. Fomos João e Maria enfrentando os batalhões e os alemães e seus canhões. Fomos gargalhada e dentada na maçã da luxúria, para quê? Porque fomos senza fine.  


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Da série: diálogos agridoces

O PIADISTA E A NUDEZ COMPARTILHADA

-Eu nunca deveria ter me despido pra ti!
-Ah, mas foi tão bom... é tão bom.. hehe
-IDIOTA! Falei metaforicamente...
-Tu e tua velha insistência em colocar poesia onde não existe...
-Tu e tua velha mente que só pensa em sacanagem...
-Tu gostou da sacanagem também, poetisa!
-Sim, mas agora quero filosofar. Posso?
-Não, não pode. Não, sem antes vestir algo, né... (risos maliciosos)
-Vou ficar do jeito que tô. E trata de prestar atenção.
-Tá legal, mas por que tu falou nisso justo agora?
-Porque eu sei que isso é um erro.
-Erro incrível... vamos cometer de novo?
-IDIOTA! Me refiro ao que te disse antes... fiquei nua quando falei de sentimentos.
-Não tem nada de errado nisso...
-Tem, sim. Sei que tu vai usar tudo isso contra mim, mais cedo ou mais tarde.
-Por que tanta certeza?
-Eu sei bem com quem tô lidando...
-Não parece.
-Opa, por que eu deveria pensar diferente?
-Sei lá, eu gosto de ti também...
-Ai, e eu quero tanto essa nudez compartilhada...
-AH, JÁ É, GATA!
-Chega, tu não leva nada a sério! Nem sei por que insisto nessas DRs, se a gente nem é um casal...
-Claro que somos!
-Claro que tu só quer me comer!
(silêncio)
-Cara, teus medos são os mesmos que os meus... a diferença é que tu fala.
-Então por que tu não vê que eu quero tua transparência, outro tipo de nudez?
-Tô ficando confuso...
-Tu tá é saindo pela tangente, bem teu papel...
-Eu não sei o que há com a gente, mas é especial...
-E eu não caio mais nessa... me dá minha blusa dali, por gentileza.
-Por que tu ficou assim?
-Ah, porque eu sou uma idiota mesmo!
-Eu fico nu pra você!
(risos)
-Mas que piadista, hein? Tô boba com a tua lábia!
-Sempre quis ser comediante stand-up!
-E eu sempre quis entender por que vivo caindo nessa tua conversa furada.
-Talvez tu me ame, saca?
-Talvez eu te mate com a faca da cozinha, esconda o corpo e tu pare de se achar, saca?
-Não fala assim...
-Ah, para de me olhar desse jeito, caralho!
-Deixa ele fora dessa história, linda. Bora pedir uma pizza?




domingo, 13 de novembro de 2011

Nunca foi fofa

         As fotos não mentem: ela havia sido um bebê fofo. Nossa, que menina graciosa e dotada de movimentos angelicais: bochechas convidativas, olhares espertos, trejeitos açucarados para qualquer estranho. Esboços de palavras proferidos com o melhor da meiguice infantil. Uma lady do berçário. Fofa! Sem mais. Quem viu, corrobora.
         Porém, bastou uma passagem de tempo e lá se foi a fofura. Começava a era da obscuridade. A criança passou a falar com propriedade. E, falando, passou a presentear a família e os agregados com pérolas descabidas. Os pais imploravam por compaixão, para que fosse uma garotinha tímida como as outras. Que nada! A não fofa sabia que tinha uma missão a cumprir. Contava causos cabulosos em aniversários, piadas em casamentos, dava uns cascudos lendários nos primos menores - eternizados em filmagens dessas reuniões de parentes, aliás - fazia umas artes terríveis no quintal da sua infância e intrigava a todos com sua língua ferina, que, diga-se de passagem, a transformou em uma adolescente também desprovida de fofura. Inquieta, passou a opinar sobre qualquer coisa. A responder perguntas de forma atravessada e displicente, munindo-se de uma extasiante e particular maneira de ver a vida. Não tinha vergonha de falar com estranhos, nem sentia a face corar por qualquer ladainha. Nunca teve problemas em apresentar trabalhos no colégio, comprava briga com qualquer um que ousasse roubar do seu time. Era temida pelas coleguinhas. Não pela compleição física, e, sim, pela combinação explosiva de não fofura com declarações desconcertantes: “Não fala com ela, não. Ela grita! Outro dia, ela discutiu com a professora e chamou a coitada de Free Willy mal amado, essa esquisitona de uniforme!”
          O engraçado é que ela sempre foi fã inveterada de exemplares masculinos dotados de fofura em níveis estratosféricos. Daqueles que carregam violões nas costas e canções carregadas de simbolismo no inconsciente. Dos que leem para alimentar a existência e usam umas camisetinhas cretinas com dizeres apocalípticos. Dos fofos que insistem em não ser fofos, mas não conseguem esconder a fofura por muito tempo e deixam escorrê-la no canto dos olhos, justamente quando o mulherio está distraído - e só as observadoras a capturam no ar. Vai entender. Durante certo tempo, perguntou-se por que nunca fora fofa. Raios! Qual o segredo da fofura, que ela tanto desconhecia? Nunca foi fofa. Não sabia ser fofa. A arte de ser agridoce, dominava, ok. Mas a de ser fofa, putz... faltou a essa aula, certeza. Sofreu terrivelmente de amor ao longo dos agoniantes anos escolares, lógico, mas nem assim teve dias de fofa. Tratava de ler algum livro, conversar com algum amigo imaginário, escrever abobrinhas sacanas e não fofas em algum diário velho, para aplacar a dor. E até que passava. Nenhum gostosão mirim soube do buraco que provocou na alma da menina, ainda que sua paixão mal resolvida pelo artilheiro mais másculo da história dos jogos interséries ecoe até hoje por esses becos da vida colegial. E um pouquinho em suas lembranças casuais.
          No fundinho, não quer ser fofa. Ser dona de gestos cinderélicos e meigos e queridos e doces e engraçadinhos e zás? Ela não sabe. É estabanada, verborrágica, vive no mundo da lua, tropeça em qualquer coisa inanimada, senta no chão, fica elétrica e dispersiva quando apaixonada, ri alto e emudece pessoas que estão acostumadas só com as fofas - vulgo insossas de plantão. Será sempre uma não fofa incorrigível. Talvez só quisesse mesmo é ver como é o lado de lá, esse mundo da fofura que parece tão tentador e mágico - ao menos para ela, que ignora outro jeito de viver por aí.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Barraco? No, thanks

        Acho curioso quando flagro alguma pessoa dizer em alto e bom som: "Bla bla bla, ai, não levo desaforo para casa". Bom, acredito que "levar desaforo para casa" não seja o projeto de vida de ninguém nesse mundo - nem o meu - mas muito me impressiona o ar convencido que quase sempre sai junto de tais palavrinhas. Percebem? Para mim, é como se fosse uma declaração de amor indireta ao barraco - sonho de consumo dos que não conseguem ser notados por meios mais dignos.
         Disse que acho curioso? Menti, gente. Acho é pobre de espírito; Acho decadente; Acho pernóstico. Quando presencio uma afirmação desse tipo, creio que seja possível me ver salivando de ódio, olhando fixamente para o ser humano genérico e carente de argumentos, autor da frase-escândalo. Desconfio que tal desprezo seja pelo fato de eu tentar, sempre que possível, avaliar fatos e circunstâncias de maneira fria e analítica. É aquela velha mania de ser sensata, sabem? Mas sei que a coisa é mais profunda do que parece. Nada é tão simples quando falamos em pessoas.
         Sinto-me uma estrangeira em terra de baixo nível, porque entendo que brigar nunca é o melhor remédio - ainda que seja um esporte bastante praticado por aí. Ideias são mais úteis que gritos e afins. Sempre fui do time que procura fundamentar o que diz, em detrimento de sair aterrorizando a geral com frases feitas e pouca educação. E não pensem que eu tenho sangue de barata, por obséquio. O que ocorre é uma insistência em ver as coisas por ângulos diferentes, buscando enxergar o que ficou encoberto por ações impensadas, relativizando o que insiste em tomar dimensões desnecessárias. Não há nada de fraco nisso, anônimos da minha vida. Só os fortes entendem.
          É óbvio que já estive em situações desagradáveis em que precisei levantar a voz e "fazer a revoltada". Sim, já briguei um bocado nessa jornada, quando mais nova. Só que hoje percebo o quão medíocre é apelar sempre ao quebra-pau. Mediocridade essa, aliás, que talvez passe despercebida em meio ao glamour que é "discutir e fazer e acontecer uhul", vai saber. Na dúvida, sejam elegantes - que elegância é item em extinção nesse mundinho lixo. Se também forem lacônicos com uma pitadinha de sarcasmo, então, considerem-se mais agridoces do que imaginam.

Beijos

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Sobre "De repente é amor"

         Muitos diretores de comédias românticas não se dão conta de que precisam de pouquíssimo para entreter o público e, de quebra, fazê-lo acreditar em amores fulminantes e verdadeiros. Nadando contra essa maré de desavisados, Nigel Cole conseguiu fazer "De repente é amor", filme que, além de barato - obviamente, em se tratando de orçamentos hollywoodianos - envolve e faz rir, amparado por um roteiro que prima, brilhantemente, pela casualidade - item que mexe com os corações, desde que o mundo é mundo.
         O mote da história é o encontro inusitado de Oliver Martin e Emily Friehl - respectivamente interpretados por Ashton Kutcher e Amanda Peet - que, em um voo de Los Angeles a Nova York, acabam tendo um envolvimento totalmente nonsense que irá uni-los sempre dali em diante. Claro, nosso casal de mutantes passa por muitos desencontros até se dar conta de que a ficada em pleno avião foi para valer: é curioso como os obstáculos que se opõem à consolidação da união não são criados por crises existenciais deles e melodrama sem fim, mas, sim, por contingências terríveis da vida de cada um. Os dois são uma espécie de tutores relapsos desse amor - que nasceu, petulante e certeiro quando os olhos se bateram, e, no entanto, não foi considerado como tal, por puro capricho. Por pura distração, quem sabe.
         A sinopse acompanha os 7 anos, em que Oliver e Emily enovelam-se a ponto de não poderem voltar atrás: em dado momento, é como se ambos colocassem a mão na cabeça e repetissem à exaustão o quanto estão ligados, o quanto se conhecem, o quanto se divertem na companhia um do outro. Trata-se de uma teia muito suave, que costura detalhes e boa música, em sequências leves e divertidas, fazendo a gente refletir sobre isso que chamam de "acaso". Há boatos de que Brighter than sunshine seja a grande causa de anestesia em seres do sexo feminino, enquanto assistem à trama do Nigel - mas não mais que o Kutcher dedilhando desajeitadamente I'll be there for you na guitarra para a mocinha, é bom deixar claro. Em qualquer dos casos, é convite para sonoros ãããããins, seguidos de paixonite incurável.
          A química dos dois é inegável e convida a adoráveis sonhos à noite. Porque o filme, meus caros, nada mais é que isso: uma delícia que faz qualquer um sonhar e se perguntar se é possível tanta coincidência nessa droga de vidinha - apesar de todos os clichês possíveis e já conhecidos. Não são todos os filmes do gênero que me arrebatam, ainda que eu seja uma entusiasta de casais fofinhos do cinema e de suas historinhas água com açúcar. Todavia, há um quê a mais nesse amontoado de cenas bobinhas, recheadas com o melhor do previsível, que faz com que eu volte a ter 13 anos. Não sei, talvez algo sem nome.


                                            #ChicagoFeelings

sábado, 5 de novembro de 2011

Expectativa, sua criada

         Você convive com ela, desde que se conhece por gente. Penetrante e manipuladora, a tal corrompe suas noites de sono sem pestanejar: basta um segundo de distração e já levou sua paz. Às vezes, você tenta não entrar no seu joguinho, se fazer de difícil, continuar cuidadoso e fingir esperteza. Ledo engano, my dear! Nesse momento, ela surge, triunfante, e anuncia ter tomado para si até sua alma. A denominação da cascavel? Expectativa, sua criada.
          Expectativa! Expectativa! Expectativa!! Expectativa, como deve ser do conhecimento de todos, vem do vocábulo espera. Eu espero, tu esperas, ele espera... esperamos pelo que, afinal? Por quem? Não se sabe ao certo, mas é fato que aguardamos, ansiosos, por algo que se perde no horizonte. Queremos essa coisa que insiste em escorrer pelas mãos, esse alguém, cujo endereço sumiu do mapa, essa manchete de jornal que não tem jeito de ser noticiada. Espera-se de maneira insana e doente. A expectativa está impregnada nas roupas, nos trechos de músicas, nos passeios desesperados de sábado, nos pesadelos súbitos, no soluço bandido a convulsionar a fala. É tortura sem fim.
         Você conheceu um cara interessantíssimo na locadora e espera que ele não seja casado; Você espera que aquela garota por quem se apaixonou não seja uma vadia graduada; Você espera que o presenteiem com educação e sinceridade do mesmo jeito que faz com os outros; Você espera que seu time não saia nas oitavas de final do campeonato para o maior rival; Você espera sol e bandeira verde naquele fim de semana no litoral. Que praga, hein? Expectativa é câncer desgraçado, cujo estágio terminal atende pelo nome de decepção – que é quando já nos encontramos agonizando, sufocados por nós na garganta, traídos pelas impressões mentirosas e sendo mastigados por dores existenciais terríveis. É muito difícil fugir desse saldo. Tô errada, agridoces?
         Claro, sobreviver é de praxe: ninguém morre de síndrome da expectativa frustrada com complicação no mediastino. Sempre fazemos pouco caso do estrago e logo já estamos serelepes, outra vez, nos agarrando a alguma nova ilusão para preencher os dias modorrentos. Porém, imagino que, mesmo com toda essa necessidade instintiva de (re)acreditar, o desafio maior seja o de tentar esperar pelo nada: um branco total no pensamento, sem martírios e cobranças. Aposto que, dessa maneira, as chances de lucro serão, além de maiores, muito mais reais. Só me digam qual o caminho para isso, por gentileza.


      

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A liberdade e o Sete de Setembro

         A gente enche a boca para dizer que é livre, que exerce o livre arbítrio do jeito que bem entende e tal. Balela! Por gentileza, se existir no mundo alguém que faça só o que realmente quiser, me apresente. Longe de mim duvidar da palavra de algum romântico por aí, que acredita que é possível levar a essência das vontades ao pé da letra, mas não posso evitar o espanto, uma vez que a gente se importa, sim, muito com a opinião alheia ainda. Tem de ser dito e assumido: somos uma espécie de eternos serviçais, prontos a agradar a terceiros, nos lixando para o que queremos de verdade.
         Parece muita pretensão eu querer falar por todo mundo, mas estou convicta de que se trata de um “mal” que acomete mó galera nas redondezas. Claro, não chega a deixar a geral prostrada numa cama, sem ter forças para nada, mas o fato é que incomoda, né? Confessem aí, que vivem pensando no que devem ou não fazer, em como devem ou não agir. Eu, ao menos, sou uns 68,23% assim. Gasto boa parte da vida, maquinando sobre qual será a decisão acertada para todos os meus dilemas. Será que eu pergunto por que aquela criatura é tão irritante e parece fazer questão de ser nas horas mais impróprias? Devo tomar a iniciativa em relação a ele, afinal amo aquele par de olhos azuis desaforados, desde que o mundo é mundo? Ponho aquele vestido amarelo, mesmo correndo o risco de ser confundida com uma gema ambulante? Falo para a moça que ela acaba de dar o meu troco errado, além de ter colocado sal no meu café? Esquece, eu curto um exotismo culinário. Quem já não se viu diante de pequenas dúvidas parecidas com essas? E mais, se perguntando o que os outros iriam pensar a seu respeito depois de tomar essa ou aquela atitude? Olha, aposto que o número é alto. E não condeno também, pois sei que é sintomático do mundo anormal que habitamos. Salve!
         Estava eu, dia desses, assistindo a uma reportagem de moda, em que uma consultora da área dava dicas aos telespectadores de como vestirem-se bem, e isso aguçou minha reflexão, uma vez que já passei pelo exercício irritante de escolher determinada peça de roupa e acabar desistindo de usá-la, pelo fato de não ser algo totalmente dentro do padrão do que se convencionou chamar de bonito. Não estou subestimando - é bom deixar claro - o profissionalismo da moça convidada a opinar e tal, mas muito me impressionou o fato de darmos mais crédito a esses profissionais que a nossa vontade genuína de vestir o trapo que der na telha, mesmo sob pena de passar por desatualizados, cafonas, alienados e sei lá mais o quê. Eu gosto de me vestir bem. A vizinha também. Você, certamente, não abre mão. Mas, sinceramente, não dá para se denominar cheio de personalidade, livre, se, a cada nova moda lançada pela protagonista da novela das oito, lá estamos nós, ávidos por adquirir tudo que aparece na televisão. Que raio de liberdade é essa?
          Enfim, o case da moça doutorada em bom gosto me pareceu um bom referencial de discussão. Queria ser uma mosquinha, só para ver quantas criaturas ficaram em frente ao vídeo, desesperadas por não deixar passar nenhuma informação e depois - creio eu - vestir roupas pouco condizentes com sua personalidade e biótipo - tudo pela conquista do suprassumo fashion. Isso vale para tudo na vida, não somente em relação ao guarda-roupa e às ações cotidianas. Penso que trair o que soluça dentro de nós é mesquinho demais. Nem que provoque taquicardia e estômago embrulhado, é preciso falar, agir, gritar, se declarar, chorar, rir com gosto. E, principalmente, usar o vestido amarelo. No desfile de Sete de Setembro. rs

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Nós, os humanos

         Nessa era obscura em que redes sociais nos intimam, de maneira irritante, a definir o que somos, o exercício da descrição chega a ser uma parábola para mim. Acho um saco essas tentativas de definição, além de preguiçosas e inúteis. Penso que a gente nunca é uma coisa só. Tentamos ser cúmplices de nós mesmos, mas muitas vezes ficamos reféns das circunstâncias. Escapamos, ilesos, ainda que meio desorientados, habitando um universo à parte, e torcendo por compreensão alheia. Somos pedaços, somos impressões, somos insuportáveis para quem não nos conhece - e mais ainda para quem nos acompanha desde sempre. Somos aquilo que, como diria a Marthinha da elite, ninguém vê.
         Ainda que o fato de falar disso provoque meus olhares desconfiados, me sinto profundamente intrigada: trata-se de um grande mistério da humanidade, hein? Os dogmas da igreja católica ficariam no chinelo, se comparados com o que nós, os humanos, trazemos na cabeça, no coração, arraigado na vida toda, nas relações pessoais e afins. Quando falamos que somos complicados, não estamos fazendo charminho: talvez até estejamos sendo econômicos na afirmação. É uma complicação meio instintiva, não há nada de maquiavélico na coisa. Somos milhões de issos, trajando um bonézinho com um ponto de interrogação. E será assim por mais um zilhão de anos.
         Quantos de nós já não deitaram a cabecinha no travesseiro, à noite, e sentiram o cérebro fritar à procura de certezas, respostas, terra firme para poder pisar? Acontece com todos, somos brothers de jornada e de experiências que se cruzam. Uns mais discretos, outros mais efusivos, mas igualmente viajantes do mesmo barco. Tentar definir é perda de tempo, só provoca sofrimento. Você ama andar de montanha-russa, mas padece de medo irracional de avião. Detesta demonstrações de imaturidade, mas só dorme de luz acesa. Ninguém é totalmente mau, totalmente diplomático, totalmente altruísta - há vãos na personalidade de cada um que dispensam rótulos e permanecerão assustando, conquistando, repelindo e acorrentando quem estiver pelo caminho.
          Somos tudo e nada. Somos a lascívia do rock n' roll e a candura da bossa nova. Somos doces e azedos. Somos meio psicólogos, meio médicos, meio feiticeiros, meio boêmios, meio poetas, meio Mae Wests e Al Capones. Nunca é uma coisa só. Cada um tem seu ponto fraco, seu baú de dores, seu sorriso secreto, seu espetáculo ensaiado. Nós, os humanos, somos assim, porque somos. Porque a vida nos fez assim. Ou porque os sonhos não deram certo. Ou porque apanhamos tanto que perdemos a capacidade de acreditar em dias melhores. Ninguém sabe ao certo, nem eu. Somos o que somos, porque, no fundinho, há razões para isso... mas aí já é outra história.