quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

1461 dias

1461 dias de jornalista. Que coisa, por que essa sensação de que passa tão rápido? Não que eu queira voltar às salas outrora frequentadas - Deus me livre! -, mas eu toquei a pensar no que isso representa na minha vida. Foi inevitável, os corações são meio apegados a datas, vocês sabem.
Eu não sou o tipo de jornalista que quis isso desde criança, foi mais como se as vivências tivessem me direcionado o caminho. Quando vi, tava lá, um breu só. Hoje me interesso por coisas diferentes e tenho vontade de me reinventar, talvez até tivesse feito outro curso. Sim, pois a cabeça muda - e, sim, começar faculdade com 17, 18 anos... que insano, pessoas, que insano. Porém, pela essência da coisa eu sou caidinha. E quando chamo minha profissão de madrasta, não é por ser uma raivosinha sem causa; é por ter em mente que criticidade é o único analgésico possível. O jornalismo é lindo, mas é um nojo também. Eu o amo, mas não posso passar a mão em sua cabecinha sempre. Eu sei bem a quem ele serve. Dói, né? Sempre dói, que remédio.
Ter um diploma... ter um diploma... qual o propósito disso, de verdade? Se formar, ter um emprego, contrair dívidas, trabalhar na mesma rotina previamente sistematizada e capitalizada (não se enganem: cursar jornalismo não livra ninguém de rotina produtiva e pautas insuportáveis sobre a festa da paróquia!), mas, me diz aqui, a gente muda alguma coisa? Eu tô interessada é em mudar as coisas, sabe... eu tô vivendo é pela bagunça. Já que não vai rolar a exclusiva na banheira com o Mercury, que ao menos os céus me livrem de trabalhar com boçal e para eles. Eu sou uma criança.
São dezenas se formando a cada ano. São dezenas ingressando nos bancos universitários idem. É muita gente, cara, é muita gente. Quando eu penso que muitos desses vão estar, daqui uns meses, fazendo página de Facebook em causa própria, porque, sei lá, se acham muito famosos, um pouco de mim morre. Quando eu penso que muitos, logo, estarão cobrindo o dia de praia da Chatolina Dieckmann única e exclusivamente para pagar as contas, ainda que sejam talentosíssimos, uma lágrima de sangue cai. Mas resisto, tem muita coisa boa em ser desse time, quer dizer, isso é praticamente uma seita.
Só quero fazer o meu melhor e beber umas no boteco da esquina trocando uma ideia decente com outros colegas de profissão - de preferência com uns que não se levem tão a sério a ponto de acharem que tem fãs, claro. Em suma, eu quero mais. Eu preciso de mais. Mas não, eu não falo de cifras.



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Come on Eileen - Dexys Midnight Runners






sábado, 16 de janeiro de 2016

A fila do hambúrguer e o conto do reizinho

Dias atrás, fui comer um hambúrguer com fritas daquela franquia. Sim, daquela. Eu ali, com aquele laconismo de dar inveja, me perguntando por que raios estava há uns 25 minutos esperando aquele combo de gordura e conservantes descerem minha laringe num ato quase sexual. Valia a pena? Pior que vale. Na minha frente, um pai com sua filha, que devia contar não mais que 3 anos. E aí que eu comecei, mesmo sem querer, a dispensar atenção ao papo unilateral dos dois.

- Filhinha, qual bichinho tu vai querer? O da casinha? Qual, filha?
- Me dá, pai, me dá...

E a cria ali, ensaiando um muxoxo, um nhem nhem nhem, uma gritaria, qualquer coisa, menos uma resposta que se espera de alguém que possua discernimento.

- Moça, tu guarda meu lugar rapidinho pra mim (sic) ir ali ver qual brinquedinho ela quer?
- Vai lá... de boa...

Fiquei observando os dois, o mala da fila em especial. Uma pessoa adulta, criada, lúcida, totalmente algemada pela fofura de um inocente, porque, sim, não discordo: estes inocentes que vocês adoram parir sabem ser fofos e mágicos. Um pai totalmente abestalhado pela doçura de seu filho. Fiquei ali, morrendo de amores e medo, pensando naquela fatídica entrevista que eu li uma vez do Içami Tiba - precocemente falecido ano passado. Sábias palavras as do homem: "criar qualquer um cria; educar é mais trabalhoso". Educar envolve essa coisa fantástica de pensar que você está deixando para o mundo um legado em forma de ser humano, e não uma criancinha adorável para admirar na estante. Bom seria, eu sei, mas não é. Vocês que amam ter filhos já devem ter tido a revelação: vocês têm eles para isto que chamamos de mundo, não para deleite pessoal.  
Crianças não têm muito que querer, basicamente. É horrível falar assim - sorry, mommies!! - mas até certa idade elas são somente bichinhos que têm vontades aleatórias. E bichinhos que só sabem ter suas vontades atendidas, quando crescem podem ser bem danosos para a sociedade. Não é preciso ser Içami Tiba para sacar isso, qualquer cérebro médio consegue. É sempre muito desagradável assistir a adultos indefesos diante da birra de um filho - um filho que esperneia e chora a cada negativa diante de uma vitrine. Eu poderia dizer que não tenho nada com isso, massss... mas no momento em que lembro que essas crianças logo, logo, serão adolescentes irritantes (como todos fomos) e mais logo ainda, adultos desenvolvendo suas relações com outras pessoas e vivendo em meio a toda sorte que o fato de estar na terra proporciona, me dá uma angústia. Sei lá, daqui a pouco elas vão ir pro colégio, essa entidade responsável por cerca de 90% dos nossos traumas, e daí? Como vai ser? Vão sair pisando em todo mundo igual àqueles filmes americanos sobre líderes de torcida? Olha, tem pai e mãe por aí que cria reizinhos e rainhas, e bem... como todos sabemos, aristocratas costumam ser execráveis. Que Ganesha nos ajude.







sábado, 9 de janeiro de 2016

A vida é a arte do encontro, embora haja tanto bombom trocado pela vida

O Vini já nos disse que a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida. Esta frase junto àquela do menino de Itabira, dos desejos e das tardez azuis - vide Poema das Sete Faces -, são minhas favoritas da vida. Não, pera, tem aquela também das noites brancas do Dostoiévski, que indaga mais ou menos se um minuto de felicidade não seria o suficiente para preencher toda uma existência. São belas frases, são belos potinhos de consolo e afago. E me ajudam a seguir, ajudam a acalmar a errância e o vazio. Protegem. Mexem em alguma coisa dentro, é inegável.
A vida é a arte do encontro. E nisso, às vezes, ela capricha. Não é sempre que seus encontros previamente concebidos - ela, teimosa, deve treinar isso por horas - vigoram. Ela se desculpa, diz que não era bem assim. Ok, entendemos, você está dando o seu melhor. E nós também. Mas quando ela acerta, aí ela acerta. Aí é desbunde geral. E todos nós temos uma coleçãozinha singela destes pequenos encontros que valeram por toda uma existência. Eu tenho os meus. Dificilmente conto. Gosto de ficar saboreando eles como uma criança de 5 anos, encantada com aquele chocolate tão esperado após o almoço. O gosto é tão mais diferente. Eu e meu chocolate, eu e o nosso momento. Eu e você, tão encontrados, encontrantes, encontrosos, quanto uma criança e seu bombonzinho de nozes. Que acaso singular, eu poderia ter mordido qualquer outro bombom, mas foi você!
Tem uns encontros por aí... tem uns encontros por aí, meus pequenos, que só mesmo uma brisa, uma magia, um vibrar diferente para explicar. Não sei o que ocorre. Eu poderia ter cruzado com tanta gente diferente, com tantos rostos que não o seu, com tantos risos que não o da sua boca, pisado em tantas calçadas que não as marcadas com o desenho dos seus pés, e olha onde eu parei? É, no mínimo, estranho. É, no mínimo, assustador. Assustadoramente bonito.




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Para o Diabo os conselhos de vocês - Os Condenados







terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Ano novo, velhas cagadas


Eu não vim aqui para despejar um balde negativo de neuroses em vocês – ao menos não deliberadamente. Mas, pra mim, é meio inevitável acenar o ano novo com um conhecido espírito resignado, malandro velho, ciente de que vai fazer muito pouco ou nada diferente. Não me leve a mal, eu não quero colocar areia na sua listinha feliz de metas, mas quem é que se leva realmente a sério aqui? Ah, vai se foder, sai da minha casa.
Com esse título-drama-queen, até parece que eu enumero coleções e coleções de cagadas a cada ano. Cagadas tipo filhos, casamentos, corpos escondidos em freezers, papelotes de cocaína na bolsa ou trepadas com o namorado da melhor amiga. Que nada, tô é existindo aqui com 26 anos, num bom-mocismo de dar tédio, louca de vontade de tosar o cabelo e morrer de overdose de sentido. Mas eventualmente cometendo, ora pois, cagadas por aí. Cagadinhas, sabe. Nada que deponha muito contra essa minha índole apegada a provincianismos, já que são contra mim mesma. Mas é como se elas estivessem arraigadas, fixadas com cola quente no meu esqueleto, como se gritassem em uníssono depois de dar meia-noite: “você não deixou de ser vocêêêê, heinnnnnnn’’. Bela torcida tenho eu.
Cagadas do tipo dormir tarde toda santa noite e querer morrer com um tiro à queima-roupa quando o despertador toca na manhã seguinte - aliás, essa creio ser partilhada por grande parte da audiência. Como nos curarmos, irmãos? Como nos libertarmos, se a madrugada parece tão mais convidativa para viver e ser criativo, bolar planos e ser feliz?
As cagadas, elas são assim desde sempre, mas atravancam toda uma existência. Eu queria parar de me drogar (ler Claudia Tajes e tomar Coca). Eu queria parar de fumar lembranças antes de dormir e tragar esse veneno que até faz bem na hora, mas entorpece meus neurônios burros de esperanças vazias. Eu queria parar de tentar entender essas noites em que tudo parece se encaixar e vêm, lépidas, como presentes para quem se comportou bem, mas amanhecem rápido demais. Os dramas dos começos sempre são essas expectativas horrorosas que começam a corroer nosso discernimento e nos levam a crer que será diferente, qualquer coisa, qualquer algo. Bom, talvez seja, vamos ser um pouco ingênuos por ora. E fingir que viramos outras pessoas. 



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Shoulder to shoulder - Little Joy






domingo, 3 de janeiro de 2016

Chico e a manada de imbecis


Aí o cara recebe a graça divina de cruzar com o Chico pelos Leblons da vida – eu, por exemplo, como não conheço Leblon nenhum e frequento só as catacumbas do nada, dificilmente seria agraciada com tal coisa. É o Chico, cara, o Chico, caralha!!!! Não sei... mas se eu tenho a sorte de uma figa de cruzar com o filho do Sérgio, talvez contrariasse meu histórico efusivo ridículo: possivelmente ficaria petrificada, abestalhada. Talvez começasse a babar, é um chute. Ou chorar, porque toda uma carga de canções já gravemente somatizadas encontraria saída nos olhos. Olhos nos olhos, quero ver o que você diz......
O Chico, cara. Tu imagina, menino, encontrar esse esquerdinha que tem apartamento em Paris? Será que o condomínio é muito caro? Digo, o cara que escreveu Futuros Amantes, a música mais desgraçadamente romântica e linda de todas as eras deste e dos outros mundos. O cara que escreveu Meu Guri. Oh, céus, vocês já pararam para sorver a epopeia social e maravilhosamente triste que é Meu Guri? O cara que escreveu Construção. O que é Construção, se não um hino, uma ópera do trabalhador, do oprimido, uma faca no coração da gente? O Chico nos assassina, mas quem disse que temos ousadia de morrer? Eu que não morro, meu filho. Não antes de o amor cair doente...
O cara encontra esse ícone, essa lenda, essa instituição, dando sopa já devidamente alimentadinha (perdão pelo trocadilho) – sinalizando, aliás, que a pessoa em questão possivelmente está de bom humor -, e o que esse adorável ser faz? Xinga o homem, claro. Xinga o PT, óbvio, porque tudo está muito dentro do contexto. E nós aqui, salivando por um dedo de prosa com essa crônica viva da música e dos mistérios humanos. Imagina falar merda como o Chico, cara? Falar merda, sabe, como quando tu encontra um velho amigo e vocês ficam ali naquele lapso de eternidade, ganhando tempo com papos aleatórios e se deliciando com o riso do outro - as bocas abertas de alegria e amor inundando o ar. Mas nãããão, a pessoa vai lá e enche o homem gratuitamente de grosseria. O brasileiro me fascina.




E esse vídeo eu coloquei só pra vocês se deleitarem com essa ótima dele. É uma graça de ser humano, né? Du-vi-do não serem contagiados por esse riso gostoso.