quinta-feira, 24 de maio de 2012

Vou pra onde, José?



Vou dormir a tarde inteira. Vou à padaria da esquina comprar um pedaço daquela torta de chocolate que piscou pra mim na última quinta. Vou comprar uma jaqueta de couro e estourar o limite desse cartão de crédito filho-da-mãe. Vou embora pra nunca mais voltar. Vou ficar e nenhuma dúvida deixar. Vou aproveitar um dos meus desenhos de roupa esquecidos nos anos 2000 e customizar, finalmente, aquela bendita saia. Vou agarrar aquele idiota pelo pescoço e encher de beijos, antes mesmo de ele vir me cumprimentar com mais um "oi" burocrático e comportado.
Vou escutar boleros do Luis Miguel e me lavar chorando pra ver se essa dor crônica de amor passa. Vou gritar na janela do apartamento que na próxima quarta-feira eu vou encher a cara e vai ser com vodka. Vou reler o livro do Tony Bellotto e tentar imaginar cenas menos safadas e mais românticas. Vou baixar a discografia do Sublime. Vou semear a discórdia e dizer pra vizinha que cansei dos barracos dela e do seu cônguje. Vou lavar meu cabelo e me arrumar pra festa de mais tarde ao som de Ultraje a Rigor. Vou me matricular no judô, porque o professor que vejo dando aulas é lindo. Vou estudar Ética Jornalística. Vou ser mais cachorrona e fingir que não tenho sentimentos. Vou chamar as amigas das antigas pra uma "noite das gurias" com muita pizza e vinho.
 Vou me acabar dançando Erasure no tributo aos anos 80. Vou tentar cozinhar a receita da minha tia e não envergonhar a família com minha total falta de intimidade com as panelas. Vou dizer que acho ele a cara do Landon Carter, de "Um amor pra recordar", e ver se isso leva a um pedido de casamento instantâneo. Vou guardar meu bom senso em alguma gaveta da escrivaninha da sala e jogar a chave fora. Vou comer mais maçã verde. Vou levantar cedo, ir pro salão e só sair de lá quando me achar gostosa o suficiente. Vou confessar que sou meio louca, mas sou um docinho de menina e não vou implicar com a escalação do CartolaFC de toda semana. Vou fazer uma tatuagem com a frase “Frankly, my dear, I don’t give a damn” em homenagem ao Clark Gable.
Vou adotar um gatinho e batizá-lo de Joey. Vou continuar escrevendo o roteiro do meu filme independente intitulado “As três ex-noivas”. Vou locar algum filme de comédia pra rir como se não houvesse amanhã. Vou parar de me irritar com gente puxa-saco e começar a achar isso lindíssimo e fofo. Vou cortar o cabelo curtíssimo e pintar de vermelho. Vou colocar um biquini e dançar nessa chuva linda que se anunciando. Vou correr na avenida e imaginar que tô na orla de Ipanema. Vou te prometer amor até o fim dos meus dias e tentar cumprir. Ah e vou atualizar o Criatura Agridoce - depois que parar de escrever abobrinhas, claro.



domingo, 20 de maio de 2012

O cara - um certo revanchismo



Palavras gentis em homenagem ao “cara” parecem nunca ser o bastante, pois se tem algo que ele domina nessa vida é a arte de enlouquecer o sexo oposto. Ele faz isso sem querer, talvez nem desconfie da ebulição hormonal que provoca no corpo das pobres jovens incautas espalhadas pela cidade, à procura do amor, sedentas por beijos honestos e quentes. Ou talvez saiba, uma vez que é, de fato, o cara. Eis um mistério da vida que nunca será desvendado – muito menos por mim, mera observadora desse tal dínamo do amor.
O cara manja, é incrível seu talento para desarrumar toda uma vida, toda uma sequência de dias aparentemente normais e pacatos. Manja como um velho andarilho que já aniquilou milhões de promessas de conto de fadas com um perfume que penetra pelo poro mais escondido da pele e se instala no neurônio mais teimoso. Manja como um legítimo conhecedor das fraquezas femininas, embebidas por noites mal dormidas, sonhos despedaçados, decepções latentes, quase amores que dobram a esquina, e só deixam o vazio de não ter ido adiante. Tudo ele sabe, tudo ele capta com seus olhos mezzo marrons mezzo esverdeados de adivinhar pensamentos e que, descaradamente, finge manter distraídos: ledo engano, doce veneno.
 Todos os caminhos encontram convergência no seu modo de andar, de carregar meio mundo com ele, de universalizar seu cheiro nas roupas esquecidas. Ele existe sem querer em cada curva, em cada riso solto e afoito no ar. Ele resiste soberano, pois esse jeito estranho de revanche é parte dele. Do cara por quem todas, de certa forma, aprenderam a nutrir sentimentos. Não importa muito a ordem, o sentir é uma ação recorrente, nem elas entendem. Ele, sim. Ele é autor da história, alvo preferido da metralhadora cheia de mágoas. As águas rolam, os tempos mudam, mas o rio erra seu curso original: a foz perde-se em possibilidades. O cara tem talento especial para semear abstrações que vão perdurar por horas, quiçá meses: o mérito é dele. Cai nessa quem quer – ou quem não tem escolha, vai saber.
O cara vem, o cara vai. Seu rosto muda, mas, de certa forma, nunca se esvai. Seus braços queimam em algum lugar, na memória de algum abraço; seus dedos tocam o gelado de algum coração cansado. Vendo sua alegria de viver no improviso, seu vestuário doentio e conhecido pelo poder de grudar no pensamento, e sua timidez - de quem sabe que isso é capaz de derreter qualquer alma cor-de-rosa - certas coisas ficam bem claras. Ou apenas misteriosas – como ele próprio insinuaria. 


domingo, 6 de maio de 2012

Sobre certezas e cacholas

           Estava eu, bem bela, lendo uma crônica da Martha - aquele ser adorável - quando me dei por conta de que há anos-luz, tenho escrito erroneamente uma certa palavra. Justo eu que sou uma chata com tudo que escrevo, parecendo um xerifezinho nerd da escrita, justo eu???????? Pois é, cuidado nem sempre se converte em isenção ao erro. Ando errando. E errando lindamente. Vamos aos fatos e ao mea-culpa habitual. Vocês sabem, se não tiver mea-culpa, não é agridoce.
            Lá pelas tantas da minha leitura, Marthinha falou em "cachola", e, com toda certeza, fazia menção a isso que trazemos grudado em nossos pescoços. "Cabeça", concluí, atônita. Opa, como assim "cachola"? Cachola é cabeça então? Mas não era "caixola"? Não, cara afobadinha, isso é uma caixa pequena. Cabeças sempre foram cacholas. Caixinhas sempre foram caixolas. E você... bem, você sempre pensou errado a respeito. Que coisa, não? Tirando esse meu erro ingênuo e bem intencionado, o fato é que essa tal conversa pra boi dormir me fez pensar. Sempre tive "certeza" de que me referia a cérebros do modo correto, porém, que surpresa, minha verdade era uma baita mentira. Convicta da minha certeza fajuta, não olhei para os lados, não quis nem saber, escrevi e deu. Guardadas as proporções, creio que, realmente, acreditamos no que queremos acreditar. E dane-se o resto.
             O problema são os poréns que vêm a tiracolo. O depois. Os lados que não foram vistos e analisados friamente. Que remédio! Você jurava que era amada e seu maridinho era fiel, mas - vejam só - levava chifres desde 1998. Você jurava que sua amiga era de fé, mas ela era uma das amantes do seu marido, desde o ano citado. Você jurava que havia quitado a conta de luz, mas acabou no escuro no melhor episódio da sua série favorita. Você jurava que a capital da Lituânia era Bruxelas, poderia, em um senhor exercício de abstração, catar Bruxelas no mapa mundi, como assim Bruxelas fica na Bélgica e você entrou em uma discussão idiota à-toa???? Tem alguma coisa errada, assim como tinha no meu caso. Pode ter sido gana de acertar, claro, mas talvez tenha sido a tal visão bitolada; aquela que impede qualquer movimentação dos olhos além do que se quer ver.
              Não há nada demais em errar. Beleza, acertamos na próxima. Eu, por exemplo, poderia muito bem ter consultado um dicionário, ou até mesmo catado algo que me desse subsídio na própria internet, mas para que, não é mesmo? Eu tinha minha verdade e ela era absoluta. Que rasteira, hein? Bom, sempre fica alguma liçãozinha. Certezas são ardilosas e nem sempre jogam a nosso favor. Ah e preciso fazer as pazes com o meu amado dicionário - que foi relegado ao ostracismo. Até me deu uma baita dor de cachola com toda essa confusão.



sexta-feira, 4 de maio de 2012

Um furo no coração da pamonha

Pois dia desses, estava eu caminhando pela rua, bem despreocupada, exalando minhas impressões agridoces pela cidade, quando de repente, notei uma movimentação estranha um pouco diante de mim. Em seguida, vi duas viaturas da polícia passarem simultaneamente. Alerta ligado! Isso bastou para aguçar minha imaginação fértil, já fiquei imaginando mil coisas, e me botei a pensar: imaginem agora um furo jornalístico daqueles? “Jornalista novata é a única a ter informações sobre a empreitada policial, pois estava de tocaia atrás da moita”. Lindo furo que nunca se concretizou, game over
 O fato é que com todos esses artefatos tecnológicos, qualquer um pode vir a ser jornalista por um dia. Por uns vários dias, por que não? Na sinopse acima – caso se configurasse um acontecimento bombástico digno de manchetes e o escambau – se bobear, algum vizinho do Seu Zé da padaria já teria filmado tudo, postado no Youtube e toda aquela coisa. A sobrinha de 7 anos da criatura, no alto de seu conhecimento de jardim de infância, teria editado o vídeo lindamente, feito as passagens e as sonoras, e repassado às coleguinhas, enquanto brincava com sua Barbie-Facebook. Em questão de minutos, a saga policial percorreria vários quilômetros de pura distorção pelos becos imundos da web, impelindo desocupados desprovidos de opinião fundamentada a comentarem abobrinhas sobre o ocorrido e fazendo-os passarem adiante as imagens amadoras que - a essa altura - promoveriam com maestria tais criaturas a ajudantes capacitadíssimos da esfera da informação, num looping eterno de falta de critério. 
 Mas opa, calma aí, senta nessa cadeira, que ainda não acabou – lembrem que estamos no Braseeeeel. Após sua saga juvenil em busca de senhores que lhe dessem crédito e visibilidade, a mocinha partiria em busca de reconhecimento ao seu feito, pronta para ganhar o país. Os vizinhos iriam aplaudir, as pessoas da rua começariam a comentar, seu outro tio – que trabalha, sei lá, ao lado de alguma emissora de TV famosérrima – imploraria para que a chamassem para uma entrevista em algum programa fuleiro de domingo – e sua produção, carente de pautas com sentido, estenderia um tapete vermelho para o mais novo exemplar de prodígio da notícia. Em suma, a garotinha que auxiliou em uma reles gravaçãozinha de uma batida policial polêmica, viraria sensação nacional. A cada semana, um aspecto de sua vida seria explorado pelos mais diversos canais de televisão. Passados alguns anos, já teria virado modelo, atriz, posado 1829 vezes para revistas masculinas e, obviamente, seria conhecida como ícone de toda uma geração.
            Acharam o roteiro dos horrores acima familiar? Hum, pensem bem. Considero a interação com o público, conservando-se certos cuidados, positiva. Porém, toda essa miscelânea da informação e difusão torna-se um estorvo quando passa a residir na total banalização dos chamados critérios de noticiabilidade, que são meio relegados no calor da hora e mandados às favas – tudo em troca de audiência e cifras, muitas cifras. Creio que nem tudo que anda sendo veiculado por aí devesse, de fato, estar em seus jornais e televisores, meus caros. E pensar que tudo começou com um “furo” que eu não fui capaz de chamar de meu... sou uma pamonha mesmo.    


terça-feira, 1 de maio de 2012

Minha buarquice


O amor é demais, é resistente, é meio incompreesível e teimoso, mas o fato é que às vezes deixa respirar. Dá um tempo. Excursiona por outras bandas, joga charme para outros acordes, flerta com outros ritmos. Porém, sempre volta. Volta maior, volta mais ferido e cheio de histórias, mas volta. É dele o pedaço mais feroz e perturbador, mais covarde e misterioso, mais humano e irremediavelmente torto. É simplesmente amor.           
Faz tempo que Chico Buarque rouba minha paz. Desde que escutei “Futuros Amantes”, nos idos de sei lá qual ano, comecei a prestar atenção nesse moço dos olhos cor de ardósia mais cristalinos da MPB. Até, aqui, cabe um adendo: duvido muito que você tenha um coração batendo dentro do peito, caso não se comova com referida canção. “Não se afobe não, que nada é pra já, amores serão sempre amáveis... futuros amantes, quiçá, se amarão sem saber com o amor que um dia deixei pra você..” Pois é, pedrinha de gelo que me lê no momento, o moço escreveu isso aí. Quando escuto tal passagem é como se eu tomasse um soco na boca do estômago. Apanho lindamente, e peço mais. Claro, adolescente boba que era, não saberia dizer com exatidão o momento em que doei meu coração a um dos rebentos de Sérgio Buarque de Holanda; lembro, isso sim, do momento em que ele atravessou o televisor da minha casa e eternizou a ternura. Sim, ternura. É isso que suas canções provocam em mim. A ternura escondida, a ternura corrompida pela selvageria do mundo real, a ternura do romantismo guardado a sete chaves, a ternura de escutar uma música tão bem feita, que até faltam as palavras. Simplesmente ternura.           
Eu sei que meu amor não é único. É um clichê desgraçado: Chico é amado numa escala impossível de ser quantificada. Somos milhares, somos viúvas, somos namoradas, somos amantes, somos alunas do mesmo cara - que não cansa de embasbacar com a lição da composição. Por não ser único, me deixa ciumenta, assim como deve ocorrer com o resto das discípulas. Não gosto nem quero racionalizar isso, é só o que é e ponto. Eu amo. Não sou também fã de deixar a admiração doentia cegar o que chamo de discernimento: falem mal, falem de suas contradições políticas, falem do que quiserem, não sou xiita. Eu amo do mesmo jeito. É possível que certa genialidade crie animosidade com quem não está acostumado com o exercício da contemplação: Chico, realmente, não faz música para nos acabarmos na pista de dança – ainda que isso também seja de grande valia – mas, sim, para morrermos de amor, para chorarmos as dores de quem sofre em silêncio, para nos deliciarmos, para ressuscitarmos o pouco de pureza que insiste em ficar à margem naquilo que chamamos de pensamento. Para arregalarmos os olhos e percebermos que nunca haverá outro intérprete igual. Para aprendermos a contemplar. Con-tem-plar.           
O que será que será que vive nas ideias desses amantes, que cantam os poetas mais delirantes, que juram os profetas embriagados? Eu não sei, ainda que te perdoe por fazeres mil perguntas, que em vidas que andam juntas, ninguém faz. Te perdoo também por ligares pra todos os lugares de onde eu vim e por você não devolver o Neruda que me tomou, e nunca leu. Com açúcar e com afeto, eu volto. Sempre volto. E até faço seu doce predileto, para você parar em casa... pois pela minha lei, a gente é obrigado a ser feliz.