domingo, 23 de fevereiro de 2014

Sobre inveja e os professores de amor-próprio

Penso que a inveja sempre existiu. E, por mais indigno que seja, todos - eu disse todos - já experimentaram o seu amargo na boca. O que não quer dizer, entretanto, que mereçamos arder numa fogueira. Menos, né, galera? Tenhamos sagacidade para lidar com os sentimentos negativos, eles aparecem às vezes, é da vida. Eu, por exemplo, sempre vou invejar o cabelo da Rachel Green. Sempre, não dá para evitar, cada vez que ela aparece, com aqueles fios milimetricamente obedientes e sedosos, eu sinto vontade de me esconder. Mas daí a sentir pena de mim e do meu cabelo - que pode não ser de comercial, mas é bem simpático - existe uma distância oceânica. É um exemplo bobo, mas vem ao encontro do que defendo: transmutar o sentimento em algo benéfico ou que, ao menos, mude alguma postura, um hábito, uma percepção. Ninguém está imune a sensações pouco gloriosas como a citada, mas todos podem escolher o que fazer com elas, não? É tudo culpa dessa grama do vizinho que insiste em ser mais verde, vez que outra. Ou não também, vai ver, a gente é que olha muito pro jardim dele e se esquece do nosso, não nos martirizemos por pouco.
Falei, acima, de uma criatura hollywoodiana que nem sonha com a minha existência, mas que ilustra bem o momento fabuloso que presenciamos e que quero expor aqui. Dia desses, a sempre observadora Rosana Hermann se saiu com uma ótima no Twitter: ''Selfie é a vingança dos sem-paparazzi''. Percebam a astúcia dela, ao determinar um comportamento de intenso exibicionismo - tal qual o que aprendemos a cultuar nas revistas e na televisão. Porque as pessoas, elas não têm noção de ridículo, meus caros, é de doer, mas elas se levam a sério. Absurdamente a sério. Elas fazem biquinhos nas fotos como se realmente possuíssem um exército de seguidores pronto a aplaudi-las (bom, sempre tem um trouxa para dar moral, é inegável), assim como os ídolos que aprenderam a amar. Elas cantam a música da menina Valesca - nada contra ela absolutamente - como se realmente fossem invejadas - elas, que colocaram ''mais'' em detrimento de ''mas'' na frase e arremataram curtindo a própria foto. Desculpe, mas é humanamente impossível sentir inveja de gente que curte o próprio status.
Vivemos a era do recalque - que resolveu sair do submundo e, hoje, é tema de músicas, teses facebookianas profundas para afastar supostas ''inimigas'' (ô cantilena!!!), entre outras manifestações. Todavia, não pensemos que isso é de agora: a vulgarização foi inevitável, mas há tempos ele é inspiração de estudos psicanalíticos. E parece que o tal recalque acomete a todos, meus caros, que remédio. Ainda assim, sei lá, mais vale sentir inveja de uma Rosana Hermann da vida que de um professor equivocado de amor-próprio em rede social, né, Tio Freud? Por favor.



Auxiliou no post:

David Bowie, com Absolute beginners e Ashes to ashes  







terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Putz, pior que eu adoro Wave

Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim cantou milhares de vezes que ''é impossível ser feliz sozinho'', mas se esqueceu de mencionar que a gente pode dar boas risadas sem ninguém. É, eu sei que o texto que se desenha é uma piada pronta - daquelas que algum casal miguxo por aí, com perfil compartilhado em rede social, talvez vá ler e comentar em voz baixa: ''pobre menina sem amor, né, benhê?''. Daí, quem sabe, eles postam uma selfie tomando sorvete e encerram o dia, desejando boa noite com algum salmo. O amor é creyço e lindo, sabemos. E eu é que sou uma invejosa.
Eu não sei quando foi que o amor foi institucionalizado, mas sei que é realmente um fardo. A união de duas pessoas é vista como sinal de maturidade, de credibilidade, quiçá até de bom caráter. Não tô praguejando os casais, queridos, apenas convidando-os a emprestar um olhar mais crítico à temática. Pobre de quem não quer se prender a ninguém, não quer namorar, não se sente desesperado por companhia... estes serão fulminados a cada jantar de família, a cada roda de conversa regada a um bom e velho chimarrão (blergh), porque o fato é que tais encontros servem única e exclusivamente para gerar notícias de nós mesmos... fofoca, sabem? Aliás, não é nem a questão de NÃO querer, e, sim, a ideia de não admitir ter pouco, ter uma quase companhia, ter um rosto até agradável para passar as horas, mas que será esquecido assim que o álcool acabar. Sinceramente, ter companhia nem sempre é ter um alguém especial ao lado. Dispenso rótulos só para acalmar os ânimos de vovós e titias ávidas por doces de casamento.
Curioso - para não dizer machista mesmo - é que geralmente o peso do comprometer-se é sentido mais pelas moças. Meninas que estudam, falam idiomas, trabalham, viajam, têm bandas, promovem debates, são antenadas, espirituosas, massssssss... que, poxa, se não tiverem um namoradinho a tiracolo, não valerão nada. Ou, melhor, até valerão, mas bem pouco. Tão encantadora, mas por que não arruma um homem? Será que nunca é cogitada a hipótese de que ninguém teve cacife ainda para conquistá-la? De que ela não quer dividir sua vida com qualquer palerma? E vamos combinar: nunca os palermas se reproduziram tanto, é quase epidemia.
Já quando é o contrário - quando o moçoilo é o rei dos solteiros - a ideia acima é a mais aceita: nenhuma foi boa o bastante ainda para ele. Um solteiro, excetuando-se algumas situações, nunca será alvo de piadas, de opiniões jocosas por parte das pessoas. Algumas até darão a dica: cobiçadíssimo. Algo realmente muito justo. Olha, sociologicamente falando, existe a necessidade de nos organizarmos em clãs, é da ordem natural do ser humano enquanto célula de uma ''sistema'' - ok, você nasce, cresce, se reproduz, trabalha para um chefe mafioso mil anos, morre e fim. Ok, entendemos a lição, tio, só acho que ela anda meio antiquada. Tipo perfil conjunto de casal. Putz, pior que eu adoro Wave. 



                                                      Shhhhh, fica quieta, que tu não sabe nada!







segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sinfonia escrota no asfalto

Em meados de 2009 - que foi quando consolidei minha incursão à crônica - escrevi uns desaforos ótimos sobre a piazada que pega o carro do papai sem carteira de habilitação, para pagar de bonzão ao seu eleitorado - sim, todo babaca tem uma legião fiel de seguidores, não se engane. Não sei onde caralhos enfiei essa crônica, mas o sentimento que me incitou a escrevê-la... ah, este segue enfiado como uma estaca no meu coraçãozinho. Porque é um nojo tão grande, mas tão vivo, que não poderia se converter em nada mais que um texto maravilhoso. Pois volto agora, em 2014, para falar de velocidade - item que geralmente (eu disse ge-ral-men-te) vem associado à temática anterior. Eu, ao menos, já cansei de ver garotos cantando pneu por aí e depois saindo adoidados, ávidos por verem os velocímetros de seus carangos arrebentarem. Bom, que arrebentem, mas bem longe do meu portão.
Não é de hoje que eu condeno essa atitude dos rapazes (falo essencialmente nos rapazes aqui, mas casos lamentáveis como o da moça que se espatifou a 170Km/h, após fotografar o medidor de velocidade do carro que dirigia, levam a crer que a ala feminina infelizmente também engrossa o caldo), sempre achei um hábito pouco maduro - vejam bem que eu tô pegando leve - e desnecessário. A troco de que sair correndo feito um louco? Qual é o bônus? É porque saiu naquela propaganda de picapes que as mulheres cairão aos seus pés, assim que você passar usando o melhor dos 49309 milhões de cavalos de potência da sua máquina? Uhul, parabéns, machão, que pedaço de mau caminho você, só deixa eu dar uma vomitadinha rápida.
Parece tudo muito inofensivo, mas trata-se de uma triste cultura de exaltação da velocidade, potencializada por franquias como "Velozes e Furiosos'', entre outros elementos midiáticos. O ícone do cinema norte-americano e rebelde sem causa James Dean era fã de dar uma pisadinha com vigor nos aceleradores de seus Porsches. Até que um dia, no auge dos seus 24 anos, pisou além da conta e não sobreviveu para contar a história. Tô sendo cruelzinha aqui, mas o fato é que não escondo minha antipatia pela questão - ainda que enxergue algumas pistas do porquê de ela ser tão incrustada na sociedade. Para alguns, a exploração da velocidade deve ser algo terapêutico, arrisco, vai saber o que passa na cabeça destas figuras. Ayrton Senna, um cara por quem nutro uma profunda simpatia devido ao seu patriotismo, por exemplo, corroborava a ideia, dizia que mantinha uma relação de fascinação com a ciclana, era quase sua namorada. E, se você leu Ayrton, O Herói Revelado, do jornalista Ernesto Rodrigues, também sabe disso. Irônico e triste é que ele tenha sido traído por quem mais amava, na fatídica Tamburello...
Em suma, a velocidade nunca deixará de ser cultuada. Ela é perigosa, mas sabe conquistar. Só que eu, no caso, não sou obrigada. Felizmente, ainda posso escolher a quem dar minha audiência, logo, não assisto a corridas automobilísticas, tenho desprezo pelas já citadas propagandas de automóvel e nunca vou me prestar a dar moral para um moço que vive a fazer sinfonias escrotas no asfalto.






domingo, 16 de fevereiro de 2014

Lindinho, porém babaca

Caio Castro - felizmente não somos parentes, dado o sobrenome - evidentemente vem povoando, há tempos, os sonhos mais indecentes das moçoilas deste Brasilzão. O guri está em todas. É um comedor nato. Um garanhão. Ninguém deve resistir aos seus encantos, suponho - nem mesmo a raivosa blogueira que vos escreve e ensaia um texto de repúdio ao que o lindinho andou falando recentemente em uma entrevista. Bom, para ser franca, tive que ir catar o vídeo, pois não assisti ao desfile de pérolas proferidas por ele quando esta passou. Mas sinto informar que já é algo que a gente espera, não é de hoje que ele se sai com afirmações desconcertantes. Na última, encheu a boca para dizer que não se sente ''apetecido'' pelo tal teatro - sim, essa ''reles'' expressão artística em que já brilharam nomes como Paulo Autran, Cacilda Becker, Augusto Boal, entre uma e outra gentinha aí sem projeção. Por que iria ele, um dínamo da televisão, requisitadíssimo para campanhas publicitárias, perder sua preciosa juventude tentando sedimentar seu inegável talento em um peça chatíssima, não é mesmo? Deixemos isso para os atores medíocres que nada têm a acrescentar. O rostinho angelical de Caio não foi feito para ser desnudado em um palco - que é onde realmente o ator pode colocar seu ofício em xeque, cativando seu público e mostrando seu âmago, sua humanidade, enquanto funde-se com o personagem. Por favor, não esperem isso dele.
Estou pegando no pé do moço aqui, eu sei, mas a verdade é que o texto não é sobre ele, e, sim, sobre esse sintoma de uma realidade doente, que esfrega na nossa cara diariamente que, ora bolas, o negócio é a aparência, a imagem, o exterior. E, velho, ele tem a minha idade!!! Essa é a minha geração! A geração que treina forte em academias, mas esquece de treinar o espírito, a mentalidade, a sagacidade - até mesmo para ter a esperteza de não dizer idiotices em cadeia nacional e virar piada perante a uma classe inteira de profissionais. A geração que se orgulha de nunca ter lido um livro na vida, de nunca ter folheado um jornal, de nunca ter trocado uma ideia e mudado uma vida. A geração de Caios Castros. Credo.











       

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Gosto de gente que brilha secretamente sem plateia

Gosto de gente pouco óbvia. Gosto de quem chora na frente dos outros, de quem não se economiza, de quem se descabela e não liga se saiu horrível na foto. Gosto de gente louca, instável, imprevisível, irônica, sarcástica. Gosto de mal educados bem intencionados, nossa, como eu gosto. Gosto de gente ventania mais que de gente sol com pancadinhas de chuva. Gosto de gente que luta por causas perdidas mais que de gente que quer passar em concurso aos 18 anos de idade para se garantir na vida. Gosto dos críticos, dos que mandam os protocolos gentilmente à puta que pariu. Gosto de gente Woodstock mais que de gente Planeta Atlântida. Gosto de gente Marighella mais que de gente Eike Batista. Gosto de gente que tosa o cabelo, de gente que considera uma camiseta, um jeans e um All Star o luxo supremo. Gosto dos cabeludos - mas isso nem precisava falar. Gosto dos que tentam realizar os fatídicos sonhos e se fodem. Gosto dos que tentam mais um pouco. Gosto dos teimosos. Gosto de gente que arrisca, mesmo não tendo garantia de nada, mesmo sabendo da iminência do fracasso. Gosto dos desajustados, dos que parecem não pertencer a lugar algum, dos que carregam uma indagação genuína no fundo dos olhos. Gosto de gente que se revela, de gente que é segura de si e sabe que aquilo é o melhor que pode ser. Gosto de gente que brilha secretamente sem plateia.



Auxiliou no post:

Try - P!nk    




segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Como diria Chicó, ''só sei que foi assim''

Se é que eu tenho propriedade para afirmar algo sobre minha pessoa, eu diria que sou extremamente observadora. Irremediavelmente observadora. Não saberia, a propósito, dizer se é um defeito ou uma qualidade, dadas algumas circunstâncias em que já me encontrei nesta vidinha severina. Como diria o folclórico Chicó, ''só sei que foi assim''. Foi assim e vem sendo assim, desde que eu me entendo por gente. Mas que nada, meu caro, não me olhe com essa cara de ''ó essa fulana narcisista se autointitulando isso ou aquilo'', ser observador não quer dizer grande coisa. Só significa, penso eu, carregar um potencial malístico ilimitado. Eu carrego e pareço fazer jus, que remédio...
Mesmo em meio a um turbilhão de vozes ecoando em meus ouvidos e pessoas passeando entre mim em afazeres diversos, é possível me encontrar, caso haja algo que me roubou a atenção, perdida num recanto especialmente meu. Eu, ali, sou incorruptível, ninguém me ganha. Se eu decidi que merece observação, é ali que eu fico, é para aquilo que eu dispenso meus segundinhos. Eu sou daquilo ali e não há nada que me mova. E eu entro, ali, em um fluxo de consciência que me apavora e me liberta. Ali...
Mas, previsível que é, tal fluxo traz consigo o poder incrível de distrair. Também sou irremediavelmente distraível. Oh, céus, sou um poço de distração - e vamos combinar que confessar isso não é lá muito inteligente, em um mundo que preza por humanos focados, quase robôs, à mercê do sistema. O fato é que observar também é se perder. Prender-se a detalhes também é enveredar por caminhos pouco percorridos. Tipo, quando estava eu na fila daquele maravilhoso lugar onde compram-se alimentos, e fui fisgada por uma destas revistas semanais que habitam as últimas gôndolas do labirinto do consumo rumo à liberdade. Muito estafada da vida - especialistas afirmam que tal estafa aumenta 50% em filas - eu me perdi nas manchetes que versavam sobre a dieta do suco de capim-limão e a 78698ª Helena do Manoel Carlos, e soltei um "mas que merda essa revista'' muito convicto e infeliz. 

Infeliz, porque a moça do caixa me fulminou com um olhar de desprezo. Quando observar, procure não se denunciar. 




Auxiliaram no post:

Here I go again - Whitesnake
Ashes of american flags - Wilco







       

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Verão invencível

Taquem suas pedras, mas eu gosto de verão. Ah, sabe, eu curto, eu jogo charme, eu não me aguento. É claro que eu não gosto de sair do banho, gotejando suor. É claro que eu não gosto de virar ração para as mais diversas espécies de insetos. É claro também que é tarefa indigesta colocar o pé na rua, se não é para se jogar logo depois dentro de uma piscininha marota. Mas, ah, eu ainda gosto do verão. Eu flerto descaradamente com ele. Taquem suas pedras, mas, primeiro, me deixem poetizar o inferninho.
Acho que toda estação tem sua poesia. Talvez o verão seja uma prosa, uma brisa, um sonho bom. Eu gosto dessa malícia no ar, dessa impressão de que tudo pode acontecer. E, às vezes, acontece. Eu gosto das praças cheias de gente tomando sorvete. Eu gosto do banho de chuva tão esperado e que vem com ares de redenção. Eu gosto do beijo praiano queimando o coração. Tem isso também: os beijos parecem ter mais sabor. Mistério...
Gosto dessa coisa de andar com pouca roupa, nada de casacos burocráticos e cachecóis escondendo os olhos. Gosto das janelas que ficam abertas madrugada adentro e permitem ver as estrelas. Gosto das noites que não têm hora para acabar - e elas nunca acabam. Gosto das rodas de violão e das cantorias desafinadas até o sol nascer de novo - e nos esquentar até dizermos chega. Gosto do cheiro de traquinagem, da total falta de inocência, da leveza, da lascívia, da delícia de adormecer na grama e escutar os silêncios contarem segredos. Como bem disse aquele tio lá, o Camusno meio de um inverno, eu finalmente descobri que havia dentro de mim um verão invencível. Em mim, existe demais. 



Auxiliou no post:

Dirty little secret - The All-American Rejects