sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ladra, envenenada e sabida

Eis que numa sexta-feira de 2017, me veio a iluminação. Eu deveria ter feito História! Porra, eu tinha que ter feito História, é evidente! Por que raios eu não fiz História? Há quanto tempo ando renegando essa coisa que me consome? Que epifania, meus caros. O fluxo de consciência foi tão forte aqui, que ainda me sinto no dia da proclamação da república - não reparem, lia, há pouco, sobre as peripécias de Pedrinho II, nosso eterno monarca inconstitucional.  
Gostar de História, a matéria, sempre me pareceu muito natural, muito orgânico - perguntadeira que sempre fui e deveras ansiosa por descobrir os porquês, as metades, as razões, como as coisas eram, como poderiam ter sido, já fatalmente envolvida pelos acasos da vida. Eu, com 13 anos, era uma chata insuperável, meus colegas me odiavam. Os professores, entretanto, devotavam amor eterno - carentes, que eram, de ouvidos solícitos às suas riquezas por anos estudadas. ''Vamos matar aula todos então?'' ''Claro que não, hoje é Guerra do Paraguai, tá doido???'' Mas mais que talento para aduladora, embora pareça, repousava em mim uma vontade desesperada por entender, eu queria entender de forma quase inocente. Querer saber era meu crime. Logo se vê que eu não ia durar nem um dia no enredo de O Nome da Rosa. Sabida, porém muito envenenada. 
Aos 13, mais que chata, também fui ladra. Ao saber que não poderia ficar com o livro usado naquela sétima série fatídica, dei uma pirada: sorrateiramente, adentrei a biblioteca do colégio, roubei o livro pretendido e fui, culpadíssima, para casa. E, assim, minha primeira lição de Maquiavel foi assimilada. Os fins justificaram os meios demais, aquele livro era muito maravilhoso para ser relegado a um destino sem paixão - ele, hoje, segue em cima da minha escrivaninha como símbolo máximo da minha primeira contravenção bem sucedida. Que horror, alguém chame a polícia.  
História é incrível, sempre vou gostar, sempre vou querer saber, sempre vou querer falar a respeito, pois, para mim, está intimamente ligada com o que eu vivo hoje em dia - com o que vocês vivem, meus amores. Fico irremediavelmente panfletária a essa altura, mas o fato é que mentes que esnobam tal ramo fascinante do conhecimento sempre são as mais difíceis de conviver. E eu nunca vou deixar de apoiar seu ensino, sua difusão, sua beleza de ser o que é. Ela é tipo aquele carinha de quem eu fui muito a fim, mas acabei não tendo nada demais e vez que outra volta à mente como um sonho bom, uma lembrança gostosa de adolescência. E se tivesse sido? E se minha vida tivesse ido por aquele caminho? Se eu estivesse ensinando História hoje, seria mais feliz? Ando muito bem, graças aos céus, mas é inevitável não pensar nas vontades que ficaram - ou que não foram percebidas na época. Por via das dúvidas, sigo lendo sem medo do veneno. 


                                                Inconstitucional é a tua vó




Auxiliou no post: 

Only happy when it rains - Garbage