quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Carta para um obeso

       Cresci, achando que felinos eram vilões. Em meio a situações acompanhadas pela TV, nas quais Tom perseguia Jerry, e Frajola tentava a todo custo jantar o Piu-Piu, ficava fácil alimentar essa ideia - que, hoje vejo, era de uma miopia galopante. Somando-se a isso uma mãe temerosa de que seus filhos - mi hermano e yo - desenvolvessem alergias e demais enfermidades provenientes do contato com os bichanos, estava feita a distância dos peludinhos. Não só isso, claro: estava feita toda uma infância/adolescência achando-os desprezíveis, apavorantes, estranhos e o diabo a quatro. Porém, a vida manda seu recado: eu não estava preparada para Joey...
        Joey, assim batizado por mim em alusão a Joey Tribbiani - o nova-iorquino de alma siciliana menos inteligente de Friends - foi muito petulante na hora de conseguir meu amor e derrubar meus preconceitos - e talvez aí resida a lógica da paixão com que fui atacada tão violentamente na noite de julho em que nos conhecemos. Na ocasião, tinha eu saído de um conhecido mercado na minha cidade natal. Até aí, tudo bem, porém, ao chegar mais perto de meu destino, uns olhinhos carentes - e que pareciam não ver uma comidinha gostosa há um bom tempo -  roubaram minha atenção. Eram do Joey, o meu Joey. De imediato, chamei ele e seus olhinhos de Gato de Botas para me seguirem. E assim foi. Seguimos seguindo grudados até hoje. Eu e minha ovelhinha. Eu e meu gordo. Eu e meu bichano amado. Eu e meu obeso mimoso da minha vida. Eu e um bichinho que aprendi a amar com um amor, de cuja existência nem suspeitava. Amor sempre surpreende, seja lá como for...
         Eu nunca tive gatos - como devem ter percebido - mas sempre fui uma entusiasta dos animais (pequeno porte, leia-se kkk). Só que essa história de ''virar'' mãe de um bichano resgatado do submundo das ruas foi algo que mexeu comigo, honestamente, pois me fez ver que amar é tarefa que nunca se esgota. É como ser desafiado. Joey deve ter olhado para mim como quem diz "e aí, dona, é capaz de me amar e cuidar de mim???" E eu paguei para ver. Eu, que morria de medo deles, me vi acalentando ''um'' todo prosa por descobrir uma dona tão dedicada e corujona. Não tem volta, é isso que está aí. Somos mãe e filho, e, por obséquio, me chamem de pateta: eu descobri que só quem é pateta, é feliz. Ah a única vilania dele para com a minha pessoa é não saber se teletransportar para vir ficar perto de mim...



-Te conheço?




       

domingo, 11 de novembro de 2012

Pegação louca



Pegação louca não é heresia, é fantasia. Pode ser sacanagem da boa, mas é bem mais que isso. Talvez seja uma espécie de feitiço. Não acontece toda hora, não é em toda sexta que vigora. É uma união de almas no mais íntimo de suas necessidades física e psicológica. Nisso, honestamente, não existe lógica. É uma venenosa loteria. É um lapso de bem vinda loucura em um apático dia. Pegação louca é não saber se tem futuro, e querer sofrer toda a incerteza do depois. Nós dois? Não sei. É usar o coração até senti-lo mastigado em questão de segundos. Pegação louca é uma junção de mundos. É carne, é essência, é perfume, é poesia, é verso sacana, é um ato de Nelson Rodrigues, é rock doente no último volume com guitarras ensandecidas gritando. Pegação louca talvez seja amor brotando. Pode não ser, mas quase sempre é um pedaço de vida congelando. Vivo no passado, morto no presente. Pegação louca só se sente. Pegação louca é um pouco mentira e um pouco verdade. No fundo, é uma total insanidade. Quem sabe, leviandade. Quase sempre vira saudade. Pegação louca são minutos contados por invejosos. São fagulhas penetrando nos hormônios ociosos. Pegação louca hipnotiza e faz querer, mas não impede de doer. Sempre dói depois do depois. Depois de nós dois. Pegação louca é um drama, é cama, é intrincada trama. É Elis cantando Atrás da Porta. É olho no olho que corta. É discutir Benedetti e Neruda, é entender perfeitamente uma atração muda. Pegação louca é um bônus partilhado em cinco, seis horas. É uma urgência sem demoras. É um querer mútuo e anestesiante. É uma paixão mutante. Pegação louca são seres vivendo sua animalesca vontade de serem felizes. São dois estranhos comungando do seu ridículo com boas e ingênuas intenções. Pegação louca são canções. São verões. São refrões. Pegação louca é uma foto ornando a parede das emblemáticas coisas sem sentido da vida. Pegação louca é adivinhação de pensamento, é conspiração do destino como prêmio por bom comportamento. Pegação louca é cheiro que não sai da roupa, é o insano momento em que se tatua o outro no nosso eu. Pegação louca possivelmente não é do mundo real. Talvez até seja ilegal, por fazer brincar de eternidade com o que não se tem. Mas ainda assim, prefiro esse tipo de mal a um insosso e conhecido bem. 



*Escute, lendo Mardy Bum, dos Arctic Monkeys, ou Bottle It up, da Sara Bareilles, ou Sexy boy, do Air, ou True love ways, do Buddy Holly, ou Tell me where it hurts, do Garbage, ou Deixe estar, da Marina Lima, ou Sexual healing, do Marvin Gaye, ou Everyday is like sunday, versão do Pretenders, ou All shook up, do Ry Cooder, ou Goodnight moon, da Shivaree, ou Young folks, do Kooks, ou Love me like you, do Magic Numbers, ou....... tá, chega. :)