sábado, 27 de junho de 2015

SHE TALKS TO RAINBOWS

E de repente, não mais que de repente, ficamos coloridinhos nos avatares das nossas redes sociais - e fomos seguidos por nossos amigos em uma espécie de reação em cadeia linda e fraterna. Claro, claro, é uma modinha de rede, um viral repetitivo que acaba nos enchendo o saco a certa altura, mas, neste caso, acho interessante deliberar sobre algumas coisas. É um caso em que penso valer a pena cutucar com maestria o privilégio alheio.
Vivemos um momento progressista bonito em que a representação da diversidade ganha força em campanhas publicitárias e tramas novelísticas. Porém, este também é seguido por escaladas assustadoras de fundamentalistas e ''homens de bem'', temerosos de que os irrisórios avanços sejam a ruína da família tradicional, a ruína de ''nossas crianças" - crianças estas que dão de 10x0 na questão politização, bem longe dos holofotes. O presidente da casa legisladora mais famosa do país é do bem. A política brasileira está infestada de pastores de bem, que pregam enfrentamento e boicotes de ódio em nome de Jesus. Eu sinto medo desse tipo de pensamento limitado e conservador, sinceramente não sei o que pensar. Primeiro, porque a sexualidade alheia não me incomoda. E, segundo, porque tais pessoas têm internet ilimitada e entopem minha timeline de porcaria. É um exercício diário tolerar tanto imbecil. Mas seguimos.
Realmente, ninguém vai mudar pensamento de ninguém com arco-íris, por mais promissor que ele seja. Mas, neste caso, achei importante me posicionar. Em meio a esses exemplos medievais, é necessário marcar bem o lado. Essa coisa de ficar muito quieto quando nossa voz é requisitada, me cheira a comodismo, a fazer coro à voz do opressor. É uma matemática certa, não precisa ser Martin Luther King Jr. para se tocar disso, qualquer cérebro médio consegue. E Deus me livre ser confundida com um discípulo de Malafaia da vida! É muito terror pra uma existência.
Nestes perfis, óbvio, há de tudo. Há o progressista de fachada, o que nem sabe por que raios estão mudando as fotos, o seguidor de modinha, como muito li por aí. Mas também há pessoas heterossexuais, como eu, que simplesmente acreditam na igualdade e se sentem atordoadas pelo seu privilégio ainda ser visto como um absurdo para outras pessoas. Que se sentem impelidas a apoiar uma causa por pura empatia. Poxa, me solidarizo com tua luta! Olha que coisa bonita, não?
Em outras palavras: você, menino, não deixa de ser machão e comedor por mudar seu avatarzinho. Você, moça, não vira um sapatão 42 por colocar um pouco de cor na sua fotinho. Do mesmo jeito que não trocar a cor de seu perfil não faz de você um homofóbico horrendo, não tem nada a ver, adere quem quer - ainda que, evidentemente, muitos homofóbicos não fariam isso de jeito algum. Penso que tudo é uma questão de simbolismo, e esses arco-íris simbolizam muita coisa. Uma delas, mais que o amor, é a vitória da cidadania. Um abraço dizendo: eu tô com vocês!






*Não resisti a fazer trocadilho com a música dos Ramones no título - vocês sabem, estes punks cretinos já estavam mancomunados com a ditadura gayzista há tempos. 





domingo, 14 de junho de 2015

I DROVE ALL NIGHT

Peguei o carro e decidi: eu vou. Abasteci pouco e sem saber se chegaria até lá com o volante em mãos, talvez sucedesse de ser com os pés sangrando coisas absurdas e as solas do coturno cheirando a bizarrices de estrada. A Cyndi cantava ''I drove all night'' num caos insistente e providencialmente coincidente, maldito mp³. E a febre de ver o cara mais uma vez guiou os caminhos, até porque aquele laranja meio magenta da ponta do horizonte parecia abençoar de algum jeito a empreitada. Anoiteceu tudo e nem vi. A loucura colorida da Cyndi era uma coisa muito, muito, muito doída, partia minhas artérias em minivasos de arrependimento futuro e expectativas molhadas de chuva. Mas eu seguia. E sentia tudo queimando, um cheiro de pólvora desejando carne e angústia pedindo redenção em um abraço quente faziam a atmosfera até poética. Poesia vagabunda, mas não menos lírica. Cheguei. Os olhos brilhando de carinho e pensamentos indecentes, uma traquinagem no céu, uma coisa muito paradisíaca e pouco óbvia. Tirei o sobretudo, fiz um rasgo consciente na meia-calça e respirei fundo. Toquei o interfone. Fiz graça com a voz. Senti uma surpresa. Pra mim, que sempre fui previsível, foi um jeito ótimo de virar o jogo. Dormi em pé ali, sonhando, enquanto admirava a cidade que recém descobrira. A chuva tinha parado, mas uma poça de lama e luzinhas coloridas brotou das pedras do estacionamento, onde até deu pra ler umas coisas bobas de quem está prestes a ter uns momentos muito bons e muito errados. Não leio nessa língua - menti pra mim mesma. E enfiei a minha, na boca do cara que chegou com os olhos mais arregalados do universo. A gente sorriu meio sem jeito. Ele gostou. Que bom e que merda! O hall do prédio ficou pequeno. Subimos, deixando algumas paredes envergonhadas, que era esse o objetivo. E, quando a minha pele tocou na pele daquele projeto de eternidade pouco convincente, uma espécie de calor muito sincero se apossou do meu coração e dos lóbulos das minhas orelhas. E, enquanto eu chupava aquele amor todo ali mesmo pra dentro do meu pensamento e das minhas fraquezas, amanheceu. A vida é sempre pouco imaginativa com luz direta, e o sol não carrega um erotismo confiável. Sempre preferi as madrugadas. Eu e a Cyndi, essa doidivanas.



                                                                    MASOOOOOQ







          

sábado, 13 de junho de 2015

SAVE THE DATE II - A SEGUNDA VEZ É COM CHANTILLY


MEU HOMEM ESTÁ ANIVERSARIANDO
NINGUÉM SAIIIIIIIIIII
34 ANINHOS DE TOTAL TIRANIA COM NOSSAS RETINAS
AEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE




Primeiramente, um minuto de silêncio a esta senhora que deu à luz tal criatura: 


                                                      Porra, mandou benzão, Dona Lisa! 


                                                   Você fez uma geração mais feliz! Obrigada!



Segundamente... vamos admirar, né, meu povo, já que ninguém aqui vai pegar mesmo. Admirar a total falta de condescendência deste rapazinho para com nossas estruturas: 


                                           Que coisinha mais bem feitinha, né? Desgraçado!



                                        De quatro-olhinhos: agradeço pela representatividade.


                                                        ESTA CARINHA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!



                                  Imagina topar com uma secada dessa e perder o rumo de casa. 



                                          No, no, no, no, baby, no, no, no, no, don't lieeeeee



                                                       EITA, BRASILLLLLLLLLLLL



Até de boné o homem fica bem.............


                                              DEVAGAR COM AS PEDRADAS, PARÇA!!!



                                      Afffffff amo homens com esse tipo de roupa. QUERO!


     Essas poses que nos fazem pensar as coisas mais indecentes... 


ZEROU, ZEROU, ZEROU!!!! NUM GUENTO MAIS



NÃO É FÁCIL, HEIN? SOFRO


Terceiramente (kkkkk)... Chris é ótimo! É extremamente simpático, espirituoso e ri de tudo - inclusive dele mesmo. AFF AMO GENTE QUE RI DE SI MESMA
Ama cães, é fã de Alice in Chains, toca piano, tem uma risada deliciosa e sempre se posiciona a favor dos direitos LGBT, até por ter um irmão assumidamente gay com o qual, aliás, se dá maravilhosamente bem. Esse homem é uma instituição, meu povo, uma aparição!!! Sem falar que é geminiano, não há como não se inspirar por eles, confesso que simpatizo deveras. E o fato é que das crushs hollywoodianas da minha vida cinematográfica, tem se mantido em primeiríssimo lugar no meu coração ridículo. Até pelo ocorrido do chantilly ali e tal, isso marca uma pré-adolescência, convenhamos. Bendita cobertura rssssss :)))))))))))) 



Neste vídeo, Chris nos conta que começou a falar erraticamente como seu sobrinho de 3, 4 anos, após uma temporada com a família em Boston - que, por sinal, é meu destino na vida, vocês não duvidem. A propósito, já mencionei que amo as entrevistas dele no Jimmy Fallon? Tenho crises homéricas de riso. Enfim, deliciem-se, que eu vou chorar ali no cantinho. BEIJAS




Auxiliou no post:

O fã é uma coisa ridícula que precisa ser estudada - Bruninha & Banda





segunda-feira, 8 de junho de 2015

Sobre selfies com teor religioso e ser cristã

Penso nunca ter falado exclusivamente sobre religião, fé, Deus e afins aqui. E, bem no fim, me inspirei, após ter escarnecido lindamente no Twitter de fotos - as chamadas selfies - em que as pessoas citam versículos bíblicos. Se eu fosse alguma coisa de prestígio na vida, eu estaria em O Globo, n'A Folha dando entrevista e tentando contornar a polêmica. Mas como eu sou um nadinha - um nadinha de muito potencial, é bom que se diga -, vou aproveitar minha total anonimidade e deliberar. Selfies com citações religiosas são bizarras. São ridículas. Eu rio pra caralho. A selfie, antropologicamente falando, já carrega um teor de ridículo e presunção, convenhamos. Já postei selfies? Claro! Quem nunca? Mas tenho noção da gama de construções que isso envolve. Eu, ali, me vangloriando de mim mesma e do meu sex appeal questionável, não deixo de ser uma caricatura de mim mesma. A gente é ridículo por natureza, não há por que temer. O problema reside, na minha opinião, em realmente se achar grande coisa ao postar uma foto de um rostinho perfeito, de um corpinho conseguido com muita privação e Whey Protein. Que foco, força e fé o quê, cara? Cê não descobriu a cura do câncer, relaxa aí. Cê só se disciplinou, coisa que qualquer mortal com um mínimo de teimosia e estratégia faz. Beleza. Agora, foto da fuça com citação bíblica realmente desafia meu entendimento da vida. Quer dizer, partindo do que está no livrinho sagrado, o egocentrismo não iria contra toda uma vida de exemplos que Jota Cê nos deu? Jota Cê era humildão. Jota Cê abominava as frivolidades a que a carne humana se prestava, logo, não consigo não problematizar. Elas realmente me aterrorizam. Eu não consigo resistir, pessoal. Rezem um terço pela minha pequeneza espiritual, se a errada for eu.
Voltando ao que foi dito na entrada deste texto... e caso você tenha aguentado aqui, eu realmente não me considero ateia. Sem religião, talvez. Porém, eu acredito em algo superior. Não em um cara barbudo e de olhos azuis, como Hollywood adoraria que fosse. Mas deve haver algo do lado de lá. Para mim - eu digo PARA MIM -, a ideia de algo que continua em outra dimensão me traz paz interior. Acredito em lei do retorno. Acredito em bem, em escolhas e que tudo que fizemos tem uma consequência que ecoa por sei lá quanto tempo. Acredito em empatia e desprendimento. Acredito em Deus? Sim. Apesar de que, como diria Atahualpa Yupanquié seguro que ele almuerza en la mesa del patrón. Eu tenho muitos questionamentos dentro desta cabeça castanha, a propósito até da letra que citei. Mas já rezei e rezo sempre que me encontro atormentada, e sei lá para quem direciono minha fé. Padres e pastores não fazem meu tipo, e eu os respeito tanto quanto um sorvete de casquinha, ou seja. Igrejas idem. Fui batizada, fiz eucaristia e crisma, mas sei lá, muita coisa que a turma do Vaticano pregou e segue pregando me dá vontade de vomitar. Cristianismo e Inquisição, por exemplo, é um caso de amor que não me desce. Ah, claro, vomito como boa cristã, na surdina. Não concordo que religiões governem a vida privada das pessoas e que seus representantes tenham tanto poder político nas mãos - poder este que, aliás, interfere na validade de direitos civis de outros grupos. Serei eu uma menina má? Só o tempo dirá. Quando eu passar para o lado de lá, volto pra contar como é e se estou sendo muito castigada. Mas, por enquanto, seguirei rindo das fotos. Com gosto. 




             
*Falei essencialmente sobre Cristianismo aqui, por ser a doutrina a que fui apresentada desde cedo e com a qual tive relação por muito tempo na vida.  
    

domingo, 7 de junho de 2015

Deveria haver mais Fernandões

O Fernandão, ídolo colorado falecido ano passado em um triste acidente de helicóptero em Goiás, desde que havia ganhado projeção no futebol há alguns anos, sempre me chamou atenção pelo que dizia. É curioso como eu sempre parava para escutar alguma fala sua na televisão, por exemplo. Alguma coisa de fundamento ia sair, era meio sintomático. Destoava até com certa inocência da massa de entrevistas futebolísticas caricatas e que beiram a robotização desde sempre - e que, aliás, vide anos 2010 e tantos, seguem ridículas e previsíveis. Mas não era esnobismo; era lucidez - e esses dois, poxa, são bem diferentes. Me lembro de uma vez - devia eu contar uns 17, 18 anos - ter saído uma reportagem em um jornal impresso de prestígio aqui do estado acerca da homossexualidade no futebol e de como há uma cultura machista e heteronormativa dentro deste espaço, tido ainda como só para machões e gaúchos malvadões e ogros graaaaw. Em meio a falas bizarras e carentes de profundidade, o homem saiu-se com uma que calaria a boca da legião de Malafaias de hoje. Fiquei pensativa. Eu, com o meu gremismo entalado na garganta, não tive outra escolha senão admitir que o cara era de fato inspirador.
Eu realmente não saberia dizer com exatidão como um ídolo é criado ou como seu simbolismo ecoa no inconsciente coletivo de milhares de fanáticos puro coração. Há muitos fatores envolvidos nisso. Em se tratando do capitão, existe toda uma safra de títulos gloriosos e bons resultados dentro de campo - talvez muitos do que lamentam hoje sua partida tão precoce até se lembrem mais disso, em detrimento do lado mais político do jogador. Só sei que o futebol precisa de mais caras assim. De mais pessoas que questionem e que se recusem a serem meros fantoches que lamentam, ensaiados, ''que não deu pra trazer os três pontos, vamo ver o que o professor vai falar'' - cuspida pro lado. Pode soar elitista isso, mas que nada, é bem o contrário. O futebol pode ser, sim, um meio de transgredir e de ser ferramenta política. De azucrinar a acomodação alheia.
Sabe, tenho acompanhado pouco de futebol hoje em dia, já fui bem mais fã. Li algumas coisas aí, fiquei encucada e vi como o meio pode ser mesquinho, perverso e alienante. Sigo gostando de mata-matas que terminam em pênaltis, no entanto. Não nego que ele, o futebol, por toda sua simbologia, mexe com uma parte muito sensível de nós - e que nos deixa abobalhados como uma criança de cinco anos num parque de diversões. Todavia, contudo, entretanto, isso eu também acho em outros esportes, esporte, esse lindo. Só eu sei o que eu sinto quando vejo a bandeira do meu país tremulando no pódio de uma olimpíada. Só a gente sabe. Só os noruegueses sabem a dor e a delícia de serem o que são. Só os senegaleses sabem a dor e a delícia idem. Enfim, o esporte é para todos. Só sei que no futebol, deveria haver mais Fernandões. Deveria haver, além de gols, mais palavras para deixar o rabinho do orgulho do torcedor rival no meio das pernas, fazendo-o engolir umas verdades.