domingo, 13 de agosto de 2017

Um pai que rasga encartes de propaganda

Meu pai e eu não poderíamos ser mais diferentes. Eu sou gremista, ele, colorado; Eu gosto de rock e amo um enlatado americano - como ele chama -, ele só ouve música de raiz - como também chama. É tão tradicionalista que chega a dar nojo. Um nojo poético, digamos. Ele é liberal convicto, eu flerto com várias saladas políticas, muito apesar de ter um ímpeto de Voltaire que me seduz. Ele, apesar de ser um baita cérebro, ama uma sessão indolor de Datenas e Rodrigos Faros - este último em pleno domingo, é mole? Já eu prefiro enfiar a cabeça numa betoneira a acompanhar a empreitada. Só que ele entende de arrobas e de bushels, fala de economia e deixa meio mundo calado - já eu, só sei que, felizmente, essas coisas me alimentaram a vida inteira. Perdão por não gostar do que faz seus olhos brilharem, pai. Um homem do campo pai de uma pseudo-patricete-urbana meio desmioladinha... é, a vida prega peças. 
Ele é tão canceriano que chega a dar raiva - tão chantagista emocional, tão de lua, tão doído de suas dores genuínas - ai de mim se falar algo desviado, a criatura vai jogar aquilo na minha cara por dias. Papai, você é meu inferno astral - e, como vocês sabem, só num inferno se encontra redenção. Papai, você é a minha, você calma meu coração com um talento que me comove. Te amo tanto que sinto meu músculo cardíaco agoniado. 
Muito embora eu odeie mortalmente essas datas comerciais (como eu odeio!!!!!!!), elas entram sorrateiramente no seu inconsciente e você se pega pensando nas pessoas capitalizadas e homenageadas em questão. E pensando sobre a relação longe de ser perfeita que mantenho com esse paizinho, eu também vejo que somos tão iguais no fundo. Chego a rir sozinha ao me ver ocultando tudo - t u d o - que é anúncio no Instagram. Fugindo de marcações de promoções no Facebook - já viram flyer de festa na minha página outorgando que eu vá àquele inferninho, porque é a festança do século? Nem verão, porque eu simplesmente bloqueio esses senhores. Se eu quiser festa, eu procuro, sim? Sai daqui com essa propaganda invasiva de merda. Ai, eu sou tão papai. Uma das lembranças mais ricas que tenho dele na infância é a de chegar com seu suplemento robusto de jornais (um aficionado por jornais e revistas desde sempre, e eis-me aqui jornalista) e de rasgar, um por um, os encartes de lojas variadas que vinham encobertos pelas notícias da zêagá dominical. Uma grosseria, claro, talvez até digna de internação para uns; Para mim, poesia. Ali meus olhos brilhavam e eu via que tinha um pai de personalidade, jamais um ser humano comum. Logo, cresci e me tornei essa moça adorável que rasga anúncios assim que os recebe. Deixa eu tentar ser feliz com essa caralha de sapato que eu já tenho, por favorrrrrr. Dois corações unidos pelo ódio ao que querem nos enfiar goela abaixo é amor demais, é amor que perpassa a vida. 
Jamais um ser humano comum. Em hipótese nenhuma, um ser humano comum. Meu pai cativa ou provoca náusea, nunca indiferença. Creio ser igualzinha. Temos nossas diferenças, mas bem no fim o que sobra é o amor, o zelo, a admiração, a criação - nunca esqueçam que a criação é uma das coisas mais fortes de que um ser humano é feito. E da minha eu me orgulho imensamente. Eu me orgulho imensamente de rasgar encartes de propagandas pois você me fez assim, paizinho. Ninguém mandou criar uma filha bem dona do próprio nariz.  



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Ode to my family - The Cranberries








quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mãe de pet

Até eu, que eu sou uma doente descontrolada por gatinhos e afins, tenho um pingo de noção ao me intitular ''mãe'' dos meus bichinhos. Por favorzinho, sim? Nós não somos mães porcaria nenhuma - no máximo, tutoras babonas que amam seus peludinhos e zelam pelo bem estar deles, o que não me parece ser digno de medalha. Há tempos, venho pensando sobre isso e tenho me incomodado com a denominação. Mãe de cachorro também é mãe. Mãe de pet é mãe, sim. Qual é? Em maio último, foi uma enxurrada desse tipo de pérola nas timelines que, a duras penas, mantenho. Eu queria me matar. Aí eu fiquei dias e dias matutando: mas será que eu vou ter que escrever uma baboseira das minhas para dizer o óbvio? Que vocês NÃO são mães? Que vocês estão sendo ridículas e egoístas ao saírem se proclamando guerreiras por cuidarem de um animalzinho? Pelo jeito, sim. Então comecemos pelo começo, como diria o outro lá. 
Mãe de pet não deixa de fazer nada em sua vida por conta de seus ''filhos'' - no máximo, ela vai atrasar seus afazeres, arrumar uma brecha para algo mais urgente em relação à prole peluda, mas, ainda assim, não me recordo de mulheres que não conseguiram dormir uma noite inteira por conta deles. Mãe de pet não vê os cabelos embranquecerem de dúvidas, angústias e medos sobre a educação dispensada àquele serzinho que parece fazer o contrário de tudo que foi pedido. Mãe de pet não sente as mamas doloridas em virtude de torturantes sessões de amamentação. Mãe de pet pode sair no sábado à noite sem medo de ser julgada. E beber todas, afinal, no fundo ela sabe que não é mãe porra nenhuma.
Mãe de pet não sente a corrosiva ação dos hormônios no organismo, na pele, no cérebro, na alma após dar à luz - e meses a fio depois. Mãe de pet não tem depressão pós-parto. Mãe de pet não vê seu corpo passar por mudanças que mutilam, muitas vezes, sua autoestima e desejo por si mesma. Mãe de pet não comunga do alimento que ajuda a desenvolver sua cria. Mãe de pet não sabe o que é passar dias e dias sem poder comer devido a enjoos, andar devido a dores diversas, viver devido a questionamentos que paralisam o semblante. Se vocês, literalmente, não vomitaram pelos filhos de vocês, tenham a dignidade de não se outorgarem mães com tanta veemência.
É bonitinho ter um bichinho, é uma delícia - eu amo, sou fascinada. Mas, nunca, nem na minha quinta loucura, vou sair esbravejando que sou mãe, sim, ora pois!!!! Eu não educo ninguém, não perco o sono por ninguém, não me questiono dia e noite se estou fazendo um bom trabalho, não sofro com os noticiários e o mundo horripilante onde meus rebentos terão de viver após saírem da minha asa, não me apavoro com os preços dos alimentos, das fraldas, das roupas, dos materiais escolares. No máximo, eu curto essa paixão que é ter um companheirinho, um alento que ronrona em dias tenebrosos e me auxilia na tarefa pedregosa de seguir. Chamo os meus de filhinhos, claro, como não? - é mais forte que eu. Mas tomo o cuidado mínimo para não passar por imbecil: ao menor sinal de comparação esdrúxula, eu calo a boca.


                                                         Sacou, idiota?









terça-feira, 1 de agosto de 2017

Orgulho trouxa

Sabe aquele tipo de pessoa que se dá importância demais? Que se ofende se você não procura, não implora por ela, não se ajoelha para sair com ela, para vê-la? Não sejam assim. Ou sejam, claro, mas não cruzem meu caminho - que cansaço! Assim, eu sei que todos somos importantes num plano circunstancial abaixo do Equador, mas sugiro não alimentarem a ideia de que são insubstituíveis, imprescindíveis tanto tanto tanto assim. Que preguiça. 
Trata-se de uma cosita que me rouba algumas horas de sono sempre. Ser ou não ser assim tão disponível para amores, crushs, amigos, irmãos, gatos, papagaios, pessoas em geral? Se muito solícitos, muito trouxas, muito servis, com tão poucas ocupações e por isso tão pouco interessantes? Se pouco solícitos, mais passíveis de sermos disputados? Não é uma equação tão infundada assim, pensem comigo. Os manuais de relações humanas sempre dissertam sobre o tema. Não procure quem não procura você, não se apegue, seja frio, pessoas gostam do que não têm, blá, blá, blá, roinczzzzzzzzz, mas aí é que reside nosso dilema maior: muitas vezes você não está tão à vontade com esse gelo estratégico, não está agindo conforme seu desejo genuíno - e isso é sempre meio péssimo. Ligue se tiver vontade, chame se quiser - pena você tem que sentir de quem não quis sua companhia. 
Ninguém gosta de ser segunda opção, eu sei - eu menos, argh leonismo do mal -, masssss talvez seja necessário cultivar sentimentos mais desapegados de convenções se quisermos momentos realmente felizes com quem nos é caro. Até porque, aqui vai uma verdade: não tem como dar atenção para tudo nessa vida, caras. É cruel, mas vale a pena se acostumar com as inconstâncias dos momentos, das paisagens, do tempo. Alguém vai ser lesado, você vai se lesar idem. Cheguei à conclusão quando dei de cara, esses dias, com uma amiga ao encontrar outra amiga para tomar um café, enquanto lembrava que tinha hora no dentista e cogitava uma passadinha na minha avó. Tempo é artigo de luxo hoje em dia. 
Fico dias, meses, eras, sem conversar com alguns amigos e adivinha? Quando nos encontramos, exceto raros casos, é sempre a mesma delícia - ouso dizer que é porque algo muito forte foi sedimentado no passado: ritos de passagem são sempre mais implacáveis perante o correr dos anos. Já em se tratando dessas ladainhas pseudorromânticas (coisa linda ter que dobrar o r graças a esse acordo ortográfico idiota, não?) em que nos metemos, é sempre uma estafa mental não poder ser a gente mesmo quando o inconsciente grita, ''vou deixar esse cretino no vácuo só mais uns 15 minutinhos mesmo que eu esteja gangrenando de vontades impublicáveis''. Haja saco, hein? Se me chamar eu vou, se me ligar estou pronta em 10 minutos - ok, 2 horas -, se quiser me ver estou à disposição. Não me dou importância mesmo, sou uma trouxona, décima quinta opção, a renegada do quinto signo do zodíaco, o limbo. Porém, penso ser mais feliz do que muita gente inacessível por aí. Você não perde quando tenta oferecer, só ganha. Ganha, sim, vai por mim.  





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I don't want to grow up - Ramones









sábado, 22 de julho de 2017

You're gonna hear me roar

Neste dia até o sol estava brilhando mais, não? Sim, ele entrou em Leão. De 22 de julho a 22 de agosto, uma espécie de magia começa a pairar nas esquinas, no céu, nos olhos por aí... quem não nasceu leonino que aguente, né, mores?  
Salve nossa autoestima sempre! Amém, felinos! Tô com medo do inferno astral? Claro, como não? Mas vamos emanar amor e calor aos corações gelados, que tudo se ajeita. 
(Hoje eu só vou escrever merda - não que eu não escreva sempre, mas hoje estou optando deliberadamente pela merda, divirtam-se.)  

Por muito tempo reneguei meu leonismo, achava-o fútil, bobinho... lia as descrições nas revistas e fazia um muxoxo: mas nunca que isso sou eu, wtf? Só que quer saber? Eu gosto de elogio mesmo, sou uma gatinha manhosa pronta para derreter de amores e gratidão. Gosto de me arrumar mesmo! Aprecio coisas bonitas, porém detesto esnobismo - é possível gostar de um sem se corromper pelo outro, sabiam? Tenho um coração puro e bobo, que acredita, a duras penas, no bem e na bondade. Gosto de fazer a diferença na vida de quem me rodeia, sacam? Ganho meu dia se consigo ajudar alguém, qualquer alguém - até ajudar uma senhora idosa a atravessar uma rua movimentada. Mas ganho meu dia idem quando encontro uma promoção de calças jeans pois ninguém é de ferro - e eu que não quero ser, tem muito sangue correndo aqui, seria um desperdício. Amo minha juba, meus cabelos são minha inspiração - sou um Sansão de saias. Sou extrovertida mesmo, sou efusiva mesmo, converso não só encostando em ti, como tocando na tua alma - profundidade me agrada. Penso que, quando me conhecem, ou me odeiam ou me amam de cara. Não deixo margem para dúvidas. E sou egoísta, não divido doces, me escondo para comê-los. 
Sou empolgada com o que me tira do prumo - gatinhos, cerveja com minhas amigas lindas, músicas boas, homens gostosos que não valem nada, barbas ralinhas, coisas criativas e instigantes, textos bem escritos e vocativos corretos, conhecimento, biografias, gente interessante, dias bonitos, etc - e não sei não me empolgar com qualquer porcaria diferente com que meus olhos cruzem. Sou assim, um ser humano empolgado, falador de abobrinhas em demasia. E luto constantemente para meu lado escuro e pouco iluminado não dominar meus pensamentos. Sou barulhenta e esbarro em qualquer coisa inanimada, é o meu charminho. Sou perdida, perdidaça, vivo na minha própria galáxia. Odeio, odeio - puta merda, como eu odeio - gente grosseira e que não sabe ser gentil. PORRA, CUSTA SER GENTIL COM OS OUTROS, ARROMBADO? 
Ser leonino é uma delícia e uma dor, porque, no fundinho, é muito fácil passar a perna em nós. Sofremos de uma espécie de trouxismo congênito, a gente simplesmente quer acreditar que merece o melhor, que vão ser bonzinhos com nós, que vão valorizar nossos talentos e gentilezas. Compramos com louvor a ideia de que somos necessários no... glup, mundo. Pobrezinhos... tão ingênuos. Tão teatrais, tão dramáticos, tão leais, tão inundados de mortal vaidade, tão mesquinhos, tão humanos, tão românticos, tão viscerais e insuportáveis, tão generosos, tão descrentes e niilistas, tão fascinantes para quem sabe apreciar. Tão apagados quando não têm pelo que lutar. Salve nós, salve nossa época, salve o rei da selva - ao menos da nossa selva, sei que somos. ROAAAAAAAAOOOOR


                                    Tudo isso que o sol toca é o seu ego, Simba!







quarta-feira, 19 de julho de 2017

How can you mend a broken heart, Hugh Grant?

Está sofrendo por amor? Eu sugiro Al Green. Mais precisamente, How can you mend a broken heart
Aquilo ali não é uma música, é uma espécie de transe. Sinto uma corrente elétrica percorrendo todo o meu corpo sempre que escuto. E eu escuto muito. Então eu fico ali, sendo mastigada por aqueles acordes, numa comunhão linda e de profundidades de que ninguém suspeita. Não consigo nem respirar direito. Dá gosto de sofrer ouvindo isso - pode ou não pode estar sendo meu som oficial de chorar no banho. Se é para corroer nossos pobres corações, vamos fazer direito. Com um mínimo de elegância. O Hugh Grant, por exemplo, já fez isso em Um Lugar Chamado Notting Hill - logo, estamos absolvidos. Só colocar as mãos no bolso, sair chutando latinha e pronto: eis uma imitação pateta de Hugh Grant.   
Para ser franca, tal música nem é dele - digo, do Green, não do Hugh Grant, dã. Segundo minhas pesquisas inúteis, o hit foi composto pelos manos Gibb, esses queridos que adoram criar músicas para outros também fazerem sucesso e são conhecidos nas grandes rodas por Bee Gees. (I started a joke - que estará na minha lápide, claro - eu nem lembro que é deles. Não dá. Aquela música tem a alma do Faith No More, mals aí. Outra hora, venho falar da relação cabulosa que mantenho com a regravação na voz do Mike Patton, porque é simplesmente a música da minha vida.) Ai ai... cataaaarse!
Pois bem, muito embora pareça, não vim falar de músicas dos irmãos barítonos e filmes de gosto duvidoso, mas sim de... er, sofrer por amor. Sofrer por amor... sofrer... coisa engraçada. Há alguns dias, eu comentava com uma amiga sobre isso - e com outras certas pessoas com quem eu sequer deveria estar comentando essas coisas. Parece a sina de todos nós, pobres mortais. Causa mortis: amor. Ou falta de, vai saber. Sofrer, sofrer e sofrer mais um pouco. Os Sofrimentos do Jovem Werther talvez seja o livro de cabeceira de todo coração espezinhado. Era o meu, que horror. Por um lado, é ótimo: se não se sofre, não se tem texto. Os livros de amor - ou, sei lá, tortura medieval, acho que tem sentido - só são escritos pois há coisas que precisam ser ditas e sofrimentos que precisam ser externados. Ninguém escreve sobre felicidade - ela se basta, ela simplesmente existe. Por outro lado, isso é uma lástima. Ter matéria-prima somente quando se leva uma pancada na cabeça não é lá muito digno. É... que remédio, possivelmente os textos mais lindos, as músicas mais tocantes, as expressões artísticas mais atordoantes, todos eles tenham sido criados no auge de uma dor lancinante. Chuto que Barry Gibb tinha levado um pé homérico no traseiro e saiu aquela coisa maravilhosa. Nem sei o que pensar. How can you mend a broken heart? Eu também não sei, meu caro. Uns colecionam seios em noites infrutíferas; outros bebem à exaustão completa; umas cortam os pulsos e os sentimentos por completo; outras escrevem crônicas na esperança de serem ouvidas... cada um na sua. Na sua solidão e na sua cruz. No melhor e no pior de dois mundos.



                                Certo que a mina deixou ele por causa desse cabelo



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I started a joke - Faith No More 






  

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A menina que contava vacilos

Nesta minha tortuosa busca por autoconhecimento (que promoção de sapato o quêêê, eu só quero me conheceeeeeeeer), eu venho descobrindo que eu falo demais. Mas, pera lá, não vou me espezinhar - não mais. Perdoa a lua em áries e não desiste de mim - ou desiste, sei lá, isso já não é problema meu mais. Tirando o ridículo bem intencionado que paira sobre essas tentativas de interpretação astrológica, talvez arianos bem arianíssimos realmente me entendam... dói, né? Dói sentir o coração sempre a 200km/h, como que num racha assassino e previsível, não é mesmo? É DOI-Codi, parceiro. Não trabalhamos com mornidão aqui, eu sei, vamos nos abraçar e lamentar essa delícia horrorosa. 
Eu falo mesmo. Eu falo demais. Pra caralho. Erro mais por conta disso? Certamente. Eu não conto mais carneirinhos - eu conto vacilinhos. Eiii, mas tu é gostoso, hein? Vai se fo o ooo der, tá me deixando louca!!! 

- Amiga, vocês ficaram só duas vezes, tu disse isso mesmo?
- Claro, é gostoso mesmo, vou fazer o quê? Eu reporto fatos e agi segundo o desejo que me habitava kkkk isso é Freud, sabia? Aff

Deixa eu falar, porra. Deixa eu falar. Danem-se as suposições, dane-se o que vai pensar de mim. Só sendo muito ingênuo para achar que vai me conhecer por um mero elogio, por uma mera gentilezinha safada. Eu elogio, sei lá, até um chão quando vejo que ele está brilhoso e encerado. Palavras na minha boca são o que são, vendaval para quem sabe apreciar. Posso até errar, mas rio muito disso também, porque as pessoas felizes fazem isso realmente, elas riem de si mesmas com prazer. Querem se matar de vez em quando, como não?, mas riem muito - até doer a barriga -, deixam os dentes à mostra, não economizam na piada. São transparentes. A Tati Bernardi, que de tão genialmente lúcida chega a ser louquinha, já escreveu sobre isso uma vez e me identifiquei bem na época quando li. Na sua crônica, ela ''lamentava'' não ser uma mulher misteriosa, uma mulher que vai se revelando aos poucos, que faz joguinhos, que não despeja seus sonhos e seus demônios na primeira olhada no olho... em outras palavras, elegante e contida. Oras se a gente nasceu para ser elegante e contida, Tatiane? Minha querida, a gente sente a vida na garganta pronta para ser tragada como um ácido, uma sorte, uma dor, uma loucura abençoada. 
Eu falo demais... mas, olha, de falação em falação, tem vezes em que eu acabo sendo magistral. Vocês sabem, a prática leva à perfeição. Falar não é sinal de fraqueza. Só quem fala entende de verdade, não se perde em possibilidades, em quases, lamentando a palavra derramada - ou melhor, não derramada, quando tudo que queria era transbordar (como vejo por aí nas capas do site ao lado). Falem, falem sem medo. São só pessoas como você.


                                                   Que assoalhão da porra!!!







sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ladra, envenenada e sabida

Eis que numa sexta-feira de 2017, me veio a iluminação. Eu deveria ter feito História! Porra, eu tinha que ter feito História, é evidente! Por que raios eu não fiz História? Há quanto tempo ando renegando essa coisa que me consome? Que epifania, meus caros. O fluxo de consciência foi tão forte aqui, que ainda me sinto no dia da proclamação da república - não reparem, lia, há pouco, sobre as peripécias de Pedrinho II, nosso eterno monarca inconstitucional.  
Gostar de História, a matéria, sempre me pareceu muito natural, muito orgânico - perguntadeira que sempre fui e deveras ansiosa por descobrir os porquês, as metades, as razões, como as coisas eram, como poderiam ter sido, já fatalmente envolvida pelos acasos da vida. Eu, com 13 anos, era uma chata insuperável, meus colegas me odiavam. Os professores, entretanto, devotavam amor eterno - carentes, que eram, de ouvidos solícitos às suas riquezas por anos estudadas. ''Vamos matar aula todos então?'' ''Claro que não, hoje é Guerra do Paraguai, tá doido???'' Mas mais que talento para aduladora, embora pareça, repousava em mim uma vontade desesperada por entender, eu queria entender de forma quase inocente. Querer saber era meu crime. Logo se vê que eu não ia durar nem um dia no enredo de O Nome da Rosa. Sabida, porém muito envenenada. 
Aos 13, mais que chata, também fui ladra. Ao saber que não poderia ficar com o livro usado naquela sétima série fatídica, dei uma pirada: sorrateiramente, adentrei a biblioteca do colégio, roubei o livro pretendido e fui, culpadíssima, para casa. E, assim, minha primeira lição de Maquiavel foi assimilada. Os fins justificaram os meios demais, aquele livro era muito maravilhoso para ser relegado a um destino sem paixão - ele, hoje, segue em cima da minha escrivaninha como símbolo máximo da minha primeira contravenção bem sucedida. Que horror, alguém chame a polícia.  
História é incrível, sempre vou gostar, sempre vou querer saber, sempre vou querer falar a respeito, pois, para mim, está intimamente ligada com o que eu vivo hoje em dia - com o que vocês vivem, meus amores. Fico irremediavelmente panfletária a essa altura, mas o fato é que mentes que esnobam tal ramo fascinante do conhecimento sempre são as mais difíceis de conviver. E eu nunca vou deixar de apoiar seu ensino, sua difusão, sua beleza de ser o que é. Ela é tipo aquele carinha de quem eu fui muito a fim, mas acabei não tendo nada demais e vez que outra volta à mente como um sonho bom, uma lembrança gostosa de adolescência. E se tivesse sido? E se minha vida tivesse ido por aquele caminho? Se eu estivesse ensinando História hoje, seria mais feliz? Ando muito bem, graças aos céus, mas é inevitável não pensar nas vontades que ficaram - ou que não foram percebidas na época. Por via das dúvidas, sigo lendo sem medo do veneno. 


                                                Inconstitucional é a tua vó




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Only happy when it rains - Garbage








quarta-feira, 31 de maio de 2017

A gente muda

- Coloca aquele blusão ali, de gola...
- Ew, não gosto dessa gola...
- Mas tu gostava!!!
- A gente muda, mãe...

E aí nasceu uma crônica. Percebam como trabalha a nossa mente. De nós, os cronistas. Percebam como é sorrateira a mente de uma cronista jovem e com idiotices mil na cabeça. Tudo é inspiração e ela não tem hora para chegar; ela vem, senta, pede um café. Eu sempre estou pronta, ela é de casa. Aqui, as blusas de gola não servem mais, perderam a validade, naaah, é como se eu me sentisse presa. A gente muda, e que bom que muda!! Porque ser sempre a mesma coisa enjoa, chega uma hora em que a gente nem se surpreende mais consigo mesmo - e isso é sempre um drama. Eu mudei um monte já, embora ache que não. Eu não suportava The Doors; hoje saio requebrando os quadris quando ouço a vozinha do Jim... ô, Jim, vem cá. Eu não bebia cerveja; hoje para me fazer feliz é só chamar para um rockzinho com 3 latões a 10 pila - pila mesmo, que aqui neste blog não temos mais tanta frescura ortográfica. Sigo querendo esbofetear uns quando vejo crases mal empregadas, entretanto. Sorry, I ain't sorry. 
A gente muda, e bom mesmo é quando a gente passa por cima dos próprios preconceitos e das próprias amarras mentais, quando entende que o universo não está assim tão interessado em nos ferrar e toda perseguição presumida não passa de síndrome de umbigo não resolvida. Não serei tão leviana ao falar de gostos pessoais, pois uma criatura que já leu esses sociólogos franceses da vida nunca mais enxergará meras preferências como obras do acaso, mas falo mesmo é dessa errância que nos põe para frente, que nos instiga... desses amores que nos atropelam e nos fazem sentir vivos, que ar novo é esse nos meus pulmões? Eu não gostava de gatos; hoje tenho em mim todos os gatinhos do mundo. Que lástima, sigo fazendo trocadilhos idiotas com autores famosos. Um beijo, Fernando Pessoa, eu te amo.
Mudar é bom, mas melhor mesmo é quando a gente não muda somente para agradar uma plateia, uma pessoa, um quase amor. Bom mesmo é quando a gente não muda de princípios e de caráter para caber numa situação, num projeto falso de felicidade. Mudar é bom mesmo quando a gente se reconhece naquela mudança, quando somos honestos com isso que chamam de essência. Por isso, não tem jeito de eu investir nessas botas pavorosas que vão acima do joelho. Exceto, claro, se eu for convidada para trabalhar no Xou da Xuxa, tudo é negociável.


QUEM QUER PÃO? 







domingo, 14 de maio de 2017

Mães guerreiras e filhos do Christopher

A maternidade me fascina, mas não de um jeito acolhedor, como se eu quisesse ser genitora algum dia. Meu fascínio é meramente curioso, um mero voyeurismo social de uma mente questionadora além da conta - e que sofre por ser assim muitas vezes. Quem entende de verdade as mães? 
Quem me lê há tempos, sabe que ser mãe não é um sonho na minha vida - desconfio de que nunca será -, porém não é por ser essa montanha de gelo que não se imagina chamando o Chris Evans II pro banho, que eu não me atraia pelo caráter político da coisa. Tá, pensei melhor: ser mãe dos filhos de Christopher seria lindo. Daria à luz um time de futebol-sete tranquilinho. Imagina que amorzinho todos andandinhos vestidos de Capitão América igual ao papai? De camisetinha do New England Patriots???? AWNNNNNNN OK PAREI   
O fato é que mães têm minha total compreensão e apoio, além de empática inquietação. Essa coisa que a sociedade espera, de que sejam heroínas, desfaleçam pela prole, se destruam por casamentos fracassados, abdiquem da vida pessoal pelo bem estar dos filhos, tudo isso me deixa doente das ideias. "Ai, mas não é bem assim, Bruna". Vocês sabem que é, apontar o dedo sujo para mulheres que são mães é esporte nacional. Talvez por isso, inconscientemente, eu tenha desistido da empreitada. Entre ser escrota ao afirmar isso e perder minha liberdade, ser escrota é minha meta desde criancinha. 
Mãe não nasce sabendo ser mãe. Essa brincadeira de cuidar de outro ser humano é loucura, vocês têm noção da cilada? Respeito muito, porque eu não tenho o dom. Admiro, mas também planto a sementinha da desobediência. Rebelem-se, mães! Ou me chamem para trocarmos umas ideias, sem julgamentos, sem seriedade, ao melhor estilo ''respostas sacanas para perguntas cretinas''. Eu, felizmente, mesmo sendo essa enviada do demônio, tive muita sorte na vida. Putz, sou abençoada! Tenho uma mãe fora de série, um verdadeiro mulherão da porra cuidando de mim desde que nasci, naquele domingo ensolarado de agosto. Mas minha mãe sofre, minha mãe não sabe tudo, minha mãe tem dúvidas, minha mãe já fez muita burrada. Não me levem a mal, mas sempre penso que nós, os filhos desses seres humanos incríveis, carregamos o peso de muitos traumas deles próprios nas costas. Vai saber se não é por causa delas que vivemos mergulhados em ansiolíticos e entupimos as salas de espera de terapeutas diversos? Ter ciência disso, na melhor das hipóteses, pode nos ajudar a julgar menos as realidades que se apresentam. Elas estão fazendo o melhor que podem - e tudo isso tateando no escuro. 
Por isso estas palavras hoje, nesse dia marcado por hipocrisias - como é de se esperar de todo amor mercantilizado por datas medíocres, que fazem com que nos sintamos uns lixos se não gastarmos uma nota numa cesta de café da manhã. Por isso não me apetecem, mesmo que façam muitas queridas alegres, dedicatórias como guerreira, deusa, etc. Ninguém conhece os medos dos guerreiros. E, no fundo, o que eles mais queriam na vida é que soubéssemos que eles também podem sangrar.
   







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Valsa Epônina - Izumi Tateno







    

sábado, 6 de maio de 2017

Eis um novo amor

Ofegante, saí do estabelecimento. Mal podia me conter, a boca seca, o coração acelerado, o gosto de novidade gritando na alma. Felicidade inundando o coração... sim, era ele. Eu ia ver ele, mal podia esperar para tocá-lo. Usá-lo até o máximo de suas forças, me esfregar nele - ele que me entende tanto e em tantos níveis. Meu fone de ouvido novo. Só meu - não divido fones, nem tentem. Acharam que eu falava do quê???
Só nós, os doidos por música, os que buscam sentido em cada pequeno fragmento de vida com um sonzinho espreitando as sensações, entendemos. Ah, claro, é possível que estas simpáticas merdas estejam nos deixando consideravelmente surdos, mas como arrancá-las de nossas vidas? Como simplesmente nos curvarmos a uma sociedade que não entende nosso (meu) gosto musical ridículo de trilhas sonoras dos anos 80? Não posso compactuar, prefiro o ostracismo. Sabe, quando ouvi a primeira guitarra de Brown Sugar gemendo, ali na rua mesmo, eu sabia que era amor. Aquilo ali é muito forte. Não tem como um dia dar errado quando se começa com Brown Sugar, é questão de lógica. 
Começar os trabalhos do sistema com o menino roque é aumentar a qualidade de vida em uns 50%. Ontem, por exemplo, foi o Jimi. Vocês têm ideia do que um Jimi Hendrix pode fazer pela vida de vocês? The Valleys of Neptune is arising.... é fato que Jimi e sua guitarra eram o mesmo ser.
Para segundas-feiras, eu sugiro começar com Hey ho, let's go, batendo o pezinho e tudo. Imagine-se em uma rodinha punk e o desgosto logo se vai... pode ser ridículo, mas que é uma injeção de energia, isso é. Qualquer dia, conto como uma das minhas melhores amigas e eu, bem patetas, participamos de uma sem nem mesmo saber do que se tratava. Ah, a ingenuidade das patricinhas no show de rock...
Para todos os dias da vida, sugiro Billy Idol. Vocês sabiam que faz uns 15 anos que eu amo Billy Idol? Nosso caso está debutando. E lembro como se fosse hoje da primeira vez em que escutei Dancing with myself, naquele filmezinho bobo do Patrick Dempsey quando era um pequeno ET em hollywood, o Namorada de Aluguel. Assisto com gosto até hoje, afinal, nem só de cineastas chatos e filósofos vive um ser humano. E a vida é curta demais para ficar aguentando fone ruim, dá licença. 



                                     Quando o fone do Billy falha de um lado só 



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White weeding - Billy Idol






quarta-feira, 3 de maio de 2017

LIVE AND LET SLEEP

''Se você ama deixe livre'' uma ova. Se você ama mesmo, deixe dormir. Live and let sleep... já diria Paul McCartney. Os amores só vão durar quando os amantes entenderem que precisam deixar dormir. Deixe sua menina dormir, parça. Se um cara aparecesse com um buquê de rosas e se declarasse para mim, é bem possível que eu achasse comovente, todavia, entretanto, contudo, se ele viesse com um vale-colchão da Ortobom a tiracolo... aí eu consideraria coisa do destino, do cosmos. Encontro divino de almas. 
Não aguento mais viver dentro do armário da produtividade, da vida saudável e ativa, do carpe diem... eu gosto de dormir, caralho. E sei que você também gosta, seu cretino, não precisa bancar o workaholic modelo. É, dá para ver no seu doce olhar, tão doce e tão cheio de olheiras. Por isso saio dignamente deste móvel escuro e hipócrita e assumo: eu gosto da coisa. Sim, eu gosto de dormir. Oooh yeah, baby, eu sou preguiçosa. Mas, pera lá, sou como Peter Parker nas palavras de Doutor Octopus em 2004: preguiçosa porém brilhante. Uhum. Sabe aquele sono de levantar desnorteado? Eu gosto, sociedade, eu gosto. Me julgue, mundo corporativo. Me julgue, chefinho. Aquela baba que eu deixo poeticamente no travesseiro é a prova de que tudo valeu a pena. Aquela baba tem história e resiste. 
Levantando, dia desses, de mais uma madrugada em que eu dormi umas 6 horas mas claramente foram 10 minutos, comecei a relembrar amargamente todos os minutos que enrolei para ir ao berço esplêndido. Aquilo dói. Aquele arrependimento lisérgico - quer dizer, você acordou mas não sabe se está ali ainda - que bate a cada toque do despertador e nos faz relembrar cada perfil ridículo do Facebook que visitamos sem necessidade, cada pseudo-conversa fracassada que alimentamos por puro ego, cada pesquisa esdrúxula que fizemos no Google por incapacidade de desligar tudo e arrastar o traseiro para a cama - tudo, tudo é remoído com requintes de crueldade a cada manhã. E quem disse que faremos diferente na noite seguinte? Passar o dia caindo de sono pelos cantos é o nosso esporte favorito. Medalha de ouro na categoria bocejinho resignado.  
O fato é que se trata de um assunto meio polêmico, pois minha geração anda com preocupantes distúrbios de sono, certo? E, não, não falo daqueles lindos que passam a noite inteira fazendo groselha na internet, dormem o dia inteiro e voltam à rede na noite seguinte para reclamar de insônia. Ainnn, e esse soninho que não vem? Se alguém vir meu sono, manda ele me procurar, hein? Hihihi. Vosso sono está enfiado aqui no meu cu, senhor. Insônia é diferente de não conseguir dormir por pura biologia desregulada, nos poupem dessa cantilena. Eu, felizmente, durmo bem, durmo como um anjo - mas sempre quero mais, podre que nasci. E milito abertamente pela descriminalização da furada com os amigos - com o parceiro, com a família - em prol de uma soneca bem tirada. Me deixem dormir em paz!!! Ou melhor, vamos dormir juntos. (postei e saí correndo)  



                                                               EAEW




PS: A Ortobom Enterprises não está patrocinando este post, mas É AQUELE DITADO







sábado, 29 de abril de 2017

Os 45 anos do padrinho

Sim, O Poderoso Chefão completou 45 anos agora em março, e eu estou enrolando há um mês esse texto, logo, falemos de uma vez dos Corleones - até porque, vocês sabem, presente bloguinho ama um clichê cinematográfico. Devo confessar que não simpatizava com os mafiosos de Nova York quando mais nova, achava-os qualquer coisa menos lendários, só que aí - só que aí!!! - me caiu às mãos o livro do Mario Puzo, irmãozinho... e eu não estava preparada. A história é machista, feita por homens e basicamente para homens? Uhum. Mas, como sou uma familióide sentimental gravíssima, há tempos diagnosticada, acabei achando uma brecha para uma paixão arrebatadora. Don't ever take sides against the family again, seu fiadaputa!
Devorei as famigeradas páginas após ter visto a trilogia, por isso foi meio impossível não associar Vito Corleone a Marlon Brando, Michael Corleone a Al pacino, Kay Adams a Diane Keaton, Tom Hagen a Robert Duvall (brilhante, por sinal!), e por aí vai. Os mais puristas talvez considerem isso uma blasfêmia, mas o fato é que enriqueceu o folhear de páginas - o que uma trilha sonora de gênio não faz também, né? Aquela valsinha do Nino Rota sabe moer os pobres corações sicilianos. Soube moer o meu, lia e chorava, coisa linda.
É possível que eu tenha um passado policialesco sombrio, porque o fato é que aquela trama de cabulosidades me prendeu do início ao fim, me fazendo realmente tomar partido daquele lodo mafioso amparado por sangue quente e amor paterno além das consequências. São fabulosas, por exemplo, as tramas psicológicas dos personagens que tinham tudo para serem secundários mas revelam-se determinantes, como Michael, o filho militar que considerava odiosas as práticas do pai e inicia o filme de maneira ponderada e alheia - quase adolescente -, e acaba por ser sua cópia fiel, talvez até pior. As circunstâncias levaram-no a isso? Michael era, de fato, um assassino cruel apenas não iniciado no jogo? Se Sonny não tivesse virado queijo suíço em Long Beach, o caçula teria tido o destino que teve? Terá sido a cena inicial em que o padrinho afaga aquele gatinho tigrado lheeendo o que me fez simpatizar de vez com com suas bochechas de buldogue? São questões, meus caros, são questões...
Penso ser muito convincente também o próprio Marlon Brando como o patriarca da famiglia, em uma atuação tão lacônica que se tornou icônica - rimamos sem querer. Fala sério, até coçando o queixo a criatura tem mais presença de espírito que muito ator por aí! A dor do pai em ver, de mãos atadas, o caminho tortuoso por que o filho predileto está indo, é algo que me pareceu bem construído idem. Do gostosão Stanley Kowalski a um paizão de índole duvidosa cheio de remorsos e fantasmas. Well done, Brando.
No geral, a saga deste clã horroroso e digno de pena é algo que sempre estou disposta a rever, porque é fascinante. Não é como se eu assistisse à coisa repetidas vezes só por causa da carinha sexy e fratricida de Alfredo James Pacino, todo engomadinho e de suspensório ao melhor estilo gângster, parecendo que tira minha roupa só de olhar e reacendendo meu lado stripper-fora-da-lei Bonnie & Clide, sabe? Nem um pouco. Eu, mezzo colérica estilo Santino Corleone, mezzo calculista e dissimulada estilo Connie Corleone, digo a todos eles que fiquem, fiquem muito em nossas vidas. E não se esqueçam dos cannolis, por obséquio.








domingo, 2 de abril de 2017

TPM - Triagem de Pensamentos Maléficos

Ai, pelo amor de Deus, nunca vou curtir essa página ridículaaaaaaaaaa, sai daqui!! Fuja! Odeio esse programa de vocês, é horrível, nunca vou recomendar isso. Putz, e essa cólica? Parece que tão dançando flamenco na minha barriga, pode mais, pode doer muito mais, DÓI MAIS CARALHA, EU AGUENTO!!
Ah não, lá vem a creiça de novo citando Zack Magiezi com essas selfies aleatórias do nada... será que não tem ninguém mais pra citar nessa merda? Que saudade do Caio Fernando Abreu, porque, convenhamos, desse ainda os textos tinham um começo, um fim, uma lógica... esse não, tipo, são umas afirmações... hum... ''ela é daquelas que não suporta mentira''. Dãã, hein? Jura, amore? Ela gosta de abraços apertados e jeans com lycra. UAU, GÊNIO, MARAVILHOSO, LANÇA UM LIVRO. Não aguento mais esse cara e nem sei quem ele é. Notas sobre ela, notas sobre ela, notas sobre elazzzzzz... nota a minha mão na tua cara aqui, sua chata.
Falando em livro, e o teu romance, hein, Bruna, sua cretina podre? Por que parou? Vai ir até quando com essa desculpa de crise de criatividade? Puta que pariu, esqueci minha chave na cadeira, como vou entrar em casa hoje? Hummm, e esse boyzinho novo no pedaço? OLAR! Quer ver que é casado há 5 anos e pai de quadrigêmeos? Eu, hein, vou ficar bem longe, pena que é tão bonito o rosto. Falando em rosto, minha cara cansada tá de chorar. Amore, tu tem 27 anos, tu tá na flor da idade, vai curtir tua sexta-feira, sabe? Ah, claro, tu vai assistir Scarface de novo porque, olha, tá passando do TCM, não custa nada... LOSER! Posso ser loser, mas pelo menos não sou biscoiteira na rede do lado igual a c e r t a s p e s s o a s. Vou escrever sobre isso um dia, o mal do biscoitismo desenfreado em rede social. 
Hoje é o dia dos idiotas? Não, eu não assisto The Voice Kids, tia, não sei quem tá na final. Na verdade, eu tenho implicância com crianças fazendo qualquer coisa que não seja brincar e ser criança. Eu tenho pânico de programa com gente cantando. Eu cresci vendo Raul Gil, sabe? É trauma. Ai, faço ou não faço essa pós? Nossa Senhora dos Jornalistas Desgraçados das Ideias, me dê uma luz!!! Hummm, talvez eu devesse sair hoje à noite, tem um tributo ótimo a... a quem mesmo? Não, pera, foi num tributo desses que vi pela última vez aquele boçalzinho... credo, quero passar longe! E ele achando que eu queria casar, disse que eu assustei ele........... amore, olha bem pra minha carinha de quem quer casar nessa vida. Intimidade é uma merda, casamento lembra compromisso e só de pensar em compromisso eu entro em combustão, ainda mais contigo. Sem falar no dress code que não me causa nada além de sono. Se for pra casar, vai ser com um vestido vermelho tomara que caia com uma fenda generosa, dá licença. E certamente não vai ser com alguém que usa Nike Shox num tributo a Creedence. Creedence, porra, lembrei!!! Ai ai, acho que vou tomar uma cerveja e acompanhar o pessoal do flamenco na dança. Que belíssima coreografia em meu útero.






Auxiliou no post: 

Chelsea Dagger - The Fratellis     
       






sábado, 11 de março de 2017

É isso aíííííííííííí

Hoje, na feirinha: eu entrevistando Seu Jorge. Vou ter que procurar um exorcista porque, olha, é cada abobrinha que sai dessa cabeça castanha que eu levanto abismadíssima.
Mas vamos à pauta. Estava eu, sentadinha, gravador em mãos, sabatinando Seu Jorge. O mais louco é que eu sonhei a coisa toda e só fui lembrar que sonhei porque estava perdendo tempo de vida no Instagram - como é do feitio dos jovens - e topei com as fuças de Jorge. Jorge, o entrevistado. God realmente works in mysterious ways...  
Me lembro de pouca coisa, mas é claro - claríssimo - que eu perguntei por que ele e a Ana Carolina atazanaram minha vida com aquela versão horrenda de The blower's daughter, há mais de dez anos. Percebam que esse ódio sobreviveu à passagem dos anos e rendeu uma sessão de terapia psicodélica. Não me entendam mal, eu adoro Seu Jorge e a Ana, mas... hum... que ideia equivocada, não? Eu simplesmente tinha vontade de tacar um tijolo no rádio quando aquela lamentação começava - sim, crianças, houve um tempo, a.C, em que as pessoas ouviam música nas efe emes da vida.  

Taxativa, soltei:  

- Entre essa e a do Damien Rice, qual tu prefere? Sério, abre o jogo, desliguei o gravador. Nem tu aguenta, né? 

Não consigo entender, The Blower's é maravilhosa, logo, é isso aííííííí, um vendedor de floresssssssss deveria soar razoável. Pois é, mas só consigo pensar em tijolos quando tenho a infelicidade de escutar essa coisa.







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Selton e eu, eu e Selton

Descubro coisas curiosas em salas de espera. O último achado foi que a minha alma gêmea é o... Selton Mello? Pois é, meus caros, quem diria que a mulher invisível dele sou eu? God works in mysterious ways...  
Morrendo de tédio galopante, comecei a folhear uma daquelas revistas sofríveis e me deparei com as seguintes palavras do moço:

Aos 33 anos, você disse que não se imaginava casado, com filhos correndo pelo quintal. Mudou de ideia? 
Não. Continuo igualzinho. Mas acho filho uma coisa legal. Homem tem uma vantagem. Posso ser pai aos 50. De repente, ter um filho sem estar casado, penso em coisas assim. Ter um filho com uma amiga, com uma mulher que admiro, que já namorei ou alguém que saquei que pode ser uma boa mãe e que também não está a fim de casar. Ou não ter filho também. Viver sozinho, por que não?

Saca a profundidade do boy...

Por que não?
As pessoas lidam muito mal com a solidão, não conseguem ficar sozinhas. Eu fui ganhando experiência nisso e já tinha um temperamento que me levava a ficar bem assim. Há uma paranoia grande em torno da palavra solidão. Por isso existem as redes sociais. As pessoas estão ali, mas não estão. Tem gente que tem dois mil amigos no Facebook mas só com três conversa sobre coisas íntimas.

Está namorando hoje?
Não. Estava namorando até uns quatro meses atrás. No meu estilo “mineiro low profile”. Namorei uns seis meses. Ninguém soube. Claro, eu não ia ao Sushi Leblon. O Rio de Janeiro é grande, você pode andar por muitos outros lugares.

Estilo ''mineiro low profile''... este homem quer acabar comigo!!! Morri com o sarcasmo sobre o Sushi Leblon. Chupa, Ego!

Essas foram as que mais me chamaram atenção, mas a entrevista toda é um deleite para quem anda carente de um pouco de lucidez. Só sei que terminei de ler com um único pensamento: ''me dá, mããããe, me dá, eu queeeeero''. Este homem é um acontecimento! Claro, para muitos talvez não passe de um chato, mas é inegável sua autenticidade. E inteligência. E charme. Imagine, cara leitora, discutir Nouvelle Vague enquanto esta gracinha mineira passeia pelos seus peitos? Sem falar na voz, vocês já repararam na voz de Selton Mello? Aquela voz é orgástica. Deixaria tranquilamente meu rico soninho ser embalado por um monólogo dele toda noite.  


                                                     Oi, bebê. Te amo, bebê. 




*Selton, please, não entre com uma medida protetiva contra mim, sou só um coração que acredita na solidão compartilhada e curte fazer textos ridículos, tá? Beijos. 








segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Da série: diálogos catárticos

GERAÇÕES

- Olha quanto bonequinho... amo esse aqui, ó, o Capitão América, sabia que ele é meu marido? Ele é bem gost... digo, adoro esse negócio que ele usa, esse escudo para qualquer cois... eer, qual teu favorito?

- Hum... o Bat... acho que o Homem de Ferro! Ah, e também esse, ó...

- Quem é esse? 

- É o Vegeta.

- Hã? Não sei quem é.  

- É do Dragon Ball, é um desen...

- Ewww, odeio desenho japonês... é japonês, né?

- Por que tu não gosta?

- É.. é que a prima é chata com desenho. A prima é chata com um monte de coisa, mas isso não vem ao caso agora. 

- E aquele ali que tá passando na televisão tu gosta, prima?

- Olha, er... não é do meu tempo.


Quando se começa a usar expressões como ''não é do meu tempo'', é porque fodeu muito.


- Eu gosto do Pica-Pau, Tom e Jerry, Fantástico mundo de Bobby, DÊNIS, O PIMENTINHA!!! Meu Deeeeeeus, o Dênis, lembra, mãe? Eu assistia na Eliana!!!


Silêncio.


- Mas, vem cá, e do Super Homem tu não falou... é o teu homenzinho mais bonito... (pega o boneco e imita uma pessoa voando pelos ares vuuuummm) sabia que ele é jornalista como a prima? Ele trabalha no Planet...

- Jornalista? Ele entrega jornal?

- Mooorta. É, é bem parecido com isso. Meow, meow, amorzinho lindo, vem cá, existe criança mais linda nesse mundoooooooooooo?

- Eu sou a criança mais linda do mundo?

- Não, amore, é o meu gato... ó, ele entrou ali na porta. 






                                                              Magoei







quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Annie Hall - um curioso purgatório

Nunca dei a mínima para Woody Allen e quando vieram à tona aquelas acusações de abuso sexual contra sua persona, aí é que piorou: minha indiferença virou um singelo nojinho. Só que eu adoro Diane Keaton, sabe? Andei dando uma lida em sua biografia e decidi que tinha que ver o filme responsável pelo único Oscar de melhor atriz que repousa em sua estante. Foi aí que, uns dias atrás e com vários anos de atraso, habemus Annie Hall (1977), dirigido pelo dito-cujo. 
Chato. Chatíssimo. Insurportável. Me arrastei horas em algo que, tirando os créditos, dura somente 86 minutos, fato que me deixou intrigada, porque muitos dos diálogos são interessantíssimos - vá lá, algumas tiradas do judeu de caráter duvidoso têm seu valor. Não vou me ater a especificações técnicas que domino pouco ou quase nada, mas é como se o filme não tivesse ritmo. A sensação que me deu é que estava espiando da janela esquetes de um casal tedioso e improvável - improvável porque os dois não têm química alguma. Esquetes não, me corrijo, porque eles não fingem, talvez isso seja só a vida que parece se repetir tão assombrosamente com todos os mortais. Na história, Alvy Singer (Allen) é um humorista em crise de meia-idade que nos conta sobre seu rompimento com a aprendiz de cantora Annie (Keaton), e como foi a relação deles até ali. A partir daí, somos brindados com passagens do romance dos dois: como se conheceram, a tortura da primeira conversa disfarçando a tensão sexual e o fato de que ninguém é tão interessante olhando no olho, primeiro beijo, primeiras viagens, bobagenzinhas de casais, enfim, isso pode soar muito romântico, mas que nada... um amontoado de irritação para Brunas. O mais legal é que estou vociferando contra uma película ganhadora do Oscar, ou seja, muito provavelmente a chata seja eu. Quem sou eu para difamar um vencedor de melhor filme, não é mesmo? São questões...
Devo confessar, contudo, que ri bem de umas frases ótimas com que o noivo neurótico se saiu enquanto eu encarava o purgatório. O monólogo na livraria (que homenzinho mais presunçoso!!!) explicando a uma enfadada Annie as misérias de existir me arrancou um berro, mas um berro... não que eu me orgulhe, claro, porque é horrível. Seu esforço nulo em ser uma pessoa agradável e prafrentex, como quando sugerem que ele experimente cocaína, por exemplo, e ele só consegue ser lacônico, também mexeu de verdade com meu humor, estranho humor. Foi aí que me dei conta, chorando por dentro: eu sou muito Alvy Singer na vida. Somos irmãos de alma. Enfim, sigo achando toda a coisa muito sofrível, mas algo acabou sendo cutucado dentro de mim. Que merda, eu odeio Woody Allen.


                          Não deu, miga, mas sigo sendo fã sua e deste look maravi




Auxiliou no post: 

Sound and vision - David Bowie








  

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

Homens de família

Estava eu bem concentrada lendo quando a frase me fulminou. Eram Jorge e Juliano. Ou Henrique e Zé Frederico. Talvez Bruninho e Mateus. Não sei, algum desses, sabe como é, é difícil acompanhá-los uma vez que fazem mitose. Mas me lembro exatamente do que cantavam longinquamente no rádio:   

E nessa vida agora somos dois, três, quatro
Quantos você quiser............


Quantos você quiser? Como assim? Não é segredo que os sertanejos vivem numa bolha de opulência e almoçam raviolis em forma de cifrão, mas quantos você quiser? Haja amor, hein? Cheguei a parar o que fazia, rindo sozinha uns segundos. ''Isso não tem o menor sentido'', bradava enquanto batia a cabeça na parede. Quem em sã consciência cogitaria pronome indefinido em um país como o nosso? Cadê o senso de realidade dessa gente? Vocês viram quanto tem custado um pacote de fralda? Para tudo, literalmente, acabar em merda? Ora quantos você quiser, isso não tem lógica para o brasileiro médio. 
Acho muito curioso também como não basta só amar, tem que procriar. Vamo procriar! É o hobby do sertanejo universitário. Para sossegar, só tendo uma prole. Nada contra, claro, mas acho a dicotomia muito gozada - sem trocadilho. Gusttavo Lima e Você, por exemplo, trocou o bar pela sorveteria. No dia em que ele descobrir que é possível casar sem se enterrar vivo, vai ser um choque.  





Auxiliou no post: 

Hard to handle - The Black Crowes