terça-feira, 17 de outubro de 2017

Eu só penso nisso

Como é que eu vou te explicar?
Essa vontade louca
Muito louca
Eu posso falar?


Eu preciso disso, eu sou louca por isso, eu não vivo sem isso. Gatos. Eu preciso de gatos. Eu vivo para ver vídeos de gatos fazendo gatices. No meu Instagram só dá gatos. Por que seguir blogueiras, se eu posso seguir perfis de gatos? Os feeds da minha vida se alimentam de gatos. Gatinhos. Filhotes. Gatos, gatos, gatos, eu preciso ver gatos, apertar gatos, esmagar gatos, beijar gatos. Gatos me ajudam a viver. Gatos me dão motivos para sorrir. Gatos transformam dias merda em dias merda com poesia. Eu mudo meu trajeto diário para encontrar gatos alheios. Quando eu encontro a Belinha no centro, meu coração dispara. Que vitrine o quê, meu coração só enxerga aquela gata linda e ronronenta de três cores!!! Ela sabe que eu a amo e dá cabeçadinhas em mim. O meu dia melhora 78,34%.   
Eu preciso de gatos assim como Humphrey Bogart precisava de cigarros. Assim como Maria Callas precisava de Aristóteles Onassis, aquele grego insensível. Preciso de gatos como confeiteiras precisam de Nutella e Leite Ninho. Preciso de gatos como o ser humano moderno precisa de tomadas e wi-fi. Preciso de gatos como tias precisam dar bom dia no Whatsapp. Preciso de gatos como Sid Vicious precisava de heroína. Preciso de gatos como Portinari precisava de suas tintas, como Freddie Mercury precisava dos palcos. Preciso de gatos como os sertanejos precisam de calças de couro apertadas, como o Gusttavo Lima precisa de você, como o Marcos e o Belutti precisam te perturbar domingo de manhã. Preciso de gatos como os poetas precisam da primavera, como Chico Buarque precisa da paixão, como Neruda precisava da doçura, como Drummond precisava da realidade implacável, como Fellini precisava do niilismo, como Machado de Assis precisava do deboche, como Quentin Tarantino precisa de sangue e diálogos surreais. Preciso de gatos como os apaixonados precisam de olhares interessados. Preciso de gatos como preciso de amor. Redundância... ambos são a mesma coisa.     





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Crazy feeling - Lou Reed







segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Toques e camas elásticas

E eu que comecei o dia ouvindo I touch myself, do Divinyls? Tenho uma relação bizarra com essa música, escutei no rádio uma vez quando era novinha e fiquei possuída pelo ritmo ragatanga. MINHA MÚSICAAAAAAAAA, NINGUÉM SAI
Aí, anos mais tarde, vi ela ser tocada - perdão pelo trocadilho involuntário - na entrada triunfal de uma formanda numa colação de grau que prestigiei - estafada, claro, porque todas as colações são, sem exceção, estafantes. Não tive dúvidas: seria minha entrada triunfal idem quando chegasse o momento. Num janeiro de calor escaldante, lá fui eu desfilar de toga com Divinyls, sem querer, erotizando o ambiente. Percebam o ridículo semiótico da situação. Até então, esta mente casta que vos fala não tinha ideia do que tratava a música, muito embora as pistas estivessem todas ali gritando. Ri loucamente quando me liguei - a perdida do Direito que me inspirou deve ter tido a mesma experiência, convenhamos. Enquanto meus colegas curtiam seu momento único e ególatra com musiquinhas que falavam de superação, resiliência, inspirações, eu..... hum, eu tocava o coraçãozinho dos presentes. When I think about you, I touch myself. Bonitinha a mensagem, aproveitem os toques. 

Duas da tarde. Crianças esbaforidas correm de um lado para o outro. Paro em frente a uma cama elástica onde algumas delas se regozijam, pois como não se regozijar pulando adoidado sem preocupação de que se vai cair? Pobrezinhas, mal sabem os penhascos que as aguardam. Paro ali e fico olhando os anjinhos tão celestes num recanto especialmente invejoso. Eu quero ser uma delas. Eu quero pular adoidado também. Eu quero invadir esta linda caminha elástica e pular tudo a que tenho direito. Nesse momento, eu já sinto minha testa suar e acho que sou Patrick Bateman naquela cena em que este peculiar animal contempla os cartões de visita dos colegas terem sido muito mais bem feitos que o seu. Um yuppie convicto e uma yuppie sem escolha não sabendo lidar com a inveja que os consome e com o transe mental que veio como um tufão. Santo Christian Bale, que horror de comparação! Mas ilustra bem. Sim, oh, sim, baby, eu quero camas elásticas em esquinas espalhadas pela cidade para que toda alma atordoada pule o que precisa pular. Eu quero, eu preciso. Eu quero leis exigindo que nos expedientes haja camas elásticas para todo o chão de fábrica. Eu quero pular, porra, eu quero pular. Saí dali e fui pegar uma cerveja - a cama elástica do adulto médio. Sejam felizes, pirralhos. Enquanto podem pular sem medo de cair. 










quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Onde não puderes citar não te demores

Deve ser um carma de outra vida, não é possível. Eu devo ter sido uma escritora decadente do século XIX - sabe aquela pessoa azeda que foi tão ridicularizada quando tentava vender suas misérias escritas e morreu com um osso de ódio entalado na garganta? Deve ser, porque basta eu ver uma frasezinha com autoria estapafúrdia para eu girar minha metralhadora cheia de mágoas. Sabe aquela frase óbvia que qualquer zé com alguma experiência de vida já disse, e o pessoal ama compartilhar como palavra da salvação dita por alguém com sobrenome difícil de pronunciar? Nossa, que ódio. Eu sei que elas são, na maioria das vezes, verdadeiras e providenciais, mas sabe? Enche o saco, ninguém aguenta - principalmente quem leu as pessoas em questão e sabe que não foram elas que se saíram com tais pílulas de sabedoria.  
Não é o fim do mundo, cada um dá vazão ao que quiser, mas em dias em que cada vez mais a autenticidade perde espaço, em que ninguém mais sabe a veracidade de nada, fica feio para você, fulaninho. Você que se gaba de ter mil formações, mas não sabe que não foi o Jô Soares que falou aquele monte de merda. Já viram como o pessoal tem pira com o Jô Soares? O Jô e o Bial, claro, os preferidos. Bial é o filósofo de praxe da minha linha do tempo - não tem um dia em que eu não leia alguma passagem reconfortante dele. De Pedro, o mensageiro preferido das mazelas do amor ferido em montagens tão ridículas quanto comoventes. Aposto que ele e José Eugênio passam tardes rindo das baboseiras que lhes atribuem com uma bacia de pipoca a tiracolo. Mentira, eles devem se foder para isso; trouxa sou eu que me importo com a propriedade intelectual e com vocês passando vergonha na internet. Boba sou eu, só eu que sinto gasturas infinitas com selfies com frase do Kafka atribuídas, sei lá, ao Arnaldo Jabor!!!! Velho, o Kafka pode voltar do além mais atormentado ainda e puxar o pé de vocês! Eu teria medo - não façam isso com o Nietzsche, por exemplo.  
Não é querer pagar de conhecedora profunda de frases e autores e etc, até porque não conheço (tem tanta gente boa que nem cheguei perto de ler que só de pensar me dá uma aflição e essa catarse fica para outro post!!!), mas aqui sugiro uma saída simples: se não conheço, não cito. É indolor e digno. E se não tenho certeza de algo, não propago ignorância - que ignorar não tem nada demais também, não somos obrigados a conhecer tudo (lembre-se: se você é um idiota, seguirá sendo um idiota, apenas com boas referências). Não sei se é porque escrevo também, mas me coloco na pele do desgraçado que levou horas para se sair com aquele trecho bonito, brilhante e maduro - aquele parto no árduo processo de escrever -, e acabou vendo seu trabalho valer nada. Quem disse isso? Ah, deve ter sido o Carpinejar, põe o Carpinejar, ele tá em todas. E a memória do Mário Quintana lá agonizando, dizimada pela esmagadora força dos compartilhamentos da página ''Frases e Versos''. Tenha dó!
''Onde não puderes amar não te demores'' - Frida Kahlo.
Ou Ivete Sangalo.
Ou Einstein.
Ou Princesa Isabel.
Já vi tantas autorias por aí que desisti. Deixem a coitada da frase ser linda em silêncio, eu imploro.



                               Tu disse isso ou não, mulher??? Eu preciso saberrrr











segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Su deboche es mi deboche

Terminei, há uns dias meses, o último livro da ótima Tati Bernardi, aquela moça que meio mundo ama incluir em suas selfies, muito embora a maioria daquelas frases toscas não sejam de autoria da roteirista - palavras da mesma. Pois Tati, que fez de seu transtorno psicológico matéria-prima para muitas de suas genialidades, me fez rir quase convulsionada com o hilariante - porém não menos denso - Depois a louca sou eu. Eu simplesmente cheguei ao cúmulo de parar a leitura e, entre risos histéricos, repetir para mim mesma: ''ela não pode ter escrito issoooooooo''. Pois não é que escreveu? E escreveu muito bem (putaquepariu, um texto bem escrito é a minha Disney!!!). É um tom confessional delicioso e intimista, é quase como se eu quisesse abraçar Tatiane e dizer que também já estive ali - estaremos sempre algumas vezes na vida porque esses dilemas psicológicos são dificílimos de desgrudar. Talvez não desgrudem nunca.
Foi um deleite ver a escritora revelar seus piores dramas - por mais insensível que isso pareça - em forma de pequenos devaneios carregados de sutileza ímpar. Eis uma conclusão a que cheguei: ou você nasce escrevendo bem ou não escreve. Ou você carrega essa inquietação genuína na alma ou não carrega. Ou você deixa as palavras irem casando, se completando, fazendo sentido e doendo em você ou não deixa. Isso não se aprende, não existe curso que ensine. Ou está ali incomodando e pedindo para virar arte ou não está. Tati, que já detestei por conta das abobrinhas que jura não ter escrito (coitada, se ela ler o Pensador, vai ter uma síncope com as pérolas), me fez sua irmã, me fez sua confidente. E, incondicionalmente, admiradora ao ver que tudo está ali somatizado nela. Os nossos corpos doem demais.
O drama de se descobrir, muito nova, uma criança ansiosa e ter sofrido com a falta de tato dos adultos para perceberem isso - tão ocupados sendo adultos. O medo de ser ela mesma, o medo de sentir medo, o medo que paralisa os amores e as relações, o medo de aeroportos, o medo de conviver com gente má - e boa demais, o medo de pegar avião, o medo de parar de fazer sentido, o medo de vomitar, o medo de não ter controle sobre si mesma, o medo de se ausentar de casa, o medo do exagero, o medo de doer algo que não se sabe o que é, o medo de não ter aproveitado o suficiente, o medo de viver, o medo de morrer, o medo de ser irremediavelmente humana e toda a sorte de acontecimentos que isso traz - tudo, tudo se aninha ali com muita humanidade. Estamos ferrados. Poeticamente ferrados, fellas. Bonitinho, né... mas que gastura. Viver dá gastura.  
Em suma, é um livro gostosíssimo - principalmente para quem enfrenta a dor e a delícia de ser um ansioso crônico -, pois ela narra variadas circunstâncias inerentes a nós (vocês já sacaram que somos uma seita, né?) com uma sensibilidade adorável e um humor cirúrgico. Eu, que amo um sarcasmo bem feito, fiquei maravilhada. Eu, que amo ler gente talentosa, fiquei inspiradíssima. Eu, que me vi retratadíssima naquelas páginas, cheguei até a ficar melancólica em alguns momentos, mas nada que tenha me feito desistir da leitura, afinal, estamos falando do meu mais novo vício literário da crônica brasileira. Vida longa, sua debochada. Su deboche es mi deboche.   






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I'm think I'm paranoid - Garbage









terça-feira, 26 de setembro de 2017

Curtinhas catárticas

Eu só queria comprar uma camiseta branca. Branca, verde, vermelha, qualquer cor. Uma fucking camiseta simples. Dessas que, outrora, James Dean exibia em Juventude Transviada. Uma camisetinha simples, fuleira, dessas que com 20 golpinhos se compram. UMA PORRA DE UMA CAMISETA IRRISÓRIA PARA TRABALHAR. Sem frescuras. Sem babados. Sem detalhes assimétricos. Sem frases em inglês que não fazem o menor sentido. Sem modismos à la Kendall Jenner - ou qualquer uma dessas imbecis com dinheiro que vocês amam idolatrar. Só uma reles camisetinha de algodão. Sabe o que é revirar as gôndolas da vida e não achar uma camiseta assim, amigo do terceiro mundo? Peloamordedeus, a simplicidade virou artigo de luxo mesmo. Cá estou, vestindo uma camiseta com uma frase ridícula em inglês e uma choker embutida. Vão tomar no cu. 


Eis que me deparo com uma foto daquela fofinha de Stranger Things, a Millie Bobby Brown, em uma pose questionável com emojis de fogueirinha em plena luz do dia no Instagram - aquela desgraça diária. Que que é isso, meu povo????? Vocês perderam a noção de tudo na vida? Aquela menina tem 13 anos. TREZE ANOS. TREZE FUCKING ANOS. Ela é criança, sabe? Parem, por tudo que é mais sagrado, de sexualizar meninas novas. De comentar sobre elas como possíveis interesses amorosos, de assediá-las na rede, de tratá-las como ADULTAS. Essa cultura da ''novinha'' é uma lástima, um horror. Qual é? Vocês são pedófilos, sabiam? Nojo define. Pais e mães, protejam suas meninas - não porque vocês não confiam na educação que lhes dispensaram, mas porque o mundo anda doente mesmo. Criança não tem que ser shippada com ninguém. Criança tem que ser criança, custa entender o óbvio?


Eu não aguento mais blogueiras. Eu não aguento mais digital influencers. Eu não aguento mais gente comum e sem nada de útil a acrescentar agindo como se fosse blogueira e digital influencer. Eu não aguento mais elas pulando nos feeds da minha existência como piruás indesejáveis que não foram chamados na bacia de pipoca. Sumam da minha vista! Sai, não quero comprar cinta para esmagar o estômago. Sai, não quero dicas questionáveis de alimentação e bem-estar - vai saber se vocês não andam vomitando tudo que comem, não? Não quero saber que as maquiou, quem as vestiu, quem as assessorou, quem puxou o saco delas até saírem perfeitas em fotos que não condizem com a realidade. Claro, claro, no fundo isso é inveja reprimida porque, sim, eu queria ser Pugliesi, eu desejo ardentemente ser Pugliesi - inclusive, pasmem, eu fiz como Meryl Streep em A morte lhe cai bem e encomendei uma poção mágica para ficar com a mesma cara de sonsa que ela.






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The less I know the better - Tame Impala (seria meu sonho?)







  

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Eu tenho riniteeeeee!

Eu nunca vou enfiar essa merda no nariz! Eu tenho riniteeeeee! Essa sou eu dizendo que nunca vou usar cocaína. Nunca, nunquinha, é nojento demais. Como que conseguem aspirar aquele pó de origem duvidosa narinas adentro com a alma leve, despreocupada? Assim, eu até queria sentir a loucura e a vibe, mas nasci muito cagona para experimentar. E cheia de rinite. Rinites infinitas e desconhecidas habitando esse narizinho lindo. Deus me livre. Não, leitor, isso não é uma versão piorada daquela propaganda bizarra da Eliana, nos anos 90, dizendo para você abrir a mão e dizer não às drogas - tampouco uma mensagem patrocinada pelo PROERD. Sou só eu, vida saudável afundada em ansiolíticos, dissertando sobre o tema após gritar a sentença acima em meio a umas 20 pessoas desconhecidas, bota micão
E os hippies, hein? Como conseguiam sair se picando adoidado nos anos 60 com aquelas agulhas pavorosas? Amigo, se eu vejo uma agulha já saio correndo. Já não é mais fobia, é algo sem nome. Adoraria, entretanto, ser um deles. O dress code? Amo, sou entusiasta, calça flare, vem ni mim. Viver pelada em cachoeiras? Fechou. Escutar rock progressivo e foder loucamente com um mozinho ou com vários mozinhos? Me parece ótimo. Protestar contra a matança americana no Vietnã e a ganância do capital? Contem comigo. Injetar coisinhas nos braços? Jura, sai fora, ewwww. LSD, também penso que não teria muita morada nesse corpo atucanado. Eu ia entrar na bad trip antes mesmo de usar o causador da bad trip, cer-te-za, é a minha cara. Ai, meu Deus, eu tô vendo o John Lennon, é ele!!!!! Bruna, calma, é só uma mancha na parede. Pensando bem... sairiam uns textos muito loucos com a ajuda do ácido do mal, isso é inegável. Se relativamente sóbria já escrevo brilhantemente (kkkkkk tá, parei), imaginem piradíssima? Talvez até o romance que está entalado na minha garganta e sabe-se lá por que caralhos não consigo pôr para fora saísse da gaveta.
Quanto à maconha, que me parece ser uma das mais inofensivas no rol das cabulosas... não sei, não me apetece numa totalidade. Ao mesmo tempo em que viver viajando na maionese - porque eu simplesmente vivo numa viagem paralela na maionese - me parece gostosinho, já me enerva porque tenha dó, que cheiro insuportável, como assim todo dia? Nada contra, tenho até amigos que são, mas me ajudem a ajudar vocês: sair se vangloriando de ser usuário enquanto o discurso proibicionista segue matando pessoas inocentes com fuzis em bairros miseráveis não me parece muito digno. Nem transcendental, rascunho de Bob, tira a legendinha ridícula da foto por favor.
E pensar que esse texto tomou forma quando gritei, a plenos pulmões e cerveja correndo nas veias, a frase que certamente não me faria amiga íntima do Cartel de Medellín... nunca tinha escrito nada aqui sobre o assunto, mas considero relevante tratá-lo com seriedade e discuti-lo, a fim de que mais vidas sejam preservadas - dos apartamentos da zona sul às favelas. Droga por droga, seguirei com as minhas, aquelas bonitinhas - e talvez tão perversas quanto - que eu compro com receita. Isso, citalopram, assim... hummmmm, que delícia, já vejo unicórnios.


                             Que velho do saco o quê! Nos anos 90 temíamos Eliana










quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Fogo no rabo

O sono é feroz, domina, e a preguiça, lancinante, puxa seus membros fatigados para qualquer lugar em que se possa ficar apoiado. Mas é sábado e você combinou de ver seus amigos - e o pior é que em algum nível do seu coração você quer realmente vê-los. O que você não quer é se locomover, então você faz o que qualquer filho da puta já fez alguma vez na vida: enrola. Enrola pra caralho. A vida como ela é. 
''Aposto que se o fulaninho fosse, já estaria lá''. Tão verdade que não consegui nem disfarçar o sorriso cheio de dentes. Se fulaninho estivesse lá, eu já estaria lá antes de ser. Se fulaninho vem, por exemplo, às quatro da tarde, desde as dez da manhã eu estarei experimentando calcinhas. Refletindo sobre isso, parei uns minutos... e me saí, resignada, com uma ótima, como se tivesse um cigarro no canto no boca e fosse Nelson Rodrigues: ''o fogo no rabo é uma vontade inabalável''. Não que eu não sinta fogo no rabo por meus amigos queridos, mas definitivamente naquela noite tudo que eu queria me entregar aos braços dele, do sono - a não ser, claro, que fulaninho estivesse por lá. Fulaninho, naquela noite, detinha todo meu fogo no rabo. Um fogo no rabo intransferível e ensandecedor. Fiquei meio desconcertada, claro, com o diretaço na cara, mas depois caí em mim e vi que era verdade: o bom de amizades sólidas é que as fraquezas são partilhadas de forma muito humana, além de serem mais fáceis de serem absolvidas - não esperem isso de amigos baratos e de alguns poucos meses. Quem nunca quis dar um chá de sumiço nos amigos e se entregar aos fulaninhos da vida numa noite de lua cheia que atire a primeira pedra. Todos culpados aqui, sem direito à fiança.
Acabei não indo vê-los naquela noite, confesso. Primeiro, porque sou uma cretina. Segundo, porque merecerei o ostracismo eterno quando todos os fulaninhos me meterem chifres absurdos, eu sei. Faltou algo além de um mero rascunho de querer, faltou fogo no rabo, faltou ímpeto, faltou paixão. Ah... mas se fulaninho estivesse lá, certamente o coração vagabundo teria até saído de havaianas. Vestido somente de chinelos e vontades. Entrando numa seara mais filosófica, poderíamos definir fogo no rabo como o além da vontade, aquilo que nos motiva a ir um pouco mais, até porque querer... bom, querer, todos queremos um monte de coisas. Mas o fogo no rabo é para aqueles momentos bem especiais - o fogo no rabo é o que faz as coisas acontecerem, é quando os desejos independem de destino. De fulaninhos a conquistas pessoais mais mundanas, o fogo no rabo perpassa tudo na vida. A vida como ela é. Nelson me deu um tapinha nas costas e disse: não se torture, menina, eles também são assim.


  


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Sunrise - Norah Jones







domingo, 13 de agosto de 2017

Um pai que rasga encartes de propaganda

Meu pai e eu não poderíamos ser mais diferentes. Eu sou gremista, ele, colorado; Eu gosto de rock e amo um enlatado americano - como ele chama -, ele só ouve música de raiz - como também chama. É tão tradicionalista que chega a dar nojo. Um nojo poético, digamos. Ele é liberal convicto, eu flerto com várias saladas políticas, muito apesar de ter um ímpeto de Voltaire que me seduz. Ele, apesar de ser um baita cérebro, ama uma sessão indolor de Datenas e Rodrigos Faros - este último em pleno domingo, é mole? Já eu prefiro enfiar a cabeça numa betoneira a acompanhar a empreitada. Só que ele entende de arrobas e de bushels, fala de economia e deixa meio mundo calado - já eu, só sei que, felizmente, essas coisas me alimentaram a vida inteira. Perdão por não gostar do que faz seus olhos brilharem, pai. Um homem do campo pai de uma pseudo-patricete-urbana meio desmioladinha... é, a vida prega peças. 
Ele é tão canceriano que chega a dar raiva - tão chantagista emocional, tão de lua, tão doído de suas dores genuínas - ai de mim se falar algo desviado, a criatura vai jogar aquilo na minha cara por dias. Papai, você é meu inferno astral - e, como vocês sabem, só num inferno se encontra redenção. Papai, você é a minha, você calma meu coração com um talento que me comove. Te amo tanto que sinto meu músculo cardíaco agoniado. 
Muito embora eu odeie mortalmente essas datas comerciais (como eu odeio!!!!!!!), elas entram sorrateiramente no seu inconsciente e você se pega pensando nas pessoas capitalizadas e homenageadas em questão. E pensando sobre a relação longe de ser perfeita que mantenho com esse paizinho, eu também vejo que somos tão iguais no fundo. Chego a rir sozinha ao me ver ocultando tudo - t u d o - que é anúncio no Instagram. Fugindo de marcações de promoções no Facebook - já viram flyer de festa na minha página outorgando que eu vá àquele inferninho, porque é a festança do século? Nem verão, porque eu simplesmente bloqueio esses senhores. Se eu quiser festa, eu procuro, sim? Sai daqui com essa propaganda invasiva de merda. Ai, eu sou tão papai. Uma das lembranças mais ricas que tenho dele na infância é a de chegar com seu suplemento robusto de jornais (um aficionado por jornais e revistas desde sempre, e eis-me aqui jornalista) e de rasgar, um por um, os encartes de lojas variadas que vinham encobertos pelas notícias da zêagá dominical. Uma grosseria, claro, talvez até digna de internação para uns; Para mim, poesia. Ali meus olhos brilhavam e eu via que tinha um pai de personalidade, jamais um ser humano comum. Logo, cresci e me tornei essa moça adorável que rasga anúncios assim que os recebe. Deixa eu tentar ser feliz com essa caralha de sapato que eu já tenho, por favorrrrrr. Dois corações unidos pelo ódio ao que querem nos enfiar goela abaixo é amor demais, é amor que perpassa a vida. 
Jamais um ser humano comum. Em hipótese nenhuma, um ser humano comum. Meu pai cativa ou provoca náusea, nunca indiferença. Creio ser igualzinha. Temos nossas diferenças, mas bem no fim o que sobra é o amor, o zelo, a admiração, a criação - nunca esqueçam que a criação é uma das coisas mais fortes de que um ser humano é feito. E da minha eu me orgulho imensamente. Eu me orgulho imensamente de rasgar encartes de propagandas pois você me fez assim, paizinho. Ninguém mandou criar uma filha bem dona do próprio nariz.  



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Ode to my family - The Cranberries








quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mãe de pet

Até eu, que eu sou uma doente descontrolada por gatinhos e afins, tenho um pingo de noção ao me intitular ''mãe'' dos meus bichinhos. Por favorzinho, sim? Nós não somos mães porcaria nenhuma - no máximo, tutoras babonas que amam seus peludinhos e zelam pelo bem estar deles, o que não me parece ser digno de medalha. Há tempos, venho pensando sobre isso e tenho me incomodado com a denominação. Mãe de cachorro também é mãe. Mãe de pet é mãe, sim. Qual é? Em maio último, foi uma enxurrada desse tipo de pérola nas timelines que, a duras penas, mantenho. Eu queria me matar. Aí eu fiquei dias e dias matutando: mas será que eu vou ter que escrever uma baboseira das minhas para dizer o óbvio? Que vocês NÃO são mães? Que vocês estão sendo ridículas e egoístas ao saírem se proclamando guerreiras por cuidarem de um animalzinho? Pelo jeito, sim. Então comecemos pelo começo, como diria o outro lá. 
Mãe de pet não deixa de fazer nada em sua vida por conta de seus ''filhos'' - no máximo, ela vai atrasar seus afazeres, arrumar uma brecha para algo mais urgente em relação à prole peluda, mas, ainda assim, não me recordo de mulheres que não conseguiram dormir uma noite inteira por conta deles. Mãe de pet não vê os cabelos embranquecerem de dúvidas, angústias e medos sobre a educação dispensada àquele serzinho que parece fazer o contrário de tudo que foi pedido. Mãe de pet não sente as mamas doloridas em virtude de torturantes sessões de amamentação. Mãe de pet pode sair no sábado à noite sem medo de ser julgada. E beber todas, afinal, no fundo ela sabe que não é mãe porra nenhuma.
Mãe de pet não sente a corrosiva ação dos hormônios no organismo, na pele, no cérebro, na alma após dar à luz - e meses a fio depois. Mãe de pet não tem depressão pós-parto. Mãe de pet não vê seu corpo passar por mudanças que mutilam, muitas vezes, sua autoestima e desejo por si mesma. Mãe de pet não comunga do alimento que ajuda a desenvolver sua cria. Mãe de pet não sabe o que é passar dias e dias sem poder comer devido a enjoos, andar devido a dores diversas, viver devido a questionamentos que paralisam o semblante. Se vocês, literalmente, não vomitaram pelos filhos de vocês, tenham a dignidade de não se outorgarem mães com tanta veemência.
É bonitinho ter um bichinho, é uma delícia - eu amo, sou fascinada. Mas, nunca, nem na minha quinta loucura, vou sair esbravejando que sou mãe, sim, ora pois!!!! Eu não educo ninguém, não perco o sono por ninguém, não me questiono dia e noite se estou fazendo um bom trabalho, não sofro com os noticiários e o mundo horripilante onde meus rebentos terão de viver após saírem da minha asa, não me apavoro com os preços dos alimentos, das fraldas, das roupas, dos materiais escolares. No máximo, eu curto essa paixão que é ter um companheirinho, um alento que ronrona em dias tenebrosos e me auxilia na tarefa pedregosa de seguir. Chamo os meus de filhinhos, claro, como não? - é mais forte que eu. Mas tomo o cuidado mínimo para não passar por imbecil: ao menor sinal de comparação esdrúxula, eu calo a boca.


                                                         Sacou, idiota?









terça-feira, 1 de agosto de 2017

Orgulho trouxa

Sabe aquele tipo de pessoa que se dá importância demais? Que se ofende se você não procura, não implora por ela, não se ajoelha para sair com ela, para vê-la? Não sejam assim. Ou sejam, claro, mas não cruzem meu caminho - que cansaço! Assim, eu sei que todos somos importantes num plano circunstancial abaixo do Equador, mas sugiro não alimentarem a ideia de que são insubstituíveis, imprescindíveis tanto tanto tanto assim. Que preguiça. 
Trata-se de uma cosita que me rouba algumas horas de sono sempre. Ser ou não ser assim tão disponível para amores, crushs, amigos, irmãos, gatos, papagaios, pessoas em geral? Se muito solícitos, muito trouxas, muito servis, com tão poucas ocupações e por isso tão pouco interessantes? Se pouco solícitos, mais passíveis de sermos disputados? Não é uma equação tão infundada assim, pensem comigo. Os manuais de relações humanas sempre dissertam sobre o tema. Não procure quem não procura você, não se apegue, seja frio, pessoas gostam do que não têm, blá, blá, blá, roinczzzzzzzzz, mas aí é que reside nosso dilema maior: muitas vezes você não está tão à vontade com esse gelo estratégico, não está agindo conforme seu desejo genuíno - e isso é sempre meio péssimo. Ligue se tiver vontade, chame se quiser - pena você tem que sentir de quem não quis sua companhia. 
Ninguém gosta de ser segunda opção, eu sei - eu menos, argh leonismo do mal -, masssss talvez seja necessário cultivar sentimentos mais desapegados de convenções se quisermos momentos realmente felizes com quem nos é caro. Até porque, aqui vai uma verdade: não tem como dar atenção para tudo nessa vida, caras. É cruel, mas vale a pena se acostumar com as inconstâncias dos momentos, das paisagens, do tempo. Alguém vai ser lesado, você vai se lesar idem. Cheguei à conclusão quando dei de cara, esses dias, com uma amiga ao encontrar outra amiga para tomar um café, enquanto lembrava que tinha hora no dentista e cogitava uma passadinha na minha avó. Tempo é artigo de luxo hoje em dia. 
Fico dias, meses, eras, sem conversar com alguns amigos e adivinha? Quando nos encontramos, exceto raros casos, é sempre a mesma delícia - ouso dizer que é porque algo muito forte foi sedimentado no passado: ritos de passagem são sempre mais implacáveis perante o correr dos anos. Já em se tratando dessas ladainhas pseudorromânticas (coisa linda ter que dobrar o r graças a esse acordo ortográfico idiota, não?) em que nos metemos, é sempre uma estafa mental não poder ser a gente mesmo quando o inconsciente grita, ''vou deixar esse cretino no vácuo só mais uns 15 minutinhos mesmo que eu esteja gangrenando de vontades impublicáveis''. Haja saco, hein? Se me chamar eu vou, se me ligar estou pronta em 10 minutos - ok, 2 horas -, se quiser me ver estou à disposição. Não me dou importância mesmo, sou uma trouxona, décima quinta opção, a renegada do quinto signo do zodíaco, o limbo. Porém, penso ser mais feliz do que muita gente inacessível por aí. Você não perde quando tenta oferecer, só ganha. Ganha, sim, vai por mim.  





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I don't want to grow up - Ramones









sábado, 22 de julho de 2017

You're gonna hear me roar

Neste dia até o sol estava brilhando mais, não? Sim, ele entrou em Leão. De 22 de julho a 22 de agosto, uma espécie de magia começa a pairar nas esquinas, no céu, nos olhos por aí... quem não nasceu leonino que aguente, né, mores?  
Salve nossa autoestima sempre! Amém, felinos! Tô com medo do inferno astral? Claro, como não? Mas vamos emanar amor e calor aos corações gelados, que tudo se ajeita. 
(Hoje eu só vou escrever merda - não que eu não escreva sempre, mas hoje estou optando deliberadamente pela merda, divirtam-se.)  

Por muito tempo reneguei meu leonismo, achava-o fútil, bobinho... lia as descrições nas revistas e fazia um muxoxo: mas nunca que isso sou eu, wtf? Só que quer saber? Eu gosto de elogio mesmo, sou uma gatinha manhosa pronta para derreter de amores e gratidão. Gosto de me arrumar mesmo! Aprecio coisas bonitas, porém detesto esnobismo - é possível gostar de um sem se corromper pelo outro, sabiam? Tenho um coração puro e bobo, que acredita, a duras penas, no bem e na bondade. Gosto de fazer a diferença na vida de quem me rodeia, sacam? Ganho meu dia se consigo ajudar alguém, qualquer alguém - até ajudar uma senhora idosa a atravessar uma rua movimentada. Mas ganho meu dia idem quando encontro uma promoção de calças jeans pois ninguém é de ferro - e eu que não quero ser, tem muito sangue correndo aqui, seria um desperdício. Amo minha juba, meus cabelos são minha inspiração - sou um Sansão de saias. Sou extrovertida mesmo, sou efusiva mesmo, converso não só encostando em ti, como tocando na tua alma - profundidade me agrada. Penso que, quando me conhecem, ou me odeiam ou me amam de cara. Não deixo margem para dúvidas. E sou egoísta, não divido doces, me escondo para comê-los. 
Sou empolgada com o que me tira do prumo - gatinhos, cerveja com minhas amigas lindas, músicas boas, homens gostosos que não valem nada, barbas ralinhas, coisas criativas e instigantes, textos bem escritos e vocativos corretos, conhecimento, biografias, gente interessante, dias bonitos, etc - e não sei não me empolgar com qualquer porcaria diferente com que meus olhos cruzem. Sou assim, um ser humano empolgado, falador de abobrinhas em demasia. E luto constantemente para meu lado escuro e pouco iluminado não dominar meus pensamentos. Sou barulhenta e esbarro em qualquer coisa inanimada, é o meu charminho. Sou perdida, perdidaça, vivo na minha própria galáxia. Odeio, odeio - puta merda, como eu odeio - gente grosseira e que não sabe ser gentil. PORRA, CUSTA SER GENTIL COM OS OUTROS, ARROMBADO? 
Ser leonino é uma delícia e uma dor, porque, no fundinho, é muito fácil passar a perna em nós. Sofremos de uma espécie de trouxismo congênito, a gente simplesmente quer acreditar que merece o melhor, que vão ser bonzinhos com nós, que vão valorizar nossos talentos e gentilezas. Compramos com louvor a ideia de que somos necessários no... glup, mundo. Pobrezinhos... tão ingênuos. Tão teatrais, tão dramáticos, tão leais, tão inundados de mortal vaidade, tão mesquinhos, tão humanos, tão românticos, tão viscerais e insuportáveis, tão generosos, tão descrentes e niilistas, tão fascinantes para quem sabe apreciar. Tão apagados quando não têm pelo que lutar. Salve nós, salve nossa época, salve o rei da selva - ao menos da nossa selva, sei que somos. ROAAAAAAAAOOOOR


                                    Tudo isso que o sol toca é o seu ego, Simba!







quarta-feira, 19 de julho de 2017

How can you mend a broken heart, Hugh Grant?

Está sofrendo por amor? Eu sugiro Al Green. Mais precisamente, How can you mend a broken heart
Aquilo ali não é uma música, é uma espécie de transe. Sinto uma corrente elétrica percorrendo todo o meu corpo sempre que escuto. E eu escuto muito. Então eu fico ali, sendo mastigada por aqueles acordes, numa comunhão linda e de profundidades de que ninguém suspeita. Não consigo nem respirar direito. Dá gosto de sofrer ouvindo isso - pode ou não pode estar sendo meu som oficial de chorar no banho. Se é para corroer nossos pobres corações, vamos fazer direito. Com um mínimo de elegância. O Hugh Grant, por exemplo, já fez isso em Um Lugar Chamado Notting Hill - logo, estamos absolvidos. Só colocar as mãos no bolso, sair chutando latinha e pronto: eis uma imitação pateta de Hugh Grant.   
Para ser franca, tal música nem é dele - digo, do Green, não do Hugh Grant, dã. Segundo minhas pesquisas inúteis, o hit foi composto pelos manos Gibb, esses queridos que adoram criar músicas para outros também fazerem sucesso e são conhecidos nas grandes rodas por Bee Gees. (I started a joke - que estará na minha lápide, claro - eu nem lembro que é deles. Não dá. Aquela música tem a alma do Faith No More, mals aí. Outra hora, venho falar da relação cabulosa que mantenho com a regravação na voz do Mike Patton, porque é simplesmente a música da minha vida.) Ai ai... cataaaarse!
Pois bem, muito embora pareça, não vim falar de músicas dos irmãos barítonos e filmes de gosto duvidoso, mas sim de... er, sofrer por amor. Sofrer por amor... sofrer... coisa engraçada. Há alguns dias, eu comentava com uma amiga sobre isso - e com outras certas pessoas com quem eu sequer deveria estar comentando essas coisas. Parece a sina de todos nós, pobres mortais. Causa mortis: amor. Ou falta de, vai saber. Sofrer, sofrer e sofrer mais um pouco. Os Sofrimentos do Jovem Werther talvez seja o livro de cabeceira de todo coração espezinhado. Era o meu, que horror. Por um lado, é ótimo: se não se sofre, não se tem texto. Os livros de amor - ou, sei lá, tortura medieval, acho que tem sentido - só são escritos pois há coisas que precisam ser ditas e sofrimentos que precisam ser externados. Ninguém escreve sobre felicidade - ela se basta, ela simplesmente existe. Por outro lado, isso é uma lástima. Ter matéria-prima somente quando se leva uma pancada na cabeça não é lá muito digno. É... que remédio, possivelmente os textos mais lindos, as músicas mais tocantes, as expressões artísticas mais atordoantes, todos eles tenham sido criados no auge de uma dor lancinante. Chuto que Barry Gibb tinha levado um pé homérico no traseiro e saiu aquela coisa maravilhosa. Nem sei o que pensar. How can you mend a broken heart? Eu também não sei, meu caro. Uns colecionam seios em noites infrutíferas; outros bebem à exaustão completa; umas cortam os pulsos e os sentimentos por completo; outras escrevem crônicas na esperança de serem ouvidas... cada um na sua. Na sua solidão e na sua cruz. No melhor e no pior de dois mundos.



                                Certo que a mina deixou ele por causa desse cabelo



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I started a joke - Faith No More 






  

quinta-feira, 13 de julho de 2017

A menina que contava vacilos

Nesta minha tortuosa busca por autoconhecimento (que promoção de sapato o quêêê, eu só quero me conheceeeeeeeer), eu venho descobrindo que eu falo demais. Mas, pera lá, não vou me espezinhar - não mais. Perdoa a lua em áries e não desiste de mim - ou desiste, sei lá, isso já não é problema meu mais. Tirando o ridículo bem intencionado que paira sobre essas tentativas de interpretação astrológica, talvez arianos bem arianíssimos realmente me entendam... dói, né? Dói sentir o coração sempre a 200km/h, como que num racha assassino e previsível, não é mesmo? É DOI-Codi, parceiro. Não trabalhamos com mornidão aqui, eu sei, vamos nos abraçar e lamentar essa delícia horrorosa. 
Eu falo mesmo. Eu falo demais. Pra caralho. Erro mais por conta disso? Certamente. Eu não conto mais carneirinhos - eu conto vacilinhos. Eiii, mas tu é gostoso, hein? Vai se fo o ooo der, tá me deixando louca!!! 

- Amiga, vocês ficaram só duas vezes, tu disse isso mesmo?
- Claro, é gostoso mesmo, vou fazer o quê? Eu reporto fatos e agi segundo o desejo que me habitava kkkk isso é Freud, sabia? Aff

Deixa eu falar, porra. Deixa eu falar. Danem-se as suposições, dane-se o que vai pensar de mim. Só sendo muito ingênuo para achar que vai me conhecer por um mero elogio, por uma mera gentilezinha safada. Eu elogio, sei lá, até um chão quando vejo que ele está brilhoso e encerado. Palavras na minha boca são o que são, vendaval para quem sabe apreciar. Posso até errar, mas rio muito disso também, porque as pessoas felizes fazem isso realmente, elas riem de si mesmas com prazer. Querem se matar de vez em quando, como não?, mas riem muito - até doer a barriga -, deixam os dentes à mostra, não economizam na piada. São transparentes. A Tati Bernardi, que de tão genialmente lúcida chega a ser louquinha, já escreveu sobre isso uma vez e me identifiquei bem na época quando li. Na sua crônica, ela ''lamentava'' não ser uma mulher misteriosa, uma mulher que vai se revelando aos poucos, que faz joguinhos, que não despeja seus sonhos e seus demônios na primeira olhada no olho... em outras palavras, elegante e contida. Oras se a gente nasceu para ser elegante e contida, Tatiane? Minha querida, a gente sente a vida na garganta pronta para ser tragada como um ácido, uma sorte, uma dor, uma loucura abençoada. 
Eu falo demais... mas, olha, de falação em falação, tem vezes em que eu acabo sendo magistral. Vocês sabem, a prática leva à perfeição. Falar não é sinal de fraqueza. Só quem fala entende de verdade, não se perde em possibilidades, em quases, lamentando a palavra derramada - ou melhor, não derramada, quando tudo que queria era transbordar (como vejo por aí nas capas do site ao lado). Falem, falem sem medo. São só pessoas como você.


                                                   Que assoalhão da porra!!!







sexta-feira, 30 de junho de 2017

Ladra, envenenada e sabida

Eis que numa sexta-feira de 2017, me veio a iluminação. Eu deveria ter feito História! Porra, eu tinha que ter feito História, é evidente! Por que raios eu não fiz História? Há quanto tempo ando renegando essa coisa que me consome? Que epifania, meus caros. O fluxo de consciência foi tão forte aqui, que ainda me sinto no dia da proclamação da república - não reparem, lia, há pouco, sobre as peripécias de Pedrinho II, nosso eterno monarca inconstitucional.  
Gostar de História, a matéria, sempre me pareceu muito natural, muito orgânico - perguntadeira que sempre fui e deveras ansiosa por descobrir os porquês, as metades, as razões, como as coisas eram, como poderiam ter sido, já fatalmente envolvida pelos acasos da vida. Eu, com 13 anos, era uma chata insuperável, meus colegas me odiavam. Os professores, entretanto, devotavam amor eterno - carentes, que eram, de ouvidos solícitos às suas riquezas por anos estudadas. ''Vamos matar aula todos então?'' ''Claro que não, hoje é Guerra do Paraguai, tá doido???'' Mas mais que talento para aduladora, embora pareça, repousava em mim uma vontade desesperada por entender, eu queria entender de forma quase inocente. Querer saber era meu crime. Logo se vê que eu não ia durar nem um dia no enredo de O Nome da Rosa. Sabida, porém muito envenenada. 
Aos 13, mais que chata, também fui ladra. Ao saber que não poderia ficar com o livro usado naquela sétima série fatídica, dei uma pirada: sorrateiramente, adentrei a biblioteca do colégio, roubei o livro pretendido e fui, culpadíssima, para casa. E, assim, minha primeira lição de Maquiavel foi assimilada. Os fins justificaram os meios demais, aquele livro era muito maravilhoso para ser relegado a um destino sem paixão - ele, hoje, segue em cima da minha escrivaninha como símbolo máximo da minha primeira contravenção bem sucedida. Que horror, alguém chame a polícia.  
História é incrível, sempre vou gostar, sempre vou querer saber, sempre vou querer falar a respeito, pois, para mim, está intimamente ligada com o que eu vivo hoje em dia - com o que vocês vivem, meus amores. Fico irremediavelmente panfletária a essa altura, mas o fato é que mentes que esnobam tal ramo fascinante do conhecimento sempre são as mais difíceis de conviver. E eu nunca vou deixar de apoiar seu ensino, sua difusão, sua beleza de ser o que é. Ela é tipo aquele carinha de quem eu fui muito a fim, mas acabei não tendo nada demais e vez que outra volta à mente como um sonho bom, uma lembrança gostosa de adolescência. E se tivesse sido? E se minha vida tivesse ido por aquele caminho? Se eu estivesse ensinando História hoje, seria mais feliz? Ando muito bem, graças aos céus, mas é inevitável não pensar nas vontades que ficaram - ou que não foram percebidas na época. Por via das dúvidas, sigo lendo sem medo do veneno. 


                                                Inconstitucional é a tua vó




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Only happy when it rains - Garbage








quarta-feira, 31 de maio de 2017

A gente muda

- Coloca aquele blusão ali, de gola...
- Ew, não gosto dessa gola...
- Mas tu gostava!!!
- A gente muda, mãe...

E aí nasceu uma crônica. Percebam como trabalha a nossa mente. De nós, os cronistas. Percebam como é sorrateira a mente de uma cronista jovem e com idiotices mil na cabeça. Tudo é inspiração e ela não tem hora para chegar; ela vem, senta, pede um café. Eu sempre estou pronta, ela é de casa. Aqui, as blusas de gola não servem mais, perderam a validade, naaah, é como se eu me sentisse presa. A gente muda, e que bom que muda!! Porque ser sempre a mesma coisa enjoa, chega uma hora em que a gente nem se surpreende mais consigo mesmo - e isso é sempre um drama. Eu mudei um monte já, embora ache que não. Eu não suportava The Doors; hoje saio requebrando os quadris quando ouço a vozinha do Jim... ô, Jim, vem cá. Eu não bebia cerveja; hoje para me fazer feliz é só chamar para um rockzinho com 3 latões a 10 pila - pila mesmo, que aqui neste blog não temos mais tanta frescura ortográfica. Sigo querendo esbofetear uns quando vejo crases mal empregadas, entretanto. Sorry, I ain't sorry. 
A gente muda, e bom mesmo é quando a gente passa por cima dos próprios preconceitos e das próprias amarras mentais, quando entende que o universo não está assim tão interessado em nos ferrar e toda perseguição presumida não passa de síndrome de umbigo não resolvida. Não serei tão leviana ao falar de gostos pessoais, pois uma criatura que já leu esses sociólogos franceses da vida nunca mais enxergará meras preferências como obras do acaso, mas falo mesmo é dessa errância que nos põe para frente, que nos instiga... desses amores que nos atropelam e nos fazem sentir vivos, que ar novo é esse nos meus pulmões? Eu não gostava de gatos; hoje tenho em mim todos os gatinhos do mundo. Que lástima, sigo fazendo trocadilhos idiotas com autores famosos. Um beijo, Fernando Pessoa, eu te amo.
Mudar é bom, mas melhor mesmo é quando a gente não muda somente para agradar uma plateia, uma pessoa, um quase amor. Bom mesmo é quando a gente não muda de princípios e de caráter para caber numa situação, num projeto falso de felicidade. Mudar é bom mesmo quando a gente se reconhece naquela mudança, quando somos honestos com isso que chamam de essência. Por isso, não tem jeito de eu investir nessas botas pavorosas que vão acima do joelho. Exceto, claro, se eu for convidada para trabalhar no Xou da Xuxa, tudo é negociável.


QUEM QUER PÃO? 







domingo, 14 de maio de 2017

Mães guerreiras e filhos do Christopher

A maternidade me fascina, mas não de um jeito acolhedor, como se eu quisesse ser genitora algum dia. Meu fascínio é meramente curioso, um mero voyeurismo social de uma mente questionadora além da conta - e que sofre por ser assim muitas vezes. Quem entende de verdade as mães? 
Quem me lê há tempos, sabe que ser mãe não é um sonho na minha vida - desconfio de que nunca será -, porém não é por ser essa montanha de gelo que não se imagina chamando o Chris Evans II pro banho, que eu não me atraia pelo caráter político da coisa. Tá, pensei melhor: ser mãe dos filhos de Christopher seria lindo. Daria à luz um time de futebol-sete tranquilinho. Imagina que amorzinho todos andandinhos vestidos de Capitão América igual ao papai? De camisetinha do New England Patriots???? AWNNNNNNN OK PAREI   
O fato é que mães têm minha total compreensão e apoio, além de empática inquietação. Essa coisa que a sociedade espera, de que sejam heroínas, desfaleçam pela prole, se destruam por casamentos fracassados, abdiquem da vida pessoal pelo bem estar dos filhos, tudo isso me deixa doente das ideias. "Ai, mas não é bem assim, Bruna". Vocês sabem que é, apontar o dedo sujo para mulheres que são mães é esporte nacional. Talvez por isso, inconscientemente, eu tenha desistido da empreitada. Entre ser escrota ao afirmar isso e perder minha liberdade, ser escrota é minha meta desde criancinha. 
Mãe não nasce sabendo ser mãe. Essa brincadeira de cuidar de outro ser humano é loucura, vocês têm noção da cilada? Respeito muito, porque eu não tenho o dom. Admiro, mas também planto a sementinha da desobediência. Rebelem-se, mães! Ou me chamem para trocarmos umas ideias, sem julgamentos, sem seriedade, ao melhor estilo ''respostas sacanas para perguntas cretinas''. Eu, felizmente, mesmo sendo essa enviada do demônio, tive muita sorte na vida. Putz, sou abençoada! Tenho uma mãe fora de série, um verdadeiro mulherão da porra cuidando de mim desde que nasci, naquele domingo ensolarado de agosto. Mas minha mãe sofre, minha mãe não sabe tudo, minha mãe tem dúvidas, minha mãe já fez muita burrada. Não me levem a mal, mas sempre penso que nós, os filhos desses seres humanos incríveis, carregamos o peso de muitos traumas deles próprios nas costas. Vai saber se não é por causa delas que vivemos mergulhados em ansiolíticos e entupimos as salas de espera de terapeutas diversos? Ter ciência disso, na melhor das hipóteses, pode nos ajudar a julgar menos as realidades que se apresentam. Elas estão fazendo o melhor que podem - e tudo isso tateando no escuro. 
Por isso estas palavras hoje, nesse dia marcado por hipocrisias - como é de se esperar de todo amor mercantilizado por datas medíocres, que fazem com que nos sintamos uns lixos se não gastarmos uma nota numa cesta de café da manhã. Por isso não me apetecem, mesmo que façam muitas queridas alegres, dedicatórias como guerreira, deusa, etc. Ninguém conhece os medos dos guerreiros. E, no fundo, o que eles mais queriam na vida é que soubéssemos que eles também podem sangrar.
   







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Valsa Epônina - Izumi Tateno







    

sábado, 6 de maio de 2017

Eis um novo amor

Ofegante, saí do estabelecimento. Mal podia me conter, a boca seca, o coração acelerado, o gosto de novidade gritando na alma. Felicidade inundando o coração... sim, era ele. Eu ia ver ele, mal podia esperar para tocá-lo. Usá-lo até o máximo de suas forças, me esfregar nele - ele que me entende tanto e em tantos níveis. Meu fone de ouvido novo. Só meu - não divido fones, nem tentem. Acharam que eu falava do quê???
Só nós, os doidos por música, os que buscam sentido em cada pequeno fragmento de vida com um sonzinho espreitando as sensações, entendemos. Ah, claro, é possível que estas simpáticas merdas estejam nos deixando consideravelmente surdos, mas como arrancá-las de nossas vidas? Como simplesmente nos curvarmos a uma sociedade que não entende nosso (meu) gosto musical ridículo de trilhas sonoras dos anos 80? Não posso compactuar, prefiro o ostracismo. Sabe, quando ouvi a primeira guitarra de Brown Sugar gemendo, ali na rua mesmo, eu sabia que era amor. Aquilo ali é muito forte. Não tem como um dia dar errado quando se começa com Brown Sugar, é questão de lógica. 
Começar os trabalhos do sistema com o menino roque é aumentar a qualidade de vida em uns 50%. Ontem, por exemplo, foi o Jimi. Vocês têm ideia do que um Jimi Hendrix pode fazer pela vida de vocês? The Valleys of Neptune is arising.... é fato que Jimi e sua guitarra eram o mesmo ser.
Para segundas-feiras, eu sugiro começar com Hey ho, let's go, batendo o pezinho e tudo. Imagine-se em uma rodinha punk e o desgosto logo se vai... pode ser ridículo, mas que é uma injeção de energia, isso é. Qualquer dia, conto como uma das minhas melhores amigas e eu, bem patetas, participamos de uma sem nem mesmo saber do que se tratava. Ah, a ingenuidade das patricinhas no show de rock...
Para todos os dias da vida, sugiro Billy Idol. Vocês sabiam que faz uns 15 anos que eu amo Billy Idol? Nosso caso está debutando. E lembro como se fosse hoje da primeira vez em que escutei Dancing with myself, naquele filmezinho bobo do Patrick Dempsey quando era um pequeno ET em hollywood, o Namorada de Aluguel. Assisto com gosto até hoje, afinal, nem só de cineastas chatos e filósofos vive um ser humano. E a vida é curta demais para ficar aguentando fone ruim, dá licença. 



                                     Quando o fone do Billy falha de um lado só 



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White weeding - Billy Idol






quarta-feira, 3 de maio de 2017

LIVE AND LET SLEEP

''Se você ama deixe livre'' uma ova. Se você ama mesmo, deixe dormir. Live and let sleep... já diria Paul McCartney. Os amores só vão durar quando os amantes entenderem que precisam deixar dormir. Deixe sua menina dormir, parça. Se um cara aparecesse com um buquê de rosas e se declarasse para mim, é bem possível que eu achasse comovente, todavia, entretanto, contudo, se ele viesse com um vale-colchão da Ortobom a tiracolo... aí eu consideraria coisa do destino, do cosmos. Encontro divino de almas. 
Não aguento mais viver dentro do armário da produtividade, da vida saudável e ativa, do carpe diem... eu gosto de dormir, caralho. E sei que você também gosta, seu cretino, não precisa bancar o workaholic modelo. É, dá para ver no seu doce olhar, tão doce e tão cheio de olheiras. Por isso saio dignamente deste móvel escuro e hipócrita e assumo: eu gosto da coisa. Sim, eu gosto de dormir. Oooh yeah, baby, eu sou preguiçosa. Mas, pera lá, sou como Peter Parker nas palavras de Doutor Octopus em 2004: preguiçosa porém brilhante. Uhum. Sabe aquele sono de levantar desnorteado? Eu gosto, sociedade, eu gosto. Me julgue, mundo corporativo. Me julgue, chefinho. Aquela baba que eu deixo poeticamente no travesseiro é a prova de que tudo valeu a pena. Aquela baba tem história e resiste. 
Levantando, dia desses, de mais uma madrugada em que eu dormi umas 6 horas mas claramente foram 10 minutos, comecei a relembrar amargamente todos os minutos que enrolei para ir ao berço esplêndido. Aquilo dói. Aquele arrependimento lisérgico - quer dizer, você acordou mas não sabe se está ali ainda - que bate a cada toque do despertador e nos faz relembrar cada perfil ridículo do Facebook que visitamos sem necessidade, cada pseudo-conversa fracassada que alimentamos por puro ego, cada pesquisa esdrúxula que fizemos no Google por incapacidade de desligar tudo e arrastar o traseiro para a cama - tudo, tudo é remoído com requintes de crueldade a cada manhã. E quem disse que faremos diferente na noite seguinte? Passar o dia caindo de sono pelos cantos é o nosso esporte favorito. Medalha de ouro na categoria bocejinho resignado.  
O fato é que se trata de um assunto meio polêmico, pois minha geração anda com preocupantes distúrbios de sono, certo? E, não, não falo daqueles lindos que passam a noite inteira fazendo groselha na internet, dormem o dia inteiro e voltam à rede na noite seguinte para reclamar de insônia. Ainnn, e esse soninho que não vem? Se alguém vir meu sono, manda ele me procurar, hein? Hihihi. Vosso sono está enfiado aqui no meu cu, senhor. Insônia é diferente de não conseguir dormir por pura biologia desregulada, nos poupem dessa cantilena. Eu, felizmente, durmo bem, durmo como um anjo - mas sempre quero mais, podre que nasci. E milito abertamente pela descriminalização da furada com os amigos - com o parceiro, com a família - em prol de uma soneca bem tirada. Me deixem dormir em paz!!! Ou melhor, vamos dormir juntos. (postei e saí correndo)  



                                                               EAEW




PS: A Ortobom Enterprises não está patrocinando este post, mas É AQUELE DITADO







sábado, 29 de abril de 2017

Os 45 anos do padrinho

Sim, O Poderoso Chefão completou 45 anos agora em março, e eu estou enrolando há um mês esse texto, logo, falemos de uma vez dos Corleones - até porque, vocês sabem, presente bloguinho ama um clichê cinematográfico. Devo confessar que não simpatizava com os mafiosos de Nova York quando mais nova, achava-os qualquer coisa menos lendários, só que aí - só que aí!!! - me caiu às mãos o livro do Mario Puzo, irmãozinho... e eu não estava preparada. A história é machista, feita por homens e basicamente para homens? Uhum. Mas, como sou uma familióide sentimental gravíssima, há tempos diagnosticada, acabei achando uma brecha para uma paixão arrebatadora. Don't ever take sides against the family again, seu fiadaputa!
Devorei as famigeradas páginas após ter visto a trilogia, por isso foi meio impossível não associar Vito Corleone a Marlon Brando, Michael Corleone a Al pacino, Kay Adams a Diane Keaton, Tom Hagen a Robert Duvall (brilhante, por sinal!), e por aí vai. Os mais puristas talvez considerem isso uma blasfêmia, mas o fato é que enriqueceu o folhear de páginas - o que uma trilha sonora de gênio não faz também, né? Aquela valsinha do Nino Rota sabe moer os pobres corações sicilianos. Soube moer o meu, lia e chorava, coisa linda.
É possível que eu tenha um passado policialesco sombrio, porque o fato é que aquela trama de cabulosidades me prendeu do início ao fim, me fazendo realmente tomar partido daquele lodo mafioso amparado por sangue quente e amor paterno além das consequências. São fabulosas, por exemplo, as tramas psicológicas dos personagens que tinham tudo para serem secundários mas revelam-se determinantes, como Michael, o filho militar que considerava odiosas as práticas do pai e inicia o filme de maneira ponderada e alheia - quase adolescente -, e acaba por ser sua cópia fiel, talvez até pior. As circunstâncias levaram-no a isso? Michael era, de fato, um assassino cruel apenas não iniciado no jogo? Se Sonny não tivesse virado queijo suíço em Long Beach, o caçula teria tido o destino que teve? Terá sido a cena inicial em que o padrinho afaga aquele gatinho tigrado lheeendo o que me fez simpatizar de vez com com suas bochechas de buldogue? São questões, meus caros, são questões...
Penso ser muito convincente também o próprio Marlon Brando como o patriarca da famiglia, em uma atuação tão lacônica que se tornou icônica - rimamos sem querer. Fala sério, até coçando o queixo a criatura tem mais presença de espírito que muito ator por aí! A dor do pai em ver, de mãos atadas, o caminho tortuoso por que o filho predileto está indo, é algo que me pareceu bem construído idem. Do gostosão Stanley Kowalski a um paizão de índole duvidosa cheio de remorsos e fantasmas. Well done, Brando.
No geral, a saga deste clã horroroso e digno de pena é algo que sempre estou disposta a rever, porque é fascinante. Não é como se eu assistisse à coisa repetidas vezes só por causa da carinha sexy e fratricida de Alfredo James Pacino, todo engomadinho e de suspensório ao melhor estilo gângster, parecendo que tira minha roupa só de olhar e reacendendo meu lado stripper-fora-da-lei Bonnie & Clide, sabe? Nem um pouco. Eu, mezzo colérica estilo Santino Corleone, mezzo calculista e dissimulada estilo Connie Corleone, digo a todos eles que fiquem, fiquem muito em nossas vidas. E não se esqueçam dos cannolis, por obséquio.








domingo, 2 de abril de 2017

TPM - Triagem de Pensamentos Maléficos

Ai, pelo amor de Deus, nunca vou curtir essa página ridículaaaaaaaaaa, sai daqui!! Fuja! Odeio esse programa de vocês, é horrível, nunca vou recomendar isso. Putz, e essa cólica? Parece que tão dançando flamenco na minha barriga, pode mais, pode doer muito mais, DÓI MAIS CARALHA, EU AGUENTO!!
Ah não, lá vem a creiça de novo citando Zack Magiezi com essas selfies aleatórias do nada... será que não tem ninguém mais pra citar nessa merda? Que saudade do Caio Fernando Abreu, porque, convenhamos, desse ainda os textos tinham um começo, um fim, uma lógica... esse não, tipo, são umas afirmações... hum... ''ela é daquelas que não suporta mentira''. Dãã, hein? Jura, amore? Ela gosta de abraços apertados e jeans com lycra. UAU, GÊNIO, MARAVILHOSO, LANÇA UM LIVRO. Não aguento mais esse cara e nem sei quem ele é. Notas sobre ela, notas sobre ela, notas sobre elazzzzzz... nota a minha mão na tua cara aqui, sua chata.
Falando em livro, e o teu romance, hein, Bruna, sua cretina podre? Por que parou? Vai ir até quando com essa desculpa de crise de criatividade? Puta que pariu, esqueci minha chave na cadeira, como vou entrar em casa hoje? Hummm, e esse boyzinho novo no pedaço? OLAR! Quer ver que é casado há 5 anos e pai de quadrigêmeos? Eu, hein, vou ficar bem longe, pena que é tão bonito o rosto. Falando em rosto, minha cara cansada tá de chorar. Amore, tu tem 27 anos, tu tá na flor da idade, vai curtir tua sexta-feira, sabe? Ah, claro, tu vai assistir Scarface de novo porque, olha, tá passando do TCM, não custa nada... LOSER! Posso ser loser, mas pelo menos não sou biscoiteira na rede do lado igual a c e r t a s p e s s o a s. Vou escrever sobre isso um dia, o mal do biscoitismo desenfreado em rede social. 
Hoje é o dia dos idiotas? Não, eu não assisto The Voice Kids, tia, não sei quem tá na final. Na verdade, eu tenho implicância com crianças fazendo qualquer coisa que não seja brincar e ser criança. Eu tenho pânico de programa com gente cantando. Eu cresci vendo Raul Gil, sabe? É trauma. Ai, faço ou não faço essa pós? Nossa Senhora dos Jornalistas Desgraçados das Ideias, me dê uma luz!!! Hummm, talvez eu devesse sair hoje à noite, tem um tributo ótimo a... a quem mesmo? Não, pera, foi num tributo desses que vi pela última vez aquele boçalzinho... credo, quero passar longe! E ele achando que eu queria casar, disse que eu assustei ele........... amore, olha bem pra minha carinha de quem quer casar nessa vida. Intimidade é uma merda, casamento lembra compromisso e só de pensar em compromisso eu entro em combustão, ainda mais contigo. Sem falar no dress code que não me causa nada além de sono. Se for pra casar, vai ser com um vestido vermelho tomara que caia com uma fenda generosa, dá licença. E certamente não vai ser com alguém que usa Nike Shox num tributo a Creedence. Creedence, porra, lembrei!!! Ai ai, acho que vou tomar uma cerveja e acompanhar o pessoal do flamenco na dança. Que belíssima coreografia em meu útero.






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Chelsea Dagger - The Fratellis     
       






sábado, 11 de março de 2017

É isso aíííííííííííí

Hoje, na feirinha: eu entrevistando Seu Jorge. Vou ter que procurar um exorcista porque, olha, é cada abobrinha que sai dessa cabeça castanha que eu levanto abismadíssima.
Mas vamos à pauta. Estava eu, sentadinha, gravador em mãos, sabatinando Seu Jorge. O mais louco é que eu sonhei a coisa toda e só fui lembrar que sonhei porque estava perdendo tempo de vida no Instagram - como é do feitio dos jovens - e topei com as fuças de Jorge. Jorge, o entrevistado. God realmente works in mysterious ways...  
Me lembro de pouca coisa, mas é claro - claríssimo - que eu perguntei por que ele e a Ana Carolina atazanaram minha vida com aquela versão horrenda de The blower's daughter, há mais de dez anos. Percebam que esse ódio sobreviveu à passagem dos anos e rendeu uma sessão de terapia psicodélica. Não me entendam mal, eu adoro Seu Jorge e a Ana, mas... hum... que ideia equivocada, não? Eu simplesmente tinha vontade de tacar um tijolo no rádio quando aquela lamentação começava - sim, crianças, houve um tempo, a.C, em que as pessoas ouviam música nas efe emes da vida.  

Taxativa, soltei:  

- Entre essa e a do Damien Rice, qual tu prefere? Sério, abre o jogo, desliguei o gravador. Nem tu aguenta, né? 

Não consigo entender, The Blower's é maravilhosa, logo, é isso aííííííí, um vendedor de floresssssssss deveria soar razoável. Pois é, mas só consigo pensar em tijolos quando tenho a infelicidade de escutar essa coisa.







quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Selton e eu, eu e Selton

Descubro coisas curiosas em salas de espera. O último achado foi que a minha alma gêmea é o... Selton Mello? Pois é, meus caros, quem diria que a mulher invisível dele sou eu? God works in mysterious ways...  
Morrendo de tédio galopante, comecei a folhear uma daquelas revistas sofríveis e me deparei com as seguintes palavras do moço:

Aos 33 anos, você disse que não se imaginava casado, com filhos correndo pelo quintal. Mudou de ideia? 
Não. Continuo igualzinho. Mas acho filho uma coisa legal. Homem tem uma vantagem. Posso ser pai aos 50. De repente, ter um filho sem estar casado, penso em coisas assim. Ter um filho com uma amiga, com uma mulher que admiro, que já namorei ou alguém que saquei que pode ser uma boa mãe e que também não está a fim de casar. Ou não ter filho também. Viver sozinho, por que não?

Saca a profundidade do boy...

Por que não?
As pessoas lidam muito mal com a solidão, não conseguem ficar sozinhas. Eu fui ganhando experiência nisso e já tinha um temperamento que me levava a ficar bem assim. Há uma paranoia grande em torno da palavra solidão. Por isso existem as redes sociais. As pessoas estão ali, mas não estão. Tem gente que tem dois mil amigos no Facebook mas só com três conversa sobre coisas íntimas.

Está namorando hoje?
Não. Estava namorando até uns quatro meses atrás. No meu estilo “mineiro low profile”. Namorei uns seis meses. Ninguém soube. Claro, eu não ia ao Sushi Leblon. O Rio de Janeiro é grande, você pode andar por muitos outros lugares.

Estilo ''mineiro low profile''... este homem quer acabar comigo!!! Morri com o sarcasmo sobre o Sushi Leblon. Chupa, Ego!

Essas foram as que mais me chamaram atenção, mas a entrevista toda é um deleite para quem anda carente de um pouco de lucidez. Só sei que terminei de ler com um único pensamento: ''me dá, mããããe, me dá, eu queeeeero''. Este homem é um acontecimento! Claro, para muitos talvez não passe de um chato, mas é inegável sua autenticidade. E inteligência. E charme. Imagine, cara leitora, discutir Nouvelle Vague enquanto esta gracinha mineira passeia pelos seus peitos? Sem falar na voz, vocês já repararam na voz de Selton Mello? Aquela voz é orgástica. Deixaria tranquilamente meu rico soninho ser embalado por um monólogo dele toda noite.  


                                                     Oi, bebê. Te amo, bebê. 




*Selton, please, não entre com uma medida protetiva contra mim, sou só um coração que acredita na solidão compartilhada e curte fazer textos ridículos, tá? Beijos. 








segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Da série: diálogos catárticos

GERAÇÕES

- Olha quanto bonequinho... amo esse aqui, ó, o Capitão América, sabia que ele é meu marido? Ele é bem gost... digo, adoro esse negócio que ele usa, esse escudo para qualquer cois... eer, qual teu favorito?

- Hum... o Bat... acho que o Homem de Ferro! Ah, e também esse, ó...

- Quem é esse? 

- É o Vegeta.

- Hã? Não sei quem é.  

- É do Dragon Ball, é um desen...

- Ewww, odeio desenho japonês... é japonês, né?

- Por que tu não gosta?

- É.. é que a prima é chata com desenho. A prima é chata com um monte de coisa, mas isso não vem ao caso agora. 

- E aquele ali que tá passando na televisão tu gosta, prima?

- Olha, er... não é do meu tempo.


Quando se começa a usar expressões como ''não é do meu tempo'', é porque fodeu muito.


- Eu gosto do Pica-Pau, Tom e Jerry, Fantástico mundo de Bobby, DÊNIS, O PIMENTINHA!!! Meu Deeeeeeus, o Dênis, lembra, mãe? Eu assistia na Eliana!!!


Silêncio.


- Mas, vem cá, e do Super Homem tu não falou... é o teu homenzinho mais bonito... (pega o boneco e imita uma pessoa voando pelos ares vuuuummm) sabia que ele é jornalista como a prima? Ele trabalha no Planet...

- Jornalista? Ele entrega jornal?

- Mooorta. É, é bem parecido com isso. Meow, meow, amorzinho lindo, vem cá, existe criança mais linda nesse mundoooooooooooo?

- Eu sou a criança mais linda do mundo?

- Não, amore, é o meu gato... ó, ele entrou ali na porta. 






                                                              Magoei







quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Annie Hall - um curioso purgatório

Nunca dei a mínima para Woody Allen e quando vieram à tona aquelas acusações de abuso sexual contra sua persona, aí é que piorou: minha indiferença virou um singelo nojinho. Só que eu adoro Diane Keaton, sabe? Andei dando uma lida em sua biografia e decidi que tinha que ver o filme responsável pelo único Oscar de melhor atriz que repousa em sua estante. Foi aí que, uns dias atrás e com vários anos de atraso, habemus Annie Hall (1977), dirigido pelo dito-cujo. 
Chato. Chatíssimo. Insurportável. Me arrastei horas em algo que, tirando os créditos, dura somente 86 minutos, fato que me deixou intrigada, porque muitos dos diálogos são interessantíssimos - vá lá, algumas tiradas do judeu de caráter duvidoso têm seu valor. Não vou me ater a especificações técnicas que domino pouco ou quase nada, mas é como se o filme não tivesse ritmo. A sensação que me deu é que estava espiando da janela esquetes de um casal tedioso e improvável - improvável porque os dois não têm química alguma. Esquetes não, me corrijo, porque eles não fingem, talvez isso seja só a vida que parece se repetir tão assombrosamente com todos os mortais. Na história, Alvy Singer (Allen) é um humorista em crise de meia-idade que nos conta sobre seu rompimento com a aprendiz de cantora Annie (Keaton), e como foi a relação deles até ali. A partir daí, somos brindados com passagens do romance dos dois: como se conheceram, a tortura da primeira conversa disfarçando a tensão sexual e o fato de que ninguém é tão interessante olhando no olho, primeiro beijo, primeiras viagens, bobagenzinhas de casais, enfim, isso pode soar muito romântico, mas que nada... um amontoado de irritação para Brunas. O mais legal é que estou vociferando contra uma película ganhadora do Oscar, ou seja, muito provavelmente a chata seja eu. Quem sou eu para difamar um vencedor de melhor filme, não é mesmo? São questões...
Devo confessar, contudo, que ri bem de umas frases ótimas com que o noivo neurótico se saiu enquanto eu encarava o purgatório. O monólogo na livraria (que homenzinho mais presunçoso!!!) explicando a uma enfadada Annie as misérias de existir me arrancou um berro, mas um berro... não que eu me orgulhe, claro, porque é horrível. Seu esforço nulo em ser uma pessoa agradável e prafrentex, como quando sugerem que ele experimente cocaína, por exemplo, e ele só consegue ser lacônico, também mexeu de verdade com meu humor, estranho humor. Foi aí que me dei conta, chorando por dentro: eu sou muito Alvy Singer na vida. Somos irmãos de alma. Enfim, sigo achando toda a coisa muito sofrível, mas algo acabou sendo cutucado dentro de mim. Que merda, eu odeio Woody Allen.


                          Não deu, miga, mas sigo sendo fã sua e deste look maravi




Auxiliou no post: 

Sound and vision - David Bowie