domingo, 27 de abril de 2014

Pondé e a síndrome da direita forever-alone

Sigo meio bestificada com o último texto de Luiz Felipe Pondé em sua coluna semanal na Folha. Na ocasião, o festejado filósofo declarou que o maior desafio dos jovens brasileiros que não são de esquerda é ''pegar'' mulher. Tadinhos dos fãs do Bolsonaro, eles não conseguem pegar mulher. Eu só estou repassando, queridos, as palavras são do Pondé. Dado o horário em que a coluna foi colocada no ar, me pergunto se não era o caso de este senhor estar profundamente alcoolizado - ou sob efeito de alguma droga pesadíssima: madrugadas são convidativas à vida boêmia, vai ver, ele chegou de alguma festa e resolveu escrever sua coluninha da semana, entorpecido, vai saber. Mas não, creio que não, penso que o moço estava falando sério. Curioso é eu ver um monte de direitosos convictos - e talvez desconhecedores dos preceitos da posição política que carregam entranhada - por aí, pegando geral. Geral mesmo. Sabe aqueles lordes que curtem ''Orgulho Hétero'' como quem não quer nada no Facebook? Pois é, não sei como, mas eles seguem pegando bastante mulher, viu, Pondé? Dê uma olhada para os lados.
Bom, embora pareça, isso não me contraria. Beleza. Cada um na sua. Quero mais é que os reaça-boys namorem bastante - quem sabe, isso amoleça vossos coraçõezinhos. Só espero que não se reproduzam muito, só isso, que tenham piedade de nós. É possível que eu esteja sendo leviana aqui, mas convenhamos, curtir "Orgulho Hétero'', com paixão, é um indicativo feroz de que o carinha cultua ideias reacionárias pra caramba - logo, de cunho direitista. Façam o teste. Vocês já viram o que circula naquela página singela? É um prato cheio, pessoal. Não raro, muitos de seus discípulos reproduzem os mesmos discursos de ódio contra minorias, além de, claro, quase sempre citarem seu mentor intelectual predileto: o já mencionado Bolsonaro. Sim, Jair Bolsonaro, aquele que ganhou protagonismo na mídia ao dizer umas coisas escabrosas à cantora Preta Gil em cadeia nacional.
Foi tanta coisa que me passou na cabeça, após digerir - com certo esforço, confesso - as palavras da celebridade filosófica, que até fiquei confusa aqui. Até porque, na contramão do que ele afirmou com propriedade, não vejo a maioria dos jovens da minha faixa etária se intitularem isso ou aquele outro. Eu, a propósito, não estou munida de nenhuma pesquisa que indique quantos são da direita e quantos são da esquerda. Me perdoem os mais otimistas, mas tem umas figuras aí que até hoje não sabem que raios são as duas orientações políticas - e são tidas como pertencentes à elite intelectual brasileira. Quem sabe, você precise rever seu círculo social, hein, Dona Agridoce? É, quem sabe.  
Pondé foi mais longe e disse que os ''vermelhos'' ganham pontos na corrida pelo coração das chicas, por serem mais festivos. Para ele, a esquerda é mais festiva - e a direita precisa achar tal face desesperadamente. Não sei, nobre filósofo, não sei. Mas que eles são mais charmosos e interessantes, isso não se discute, viu? Chupa.


Auxiliou no post: 

Down to the waterline - Dire Straits 




segunda-feira, 21 de abril de 2014

Sobre o caso do menino triste de Três Passos - e por que às vezes odeio a agenda-setting

Não tenho dúvidas de que o jornalismo diário embrutece. Aliás, é com pesar que escrevo isso, porque, como o Saramago escreveu, tenho um coração de carne e ele sangra diariamente com a natureza do ofício que escolhi seguir. Talvez eu não tenha sangue para lidar com a coisa, é uma hipótese (com que idade mesmo a gente para de se questionar sobre o que acha que sabe fazer?). E é uma paulada atrás da outra - muitas vezes, ao contrário do que os leigos pensam, realmente não sabemos lidar. Sofremos por ter que mexer em feridas expostas, na carne alheia cheia de fissuras - as psicológicas sempre doem mais.
O tal embrutecimento leva à naturalização dos fatos. A gente até se indigna, mas percebe que possivelmente vá ler mais vezes sobre absurdos - e eles não param de acontecer. Verbo maldito: acontecer. Absurdos como o assassinato cruel do menino Bernardo Uglione Boldrini. Sinceramente, não me entra na cabeça - na mais correta acepção da expressão - que um pai planeje meticulosamente a morte de seu filho. Que vá a alguma festa, beba com amigos, um dia após o ocorrido, e volte para casa, a fim de repousar candidamente em seu travesseiro, enquanto o corpo da criança, agora, encontra-se jogado em alguma vala de uma BR qualquer. Está além da minha compreensão. E, olha, dá um desespero desgraçado de viver num mundo assim. Não é possível, minha gente, que pesadelo esta história... desculpe, Ernesto, mas endurecer sem perder la ternura, tá difícil, viu?
O caso, cujo desfecho se deu na última segunda, 14, assemelha-se ao da menina Isabella Nardoni, em março de 2008, e que foi exaustivamente midiatizado na época. Me lembro de estar no comecinho da faculdade e de ser apresentada a uma tal agenda-setting - ou, em português brasileiro, ''Teoria do Agendamento'' - cujos preceitos acabaram servindo para eu entender a vasta produção noticiosa acerca do infeliz ocorrido. O de agora caminha para isso. Tem-se o espetáculo preferido de programas tidos por ''essencialmente jornalísticos'', como Cidade Alerta e Brasil Urgente, apresentados, respectivamente, pelos caçadores de carnificina Marcelo Rezende e José Luiz Datena. Não raro, Sônia Abrão, com seu senso fúnebre aguçado, também aparece na jogada e promove debates acalorados sobre determinado tema em seu programa diário. Percebam, tais programas até têm seu respaldo baseado no dever de informar o público, mas eles pecam pelo exagero. Eles ignoram o limite do tolerável em se tratando de relevância e da própria ética jornalística (sei que anda em desuso, mas existe, hein). E a audiência, abalada em seu sofá, acaba sendo tragada para este mundo íntimo e pessoal da vítima, o que aumenta a dramaticidade do todo. A riqueza de detalhes é preponderante na criação do ''mártir''. Na consolidação do folhetim policial.
O agendamento é poderoso no que tange, inclusive, à seleção do que iremos discutir socialmente com colegas, pais, amigos, grupos de pessoas das mais diferentes procedências em variados espaços públicos, etc, uma vez que os assuntos veiculados na imprensa ''agendam'' nossas conversas. Ou seja, a mídia nos diz sobre o que falar, pautando grande parte de nossas relações. Enfim, para o bem ou para o mal, vocês ainda verão e ouvirão falar muito mais sobre o menino triste de Três Passos. 


    






sexta-feira, 11 de abril de 2014

Da série: diálogos agridoces

VIVER É UM ESTRESSE

- Tu não sente medo de se expor no teu blog?
- Oi? Como assim? Tu acha que alguém pode querer me matar pelo que eu escrevo?
- Tu não tem medo?
- Tu tá falando disso?
- Responde, primeiro...
- Bom, pra ter medo, eu preciso supor que alguém se importa com o que eu escrevo, logo, não...
- Bom, eu não tava falando disso, obviamente, até porque acho que ninguém se importa.
- Nossa, como você é espertinho, agora sai.
- Eu tava falando de outra coisa...
- É? Mas eu não quero saber... putz, pior que jornalistas são assassinados freneticamente no Brasil e...
- Agora quem não quer ler sou eu..
- Mas eu quero falar, a propósito do que tu falava antes de achar que eu posso ser assassinada?
- É que a vida real é assustadora e escrevê-la lá com requintes de realidade (risos) te traz uma carga de comprometimento alta...
- Quem disse que tudo lá é verdade?
- Eu falo porque eu te conheço
- Se me conhecesse não falaria que me conhece com tanta propriedade e petulância.
- Por quê?
- Por amor à vida.
- Ui, ficou estressadinha?
- Eu vivo estressadinha, meu querido, viver é um estresse.
- Não gosto de poesia numa hora dessa, em que um assunto de extrema sutileza é desvelado.
- Ah, vai se catar!
- Poetinha respondona você...
- Todos eram, o que seria de nós sem os poetas marginais da década de 70?
- Não acredito que tu tá se comparando, além de respondona, é vaidosa!
- Isso aí, cheia de defeitos, um nojo.
- Intragável...
- Não foi o que eu andei escutando...
- Qual a fonte?
- Não revelo fontes, querido.
- Não foi o que eu andei escutando...

TOMA




sexta-feira, 4 de abril de 2014

Porra, Carly Simon!!!!

Era um domingo muito ensolarado de outono e muito convidativo a fazer traquinagens. Os domingos têm essa mania de às vezes serem marcantes. E de doerem como farpas nos dedos cansados, depois de findados. Aquela coisa de haver poucas pessoas nas ruas e, quando uma folha seca atravessa seu caminho, você parar para admirá-la, num recanto de contemplação quase piegas. O domingo citado tinha disso, uma espécie de mistério que faz sorrir sem causa aparente, que mexe com um resquício adormecido de ternura.
E também tocava Carly Simon em algum lugar muito próximo. Aí reside um fator perigoso, pois quando Carly Simon começa a fazer sentido, significa que fodeu de uma maneira sem precedentes. Porque a Carly, ela entra no seu ouvido e toca no seu âmago e domina seu cérebro e começa a ressuscitar umas coisas. E ela age tão sorrateiramente, que você fica meio sem ação. E aí, logo em seguida, é você quem quer agir. E aí rola. E pode dar certo.

Ela - a moça desta narrativa - pegou a chave do carro, num impulso doce e medroso. Carly seguiu cantando - mas desta vez, junto dela, enquanto as duas atravessavam alguns sinais vermelhos. E ela gritava, feliz sem saber por que:

Sometimes I wish
Often I wish
That I never, never, never knew
Some of those secrets of yours
Some of those secrets of yours
Soooooome of those secrets of yours


Até que chegou ao hall de entrada do prédio onde ele residia. E ele já estava com outra. Outra moça, outra verdade, outra vontade.


PORRA, CARLY SIMON!!!!



                                                                                      RÁ! TE PEGUEI







terça-feira, 1 de abril de 2014

AFASTE DE MIM ESTE CALE-SE

Chegamos, enfim, aos 50 anos da madrugada mais sombria do passado recente brasileiro. Sim, eu vou romantizar a coisa. Tenho estado com os nervos à flor da pele nos últimos dias, andei lendo um bocado de coisas sobre, revi filmes, assisti a vídeos, busquei na memória aulas de professores e o jeito como eles me ensinaram fatos referentes ao golpe (só eu acho gritante a diferença na percepção adolescente para a adulta?) e a indignação segue fresca, renovada. Que bom. Vocês sabem, maniqueísmo no colégio é algo fácil, fácil de ser reproduzido.
Fico me perguntando o que faria eu, Bruna, essa palerma com boas intenções, caso tivesse meus vinte e poucos anos de hoje naquele caos político. Me faltam referências na família, não sei como se sucederam as coisas nos interiores do Brasil (especificamente do estado abagualado onde vivo), além de nos faltarem arquivos de pesquisa de um modo alarmante, mas, olha, na minha humilde opinião, acho que eu me meteria em problemas com prazer. Não sei, caro leitor, não vou ludibriá-lo dizendo que eu partiria sem titubear para a luta armada, em prol de uma causa maior - sinceramente, não sei se teria abnegação suficiente, deixando uma vidinha burguesa para trás, meus amores, planos, etc. Mas uma panfletagem de resistência, quem sabe? Umas linhas de repúdio com medo e olhos brilhando em uma máquina de escrever? Acho que sim. Certamente, uma fichazinha marota num DOPS da vida eu teria - claro, isso com sorte. Nem preciso mencionar o que havia além de fichas marotas, né, amiguinhos? Credo.
Imagino o quanto de idealismo dominava o sangue de quem abdicou de um nome, de um passado a favor desse sonho de igualdade que parece cada vez mais inatingível. Não posso deixar de respeitar profundamente quem o fez, simpatizo e muito com quem ousou sonhar mais do que devia, quem brincou com o destino, quem desafiou pelotões, mas acabou despedaçado - metafórica e literalmente. Poxa, eles lutaram por mim! Não falo aqui de esquerda e direita: para ser franca, eu ainda me encontro perdida entre estes conceitos, apesar de já ter lido um monte de coisas a respeito. Falo de coragem de sair do comodismo, sabe. Esta democracia que me permite ter um blog e escrever o que eu bem entender, foi restabelecida à custa de muitas lágrimas, de muito grito. Ela não veio por bondade.

Em suma: espero que ela nunca mais desapareça.



Auxiliou no post: 

Dê um rolê - Roberta Sá e A Parede