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Mostrando postagens de 2018

Flores no lamaçal de creme de avelã

Tenho feito um severo exercício de autocrítica nos últimos tempos - exercício esse que, somado a um problema pessoal bem pontual, me deixou sem tesão algum de escrever. Mas voltei para uma transadinha rápida e certeira. Um mea culpa inspirado nos velhos tempos - desta vez sem o deboche costumeiro. Realmente quero me retratar. Há alguns meses, quando escrevi, estupefata de indignações diversas, sobre youtubers, eu nunca estive tão certa do que escrevia. Sigo achando que o Youtube amplificou a voz dos imbecis e vem cooptando principalmente crianças a uma sintomática era da baboseira - entre trolladas épicas envolvendo mães e banheiras cheias de nutella, criou-se um nicho bizarro cujo terreno é a falta de discernimento infantil infelizmente. Só que foi aí que residiu meu erro: reduzir a plataforma a um lamaçal de creme de avelã - e nada mais. Não me ative ao fato de que ali coexistem muitos canais interessantíssimos sobre os mais diferentes ramos do conhecimento humano, inclusive fazend…

Ninguém me desperta como você

''Ninguém me desperta como você''. Eu tive que soltar uma risada meio abestalhada, porque francamente... em tempos de amor líquido (vocês que fizeram o Bauman acontecer, agora aguentem) e calcinhas secas, fica dificílimo acreditar - de novo - numa patacoada dessas. Dá uma vontadezinha de acreditar, não? Eu adoro acreditar. Na última vez em que acreditei entreguei tudo - o pior e o melhor de mim -, mergulhei fundo num pires, pirei total, injetei adrenalina na veia. Estou vacinada, querido. Cuidado, essas vacinas não duram tanto tempo assim. Ele sabe.  ''Ninguém me desperta como você''. Que delícia ouvir isso, ler isso, tatuar isso na aorta desse coração fodido, pena que é mentira. Não porque eu não seja digna da benesse, mas porque as palavras saem fáceis demais. Eu aprendi isso da última vez. Não se deixar levar por palavras, ainda que sejam tão gostosas de ler, tão bonitinhas de imaginar, ainda que se aninhem tão rápido nesse desesperado ideal de amor…

Um corpo que cai é show

Achou que eu não ia falar dos 60 anos de Vertigo? Achou errado, otário! Vertigo - ou "Um corpo que cai'' em português, pois o brasileiro é uma raça fabulosa - foi lançado em julho de 1958 e é considerado um dos melhores filmes de todos os tempos, sempre figurando nas listas dessa gente muito entendida de cinema que ganha a vida tecendo comentários sobre a sétima arte. O último rol, de 2012, atesta o que vim dizer com esta resenha meia-boca ou esse simpático choque de cultura: o tiozinho que tem umas tonturinhas protagoniza um filme show! Já diria nosso raivoso motorista da Towner azul-bebê - ou não, Renan é indecifrável.  Devo confessar que falar de Vertigo me causa certa melancolia: jamais ficarei novamente com o coração na boca ao visualizar o final da trama, que me deixou completamente perturbada e me fez questionar tudo que assistira até ali. Hã? Cuma? Quê? Volta ali, pera, como foi? Foram algumas das frases proferidas por esta simpática leiga ao encerrar a empreita…

Um ser incrível

Não acredito em relações perfeitas e abnegadíssimas - todas são uma via de mão dupla. Nem mesmo nas de mães e filhos, ainda que o mito da maternidade venda a ideia de que esses seres incríveis estão ali para o que der e vier. Mas imaginar que há um colo me esperando independentemente do que aconteça é alentador, conforta meu coração burro e infantil. O mundo não é um lugar legal, ele está pouco se importando se estou gripada, se levei o casaco para o caso de esfriar, se tomei meus remédios, se comi direito. O mundo quer mais é que eu me foda. E, às vezes, ele consegue. O mundo certamente não teve mãe.  Mas eu tive e tenho, e tem sido sempre uma experiência reveladora ter alguém tão bom para mim, mesmo quando nem mereço. Ter alguém que me ama de verdade - vocês têm ideia do que é ser amado de verdade? - torna as coisas bem mais fáceis. Será possível alguém amar um ser além da própria vida? Ou tudo não passa de construção social? Será possível essa relação aparentemente impossível de m…

Família Felipe Neto

Eu já queria falar sobre isso há um bom tempo, e, enquanto não criar vergonha nessa cara e entrar num mestrado para matar minha curiosidade de por que caralhos as pessoas dão audiência para pessoas tão bizarras e nada a ver, a gente vai ter que escrever sobre isso aqui. Quando eu falo ''a gente'', me refiro a mim e às vozes que habitam minha cabeça, tá, queridos? Youtubers... youtubers... sim, Bruna, está acontecendo e faz tempo. Que desgraça essa gente! Ó, pai, por que me abandonaste? Quanto tempo eu dormi? Estamos vivendo uma era de espetacularização tão idiota, mas tão idiota que me faltam palavras, é sério, eu só consigo sentir - como diria o fatídico meme. Não tem a mínima condição de manter a sanidade mental, querendo estudar, trabalhar, evoluir quando pegar uma câmera, do celular mesmo, sair falando um monte de merda e enriquecer com isso ficou tão fácil. Vamos usar um case bem ridículo aqui? Vamos.  Dia desses, esta comunicóloga que vos fala, fazendo suas comp…

Isis e eu

Dia desses, um cara comentou altas grosserias numa foto minha (um feioso que estava querendo este corpinho, mas isso a Globo não mostra, uééééééé). Enfim, eu apaguei porque o senso de libra aqui é fortíssimo e odeio coisas feias e grosseiras visíveis em lugares que frequento (talvez isso seja indício de querer tudo sempre cor-de-rosa, aprofundaremos em outro post). O fato é que o moço me esculachou - ainda que, outrora, quisesse comer - dizendo para eu não me achar tanto visto que, perto de beldades como Isis Valverde, Fulana Não Sei Das Quantas (alguma boazuda fitness que nunca nem vi e que deve tirar foto olhando pro chão) e outras mulheres que não identifiquei no comentário magoado, eu era feia pra caralho. Eu, Bruna C., 28 anos, feia pra caralho e humilhada em rede social. Lamentei, claro, mas mais por ele não ter sacado o meme que originou a legenda da foto - olha, feiura até relevamos, mas não sacar um meme? Poxa, estamos falando de uma indústria brasileira vital. Mas, vamos lá…

Mimos, calça jeans, hang loose do perdão

Por quê???????? Por que, Deus? Ó, pai, por que me abandonaste? Eu juro que tentei não dar atenção, mas me parece que isso não é opção hoje em dia: as coisas pulam na nossa cara. Coraaaaagem! 
OIE, MININAS, APAIXONADÍSSIMA NESSE VESTIDO
OLÁ, SEGUIMORES, APAIXONADÍSSIMA NESSE LOOK
APAIXONADA NA MINHA NOVA PAPETE DO SENNINHA
APAIXONADA NO MEU BOY CROSSFITEIRO
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA APAIXONADA NISSO, CARA? NISSO? 
APAIXONADA NELE? N E L E? VOCÊS COMERAM COCÔ COM LINHAÇA?
Será um regionalismo? Se for, peço perdão - inclusive me prontifico a apagar tal curtinha e gravar um vídeo me chicoteando mentira. Mas desconfio que seja só burrice mesmo. Ou retardo mental? Eu fico confusa, sabe, porque a regência de ''apaixonado/a'' nem é das coisas mais difíceis que existem na vida - e, possivelmente, desde a tenra idade sabemos como falar/escrever. Se sou apaixonado, sou apaixonado por, certo? Mimo com intensivão do Pasquale quando é que vai vir, hein? Quem sabe um QI básico?

Sap…

Funk não é cultura

Depois do milionésimo ''funk não é cultura'' ouvido na conversa, decidi sair dali. Meio abismada com a burrice humana, mas muito convicta de que precisava escrever algo. Eu queria realmente entender o que vem à cabeça das pessoas quando falam em cultura. Inteligência? Refinamento? Saber usar este ou aquele talher? Vamos começar pelo basicão: cultura não é grau de instrução. Uma pessoa analfabeta tem cultura, assim como nós e nossos diplominhas fétidos. Quando ouço alguém dizer que fulano não tem cultura, só consigo pensar num esvaziamento daquele ser. É de uma ignorância aterradora dizer que as pessoas não têm cultura, quer dizer, toda a vivência delas não significa nada? E o jeito como elas levam a vida, se vestem, se relacionam, consomem?  Eu, particularmente, acho funk um saco, prefiro ouvir um Greatest Hits inteiro da betoneira do vizinho a dar ibope. Não me sinto empoderada ouvindo, não gosto das letras, não consigo apreciar os arranjos e não consumo estando 100%…

Show da vida

Saquem o conto açucarado do qual tomei conhecimento hoje - na verdade, sei dele há uns meses mas somente hoje fui atingida pela epifania. Epifania louca que caiu como uma bigorna na minha cabeça - epifania boa é assim, rasgando convicções. Que história! Digna de passar em algum programa de auditório no domingo e tudo - não por ser ridícula e sensacionalista, mas por ser verdadeiramente linda e comovente. Não que programas de auditório no domingo não sejam ridículos e sensacionalistas, vocês me entenderam. Enfim, vamos aos fatos.  É sobre um casal, claro, awnnnnnn. Ela, gaúcha, meia idade, filhos criados, várias desilusões pelo caminho. Ele, um italiano que vivia na Suíça (e muitas coisas trazia de lá, zoei), e todo o resto também pois o roteiro costuma se repetir com todos os mortais que já têm algumas bagagens na vida - boas e ruins. Entre eles, impensáveis quilômetros e o Atlântico inteiro. Quem diria? Até eu, que creio em todas as possibilidades amorosas, duvidaria. Mas aí um apli…

A fraqueza do Alex - e a minha

Minha última sexta-feira foi punk. Culpa dele, do russo. Do Tchaikovsky (sim, eu fui procurar como se escrevia, neste bloguinho não há espaço para arrogâncias). Na busca por aprender a ser mais cisne negro para sobreviver com mais dignidade e deixar o cisne branco somente para ocasiões especiais, me perdi na mágica do homem. Do Liszt também. Porra, Liszt! Aí eu fui mais adiante, seguindo o coelho branco, e topei com Schubert, cujas traquinagens pouco conhecia. Cataaaaaarse! Droga pesadíssima. Como é que deixam adultos desavisados escutarem isso? Estou até agora meio entorpecida.  Ah... esses estrangeiros maravilhosos. Estrangeiros que eu adoraria gritar que fossem brasileiros, claro, mas por alguma razão a maioria das pérolas são enlatadas - essas latas eu abro com gosto. Primeiro mundo auxiliando brasileiros medianos a escrever textos complexos em madrugadas febris - muitos dos meus trabalhos de faculdade foram feitos à base de Chopin e chazinhos muito loucos de ervas legalizadas. U…