sexta-feira, 28 de março de 2014

Vai uma hipotenusa aí, Bru?

E aí, seres pensantes, e essa vida?

No último post, tivemos uma aulinha básica sobre o verbo ''haver''. Sei que é manezice da minha parte cagar regrinhas de Português, mas acontece que eu sou mané. Todo mané se importa. Se eu não fosse mané, vocês acham que eu teria uma úlcera a cada erro lido, e me prestaria a vir escrever esses mimimis com veemência e sofreguidão? Magina, inocente. É por isso que eu gosto até mesmo de me intitular mané - como na descrição sobre mim (favor direcionar suas retinas ao lado).
Ah... e também porque eu gosto das coisas bem escritas. Todavia, quando recrimino pessoas que escrevem errado, faço referência àquelas que têm/tiveram condições de estudarem, que puderam ter acesso a bons livros e bibliotecas, e, mesmo assim, negligenciaram-se. Aquelas que aprendem trocentas línguas para impressionar sei lá quem, mas não sabem sequer pontuar uma frase. É a essas que a metralhadora cheia de mágoas se volta. Jamais teria a falta de tato de condenar uma pessoa humilde por desconhecer os meandros discursivos do seu próprio idioma - e é uma pena que os humildes sejam maioria.
Eu, felizmente, sempre tive facilidade na área. Sempre. No terceiro ano - sofrendo horrores por não saber o que fazer da vida - tive a pachorra de pegar exame em todas as Exatas, em Biologia (genética, por que tão arredia?), mas em Português exibi as minhas melhores médias do Ensino Médio. Simplesmente não estudei, brinquei com a sorte - e olha que ela costuma falhar. Eis-me aqui então: um ás da crase, que tem pesadelos até hoje com hipotenusas e catetos. Cada um com suas prioridades, meu povo.
É muito curioso quando me lembro das professoras dizendo que eu me saía bem nas provas interpretativas, tipo, elas diziam que eu viajava na maionese, mas alcançava níveis incríveis de entendimento. E eu ria, porque só me restava isso.

- Bruna, mas tu viajaste nesta resposta, não?
- Mas não tá certo?
- Até tá, mas era tão mais simples, não entendi aonde teu pensamento foi...

A inocência dela, achando que eu sabia em que raio de lugar meu pensamento foi se enfiar......

Não é impunemente que, hoje em dia, eu tenha repertório para manter o bloguinho sempre muito bem alimentado com abobrinhas - sem trocadilho alimentício, por favor. Desde que eu me conheço por gente, eu vivo no mundo da lua. Parece charminho, mas, não raro, a coisa vira um problema, porque o fato é que eu tenho certa resistência a mergulhar na vida real. Vai uma hipotenusa aí, Bru?

AFF



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Por que nós? - Marcelo Gênioci





quarta-feira, 19 de março de 2014

FEIPRACARAI

AH NÃO

Enquanto eu viver, eu vou encher o saco. Sério, vocês vão ter que aprender a escrever direito, vai ter que ser na marra, mas vai ter que ser. Fico muito possessa da vida com colegas de profissão errando coisas mínimas, bestas, que, sei lá, desde a quarta série as professoras vêm nos enfiando goela abaixo. Cês têm obrigação moral de escrever suas mensagens de forma polida, galera, cês estão formando opiniões!!!! (amo exagerar)  
É feipracarai jornalista escrevendo errado, é desconcertante, é triste, é pau, é pedra, é o fim do Pasqualinho. Por que vocês negligenciam o Português? (cara de choro)

Eu amo a Língua, ela é linda e cheia de peculiaridades. E não merece.

Sei que nossos receptores acabam digerindo as notícias do mesmo jeito, mas cês estão ligados, né? A cada desleixo, a credibilidade se vai um pouquinho. A cada desleixo, um bloquinho é esquecido em alguma coletiva de imprensa.    

Tipo com o verbo ''haver''. (suspiro)

NO SENTIDO DE ''EXISTIR'', ELE NÃO VAI PRO PLURAL NUNCA, N U N C A, >>NUNCA<<, ***NUNCA***
NUNCAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
ELE É IMPESSOAL. Soletrem comigo: í ême pê ê ésse ésse ó á éle
E CONDICIONA EVENTUAIS VERBOS QUE VENHAM EM SEU ENCALÇO

Haviam jumentos a serem corrigidos. ERRADO
Havia jumentos a serem corrigidos. CERTO
Deviam haver jumentos a serem corrigidos. ERRADO
Devia haver jumentos a serem corrigidos. CERTO


BÔNUS: NÃO EXISTE ''NADA HAVER'', AMIGUINHO!!!!!!!!!!!
NÃO EXISTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE
NÃÃÃÃÃ~~~~AAAA~~ÕOO EXISTEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE

É nada a ver mesmo, rs.


Beijos cheios de ódio!




terça-feira, 18 de março de 2014

Um casal problemático

Era um casal problemático. Talvez chato - para quem olhava de fora, sucumbindo à redoma de vidro onde os dois permaneciam presos. Ela, inconstante. Ele, prático demais. Ela amava ele, mas queria brincar de ser livre, numa liberdade de expressão que não apetecia ele. Ele, embora prático, amava ela de um jeito que a praticidade não conhece, com encantamento, com devoção, com medos escondidos. Os medos às vezes viravam brigas, mas eles não sabiam brigar, uma vez que não entendiam os protocolos da situação. Se brigarmos, não falamos mais um com o outro, é isso? Se brigarmos, retiro meus vinis do teu quarto? Logo, nunca brigavam, não no modo convencional - apenas batiam portas, exageravam nos goles, debochavam da previsibilidade um do outro. Ela, artista, pintava quadros. Ele, metódico, pintava na área para dizer que agora está tudo bem, até comprou ingressos para irem àquele concerto de rock de que falaram semana passada, topa?
E eles sofriam, pois, apesar destas discrepâncias emocionais, se amavam. E não sabiam por que, mas não ficavam indiferentes à presença alheia. Ela, do jeito dela, tentava demonstrar que o queria perto, que sentia o sangue quente perto dele. Para ele, faltava calor. Ele queria mais, era quase um assaltante emocional, talvez ele é quem sofresse mais. E não deixava ela partir, por mais que sua presença quase sempre fizesse mal a seus planos. É, ele gostava de fazer planos, era um contabilizador. Ela queria viver o presente e queria menos números a dois. Só queria os dois. E a forma como ele tentava condicionar as ações dela a fazia fugir. E a forma como ela fumava o fazia fugir. Mas eles sempre fugiam para o mesmo lugar e logo as campainhas já começavam a tocar em ritmo frenético. E os corações pulavam mais uma vez. Ao menos até amanhã, a noite não precisa passar tão rápido. 
E era tão irônico que eles matavam o amor que sentiam, de forma tão velada, tão venosa, tão necessária, como se ele precisasse morrer para finalmente entenderem que se queriam mais que tudo.    



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Come On - Letters to Cleo   






sexta-feira, 14 de março de 2014

Das coisas que eu lamento

Se tem uma coisa que me deixa desnorteada da vida, é gente burra. Mas pera lá, caro leitor, há diferenças no conceito - que, sim, admito, não é lá muito politicamente correto. Aliás, EU acho que há diferenças, pode ser que para você não haja. Burrice técnica, por exemplo, que eu considero inofensiva e, digamos, reversível, é algo fácil de contornar. Não dominar um instrumento, uma técnica, um computador Mac, um celular touch (euzinha advogando em causa própria)... ah, dá-se um jeito, são chatices cotidianas. E, no mais, é possível aprender, treinar o tato, ele adapta-se às necessidades na maioria das vezes. Agora, uma burrice de pensamento, minha gente.... essa é difícil. E é a que mais se dissemina, porque traz em seu cerne uma criação, uma vivência cultural, conceitos enraizados desde muito tempo atrás, ou seja, papais burrinhos e com mentes minúsculas serão naturalmente mentores intelectuais de criancinhas preconceituosas e burrinhas desde a tenra idade. É algo que vai passando de geração a geração. E isso dói, porque a gente não pode fazer nada. Eu não posso, só me resta assistir. E lamentar.
 
Estas linhas ficaram muito pedantes, até parece que eu sou muito inteligente...

É complicado publicizar textos feitos com a raiva mais quente saindo pelos dedos, porque eu posso soar bem cretina. Penso ser burrice a falta de empatia pela situação do outro, acho que foi isso que eu quis dizer.

Acho. Eu não sei é de nada.

terça-feira, 11 de março de 2014

Em vez de rosa, um cactus

Não sei de onde surgiu a ideia - aparentemente incontestável - de que mulheres são loucas por flores. Deve ter sido mais uma invenção capitalista, certamente. (A propósito, se alguém tiver algum texto elucidativo explicando o porquê de relacionarem rosas, lírios, orquídeas, etc a nós, me indique, realmente tenho gana de saber.) Não tô falando que flores - rosas em especial - são desprezíveis, elas são, sim, cheirosas, embelezam ambientes, são agradáveis, ok. Agora, não me venham oferecer rosinha em Dia Internacional da Mulher, por favor, tenham um pingo de consciência das coisas. Mas que coisas, sua rabugenta que não aceita nenhuma florzinha?
O dia 8 não é para ser comemorado, meus queridos, ele é um dia de militância, de reflexões, dia de ouvir, de aprender, de rever estatísticas - que nem sempre são positivas a nós. O mercado, este escroto pagando de ''gentil'', apenas se apropriou de uma data, cujo significado não tem nada de festivo. Para você que está chegando agora da Disney: o dia 8 tem uma simbologia triste, meu caro, como o Dia da Consciência Negra, por exemplo, que marca o aniversário de morte de Zumbi dos Palmares. Naturalmente, quem acha normal dar rosinhas e presentes no dia já citado, deve ser o tipo de criatura que parabeniza negros pela passagem ''do seu dia''. É osso, viu?
No Facebook, vi um sem-número de mulheres se dizendo emocionadas pelas ''homenagens'' que receberam no trabalho, que seus maridos até fizeram café na cama para elas, que se orgulham de serem esposas dedicadas e fazerem seus homens felizes... quer dizer, eu sou obrigada a sorrir condescendentemente para isso? Pior foi ter que ler na marra piadistas do naipe do CQC, nos mandando gentilmente lavar louças, nos brindando com montagens em que havia carros mal estacionados e letreiros com um singelo ''Feliz dia da mulher'', entre outras brincadeirinhas inocentes. Ah, por que ser tão chata, ri aí, eu sou descoladão. E eu tenho que me sentir atraída por um estrupício desses?
Que me chamem de mal amada, de chata, o que for, não me importo, mas eu não aceitei nem vou aceitar rosas nunca neste dia. Enquanto eu não puder sair na rua com a roupa que me der na telha sem ouvir ''elogios'' destes galãs que nos presenteiam com rosas vermelhas, não aceitarei. Enquanto eu ainda ler notícias sobre estupros horrorosos, não aceitarei. Enquanto mulheres transexuais ainda sofrerem com piadinhas maldosas na rua, não aceitarei. Enquanto mulheres seguirem sendo assassinadas por estes príncipes modernos que ''amam demais'', não aceitarei. Enquanto formos vítimas de qualquer violência psicológica, não aceitarei. Quem sabe chegue o dia em que poderemos receber flores como mera gentileza, mas, por enquanto, anota aí: vou querer um cactus para combinar com o meu estado de espírito.




   
 

sábado, 8 de março de 2014

Sobre o dia 8 de março

É de uma dificuldade aterradora tentar mudar um discurso opressor internalizado em nós, entranhado em nossa vivência desde o dia em que nos conhecemos por gente. É como dar murros em pontas de facas. Sangra. Dói. Desgasta. ''Por que se incomodar em mudar?'' - dirão alguns. Oras, porque estamos vivos, e resignação é morte. Se o Darcy Ribeiro disse que há duas opções na vida e que uma delas é a resignação, digo que nunca deixarei de me indignar. Enquanto estiver viva, hei de me indignar.
Eu nunca dei muita bola para o feminismo - como muitxs de vocês. Para ser mais franca ainda, eu achava que, sim, isso era coisa de gente sem mais o que fazer. Ora bolas, se a gente já pode votar e fazer faculdades e etc, o que essas minas ainda querem com isso? Tolinha essa Bruna...
Só que, buscando alguns arquivos empoeirados pelo tempo - lá da aurora da minha infância - me dei conta de que ele nunca esteve tão forte em mim. Desde sempre. Como quando meu pai me buscava no colégio, me via jogando futebol e dizia, receoso de que alguém me machucasse: ''Bruna, isso não é coisa de menina'', e eu ficava meio prostrada, indignada com aquilo, porque, para mim, grandiscoisa jogar com a piazada, qualé a tua, papai??? Claro, dirá você aí que isso não passa de uma opressãozinha-classe-média (e é!!!) mas é por pensamentos como esse que fui criada do jeito que o status quo gosta. Ainda que eu tenha ensaiado uma rebeldia, ela sempre foi superficialmente questionadora, não militante e, pior, reprodutora natural de preconceitos contra as mulheres: calar também é ser conivente na maioria das vezes. Não me culpem, sinceramente, é muito fácil manter tal posição, uma vez que ela é amparada pela mídia hegemônica (de forma escancarada e sutil), pela nossa amada família, pelos nossos professores, pelo governo, por praticamente todos que nos rodeiam - o que não quer dizer, entretanto, que eles sejam do mal, em um sentido cruel da palavra. Vocês sabem, estamos mergulhados neste marzão de lixo há tempos...
Mas podemos frear a ignorância. Se quisermos, claro. Hoje, as promoções de corte de cabelo, de manicure, de depilação, de lojas de roupas e o escambau pipocarão em vossas timelines, como se realmente o universo de ser mulher se restringisse a essas amenidades cotidianas. Mas aí vocês podem lembrar que há mulheres ainda apanhando de seus companheiros, sendo assassinadas por eles, morrendo em abortos clandestinos, sendo marginalizadas pela sua orientação sexual, por não quererem ser mães e donas de casa - e por serem apenas donas de casa também - sendo vítimas de estupros nojentos e sendo culpabilizadas por eles devido à roupa que usavam, entre outras violências pouco nítidas para quem não quer enxergar. Em suma, esta postagem é mais um bilhete carinhoso, dizendo que eu tô com vocês, gurias! Posso não ter estado sempre em atitudes, mas sempre estive por instinto. E ele é que me trouxe até aqui e me fez escrever isso.


É muito mais difícil destruir o impalpável do que
o real.
— Virgínia Woolf


Dentro de nós é forte o medo da liberdade.
— Germaine Greer



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Away - The Cranberries






domingo, 2 de março de 2014

Sobre carnaval

Eu já fui uma foliona de marca maior. Nas matinês dos anos 90 só dava eu. Mas aí eu cresci, né? E comecei a achar tudo um grande exagero, uma coisa sem sentido. Se ao menos fosse sem sentido, mas com música boa... mas não, não é. São sempre os mesmos hits enjoados e com coreografias depreciativas. E então eu racionalizei e parei de ir, não me considero menos tupiniquim por isso.
O que me enerva no carnaval - mais que a overdose de Asa de Águia e adjacentes - é essa necessidade pela loucura, como se ela fosse um instinto sazonal. Anjinhos, nós podemos ser livres e pegar geral depois da quarta-feira de cinzas também. Por que o moralismo velado no restante dos meses, se nos dias de folia é tudo liberado? Conheço casos de pessoas que terminaram namoros para aproveitar mais e melhor, porque, sabe como é, namorar é um fardo mesmo, ainda mais nestes quatro dias maravilhosos em que a lascívia corre solta. Hipócritinhas adoráveis. Não me apetece esta ambiência momesca, mas não por ser santa, e, sim, sensata - ao menos no presente quesito, seu jurado.
A queixa é só em se tratando disto, sabe, não é que eu odeie a festança do momo numa totalidade. Eu gosto de samba. Eu amo o Chico. Eu amo o Cartola, cara, e Cartola é carnaval correndo nas veias. Amo a Marisa Monte e o Paulinho da Viola, como odiá-lo, sabendo que eles são a cara da Portela? Não dá. Gosto do lirismo - talvez pouco explorado - da coisa, tem poesia no carnaval, sim, senhor. Procurando, tem. E tem arte da boa: as escolas de samba se puxam nas histórias que contam nas avenidas. Tirando toda a exploração escrota do corpo feminino, toda a sexualização barata para gringo se deleitar, toda a forçação de barra, com um olharzinho mais atento dá para aprender também.    


Abaixo, eu trago uma raridade: Buarquinho e Carlos Cachaça sendo entrevistados sobre o enredo de 1987 da Mangueira, uma celebração a Drummond.


 


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Little saint Nick - The Beach Boys






sábado, 1 de março de 2014

A voz de vós

eu já amava tua voz
antes mesmo de ouvi-la
e quando eu sonhava
era tu que narrava minhas cenas
a minha sina

mas eu não te percebi
eu não te vivia
e então aconteceu
eu escutei o que tua voz dizia
ela emudeceu a minha

sentei em teu colo
e escutei de pertinho teu âmago
teu coração batendo forte
o meu, atônito
os dois extasiados por tanta sorte

e quando eu ouço
agora tudo faz sentido
essa rouquidão escondida
que é pedido
esse detalhe
que é sorriso
é preciso

esse jeito de dizer
que é jeito ímpar de encostar nas notas certas
que é macio tocando nos ouvidos
e ainda me aguça o resto dos sentidos

isso tudo que me acalma é a tua alma




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Colors - Amos Lee