sábado, 26 de março de 2011

Portuga, seu lindo

         Ok, confesso: por pouco não cursei Letras. Só não levei adiante a idéia, pois não possuo, realmente, a complacência característica das educadoras, além de cultivar a paixão pela Língua Portuguesa mais como um hobby doentio que como um possível meio de ganhar a vida. O fato é que eu, muito malandra, desde cedo tratei de me afeiçoar ao idioma materno e lhe devotar notas açucaradas no colégio, tudo isso para me livrar de uma possível rasteira sua no futuro. Sabem como é, não se pode tratá-lo com negligência - um dia a conta vem. (Mentira. Isso ficou bem didático e gracinha, mas nossa relação sempre foi cimentada por uma irresistível atração. Nada de decoreba, foi instinto puro).            
           Entretanto, há uns cinco anos, notei que, de mera estudante obediente e temerosa, passei a ser uma verdadeira entusiasta de suas regrinhas e conexões estapafúrdias, de suas orações intercaladas, de suas pontuações, de suas conjugações, de sua capacidade fascinante de confundir meio mundo... minha pequena delícia para a qual muitos torcem o nariz. Who cares?
           Pois bem, sendo defensora de seu uso correto, sofro golpes diários, ao vê-lo ser relegado e maltratado em construções ridículas e sem sentido. E aqui não falo nem de erros sintáticos - e pouco perceptíveis a olhos não tão neuróticos quanto os meus - mas sim de erros primários, legítimas imbecilidades fruto de poetas desse Brasilzão, que, por algum motivo, acharam que jogar video-game era mais negócio que aprender que o verbo haver é impessoal no sentido de existir ou fazer - só para citar um clássico que nunca soube o que é ser escrito de forma digna nessa vida.           
           Então? Partindo do meu reles conhecimento na área, deixarei aqui algumas dicas graciosas para quem se prestar a ler esses mimimis nerds. Sigam-me os fãs do Pasquale!


1- Porque = pois, já que. "Ele curte o próprio status no Facebook, porque é imbecil."    
    Porquê = substantivo. "Não entendo o porquê de você estar em 12819289 redes sociais. É carência?"     
    Por que = por qual razão/pelo qual. "Por que usar essa calça verde com esse casaco amarelo? É Semana da Pátria, filhinho?"     
    Por quê = por qual razão também. O acento se dá sempre em final de frase. "Sua cara me faz ter vontade de vomitar e eu nem sei por quê. Que coisa!"

2- Aonde = A que lugar. "Aonde você vai, Peter Parker?"    
      Onde = Em que lugar. "Onde foi parar sua personalidade?"      
    Donde = De que lugar. "Donde você surgiu, oferenda?"

3- Mal é antônimo de bem. "George Clooney me faz passar mal."    
    Mau é antônimo de bom. "Brad é mau, pois trocou Jennifer por Angelina."

4- Afim = semelhante, igual. "Sicrana e Beltrana são galinhas com interesses afins."     
    A fim = finalidade, com vontade. "Ainda estou a fim de te mandar pastar."

5- Há = tempo transcorrido. "Sua riqueza já expirou há anos..."     
    A = tempo futuro. "Daqui a um zilhão de anos, o planeta estará a salvo. Ufa!" 

6- Voz passiva é um carma, eu sei. Acredito que só se aprenda a dita-cuja, se houver um super insight, daqueles que se leva para a vida inteira. Se não foi o seu caso, paciência. Entenda de uma vez por todas que "ALUGA-SE CASAS" não existe. "Alugar" é verbo transitivo direto e pode ser passado para a voz passiva, portanto sua grafia acompanha o plural do substantivo "casas". Logo, temos: "Alugam-se casas", equivalente a "Casas são alugadas". É o verbo, esse lord, quem dá a resposta. Notem, entretanto, que, se tivésemos um verbo transitivo indireto (que precisa de preposição), mudaríamos de situação: "Precisa-se de vendedores". O verbo "precisar" fica no singular, pois não pode ser passado para a voz passiva. Não haveria jeito de escrever: "Vendedores são precisados". Se bem que eu não duvido de mais nada, né...

7- Siga aquele trecho de "Pais e Filhos" e ame a vírgula como se não houvesse amanhã. Acredite, ela é capaz de safá-lo de umas ciladas e de melhorar seu modo de expressão escrita. Separe o que puder, tendo a dignidade de lembrar que há um interlocutor ávido por entender o que você escreveu. Então, faça vocativos, orações explicativas, apostos, adjuntos adverbiais e afins brilharem!! I know you can! 

"Fulana da Silvassauro, biscate da mais alta estirpe, finalmente, pagou as 36 prestações da sua calça Ellus."

"Oiê, amigam, cê podje me mandar as fotchenhos da baladjenha de ontem? Tava mara, néãããm?"

8- Crase, aí vamos nós. Dê um chá de sumiço no mágico acentinho antes de palavra masculina, verbo, numerais, plural sem o emprego do artigo definido "as" e entre palavras iguais. Assim, NO ECZISTEM, entre outros:

"Voltei à cavalo."

"Preços à combinar."

Ando tão careca de falar em crase que quase vomitei ao escrever esses exemplos errados, mas enfim... vou alertá-los de que o entendimento desse glamour em forma de acento liga-se intimamente ao estudo das Regências Verbal e Nominal, portanto não é assim tão fácil pegar a manha. Dediquem-se. Nesse exaustivo caminho, valem os macetes do tempo do colégio: "Se você vai a e volta da, crase há". "Se você vai a e volta de, crase para quê?" Assim:

"Fui à Argentina." 

"Fui a São Paulo."

9- AQUI SEREI TAXATIVA: NÃO SE SEPARA SUJEITO DE VERBO!!!

Bom, há a exceção quando o sujeito é deveras extenso e pode comprometer a compreensão da oração. Mas não se engane, o verbo e o sujeito se amam. Separá-los é coisa de gente invejosa. Ache alguém para amar e deixe-os em paz. Assim, estão erradas as construções:

"Os alunos, estiveram aqui mas já partiram."
"A minha rinite, me deixa com ódio no coração."

*Pego carona aqui para dizer que não se separam, além do sujeito e verbo, verbo e objeto.

10- O coraçãozinho aperta por ter que encerrar os trabalhos. Gostaria de colocar mais coisas nessa listinha da discórdia, mas né? O post tem que ter um fim. Além do que tá acima, não esqueçam que MIM não conjuga verbo e SEJE é uma lenda. Ah e que é obrigadA para as gatinhas e obrigadO para os gatinhos.

Tenham bons sonhos!


                                                           Entendeu ou quer que desenhe?

segunda-feira, 21 de março de 2011

King Kong no mercado

           A gente fala do que entende. Ponto. O Ostermann fala do futebol, Diogo Mainardi da política e do seu amor doentio pelo PT e Sônia Abrão da vida glamurosa dos BBBs. Cada um na sua. Naturalmente, eu também falo de vários assuntos que julgo dominar. Dou uns pitacos sobre as pérolas dos nossos parlamentares, sobre a situação caótica do Japão, sobre a Saga Crepúsculo e sobre o namoro do viril Justin Bieber com a diva de Walt Disney, Selena Gomez. Sabem como é, estudante de Jornalismo tem de estar por dentro de tudo que ocorre nessa ervilhazinha chamada mundo.
            Pois, agora vou confessar, sem falsa modéstia, que há um assunto do qual eu entendo mais que qualquer mortal na face da terra: pagar micos no mercado. Gente, eu sou uma expert, ninguém nunca vai me superar, sou, de fato, imbatível. Seria bem lógico atribuir esse “bônus” à raiva de ter que me dirigir até lá, quando ninguém em minha casa quer fazê-lo, uma vez que a gente atrai, sim, senhor, o que transmite. Logo, sair de casa com ódio no coração não me traz grandes acontecimentos. Ou melhor, até traz, só que são os outros que se divertem. É só alguém gritar que é preciso fazer determinada compra que já trato de me esconder. Ledo engano, eles sempre me acham e eu acabo sucumbindo aos pedidos insistentes de “vá, faça uma boa ação”.
             Trato de ser o mais breve possível no local, que me parece ser, aliás, o ponto de encontro de 10 entre 9 madames da cidade, todas lindas, com saltão, bolsão, cabelão, peitão e filhos insuportáveis dando pitis e atrapalhando a circulação das pessoas. Mas não há como ser rápida desse jeito. Ainda mais quando você adentra no lugar usando um óculos gigante de sol, cujo raio é de 25 centímetros e fones de ouvidos que provocam total esquecimento da pequena sociedade de consumo ao redor. “É só pegar isso, aquilo e aquele outro e vazar daqui, meu Deusinho”, penso. Que nada, já cheguei me achando e é aí que meu mundinho cai. E as frutas e as verduras idem. Na fila do pão, eu pergunto onde que estão as salsichas. E, se bobear, ainda brigo com o atendente, onde já se viu? Não teria que estar tudo junto, seu incompetente? Caminho mais um pouco, procuro maionese na seção de higiene. Na área das bebidas, me finjo de amável para um senhor de 70 anos que acha que tem 25 e insiste em me seduzir com seu olhar -43. Tropeço no moço que põe as etiquetas dos preços, (se bem que esse não é de se jogar fora). Não é fácil essa vida de consumidora raivosa.  
              Finalmente, a hora de pagar - uma luz no começo da fila – que é a parte que eu mais abomino, justamente, por se tratar de uma. Mas quem é que disse que acabou? Não me lembro de ter mencionado que utilizei alguma cesta ou semelhante, certo? E não utilizei mesmo, o que me obriga a fazer malabarismos com tudo que pretendo levar: pão, salsichas, maionese, ketchup (sim, era cachorro-quente!) sem falar nas chaves e na carteira que fiz questão de levar à mostra, apaixonadamente.  Agora, adivinhem quem aparece, do nada, para fazer eu tremer na base e derrubar o que trago em mãos, leia-se mãos de sebo? Sim, um cruzamento do Ashton Kutcher com o George Clooney! Já viram o estrago, né? Derrubo tudo, um sacrifício juntar tudo novamente, mas divirto a galera, que, provavelmente, está mais estafada que eu. Ora, o que seria do pessoal sem minhas micagens? Reconheçam meu talento nato e venham me assistir, qualquer dia desses.

terça-feira, 15 de março de 2011

O preço de uma verdade

          O que leva um jovem jornalista com um futuro promissor em uma influente revista americana a plagiar matérias e sepultar seu nome de vez da vida dos impressos? Foi o que me perguntei, após assistir com descrença o filme “O preço de uma verdade”, lançado em 2003 e dirigido com perspicácia pelo diretor Billy Ray.
           Na história, somos apresentados a uma figura genial e metódica, conhecida por Stephen Glass, cuja fala distribui elogios por onde quer que passe, nos fazendo acreditar, ainda que erroneamente, que, para se dar bem no mundo do jornalismo, boa imagem e um círculo de amigos intocável são suficientes. No começo, realmente, é possível acreditar na ladainha que o protagonista se propõe a contar, já que, se utilizando de mirabolantes artigos, forjados por ele mesmo, galga posições na conceituada New Republic – publicação sediada em Washington. Porém, à medida que a história avança e envolve em sua trama, o jovem redator cai em contradições, mostra-se nada mais que um desorientado sonhador, cujas aspirações de fama e glória eram fundamentadas em pouco trabalho e muita malandragem e faz refletir sobre a questão que efetivamente merece ser debatida: a ética no exercício do jornalismo, principalmente, quando trata-se de veículos em que há certa liberdade de trabalho por parte dos repórteres, tal como no cotidiano da revista.
           Toda a singularidade do episódio narrado, que é baseado em fatos verídicos, expõe a natureza frágil da atividade jornalística, ainda que sempre se preze por ética, moralismo e disciplina na obtenção das informações. Não por falta de bons exemplos na área, obviamente, mas por trazer à tona a ambição que norteia grande parte de seus seguidores, sempre pressionados pela busca de histórias impactantes e que garantam manchetes que “vendam”. Se há autonomia dentro da redação e um mínimo de talento para escrever sobre qualquer assunto, quem garante imunidade contra pilantras editoriais no meio? Essa falha é muito bem exposta no filme, até pelo fato de o jornalista de araque ter sido descoberto na sua rede de mentiras, um longo tempo depois de ter começado com suas peripécias literárias. Glass escreveu 41 artigos e destes, 27 foram total ou parcialmente copiados, fato que se vê fácil, ao analisarmos a personalidade dúbia do rapaz, que sempre procurava ser amável e persuadir os que estavam a sua volta com declarações desconcertantes. Tudo encenação, para encobrir de onde provinham suas escritas fantásticas: de uma mente enganadora, ainda que com enorme potencial no campo de atuação. Seu talento é inegável, é bem verdade, mas de que adianta um pouco de conhecimento que seja, se isso não for usado para um bem comum?
            A profissão de jornalista, a julgar por histórias absurdas como a que serviu de mote para o filme, sempre sofreu com olhares de descrédito por setores da opinião pública. O fato não é digno de surpresa, uma vez que sempre houve e haverá alguém ou algum veículo querendo roubar o pouco de discernimento que nos resta. As perguntas feitas no início mostram quão complicado é falar do tema de liberdade de imprensa e de expressão – assuntos que movem a ação do jornalismo feito com seriedade. Hoje em dia, Stephen Glass vive como um cidadão americano normal, nem de longe lembrando o dissimulado repórter que se infiltrou na New Republic, em meados dos anos 90. Lançou livros – provando assim que, ao menos, possuía subsídio na ex-área de atuação – e transformou-se, literalmente, em ídolo, em um mundo que superestima fatos bizarros. Seu ônus foi o de apenas ter sido banido da profissão. Contudo, a discussão sobre a manutenção da ética nos veículos jornalísticos ainda permanece, logo, a sinopse cumpre seu papel primordial.


                                 #PinóquioFeelings

sexta-feira, 4 de março de 2011

Na contramão?

             Não sei lidar com as minhas frustrações. Ainda não sei equalizar minhas estranhezas, dominar minhas emoções e jogar fora o que não me serve. Não consigo entender estar sempre do lado errado. Torcer pelo mais fraco. Tomar atitudes pouco usuais. Virar a cara para quem eu deveria mostrar automática simpatia. Carregar entranhada uma irremediável tendência de esquerda. Vestir as roupas erradas, quando o tempo está terrivelmente instável. Vestir as roupas certas, quando eu queria mesmo era radicalizar.
              Não me acostumo com essa persistente sensação de sempre marcar presença ao lado dos desajustados, dos que não possuem pátria, dos que choram em vez de lutarem, dos que saem da festa, quando o agito está no auge, dos que não se sentem à vontade fazendo o que todo mundo faz, dos que insistem em se importar, quando simplesmente ninguém se importa... 
               Alguém mais?