domingo, 13 de agosto de 2017

Um pai que rasga encartes de propaganda

Meu pai e eu não poderíamos ser mais diferentes. Eu sou gremista, ele, colorado; Eu gosto de rock e amo um enlatado americano - como ele chama -, ele só ouve música de raiz - como também chama. É tão tradicionalista que chega a dar nojo. Um nojo poético, digamos. Ele é liberal convicto, eu flerto com várias saladas políticas, muito apesar de ter um ímpeto de Voltaire que me seduz. Ele, apesar de ser um baita cérebro, ama uma sessão indolor de Datenas e Rodrigos Faros - este último em pleno domingo, é mole? Já eu prefiro enfiar a cabeça numa betoneira a acompanhar a empreitada. Só que ele entende de arrobas e de bushels, fala de economia e deixa meio mundo calado - já eu, só sei que, felizmente, essas coisas me alimentaram a vida inteira. Perdão por não gostar do que faz seus olhos brilharem, pai. Um homem do campo pai de uma pseudo-patricete-urbana meio desmioladinha... é, a vida prega peças. 
Ele é tão canceriano que chega a dar raiva - tão chantagista emocional, tão de lua, tão doído de suas dores genuínas - ai de mim se falar algo desviado, a criatura vai jogar aquilo na minha cara por dias. Papai, você é meu inferno astral - e, como vocês sabem, só num inferno se encontra redenção. Papai, você é a minha, você calma meu coração com um talento que me comove. Te amo tanto que sinto meu músculo cardíaco agoniado. 
Muito embora eu odeie mortalmente essas datas comerciais (como eu odeio!!!!!!!), elas entram sorrateiramente no seu inconsciente e você se pega pensando nas pessoas capitalizadas e homenageadas em questão. E pensando sobre a relação longe de ser perfeita que mantenho com esse paizinho, eu também vejo que somos tão iguais no fundo. Chego a rir sozinha ao me ver ocultando tudo - t u d o - que é anúncio no Instagram. Fugindo de marcações de promoções no Facebook - já viram flyer de festa na minha página outorgando que eu vá àquele inferninho, porque é a festança do século? Nem verão, porque eu simplesmente bloqueio esses senhores. Se eu quiser festa, eu procuro, sim? Sai daqui com essa propaganda invasiva de merda. Ai, eu sou tão papai. Uma das lembranças mais ricas que tenho dele na infância é a de chegar com seu suplemento robusto de jornais (um aficionado por jornais e revistas desde sempre, e eis-me aqui jornalista) e de rasgar, um por um, os encartes de lojas variadas que vinham encobertos pelas notícias da zêagá dominical. Uma grosseria, claro, talvez até digna de internação para uns; Para mim, poesia. Ali meus olhos brilhavam e eu via que tinha um pai de personalidade, jamais um ser humano comum. Logo, cresci e me tornei essa moça adorável que rasga anúncios assim que os recebe. Deixa eu tentar ser feliz com essa caralha de sapato que eu já tenho, por favorrrrrr. Dois corações unidos pelo ódio ao que querem nos enfiar goela abaixo é amor demais, é amor que perpassa a vida. 
Jamais um ser humano comum. Em hipótese nenhuma, um ser humano comum. Meu pai cativa ou provoca náusea, nunca indiferença. Creio ser igualzinha. Temos nossas diferenças, mas bem no fim o que sobra é o amor, o zelo, a admiração, a criação - nunca esqueçam que a criação é uma das coisas mais fortes de que um ser humano é feito. E da minha eu me orgulho imensamente. Eu me orgulho imensamente de rasgar encartes de propagandas pois você me fez assim, paizinho. Ninguém mandou criar uma filha bem dona do próprio nariz.  



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Ode to my family - The Cranberries








quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mãe de pet

Até eu, que eu sou uma doente descontrolada por gatinhos e afins, tenho um pingo de noção ao me intitular ''mãe'' dos meus bichinhos. Por favorzinho, sim? Nós não somos mães porcaria nenhuma - no máximo, tutoras babonas que amam seus peludinhos e zelam pelo bem estar deles, o que não me parece ser digno de medalha. Há tempos, venho pensando sobre isso e tenho me incomodado com a denominação. Mãe de cachorro também é mãe. Mãe de pet é mãe, sim. Qual é? Em maio último, foi uma enxurrada desse tipo de pérola nas timelines que, a duras penas, mantenho. Eu queria me matar. Aí eu fiquei dias e dias matutando: mas será que eu vou ter que escrever uma baboseira das minhas para dizer o óbvio? Que vocês NÃO são mães? Que vocês estão sendo ridículas e egoístas ao saírem se proclamando guerreiras por cuidarem de um animalzinho? Pelo jeito, sim. Então comecemos pelo começo, como diria o outro lá. 
Mãe de pet não deixa de fazer nada em sua vida por conta de seus ''filhos'' - no máximo, ela vai atrasar seus afazeres, arrumar uma brecha para algo mais urgente em relação à prole peluda, mas, ainda assim, não me recordo de mulheres que não conseguiram dormir uma noite inteira por conta deles. Mãe de pet não vê os cabelos embranquecerem de dúvidas, angústias e medos sobre a educação dispensada àquele serzinho que parece fazer o contrário de tudo que foi pedido. Mãe de pet não sente as mamas doloridas em virtude de torturantes sessões de amamentação. Mãe de pet pode sair no sábado à noite sem medo de ser julgada. E beber todas, afinal, no fundo ela sabe que não é mãe porra nenhuma.
Mãe de pet não sente a corrosiva ação dos hormônios no organismo, na pele, no cérebro, na alma após dar à luz - e meses a fio depois. Mãe de pet não tem depressão pós-parto. Mãe de pet não vê seu corpo passar por mudanças que mutilam, muitas vezes, sua autoestima e desejo por si mesma. Mãe de pet não comunga do alimento que ajuda a desenvolver sua cria. Mãe de pet não sabe o que é passar dias e dias sem poder comer devido a enjoos, andar devido a dores diversas, viver devido a questionamentos que paralisam o semblante. Se vocês, literalmente, não vomitaram pelos filhos de vocês, tenham a dignidade de não se outorgarem mães com tanta veemência.
É bonitinho ter um bichinho, é uma delícia - eu amo, sou fascinada. Mas, nunca, nem na minha quinta loucura, vou sair esbravejando que sou mãe, sim, ora pois!!!! Eu não educo ninguém, não perco o sono por ninguém, não me questiono dia e noite se estou fazendo um bom trabalho, não sofro com os noticiários e o mundo horripilante onde meus rebentos terão de viver após saírem da minha asa, não me apavoro com os preços dos alimentos, das fraldas, das roupas, dos materiais escolares. No máximo, eu curto essa paixão que é ter um companheirinho, um alento que ronrona em dias tenebrosos e me auxilia na tarefa pedregosa de seguir. Chamo os meus de filhinhos, claro, como não? - é mais forte que eu. Mas tomo o cuidado mínimo para não passar por imbecil: ao menor sinal de comparação esdrúxula, eu calo a boca.


                                                         Sacou, idiota?









terça-feira, 1 de agosto de 2017

Orgulho trouxa

Sabe aquele tipo de pessoa que se dá importância demais? Que se ofende se você não procura, não implora por ela, não se ajoelha para sair com ela, para vê-la? Não sejam assim. Ou sejam, claro, mas não cruzem meu caminho - que cansaço! Assim, eu sei que todos somos importantes num plano circunstancial abaixo do Equador, mas sugiro não alimentarem a ideia de que são insubstituíveis, imprescindíveis tanto tanto tanto assim. Que preguiça. 
Trata-se de uma cosita que me rouba algumas horas de sono sempre. Ser ou não ser assim tão disponível para amores, crushs, amigos, irmãos, gatos, papagaios, pessoas em geral? Se muito solícitos, muito trouxas, muito servis, com tão poucas ocupações e por isso tão pouco interessantes? Se pouco solícitos, mais passíveis de sermos disputados? Não é uma equação tão infundada assim, pensem comigo. Os manuais de relações humanas sempre dissertam sobre o tema. Não procure quem não procura você, não se apegue, seja frio, pessoas gostam do que não têm, blá, blá, blá, roinczzzzzzzzz, mas aí é que reside nosso dilema maior: muitas vezes você não está tão à vontade com esse gelo estratégico, não está agindo conforme seu desejo genuíno - e isso é sempre meio péssimo. Ligue se tiver vontade, chame se quiser - pena você tem que sentir de quem não quis sua companhia. 
Ninguém gosta de ser segunda opção, eu sei - eu menos, argh leonismo do mal -, masssss talvez seja necessário cultivar sentimentos mais desapegados de convenções se quisermos momentos realmente felizes com quem nos é caro. Até porque, aqui vai uma verdade: não tem como dar atenção para tudo nessa vida, caras. É cruel, mas vale a pena se acostumar com as inconstâncias dos momentos, das paisagens, do tempo. Alguém vai ser lesado, você vai se lesar idem. Cheguei à conclusão quando dei de cara, esses dias, com uma amiga ao encontrar outra amiga para tomar um café, enquanto lembrava que tinha hora no dentista e cogitava uma passadinha na minha avó. Tempo é artigo de luxo hoje em dia. 
Fico dias, meses, eras, sem conversar com alguns amigos e adivinha? Quando nos encontramos, exceto raros casos, é sempre a mesma delícia - ouso dizer que é porque algo muito forte foi sedimentado no passado: ritos de passagem são sempre mais implacáveis perante o correr dos anos. Já em se tratando dessas ladainhas pseudorromânticas (coisa linda ter que dobrar o r graças a esse acordo ortográfico idiota, não?) em que nos metemos, é sempre uma estafa mental não poder ser a gente mesmo quando o inconsciente grita, ''vou deixar esse cretino no vácuo só mais uns 15 minutinhos mesmo que eu esteja gangrenando de vontades impublicáveis''. Haja saco, hein? Se me chamar eu vou, se me ligar estou pronta em 10 minutos - ok, 2 horas -, se quiser me ver estou à disposição. Não me dou importância mesmo, sou uma trouxona, décima quinta opção, a renegada do quinto signo do zodíaco, o limbo. Porém, penso ser mais feliz do que muita gente inacessível por aí. Você não perde quando tenta oferecer, só ganha. Ganha, sim, vai por mim.  





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I don't want to grow up - Ramones









sábado, 22 de julho de 2017

You're gonna hear me roar

Neste dia até o sol estava brilhando mais, não? Sim, ele entrou em Leão. De 22 de julho a 22 de agosto, uma espécie de magia começa a pairar nas esquinas, no céu, nos olhos por aí... quem não nasceu leonino que aguente, né, mores?  
Salve nossa autoestima sempre! Amém, felinos! Tô com medo do inferno astral? Claro, como não? Mas vamos emanar amor e calor aos corações gelados, que tudo se ajeita. 
(Hoje eu só vou escrever merda - não que eu não escreva sempre, mas hoje estou optando deliberadamente pela merda, divirtam-se.)  

Por muito tempo reneguei meu leonismo, achava-o fútil, bobinho... lia as descrições nas revistas e fazia um muxoxo: mas nunca que isso sou eu, wtf? Só que quer saber? Eu gosto de elogio mesmo, sou uma gatinha manhosa pronta para derreter de amores e gratidão. Gosto de me arrumar mesmo! Aprecio coisas bonitas, porém detesto esnobismo - é possível gostar de um sem se corromper pelo outro, sabiam? Tenho um coração puro e bobo, que acredita, a duras penas, no bem e na bondade. Gosto de fazer a diferença na vida de quem me rodeia, sacam? Ganho meu dia se consigo ajudar alguém, qualquer alguém - até ajudar uma senhora idosa a atravessar uma rua movimentada. Mas ganho meu dia idem quando encontro uma promoção de calças jeans pois ninguém é de ferro - e eu que não quero ser, tem muito sangue correndo aqui, seria um desperdício. Amo minha juba, meus cabelos são minha inspiração - sou um Sansão de saias. Sou extrovertida mesmo, sou efusiva mesmo, converso não só encostando em ti, como tocando na tua alma - profundidade me agrada. Penso que, quando me conhecem, ou me odeiam ou me amam de cara. Não deixo margem para dúvidas. E sou egoísta, não divido doces, me escondo para comê-los. 
Sou empolgada com o que me tira do prumo - gatinhos, cerveja com minhas amigas lindas, músicas boas, homens gostosos que não valem nada, barbas ralinhas, coisas criativas e instigantes, textos bem escritos e vocativos corretos, conhecimento, biografias, gente interessante, dias bonitos, etc - e não sei não me empolgar com qualquer porcaria diferente com que meus olhos cruzem. Sou assim, um ser humano empolgado, falador de abobrinhas em demasia. E luto constantemente para meu lado escuro e pouco iluminado não dominar meus pensamentos. Sou barulhenta e esbarro em qualquer coisa inanimada, é o meu charminho. Sou perdida, perdidaça, vivo na minha própria galáxia. Odeio, odeio - puta merda, como eu odeio - gente grosseira e que não sabe ser gentil. PORRA, CUSTA SER GENTIL COM OS OUTROS, ARROMBADO? 
Ser leonino é uma delícia e uma dor, porque, no fundinho, é muito fácil passar a perna em nós. Sofremos de uma espécie de trouxismo congênito, a gente simplesmente quer acreditar que merece o melhor, que vão ser bonzinhos com nós, que vão valorizar nossos talentos e gentilezas. Compramos com louvor a ideia de que somos necessários no... glup, mundo. Pobrezinhos... tão ingênuos. Tão teatrais, tão dramáticos, tão leais, tão inundados de mortal vaidade, tão mesquinhos, tão humanos, tão românticos, tão viscerais e insuportáveis, tão generosos, tão descrentes e niilistas, tão fascinantes para quem sabe apreciar. Tão apagados quando não têm pelo que lutar. Salve nós, salve nossa época, salve o rei da selva - ao menos da nossa selva, sei que somos. ROAAAAAAAAOOOOR


                                    Tudo isso que o sol toca é o seu ego, Simba!