segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Eu tenho riniteeeeee!

Eu nunca vou enfiar essa merda no nariz! Eu tenho riniteeeeee! Essa sou eu dizendo que nunca vou usar cocaína. Nunca, nunquinha, é nojento demais. Como que conseguem aspirar aquele pó de origem duvidosa narinas adentro com a alma leve, despreocupada? Assim, eu até queria sentir a loucura e a vibe, mas nasci muito cagona para experimentar. E cheia de rinite. Rinites infinitas e desconhecidas habitando esse narizinho lindo. Deus me livre. Não, leitor, isso não é uma versão piorada daquela propaganda bizarra da Eliana, nos anos 90, dizendo para você abrir a mão e dizer não às drogas - tampouco uma mensagem patrocinada pelo PROERD. Sou só eu, vida saudável afundada em ansiolíticos, dissertando sobre o tema após gritar a sentença acima em meio a umas 20 pessoas desconhecidas, bota micão
E os hippies, hein? Como conseguiam sair se picando adoidado nos anos 60 com aquelas agulhas pavorosas? Amigo, se eu vejo uma agulha já saio correndo. Já não é mais fobia, é algo sem nome. Adoraria, entretanto, ser um deles. O dress code? Amo, sou entusiasta, calça flare, vem ni mim. Viver pelada em cachoeiras? Fechou. Escutar rock progressivo e foder loucamente com um mozinho ou com vários mozinhos? Me parece ótimo. Protestar contra a matança americana no Vietnã e a ganância do capital? Contem comigo. Injetar coisinhas nos braços? Jura, sai fora, ewwww. LSD, também penso que não teria muita morada nesse corpo atucanado. Eu ia entrar na bad trip antes mesmo de usar o causador da bad trip, cer-te-za, é a minha cara. Ai, meu Deus, eu tô vendo o John Lennon, é ele!!!!! Bruna, calma, é só uma mancha na parede. Pensando bem... sairiam uns textos muito loucos com a ajuda do ácido do mal, isso é inegável. Se relativamente sóbria já escrevo brilhantemente (kkkkkk tá, parei), imaginem piradíssima? Talvez até o romance que está entalado na minha garganta e sabe-se lá por que caralhos não consigo pôr para fora saísse da gaveta.
Quanto à maconha, que me parece ser uma das mais inofensivas no rol das cabulosas... não sei, não me apetece numa totalidade. Ao mesmo tempo em que viver viajando na maionese - porque eu simplesmente vivo numa viagem paralela na maionese - me parece gostosinho, já me enerva porque tenha dó, que cheiro insuportável, como assim todo dia? Nada contra, tenho até amigos que são, mas me ajudem a ajudar vocês: sair se vangloriando de ser usuário enquanto o discurso proibicionista segue matando pessoas inocentes com fuzis em bairros miseráveis não me parece muito digno. Nem transcendental, rascunho de Bob, tira a legendinha ridícula da foto por favor.
E pensar que esse texto tomou forma quando gritei, a plenos pulmões e cerveja correndo nas veias, a frase que certamente não me faria amiga íntima do Cartel de Medellín... nunca tinha escrito nada aqui sobre o assunto, mas considero relevante tratá-lo com seriedade e discuti-lo, a fim de que mais vidas sejam preservadas - dos apartamentos da zona sul às favelas. Droga por droga, seguirei com as minhas, aquelas bonitinhas - e talvez tão perversas quanto - que eu compro com receita. Isso, citalopram, assim... hummmmm, que delícia, já vejo unicórnios.


                             Que velho do saco o quê! Nos anos 90 temíamos Eliana










quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Fogo no rabo

O sono é feroz, domina, e a preguiça, lancinante, puxa seus membros fatigados para qualquer lugar em que se possa ficar apoiado. Mas é sábado e você combinou de ver seus amigos - e o pior é que em algum nível do seu coração você quer realmente vê-los. O que você não quer é se locomover, então você faz o que qualquer filho da puta já fez alguma vez na vida: enrola. Enrola pra caralho. A vida como ela é. 
''Aposto que se o fulaninho fosse, já estaria lá''. Tão verdade que não consegui nem disfarçar o sorriso cheio de dentes. Se fulaninho estivesse lá, eu já estaria lá antes de ser. Se fulaninho vem, por exemplo, às quatro da tarde, desde as dez da manhã eu estarei experimentando calcinhas. Refletindo sobre isso, parei uns minutos... e me saí, resignada, com uma ótima, como se tivesse um cigarro no canto no boca e fosse Nelson Rodrigues: ''o fogo no rabo é uma vontade inabalável''. Não que eu não sinta fogo no rabo por meus amigos queridos, mas definitivamente naquela noite tudo que eu queria me entregar aos braços dele, do sono - a não ser, claro, que fulaninho estivesse por lá. Fulaninho, naquela noite, detinha todo meu fogo no rabo. Um fogo no rabo intransferível e ensandecedor. Fiquei meio desconcertada, claro, com o diretaço na cara, mas depois caí em mim e vi que era verdade: o bom de amizades sólidas é que as fraquezas são partilhadas de forma muito humana, além de serem mais fáceis de serem absolvidas - não esperem isso de amigos baratos e de alguns poucos meses. Quem nunca quis dar um chá de sumiço nos amigos e se entregar aos fulaninhos da vida numa noite de lua cheia que atire a primeira pedra. Todos culpados aqui, sem direito à fiança.
Acabei não indo vê-los naquela noite, confesso. Primeiro, porque sou uma cretina. Segundo, porque merecerei o ostracismo eterno quando todos os fulaninhos me meterem chifres absurdos, eu sei. Faltou algo além de um mero rascunho de querer, faltou fogo no rabo, faltou ímpeto, faltou paixão. Ah... mas se fulaninho estivesse lá, certamente o coração vagabundo teria até saído de havaianas. Vestido somente de chinelos e vontades. Entrando numa seara mais filosófica, poderíamos definir fogo no rabo como o além da vontade, aquilo que nos motiva a ir um pouco mais, até porque querer... bom, querer, todos queremos um monte de coisas. Mas o fogo no rabo é para aqueles momentos bem especiais - o fogo no rabo é o que faz as coisas acontecerem, é quando os desejos independem de destino. De fulaninhos a conquistas pessoais mais mundanas, o fogo no rabo perpassa tudo na vida. A vida como ela é. Nelson me deu um tapinha nas costas e disse: não se torture, menina, eles também são assim.


  


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Sunrise - Norah Jones







domingo, 13 de agosto de 2017

Um pai que rasga encartes de propaganda

Meu pai e eu não poderíamos ser mais diferentes. Eu sou gremista, ele, colorado; Eu gosto de rock e amo um enlatado americano - como ele chama -, ele só ouve música de raiz - como também chama. É tão tradicionalista que chega a dar nojo. Um nojo poético, digamos. Ele é liberal convicto, eu flerto com várias saladas políticas, muito apesar de ter um ímpeto de Voltaire que me seduz. Ele, apesar de ser um baita cérebro, ama uma sessão indolor de Datenas e Rodrigos Faros - este último em pleno domingo, é mole? Já eu prefiro enfiar a cabeça numa betoneira a acompanhar a empreitada. Só que ele entende de arrobas e de bushels, fala de economia e deixa meio mundo calado - já eu, só sei que, felizmente, essas coisas me alimentaram a vida inteira. Perdão por não gostar do que faz seus olhos brilharem, pai. Um homem do campo pai de uma pseudo-patricete-urbana meio desmioladinha... é, a vida prega peças. 
Ele é tão canceriano que chega a dar raiva - tão chantagista emocional, tão de lua, tão doído de suas dores genuínas - ai de mim se falar algo desviado, a criatura vai jogar aquilo na minha cara por dias. Papai, você é meu inferno astral - e, como vocês sabem, só num inferno se encontra redenção. Papai, você é a minha, você calma meu coração com um talento que me comove. Te amo tanto que sinto meu músculo cardíaco agoniado. 
Muito embora eu odeie mortalmente essas datas comerciais (como eu odeio!!!!!!!), elas entram sorrateiramente no seu inconsciente e você se pega pensando nas pessoas capitalizadas e homenageadas em questão. E pensando sobre a relação longe de ser perfeita que mantenho com esse paizinho, eu também vejo que somos tão iguais no fundo. Chego a rir sozinha ao me ver ocultando tudo - t u d o - que é anúncio no Instagram. Fugindo de marcações de promoções no Facebook - já viram flyer de festa na minha página outorgando que eu vá àquele inferninho, porque é a festança do século? Nem verão, porque eu simplesmente bloqueio esses senhores. Se eu quiser festa, eu procuro, sim? Sai daqui com essa propaganda invasiva de merda. Ai, eu sou tão papai. Uma das lembranças mais ricas que tenho dele na infância é a de chegar com seu suplemento robusto de jornais (um aficionado por jornais e revistas desde sempre, e eis-me aqui jornalista) e de rasgar, um por um, os encartes de lojas variadas que vinham encobertos pelas notícias da zêagá dominical. Uma grosseria, claro, talvez até digna de internação para uns; Para mim, poesia. Ali meus olhos brilhavam e eu via que tinha um pai de personalidade, jamais um ser humano comum. Logo, cresci e me tornei essa moça adorável que rasga anúncios assim que os recebe. Deixa eu tentar ser feliz com essa caralha de sapato que eu já tenho, por favorrrrrr. Dois corações unidos pelo ódio ao que querem nos enfiar goela abaixo é amor demais, é amor que perpassa a vida. 
Jamais um ser humano comum. Em hipótese nenhuma, um ser humano comum. Meu pai cativa ou provoca náusea, nunca indiferença. Creio ser igualzinha. Temos nossas diferenças, mas bem no fim o que sobra é o amor, o zelo, a admiração, a criação - nunca esqueçam que a criação é uma das coisas mais fortes de que um ser humano é feito. E da minha eu me orgulho imensamente. Eu me orgulho imensamente de rasgar encartes de propagandas pois você me fez assim, paizinho. Ninguém mandou criar uma filha bem dona do próprio nariz.  



Auxiliou no post: 

Ode to my family - The Cranberries








quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mãe de pet

Até eu, que eu sou uma doente descontrolada por gatinhos e afins, tenho um pingo de noção ao me intitular ''mãe'' dos meus bichinhos. Por favorzinho, sim? Nós não somos mães porcaria nenhuma - no máximo, tutoras babonas que amam seus peludinhos e zelam pelo bem estar deles, o que não me parece ser digno de medalha. Há tempos, venho pensando sobre isso e tenho me incomodado com a denominação. Mãe de cachorro também é mãe. Mãe de pet é mãe, sim. Qual é? Em maio último, foi uma enxurrada desse tipo de pérola nas timelines que, a duras penas, mantenho. Eu queria me matar. Aí eu fiquei dias e dias matutando: mas será que eu vou ter que escrever uma baboseira das minhas para dizer o óbvio? Que vocês NÃO são mães? Que vocês estão sendo ridículas e egoístas ao saírem se proclamando guerreiras por cuidarem de um animalzinho? Pelo jeito, sim. Então comecemos pelo começo, como diria o outro lá. 
Mãe de pet não deixa de fazer nada em sua vida por conta de seus ''filhos'' - no máximo, ela vai atrasar seus afazeres, arrumar uma brecha para algo mais urgente em relação à prole peluda, mas, ainda assim, não me recordo de mulheres que não conseguiram dormir uma noite inteira por conta deles. Mãe de pet não vê os cabelos embranquecerem de dúvidas, angústias e medos sobre a educação dispensada àquele serzinho que parece fazer o contrário de tudo que foi pedido. Mãe de pet não sente as mamas doloridas em virtude de torturantes sessões de amamentação. Mãe de pet pode sair no sábado à noite sem medo de ser julgada. E beber todas, afinal, no fundo ela sabe que não é mãe porra nenhuma.
Mãe de pet não sente a corrosiva ação dos hormônios no organismo, na pele, no cérebro, na alma após dar à luz - e meses a fio depois. Mãe de pet não tem depressão pós-parto. Mãe de pet não vê seu corpo passar por mudanças que mutilam, muitas vezes, sua autoestima e desejo por si mesma. Mãe de pet não comunga do alimento que ajuda a desenvolver sua cria. Mãe de pet não sabe o que é passar dias e dias sem poder comer devido a enjoos, andar devido a dores diversas, viver devido a questionamentos que paralisam o semblante. Se vocês, literalmente, não vomitaram pelos filhos de vocês, tenham a dignidade de não se outorgarem mães com tanta veemência.
É bonitinho ter um bichinho, é uma delícia - eu amo, sou fascinada. Mas, nunca, nem na minha quinta loucura, vou sair esbravejando que sou mãe, sim, ora pois!!!! Eu não educo ninguém, não perco o sono por ninguém, não me questiono dia e noite se estou fazendo um bom trabalho, não sofro com os noticiários e o mundo horripilante onde meus rebentos terão de viver após saírem da minha asa, não me apavoro com os preços dos alimentos, das fraldas, das roupas, dos materiais escolares. No máximo, eu curto essa paixão que é ter um companheirinho, um alento que ronrona em dias tenebrosos e me auxilia na tarefa pedregosa de seguir. Chamo os meus de filhinhos, claro, como não? - é mais forte que eu. Mas tomo o cuidado mínimo para não passar por imbecil: ao menor sinal de comparação esdrúxula, eu calo a boca.


                                                         Sacou, idiota?