segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

A fraqueza do Alex - e a minha

Minha última sexta-feira foi punk. Culpa dele, do russo. Do Tchaikovsky (sim, eu fui procurar como se escrevia, neste bloguinho não há espaço para arrogâncias). Na busca por aprender a ser mais cisne negro para sobreviver com mais dignidade e deixar o cisne branco somente para ocasiões especiais, me perdi na mágica do homem. Do Liszt também. Porra, Liszt! Aí eu fui mais adiante, seguindo o coelho branco, e topei com Schubert, cujas traquinagens pouco conhecia. Cataaaaaarse! Droga pesadíssima. Como é que deixam adultos desavisados escutarem isso? Estou até agora meio entorpecida. 
Ah... esses estrangeiros maravilhosos. Estrangeiros que eu adoraria gritar que fossem brasileiros, claro, mas por alguma razão a maioria das pérolas são enlatadas - essas latas eu abro com gosto. Primeiro mundo auxiliando brasileiros medianos a escrever textos complexos em madrugadas febris - muitos dos meus trabalhos de faculdade foram feitos à base de Chopin e chazinhos muito loucos de ervas legalizadas. Um pira muito doida, irmãozinho. Como não entrar em transe ouvindo este pianista absurdo que, desde que ouvi pela primeira vez, pareceu moer meus miolos? Entreguei meu coração na primeira escutada. Nunca mais fui a mesma depois de escutar seus noturnos. Me lembro de ter ouvido algum deles numa novela, muito nova, e ter sucumbido às lágrimas. Chorei como um bebê e não sabia o motivo. No outro dia, ao comentar com uma amiga no colégio o acontecido, soube que o choro tinha sido real por lá também. Ali entendi que a música tinha esse poder curativo e transcendental de unir almas. E que nós duas éramos choronas estranhas. Por via das dúvidas, fui ver qual era a do tal Xopã. Estamos juntos até hoje. Piano é pior que cocaína.  
Falando sério, especialistas dizem que ouvir música clássica faz bem para os ouvidos, para a vida, até mesmo para aumentar a inteligência dos já mencionados miolos. Quais são os especialistas? Aí vocês vão ter que procurar porque eu não recordo onde li a notícia. Mas deve ser verídico. Longe de mim querer entrar numa dicotomia furada de que quem escuta esses senhores é mais interessante intelectualmente ou mais isso e aquilo, mas vocês hão de convir comigo: nem só de balançar a raba e ouvir porcaria vive um ser humano. Tem uma hora em que o espírito pede arrego. Tem uma hora em que essa parte responsável por nos encantar pede para ser tocada, acarinhada. Não é possível que algo como Clair de Lune, por exemplo, não mexa com alguma coisa aí dentro. Porra, Clair de Lune é um acontecimento. Eu ouvindo Clair de Lune deve ser comparável a Alex DeLarge apreciando a Nona de Beethoven (acho uma graça como nosso singelo psicopata se refere ao compositor alemão pelo primeiro nome, Lud-wig-vééén, que medo). Eu e o doido: entregues, domados, feridos de venenosa contemplação.
O fato é que essas coisas me comovem muito, sempre, sempre, desde pequena - fui uma criança deveras contemplativa, como podem perceber. E sigo uma adulta que aaaama uma trilha instrumental seja lá do que for. Não sei avaliar técnicas, estilos, escolas, nada, nada, mas aqui bate um coração muito vulnerável ao que não consegue entender. E ao que fascina. Tadinho.


                                   essa eu botei só para aterrorizar geral kkkk




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Liebestraum - Franz Liszt








segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Sumiços, porre de vinho, Julia Roberts

Sumi, né? Eu sei. Mas não foi por falta de ideia. Na verdade, seguidamente os ''preciso escrever sobre isso porque tá me sufocando'' vêm me visitar em uníssono. Saudade de usar ''uníssono'' em um texto de novo, ufa, saiu. No colégio, uma vez, uma professora disse que eu era uma pedante literária. Sigo honrando o deboche com gosto.  
No geral, eu não tenho mais tempo (será que eu arrumaria tempo?). Não tenho mais tempo para escrever minhas misérias aqui, logo eu que sempre priorizei minimamente este espaço nebuloso. Fazer o quê? É da vida. Nem vim fazer mea culpa até porque ninguém se importa, foi mais para dar as caras, tirar o pó do lugar, abrir as janelas. Como vão? Me convidem para tomar um café, só não liguem para o meu celular, não suporto telefone tocando. Mentira, café com esse calor não tem condição, me convidem para ficar em silêncio tomando um vento na cara. Preciso de silêncio, não aguento mais ter que opinar sobre tudo. Não aguento mais qualquer bizarrice sendo notícia e as implicações da tida notícia ganhando proporções que nunca existiram e virando um compilado de idiotice. Será mesmo a modernidade líquida este retardo ambulante? Aguardemos e sigamos lacrando. Tenho medo de envelhecer e encaretar, mas talvez o encaretamento seja a única saída quando você tem 28 anos mas já vê cabelos brancos insistindo em aparecer no emaranhado de castanhos. Eu não superei ainda ter feito 28, percebe-se. Eu não aguento mais ser jovem mas tudo que eu mais quero na vida é ser jovem. A juventude é um porre de vinho. Deliciosa porque os porres, enquanto não caem em si, são deliciosos. Horrível idem, pois... bem, vocês já experienciaram a ressaca de algo doce? Pois é. Estou fazendo planos para, no futuro, não ter que fazer planos. Eu nem sei se vou estar aqui, cara, vocês me entendem? 
Não bastasse essa embriaguez contínua dos vinte e poucos, experimentei uma droga pesadíssima nos últimos tempos. Parafraseando Julia Roberts ao se referir a Benjamin Bratt nos idos dos anos 90: "foi como levar uma tacada de beisebol na cabeça''. Eu nunca levei uma tacada de beisebol na cabeça, mas, olha, deve ser parecido. Terá sido amor? Depois de debochar em tantos textos, uma hora eu pagaria com a aorta sangrando, era evidente. Terá sido amor? Ou terá sido amor pelo que eu conheci em mim mesma após viver a coisa? A coisa está me matando lentamente. Mas ok, vida, eu fiz a minha parte, saltei sem paraquedas como manda o figurino. Vou continuar saltando, uma hora eu aprendo a voar. 
Não quero mais salvar o mundo, quero é salvar a minha pele. São tempos difíceis para os sonhadores, mas também para os ansiosos crônicos. E para os trouxas, claro, os trouxas sofrem tudo em dobro, não aprenderam a esperteza do mundo. Talvez tenha sido amor demais quando crianças - acharam que seriam tratados assim a vida inteira, e caíram no abismo humano dos outros. Talvez seja só falta de prática - e empíricos que podem ser, logo estarão malandríssimos. Talvez seja sina. São tempos difíceis para os que têm blogs também, os assuntos se esvaziaram neles mesmos. Acho que tudo já foi dito. Será que a Julia Roberts quer me dar uns conselhos?


                               Eu nem contei nada e ela já tá com essa cara...



Auxiliou no post: 

Quero que vá tudo pro inferno - Roberto Carlos




(Abismada como meu processo criativo se ampara em músicas tão aleatoriamente bizarras, alguém quer estudar meu cérebro?)





terça-feira, 17 de outubro de 2017

Eu só penso nisso

Como é que eu vou te explicar?
Essa vontade louca
Muito louca
Eu posso falar?


Eu preciso disso, eu sou louca por isso, eu não vivo sem isso. Gatos. Eu preciso de gatos. Eu vivo para ver vídeos de gatos fazendo gatices. No meu Instagram só dá gatos. Por que seguir blogueiras, se eu posso seguir perfis de gatos? Os feeds da minha vida se alimentam de gatos. Gatinhos. Filhotes. Gatos, gatos, gatos, eu preciso ver gatos, apertar gatos, esmagar gatos, beijar gatos. Gatos me ajudam a viver. Gatos me dão motivos para sorrir. Gatos transformam dias merda em dias merda com poesia. Eu mudo meu trajeto diário para encontrar gatos alheios. Quando eu encontro a Belinha no centro, meu coração dispara. Que vitrine o quê, meu coração só enxerga aquela gata linda e ronronenta de três cores!!! Ela sabe que eu a amo e dá cabeçadinhas em mim. O meu dia melhora 78,34%.   
Eu preciso de gatos assim como Humphrey Bogart precisava de cigarros. Assim como Maria Callas precisava de Aristóteles Onassis, aquele grego insensível. Preciso de gatos como confeiteiras precisam de Nutella e Leite Ninho. Preciso de gatos como o ser humano moderno precisa de tomadas e wi-fi. Preciso de gatos como tias precisam dar bom dia no Whatsapp. Preciso de gatos como Sid Vicious precisava de heroína. Preciso de gatos como Portinari precisava de suas tintas, como Freddie Mercury precisava dos palcos. Preciso de gatos como os sertanejos precisam de calças de couro apertadas, como o Gusttavo Lima precisa de você, como o Marcos e o Belutti precisam te perturbar domingo de manhã. Preciso de gatos como os poetas precisam da primavera, como Chico Buarque precisa da paixão, como Neruda precisava da doçura, como Drummond precisava da realidade implacável, como Fellini precisava do niilismo, como Machado de Assis precisava do deboche, como Quentin Tarantino precisa de sangue e diálogos surreais. Preciso de gatos como os apaixonados precisam de olhares interessados. Preciso de gatos como preciso de amor. Redundância... ambos são a mesma coisa.     





Auxiliou no post: 

Crazy feeling - Lou Reed







segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Toques e camas elásticas

E eu que comecei o dia ouvindo I touch myself, do Divinyls? Tenho uma relação bizarra com essa música, escutei no rádio uma vez quando era novinha e fiquei possuída pelo ritmo ragatanga. MINHA MÚSICAAAAAAAAA, NINGUÉM SAI
Aí, anos mais tarde, vi ela ser tocada - perdão pelo trocadilho involuntário - na entrada triunfal de uma formanda numa colação de grau que prestigiei - estafada, claro, porque todas as colações são, sem exceção, estafantes. Não tive dúvidas: seria minha entrada triunfal idem quando chegasse o momento. Num janeiro de calor escaldante, lá fui eu desfilar de toga com Divinyls, sem querer, erotizando o ambiente. Percebam o ridículo semiótico da situação. Até então, esta mente casta que vos fala não tinha ideia do que tratava a música, muito embora as pistas estivessem todas ali gritando. Ri loucamente quando me liguei - a perdida do Direito que me inspirou deve ter tido a mesma experiência, convenhamos. Enquanto meus colegas curtiam seu momento único e ególatra com musiquinhas que falavam de superação, resiliência, inspirações, eu..... hum, eu tocava o coraçãozinho dos presentes. When I think about you, I touch myself. Bonitinha a mensagem, aproveitem os toques. 

Duas da tarde. Crianças esbaforidas correm de um lado para o outro. Paro em frente a uma cama elástica onde algumas delas se regozijam, pois como não se regozijar pulando adoidado sem preocupação de que se vai cair? Pobrezinhas, mal sabem os penhascos que as aguardam. Paro ali e fico olhando os anjinhos tão celestes num recanto especialmente invejoso. Eu quero ser uma delas. Eu quero pular adoidado também. Eu quero invadir esta linda caminha elástica e pular tudo a que tenho direito. Nesse momento, eu já sinto minha testa suar e acho que sou Patrick Bateman naquela cena em que este peculiar animal contempla os cartões de visita dos colegas terem sido muito mais bem feitos que o seu. Um yuppie convicto e uma yuppie sem escolha não sabendo lidar com a inveja que os consome e com o transe mental que veio como um tufão. Santo Christian Bale, que horror de comparação! Mas ilustra bem. Sim, oh, sim, baby, eu quero camas elásticas em esquinas espalhadas pela cidade para que toda alma atordoada pule o que precisa pular. Eu quero, eu preciso. Eu quero leis exigindo que nos expedientes haja camas elásticas para todo o chão de fábrica. Eu quero pular, porra, eu quero pular. Saí dali e fui pegar uma cerveja - a cama elástica do adulto médio. Sejam felizes, pirralhos. Enquanto podem pular sem medo de cair.