domingo, 13 de maio de 2018

Um ser incrível

Não acredito em relações perfeitas e abnegadíssimas - todas são uma via de mão dupla. Nem mesmo nas de mães e filhos, ainda que o mito da maternidade venda a ideia de que esses seres incríveis estão ali para o que der e vier. Mas imaginar que há um colo me esperando independentemente do que aconteça é alentador, conforta meu coração burro e infantil. O mundo não é um lugar legal, ele está pouco se importando se estou gripada, se levei o casaco para o caso de esfriar, se tomei meus remédios, se comi direito. O mundo quer mais é que eu me foda. E, às vezes, ele consegue. O mundo certamente não teve mãe.  Mas eu tive e tenho, e tem sido sempre uma experiência reveladora ter alguém tão bom para mim, mesmo quando nem mereço. Ter alguém que me ama de verdade - vocês têm ideia do que é ser amado de verdade? - torna as coisas bem mais fáceis. Será possível alguém amar um ser além da própria vida? Ou tudo não passa de construção social? Será possível essa relação aparentemente impossível de mão única em que só se oferece, mesmo recebendo tão pouco? Confesso não saber se tenho talento. Minha querida deve ter... talvez tenha nascido para isso pois faz tudo parecer muito natural. Eu com meus choros e paranoias; ela com aquela palavra cirúrgica que demove a pedra que eu, jovem demais para entender, insisto em fincar no caminho. E eu sempre me esqueço de refletir melhor e tirar as pedras sozinha. Uma hora aprendo, paciência. Será possível um ser assim tão incrível para outro ser tão mediano? Mistérios da vida. Talvez um dia eu entenda e seja parecida - igual ou melhor jamais.   


Auxiliou no post: 

Perfect day - Lou Reed






sábado, 28 de abril de 2018

Família Felipe Neto

Eu já queria falar sobre isso há um bom tempo, e, enquanto não criar vergonha nessa cara e entrar num mestrado para matar minha curiosidade de por que caralhos as pessoas dão audiência para pessoas tão bizarras e nada a ver, a gente vai ter que escrever sobre isso aqui. Quando eu falo ''a gente'', me refiro a mim e às vozes que habitam minha cabeça, tá, queridos?
Youtubers... youtubers... sim, Bruna, está acontecendo e faz tempo. Que desgraça essa gente! Ó, pai, por que me abandonaste? Quanto tempo eu dormi? Estamos vivendo uma era de espetacularização tão idiota, mas tão idiota me faltam palavras, é sério, eu só consigo sentir - como diria o fatídico meme. Não tem a mínima condição de manter a sanidade mental, querendo estudar, trabalhar, evoluir quando pegar uma câmera, do celular mesmo, sair falando um monte de merda e enriquecer com isso ficou tão fácil. Vamos usar um case bem ridículo aqui? Vamos. 
Dia desses, esta comunicóloga que vos fala, fazendo suas comprinhas no mercado, deu de cara com Felipe Neto. Sim, aquele revoltado que, há uns anos, esbravejou contra os ídolos teens de sua época e disse que eles não amavam ninguém, que aquele papo de ''Família Fiuk'', por exemplo, era uma piada. Ele mesmo ilustrando a capa de uma revista Atrevida na gôndola do super. Felipinho, você se tornou quem mais detestava. Este rico ser, atualmente, a cada milhão de inscritos conseguido (sabe-se lá COMO) em seu próspero canal no Youtube (sabe-se lá COMO) pinta o cabelo de cores variadas e chama seu séquito de bobalhões - em sua maioria crianças, não vamos nos enganar - de família. Eu também já fui imbecil adolescente, já comprei Caprichos e afins, mas, sabe? Não tem como não dar um desgosto no ser humano. Essa gente é o quê? É artista? O que fazem de bom afinal? Transcendem algo? A família Felipe Neto não vai deixar barato, eu sei, desculpem-me por atacá-lo.
Na verdade, estou nem aí para essa criatura, não sigo, não dou audiência, acho um completo idiota, mas como divagação antropológica ele é um achado. Ainda sinto o gosto do niilismo no caixa, pagando meus pés de alface, e tendo que encarar esta criatura horripilante de cabelo roxo. Ali, a proletária chorou por dentro. Estaremos fadados a sermos quem mais abominamos um dia? Felipe Neto é o Fiuk dessa geração de crianças, será que ele sabe? Será que eu, após tirar tanto sarro dessa confraria de toscos, me juntarei à manada? Afinal, bobagem por bobagem, eu também tenho umas ótimas para dividir com sei lá quem queira ver uma pateta discursando a esmo... fazer vídeos é o ópio da nossa modernidade. Facinho, facinho, virei figura pública, se inscrevam no meu canal, amanhã vou dar uma cagada ao vivo. O processo escatológico transcendental e criativo que só uma cagada proporciona, não percam.   
Claro, claro, isso é entretenimento moderno, só trouxas se descabelam por causa disso. E jornalistas, claro, que raça maldita. O jornalista, esse coitado, ele quer entender a humanidade e suas conexões. Pobre alma incompreendida. Ele quer saber o porquê de o Youtube ter virado a plataforma idiotizante que virou. Ele quer entender o fenômeno midiático, esse asno com grife. Ele não se conforma com o pão e circo, que, hoje em dia, virou pão com cheddar e lascas gourmet de angus e circo on demand na sala da sua casa. Que tempos. 













quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Isis e eu

Dia desses, um cara comentou altas grosserias numa foto minha (um feioso que estava querendo este corpinho, mas isso a Globo não mostra, uééééééé). Enfim, eu apaguei porque o senso de libra aqui é fortíssimo e odeio coisas feias e grosseiras visíveis em lugares que frequento (talvez isso seja indício de querer tudo sempre cor-de-rosa, aprofundaremos em outro post). O fato é que o moço me esculachou - ainda que, outrora, quisesse comer - dizendo para eu não me achar tanto visto que, perto de beldades como Isis Valverde, Fulana Não Sei Das Quantas (alguma boazuda fitness que nunca nem vi e que deve tirar foto olhando pro chão) e outras mulheres que não identifiquei no comentário magoado, eu era feia pra caralho. Eu, Bruna C., 28 anos, feia pra caralho e humilhada em rede social. Lamentei, claro, mas mais por ele não ter sacado o meme que originou a legenda da foto - olha, feiura até relevamos, mas não sacar um meme? Poxa, estamos falando de uma indústria brasileira vital. Mas, vamos lá, se tem algo que eu capto nessa vidinha obscura é a profundidade das coisas. Este feio incapacitado para entender ironias, achando que estava acabando comigo, só aguçou meu senso de observação. 
É evidente que nunca chegaremos aos pés de mulheres midiáticas. Em tempos de Instagram, então, não temos a mínima chance. Percebam o aparato estético que repousa por trás de uma mera selfie. Percebam o staff que trabalha incansavelmente para que essas mulheres pareçam perfeitas, gostosíssimas, sem manchas, sem rugas, sem lactose, sem glúten. Na maioria das vezes, elas realmente são lindas - o ponto não é esse -, mas elas sempre estarão à frente por disporem do recurso feroz da idolatria... ah, a idolatria, a fama, os olimpianos modernos. Estranho falar de idolatria baseada em número expressivo de seguidores e milhões de curtidas, não? É, esses são os monstrinhos que vocês criaram. E que as adolescentes admiram e têm o sonho de conhecer. Cá entre nós, as pessoas já tiveram sonhos melhores.  
A Isis, por exemplo - única criatura que visualizei no rol de princesas citadas -, é lindíssima. Corpão, sorrisão, um mulherão, óbvio. A moça aparece na emissora do Marinho desde 2006, quando interpretou Ana do Véu em Sinhá Moça. São quase 12 anos ininterruptos de Isis Valverde no seu televisor, minha senhora. A atriz já fez trocentos comerciais e campanhas publicitárias, já estampou incontáveis outdoors, já foi presença vip em zilhões de festas estranhas com gente esquisita. Eu tenho medo de ir à cozinha de madrugada beber água e dar de cara com ela. Que chance tenho eu contra Isis? Que chance tem minha bunda contra os glúteos personalizadamente treinados de Isis? Que chance tem meu sorriso contra o sorriso-camada-extra-de-refrescância de Isis? Que chance tenho eu se é o rostinho de Isis que para multidões ávidas por uma fotografia, um aceno que seja? Porra.
Só parecemos esquecer que esses dínamos da visibilidade são, ops, seres humanos como nós. Claro, as cifras volumosas amenizam tudo, mas eles seguem tendo fraquezas, dias ruins, questionamentos, espinhas, celulites, ciúmes, invejas, chulé e papeis chatíssimos em novelas. Isis pode se achar uma atriz medíocre em algum momento ou será que não? Pode se comparar com alguma colega de elenco em algum momento ou nasceu cientíssima de seu talento e brilho? Isis tem TPM. Tem dias em que Isis quer é ver os fãs pelas costas - e eu não condeno, só vocês mesmo para pedirem foto em aeroporto com a pessoa virada devido a 15 horas de voo. Isis chora, Isis tem seus dramas. Tentem imaginar Isis sem toda a parafernália por trás de Isis. Ou qualquer outro famoso, famosa, papagaio, cachorro. Quem são esses seres quando todas as luzes se apagaram e a bebida esquentou? E todas as pressões para permanecerem onde estão ou acham que estão? Só sendo muito ingênuo para não fazer uma leitura básica dessas e ofender por ofender, assim sem criticidade nenhuma (lembrem-se, até para proferir uma ofensa de gabarito é necessário um mínimo de sagacidade, do contrário, quem vira piada é você). Só sendo muito ingênuo - nosso amigo punheteiro que o diga.










terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Mimos, calça jeans, hang loose do perdão

Por quê???????? Por que, Deus? Ó, pai, por que me abandonaste? Eu juro que tentei não dar atenção, mas me parece que isso não é opção hoje em dia: as coisas pulam na nossa cara. Coraaaaagem! 

OIE, MININAS, APAIXONADÍSSIMA NESSE VESTIDO

OLÁ, SEGUIMORES, APAIXONADÍSSIMA NESSE LOOK

APAIXONADA NA MINHA NOVA PAPETE DO SENNINHA

APAIXONADA NO MEU BOY CROSSFITEIRO

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA APAIXONADA NISSO, CARA? NISSO? 
APAIXONADA NELE? N E L E? VOCÊS COMERAM COCÔ COM LINHAÇA?

Será um regionalismo? Se for, peço perdão - inclusive me prontifico a apagar tal curtinha e gravar um vídeo me chicoteando mentira. Mas desconfio que seja só burrice mesmo. Ou retardo mental? Eu fico confusa, sabe, porque a regência de ''apaixonado/a'' nem é das coisas mais difíceis que existem na vida - e, possivelmente, desde a tenra idade sabemos como falar/escrever. Se sou apaixonado, sou apaixonado por, certo? Mimo com intensivão do Pasquale quando é que vai vir, hein? Quem sabe um QI básico?


Sapato? Até gosto, mas não me corrompe. Maquiagem? É... vá lá. Bolsas? Hummmm... bom, jogo duríssimo mas ainda sigo a inteligência emocional. Calça jeans? Não, não dá. E liquidação de calça jeans? Nem estou escrevendo este texto mais. Se tu, por exemplo, ficas em promoção às quatro da tarde, desde a madrugada anterior estarei plantada em frente a sua vitrine, sua linda! Dias atrás, após fazer uma aquisição deveras acertada de uma graciosa bebê, me veio a iluminação: porra, calça jeans! Eu nunca falei de calça jeans! Sou completamente doida, o coração dispara, tropeça, quase para. Foto com Tiago Iorc ou calça jeans? Que pergunta, francamente. Devem ter feito uma lavagem cerebral bizarra em little Bruna, pois, quando flerto com uma em alguma arara da vida, só consigo pensar na Cindy Crawford abraçada por seu queridinho Levi's na icônica propaganda dos anos 90 (inclusive se a Levi's quiser me patrocinar, vamos fazendo). Me imaginar Cindy bem gata garota é questão de minutos, já está feita a merda no já fodido orçamento. Se Marilyn Monroe dormia somente com duas gotinhas de Chanel nº 5, vou mais além e digo que, se pudesse, só vestiria meu jeans favorito para viver. Só ele. 


Vi, na minha página pessoal ao lado, a lembrança de uma postagem de uns anos atrás aqui do excelentíssimo blog e tive uma minimorte - sim, minimorte se escreve junto, arrombado. Me lembrei automaticamente de todo o processo de criação, dos sentimentos envolvidos no texto e da cabeça de outrora.... uééé? Rolou a conhecida indigestão. Será isso a vida? Nos envergonhar do que já fomos? Do que dissemos? Das opiniões burras que proferimos? Dos textos imbecis que publicamos? Dos hífens equivocados que colocamos? Onde não puderes pôr o hífen, não te demores. Não é que eu pense totalmente diferente sobre o assunto da época em questão, mas também não é como se eu fosse escrever tudo igualzinho hoje em dia. Será que amadureci? Será que regredi? Só sei que ali não me reconheci mais. Pensei em apagar, fiz graça, mas aí lembrei que ninguém dá a mínima e fiz uma hang loose do perdão. Dei um riso debochado e condescendente, desses que só nós sabemos, e fiquei matutando com a mão no queixo. Vai ser sempre assim. Nunca estaremos prontos. Vamos sentir o rosto queimar de vergonha alheia muitas vezes mais. Porque as experiências vão se cruzar, as águas que, tempos atrás, foram renegadas vão ser bebidas com gosto, o que condenamos será lindo e o que acalentava a alma nos fará vomitar ali adiante - talvez até literalmente, nunca se sabe. Saber lidar saudavelmente com isso é o grande desafio. E vocês aprenderem a usar o hífen, óbvio.   


                                                                   OIE