terça-feira, 17 de outubro de 2017

Eu só penso nisso

Como é que eu vou te explicar?
Essa vontade louca
Muito louca
Eu posso falar?


Eu preciso disso, eu sou louca por isso, eu não vivo sem isso. Gatos. Eu preciso de gatos. Eu vivo para ver vídeos de gatos fazendo gatices. No meu Instagram só dá gatos. Por que seguir blogueiras, se eu posso seguir perfis de gatos? Os feeds da minha vida se alimentam de gatos. Gatinhos. Filhotes. Gatos, gatos, gatos, eu preciso ver gatos, apertar gatos, esmagar gatos, beijar gatos. Gatos me ajudam a viver. Gatos me dão motivos para sorrir. Gatos transformam dias merda em dias merda com poesia. Eu mudo meu trajeto diário para encontrar gatos alheios. Quando eu encontro a Belinha no centro, meu coração dispara. Que vitrine o quê, meu coração só enxerga aquela gata linda e ronronenta de três cores!!! Ela sabe que eu a amo e dá cabeçadinhas em mim. O meu dia melhora 78,34%.   
Eu preciso de gatos assim como Humphrey Bogart precisava de cigarros. Assim como Maria Callas precisava de Aristóteles Onassis, aquele grego insensível. Preciso de gatos como confeiteiras precisam de Nutella e Leite Ninho. Preciso de gatos como o ser humano moderno precisa de tomadas e wi-fi. Preciso de gatos como tias precisam dar bom dia no Whatsapp. Preciso de gatos como Sid Vicious precisava de heroína. Preciso de gatos como Portinari precisava de suas tintas, como Freddie Mercury precisava dos palcos. Preciso de gatos como os sertanejos precisam de calças de couro apertadas, como o Gusttavo Lima precisa de você, como o Marcos e o Belutti precisam te perturbar domingo de manhã. Preciso de gatos como os poetas precisam da primavera, como Chico Buarque precisa da paixão, como Neruda precisava da doçura, como Drummond precisava da realidade implacável, como Fellini precisava do niilismo, como Machado de Assis precisava do deboche, como Quentin Tarantino precisa de sangue e diálogos surreais. Preciso de gatos como os apaixonados precisam de olhares interessados. Preciso de gatos como preciso de amor. Redundância... ambos são a mesma coisa.     





Auxiliou no post: 

Crazy feeling - Lou Reed







segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Toques e camas elásticas

E eu que comecei o dia ouvindo I touch myself, do Divinyls? Tenho uma relação bizarra com essa música, escutei no rádio uma vez quando era novinha e fiquei possuída pelo ritmo ragatanga. MINHA MÚSICAAAAAAAAA, NINGUÉM SAI
Aí, anos mais tarde, vi ela ser tocada - perdão pelo trocadilho involuntário - na entrada triunfal de uma formanda numa colação de grau que prestigiei - estafada, claro, porque todas as colações são, sem exceção, estafantes. Não tive dúvidas: seria minha entrada triunfal idem quando chegasse o momento. Num janeiro de calor escaldante, lá fui eu desfilar de toga com Divinyls, sem querer, erotizando o ambiente. Percebam o ridículo semiótico da situação. Até então, esta mente casta que vos fala não tinha ideia do que tratava a música, muito embora as pistas estivessem todas ali gritando. Ri loucamente quando me liguei - a perdida do Direito que me inspirou deve ter tido a mesma experiência, convenhamos. Enquanto meus colegas curtiam seu momento único e ególatra com musiquinhas que falavam de superação, resiliência, inspirações, eu..... hum, eu tocava o coraçãozinho dos presentes. When I think about you, I touch myself. Bonitinha a mensagem, aproveitem os toques. 

Duas da tarde. Crianças esbaforidas correm de um lado para o outro. Paro em frente a uma cama elástica onde algumas delas se regozijam, pois como não se regozijar pulando adoidado sem preocupação de que se vai cair? Pobrezinhas, mal sabem os penhascos que as aguardam. Paro ali e fico olhando os anjinhos tão celestes num recanto especialmente invejoso. Eu quero ser uma delas. Eu quero pular adoidado também. Eu quero invadir esta linda caminha elástica e pular tudo a que tenho direito. Nesse momento, eu já sinto minha testa suar e acho que sou Patrick Bateman naquela cena em que este peculiar animal contempla os cartões de visita dos colegas terem sido muito mais bem feitos que o seu. Um yuppie convicto e uma yuppie sem escolha não sabendo lidar com a inveja que os consome e com o transe mental que veio como um tufão. Santo Christian Bale, que horror de comparação! Mas ilustra bem. Sim, oh, sim, baby, eu quero camas elásticas em esquinas espalhadas pela cidade para que toda alma atordoada pule o que precisa pular. Eu quero, eu preciso. Eu quero leis exigindo que nos expedientes haja camas elásticas para todo o chão de fábrica. Eu quero pular, porra, eu quero pular. Saí dali e fui pegar uma cerveja - a cama elástica do adulto médio. Sejam felizes, pirralhos. Enquanto podem pular sem medo de cair. 










quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Onde não puderes citar não te demores

Deve ser um carma de outra vida, não é possível. Eu devo ter sido uma escritora decadente do século XIX - sabe aquela pessoa azeda que foi tão ridicularizada quando tentava vender suas misérias escritas e morreu com um osso de ódio entalado na garganta? Deve ser, porque basta eu ver uma frasezinha com autoria estapafúrdia para eu girar minha metralhadora cheia de mágoas. Sabe aquela frase óbvia que qualquer zé com alguma experiência de vida já disse, e o pessoal ama compartilhar como palavra da salvação dita por alguém com sobrenome difícil de pronunciar? Nossa, que ódio. Eu sei que elas são, na maioria das vezes, verdadeiras e providenciais, mas sabe? Enche o saco, ninguém aguenta - principalmente quem leu as pessoas em questão e sabe que não foram elas que se saíram com tais pílulas de sabedoria.  
Não é o fim do mundo, cada um dá vazão ao que quiser, mas em dias em que cada vez mais a autenticidade perde espaço, em que ninguém mais sabe a veracidade de nada, fica feio para você, fulaninho. Você que se gaba de ter mil formações, mas não sabe que não foi o Jô Soares que falou aquele monte de merda. Já viram como o pessoal tem pira com o Jô Soares? O Jô e o Bial, claro, os preferidos. Bial é o filósofo de praxe da minha linha do tempo - não tem um dia em que eu não leia alguma passagem reconfortante dele. De Pedro, o mensageiro preferido das mazelas do amor ferido em montagens tão ridículas quanto comoventes. Aposto que ele e José Eugênio passam tardes rindo das baboseiras que lhes atribuem com uma bacia de pipoca a tiracolo. Mentira, eles devem se foder para isso; trouxa sou eu que me importo com a propriedade intelectual e com vocês passando vergonha na internet. Boba sou eu, só eu que sinto gasturas infinitas com selfies com frase do Kafka atribuídas, sei lá, ao Arnaldo Jabor!!!! Velho, o Kafka pode voltar do além mais atormentado ainda e puxar o pé de vocês! Eu teria medo - não façam isso com o Nietzsche, por exemplo.  
Não é querer pagar de conhecedora profunda de frases e autores e etc, até porque não conheço (tem tanta gente boa que nem cheguei perto de ler que só de pensar me dá uma aflição e essa catarse fica para outro post!!!), mas aqui sugiro uma saída simples: se não conheço, não cito. É indolor e digno. E se não tenho certeza de algo, não propago ignorância - que ignorar não tem nada demais também, não somos obrigados a conhecer tudo (lembre-se: se você é um idiota, seguirá sendo um idiota, apenas com boas referências). Não sei se é porque escrevo também, mas me coloco na pele do desgraçado que levou horas para se sair com aquele trecho bonito, brilhante e maduro - aquele parto no árduo processo de escrever -, e acabou vendo seu trabalho valer nada. Quem disse isso? Ah, deve ter sido o Carpinejar, põe o Carpinejar, ele tá em todas. E a memória do Mário Quintana lá agonizando, dizimada pela esmagadora força dos compartilhamentos da página ''Frases e Versos''. Tenha dó!
''Onde não puderes amar não te demores'' - Frida Kahlo.
Ou Ivete Sangalo.
Ou Einstein.
Ou Princesa Isabel.
Já vi tantas autorias por aí que desisti. Deixem a coitada da frase ser linda em silêncio, eu imploro.



                               Tu disse isso ou não, mulher??? Eu preciso saberrrr











segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Su deboche es mi deboche

Terminei, há uns dias meses, o último livro da ótima Tati Bernardi, aquela moça que meio mundo ama incluir em suas selfies, muito embora a maioria daquelas frases toscas não sejam de autoria da roteirista - palavras da mesma. Pois Tati, que fez de seu transtorno psicológico matéria-prima para muitas de suas genialidades, me fez rir quase convulsionada com o hilariante - porém não menos denso - Depois a louca sou eu. Eu simplesmente cheguei ao cúmulo de parar a leitura e, entre risos histéricos, repetir para mim mesma: ''ela não pode ter escrito issoooooooo''. Pois não é que escreveu? E escreveu muito bem (putaquepariu, um texto bem escrito é a minha Disney!!!). É um tom confessional delicioso e intimista, é quase como se eu quisesse abraçar Tatiane e dizer que também já estive ali - estaremos sempre algumas vezes na vida porque esses dilemas psicológicos são dificílimos de desgrudar. Talvez não desgrudem nunca.
Foi um deleite ver a escritora revelar seus piores dramas - por mais insensível que isso pareça - em forma de pequenos devaneios carregados de sutileza ímpar. Eis uma conclusão a que cheguei: ou você nasce escrevendo bem ou não escreve. Ou você carrega essa inquietação genuína na alma ou não carrega. Ou você deixa as palavras irem casando, se completando, fazendo sentido e doendo em você ou não deixa. Isso não se aprende, não existe curso que ensine. Ou está ali incomodando e pedindo para virar arte ou não está. Tati, que já detestei por conta das abobrinhas que jura não ter escrito (coitada, se ela ler o Pensador, vai ter uma síncope com as pérolas), me fez sua irmã, me fez sua confidente. E, incondicionalmente, admiradora ao ver que tudo está ali somatizado nela. Os nossos corpos doem demais.
O drama de se descobrir, muito nova, uma criança ansiosa e ter sofrido com a falta de tato dos adultos para perceberem isso - tão ocupados sendo adultos. O medo de ser ela mesma, o medo de sentir medo, o medo que paralisa os amores e as relações, o medo de aeroportos, o medo de conviver com gente má - e boa demais, o medo de pegar avião, o medo de parar de fazer sentido, o medo de vomitar, o medo de não ter controle sobre si mesma, o medo de se ausentar de casa, o medo do exagero, o medo de doer algo que não se sabe o que é, o medo de não ter aproveitado o suficiente, o medo de viver, o medo de morrer, o medo de ser irremediavelmente humana e toda a sorte de acontecimentos que isso traz - tudo, tudo se aninha ali com muita humanidade. Estamos ferrados. Poeticamente ferrados, fellas. Bonitinho, né... mas que gastura. Viver dá gastura.  
Em suma, é um livro gostosíssimo - principalmente para quem enfrenta a dor e a delícia de ser um ansioso crônico -, pois ela narra variadas circunstâncias inerentes a nós (vocês já sacaram que somos uma seita, né?) com uma sensibilidade adorável e um humor cirúrgico. Eu, que amo um sarcasmo bem feito, fiquei maravilhada. Eu, que amo ler gente talentosa, fiquei inspiradíssima. Eu, que me vi retratadíssima naquelas páginas, cheguei até a ficar melancólica em alguns momentos, mas nada que tenha me feito desistir da leitura, afinal, estamos falando do meu mais novo vício literário da crônica brasileira. Vida longa, sua debochada. Su deboche es mi deboche.   






Auxiliou no post: 

I'm think I'm paranoid - Garbage