sábado, 12 de setembro de 2015

Sobre promoções sexistas - e o que eu tenho a ver com isso

Minha cidade natal, há alguns dias, foi alçada a suprassumo do churrasco gaúcho por conta de uma promoção sexista, nojenta e mais velha que o sol. Foi doído, que lástima. Não contive o sangue fervendo e acabei entrando em choque - de palavras, a virtualidade nos corrompe - com várixs perfis. Fui atacada. Até de travesti fui chamada, aquela gratuidade de sempre - e, né, como se ser mulher transexual, no caso, fosse algum tipo de vergonha... NÃO É! Mas não, não sou travesti. Nasci biologicamente mulher e me identifico com meu gênero. Sou feminina - seja lá o que isso signifique, minha feminilidade não é para apreciação externa, basta que eu me goste. Uso maquiagem, Uso salto. Me depilo. Não odeio homens. E sou feminista. Sim, eu saí do armário. EU SOU FEMINISTA, PORRA! E poucas coisas na vida me libertaram tanto quanto esse movimento lindo e acolhedor. No feminismo, paulatinamente, tenho aprendido a não odiar mulheres, a respeitar a vivência de cada uma, a vê-las como amigas, a ver minhas irmãs como iguais, como seres humanos que, desde sempre, são impelidos a competir para atrair atenção de macho. Eu gosto de macho também, mas não me imagino (mais) dividindo minha vida com um que me mande lavar louça e me chame de neurótica por falta de pica a cada discussão em que eu, talvez, levante a voz - ainda que tudo seja ''brincadeirinha''. Não sabe brincar, linda? Não, não sei. Se for pra usar essa chaga aberta para me silenciar e me colocar num relacionamento abusivo, eu não vou saber brincar. Eu não quero ser mamãezinha de ninguém. Não vou colocar projetinho de comedor na linha, não tenho pretensão de fazer um bom casamento. Vai lavar tuas cuecas, rapá, que aqui tu não vai se criar. Simples. Se vocês estão ok com isso, fiquem à vontade, gurias, mas eu não sou obrigada.
Tudo que nos é apresentado, desde que nos entendemos por gente, é cultural. E a cultura é devastadora, meu povo. Ela nos educa sistematicamente e nos leva a reproduzir certos comportamentos sem nem questionarmos o porquê. É inerente. Mamãe fazia assim, faça você também. Saí da faculdade sabendo muito pouco sobre o movimento, no entanto. Acho péssimo isso, inclusive, isto é, eu, jornalista formada, ter um conhecimento raso sobre um movimento tão denso e protagonista me soou bastante atrasado e vergonhoso. Mas, enfim, me absolvi: ninguém nasce militando, nossa educação simplesmente não nos nutre desse saber. A gente precisa ser mais underground nesse quesito, procurar as autoras e os livros que sempre foram marginalizados e vistos como ''desafiadores da ordem''. E dá pra ser muito underground, dá pra fazer uma oposição legal à merda institucionalizada, levem fé. Fui atrás, guiada por uma vontade que esteve sempre adormecida. Comecei a ler, a me identificar em várias situações recorrentes nas histórias que lia - eu, do alto do meu privilégio de classe média, branco, cisgênero e com curso superior, também sentia as dores daquelas mulheres. Comecei a lembrar quantas vezes fui interpelada na rua por estranhos ''elogiando'' meu corpo. Notei que, centenas de vezes, não pude colocar determinada roupa, dependendo do lugar por onde fosse passar. Vi que, muitas vezes, temi sofrer violência sexual, por estar sozinha na calada da noite ao sair de alguma festa. Sim, porque eu gosto de festa, gosto de beijar caras e quantos caras eu quiser, eu me pertenço, meu bem. "Que putinha virou a filha do fulano, olha só!!!'' Pensem o que quiserem, mas posso afirmar que papai e mamãe estão bem satisfeitos com a filhota que têm. Nem sempre fui assim, é óbvio, me culpava imaginando que eu devia obediência a sei lá que divindade das boas moças, mas hoje, só melhoro na empreitada. Dica: quando você se resolve assim, também freia, instantaneamente, os pitacos nas vidas sexual e amorosa da coleguinha do lado, e isso, meus amores, é um combo de -200Kg de ódio, julgamento e ansiedade saindo das costas, vale a pena tentar. Enfim, eu comecei a perceber que, mesmo tendo uma vida muito da confortável - se compararmos com muitas mulheres que vivem dilemas realmente mais trashs e socialmente drásticos -, eu me incomodava com muita coisa. Eu me incomodei pela primeira vez, aos 9 anos, quando fui censurada pelo meu pai por jogar futebol com os piás do colégio - e, modéstia à parte, como eu dava show nos perninhas de pau naquela quadra de cimento fodida... tadinhos.
Enfim, não há vergonha em me assumir feminista. O feminismo não quer acabar com a família tradicional, isto é, se levarmos em conta que a família tradicional cof cof, esse antro de podridão e valores de 1740, é uma entidade falida por si só, não dá nem graça. Tem muita coisa sobre a qual preciso ler e estudar ainda, mas já não volto atrás. E não me venham, nos comentários, dizer que ''o feminismo de outrora é que era digno e blá blá blá'', porque começar qualquer debate com essa superficialidade é pedir pra ser escrachado. Há mulheres morrendo nas mãos dos caras que diziam amá-las. Há meninas sendo estupradas por diversão por babaquinhas do colégio onde seus filhos estudam, e, não, porra, não é culpa delas e da roupa que usavam. Há mulheres de diferentes etnias e orientações sexuais sendo subjugadas e humilhadas. Há ainda muita coisa a ser feita e eu respeito muito quem se dedica a isso, muitas vezes deixando toda uma vida pessoal em segundo plano.
Então, quando um restaurantezinho de quinta, tão politizado quanto uma flor de pessoa que diz que ''menino que tem tendência a virar gay tem que apanhar pra virar homenzinho'', faz um tipo de promoção cafajeste em que oferece carne por menos preço pra ''ajudar a enfrentar a crise'', a gente precisa se posicionar. A gente tem que tomar partido. Foi nojento. Não questiono o fato de a recessão econômica estar indigesta a várias famílias, a mim, a você, a todo mundo. Só que se trata daquela velha ladainha de que mulher consome ''menos'', ou precisa ser ''sustentada'', ou ''merece promoção porque embeleza o ambiente''. QUAL É, GURIAS, QUEM AQUI É BARBIE-OBJETINHO PRA PUNHETEIRO? Vai ser escroto assim bem longe do meu portão, cara. Desculpe aí, gurias, mas isso não é ''ser burra e me prejudicar'', não dá pra ficar quieta com tamanho exemplo de subalternidade. É o preço que se paga por escolher pensar sobre as coisas. Espero que vocês não me odeiem por isso, porque eu escolhi não odiá-las. Não colocarei meus pés neste rico estabelecimento. Que abram uma filial na caverna de onde não deveriam ter saído.