segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Sobre ignorar, ficar quieta e cuecas

Pegando um gancho na postagem em que confessei não saber bulhufas sobre o que ocorre na Síria, vamos analisar a palavra ignorante. Sim, eu sou ignorante quanto aos causos de lá, só sei meio por cima que há um ditador - óbvio - que oprimiu por trocentos anos uma galera, e era isso. Não quis ler mais nada, ando f a r t a, >> farta <<, fArTa destas mesmas coisas de sempre. Ou seja, eu sou ignorante, uma vez que ignoro. Ignorar não é crime, não sei o porquê de tanto pavor em relação à palavra. No fundinho, ignorante é tipo aqueles vocábulos que já incorporaram a sua semântica um estigma pejorativo indestrutível. Ignorante é xingamento. Mas o fato é que a gente ignora, eu ignoro, tu ignoras, nós vivemos ignorando. Na verdade, eu acho uma delícia ignorar, tenho pra mim que é um estímulo a seguir melhorando como pessoa, lendo, sei lá, passando por cima dos meus preconceitos. Não me apavora a ideia de ignorar, mas sim a de sair despejando palavras sobre o que eu desconheço. Ah, aí sim eu fico me sentindo um lixinho humano. Já fiz isso um zilhão de vezes, essa minha língua comunicóloga me trai um bocado. Mas já há uns anos, venho me policiando a respeito, e, olha... tenho feito progressos satisfatórios. Rola um orgulhinho besta de mim, quando, no auge da coceirinha pra falar algo, eu me saio com um "bah, não sei nada sobre isso''. E fico quieta. Sendo uma total imbecil, é possível, aos olhos do meu interlocutor, mas me sentindo um ás da esperteza pra mim mesma - que sou a plateia que realmente importa. As gurias talvez concordem comigo: não é lindinho quando aquele cara que julgamos interessante, em vez de tentar impressionar e vir com aquele discursinho seboso, nos presenteia com uma conversa franca, sem retoques, dizendo, sei lá, que não sabe sobre determinada coisa, mas vai ver algo relacionado??? Humildade é mais atrativa que muita coisa enaltecida às raias da cegueira por aí, arrisco. É sempre um encantamento. Sempre, que desgraça. Não sei como é para os cuecas que me leem - se é que leem - mas deve ser a mesma coisa pr'eles também. Certeza. Sinceridade pode até não conquistar, mas que perturba, isso perturba, nos resgata do comodismo. Assim como quando alguém ignora algo, e não tem medo de gritar isso aos quatro ventos.



Auxiliou no post: 

I see you, you see me - The Magic Numbers





domingo, 22 de setembro de 2013

Lagriminha

Ele tem aquele jeito que faz cair lagriminha de quem olha, mas nem nota isso, porque é muito ocupado. E é um jeito tão dele, que é impossível não querer ter perto, não querer encostar. É um jeito tão curiosamente comum, que instiga. Tão estranhamente bonito, que afasta. Tão urgente, que paralisa. Tão anônimo, que sensibiliza. E sensibilizar é o que menos quer, na verdade, ele só fica ali existindo na dele, incógnito, e nessa distração é que acaba sendo percebido. Rompendo com o horizonte de expectativa dos olhos que querem encostar. Das mãos que querem dizer.





Auxiliou no post:

No cimento - Érika Machado










sábado, 21 de setembro de 2013

Eu não li nada sobre aquele negócio lá na Síria

Vocês querem conhecer a história do Vítor e da Lorena, eu sei. Eu também quero contar, mas vou fazer isso em doses bem homeopáticas. Ou vocês morrem de tédio com a falta de continuidade da trama ou ardem de curiosidade, vou correr o risco. Porém, na postagem de hoje, não tem nenhum dos dois. Na verdade, eu ando meio sei lá com essa vida, sabem? E vim despejar coisas.


Nem sei onde li, mas sei que li por aí que nós, consumidores e receptores, andamos produzindo um absurdo de conteúdo inútil na internet - inclua, por obséquio, meu bloguinho na jogada. Aonde vai o monte de abobrinha que a gente escreve, pessoas? Já pararam pra pensar a respeito? É muito fácil interagir hoje em dia, né? A gente fica se sentindo assim meio superespecial, apto a falar de qualquer coisa, a produzir conteúdo. Conteúdo a um click de ser gerado, é a era da instantaneidade (fiquei meia hora raciocinando pra escrever instantani? cuma mesmo?). Ninguém escreve cartas pro Domingo Legal mais. A gente senta o pau no Twitter, oras! Trata-se de uma época excitante de informação e opinião e críticas e tudo isso vindo de tudo que é lado e das mais bestializantes plataformas e... e... e nós digerindo, e regurgitando isso em forma de conteúdo, em forma de palavras, em forma de sentidos, em forma de impressões acerca dessa porcaria de mundo onde somos obrigados a viver. Só que a gente se lambuza nesse pote de fel da informação. E parece querer cada vez mais mostrar que está, sim, por dentro. Que leu, sim, sobre o aquecimento global. Que escutou, sim, o último cd do Vítor Ramil. Que decorou, sim, o setlist do show do Bon Jovi no Rock in Rio pra comentar sua performance. Que tem acompanhado, sim, o julgamento dos mensaleiros, ora bolas, tá me achando com cara de ignorante e mal informada???? Pra que calar a boca, se eu posso opinar? Pra que segurar meus dedinhos ávidos por reconhecimento cibercultural, se eu posso compartilhar um status mega profundo e inteligente sobre, sei lá, o quanto a Veja é nojenta e tendenciosa? Eu preciso dos louros da vitória, você também precisa. Estudos senegaleses apontam que, quanto mais curtidas e retweets eu tenho, mais guloso eu vou ficando.
Olha, não há nada de errado em ser bem informado, interessante, discorrer sobre variados assuntos, enfim, ter opinião. Nada mesmo, eu a m o pessoas assim, cês também devem ter paixão. Todavia, é aí que talvez resida nosso dilema, caríssimos: vivemos uma era em que falar sobre tudo é requisito indispensável pra entrar no tal mundo feliz, no mundo das ideias onde todos racionalizam e não sofrem. A impressão que dá é que perdemos o trunfo do ''desconhecer'', como se ninguém fosse nos levar a sério se disséssemos que, poxa, não lemos a última edição da Carta Capital. Ninguém mais pode se dar o luxo de simplesmente não saber. Não saber, mas que delícia. Não, eu não sei. Não, eu não quero opinar sobre isso. Não, eu não tenho opinião formada a respeito. Não sei. N Ã O S E I. Não saber? Você está proibido de não saber, filhinho. Penso ser essa loucura atrás de constatações sagazes e sábias, no fundo, fruto da nossa própria insegurança, porque, né? Convenhamos, todos querem ser charmosos e conquistar a geral pelo intelecto, pelo que têm a dizer. Todos querem ser pensantes, e eu também quero, me apavora a ideia de viver à margem desse banquete farto do conhecimento. Só que, né? Isso é ilusão, já que eu não li nada sobre aquele negócio lá na Síria. Me perdoa, mundo, por favor.


Auxiliaram no post:

Blue skies - Jamiroquai
Shine - Laura Izibor









sábado, 14 de setembro de 2013

Lorena ainda não sabe lidar com a corrente elétrica – Capítulo 1

Ela dizia que não se importava mais, Lorena, a cética. Mas no momento em que o reviu naquela fatídica tarde de verão, indo para o trabalho, sentiu aquela maldita corrente elétrica percorrendo todo seu corpo de novo. A corrente elétrica era a conhecida paralisia incompreensível, que fazia com que todos os ossos fossem tomados por uma energia arrebatadora - e com a qual ainda não sabia lidar de modo racional, por não ter conseguido subtrair aquele rosto da memória. E era isso o que mais doía – mais que sentir o estômago retorcido, os olhos começando a lacrimejar timidamente, o coração atordoado dentro do tronco, como se pudesse ser ouvido a quilômetros de distância dali. E para ela, seus batimentos cardíacos eram ouvidos por todos, em uníssono, como se fossem a pior sinfonia de acompanhar. Tanto que, quando se cruzaram na Avenida Morrinhos, na mesma tentativa de alcançar a calçada, ela não soube o que dizer, ela engasgou nas palavras, ela emudeceu e ficou ali, olhando pro chão, pro nada, perdida nela mesma. Perdida naquela metrópole, que agora era seu lar doce lar – ainda que nem tão tragável. Lorena, a ingênua, fingiu que não o reconhecera – agora que Vítor não usava mais barba. Talvez ele tivesse aparado, a fim de deixar uma fase para trás, era justo. Mas ela ficou arrasada, por notar o que ele fizera com o rosto dele, não era o mesmo, não era a mesma feição. Foram muitas as noites, grudada nele, num exercício quase que de fusão, de hibridismo, logo não se sabia quem era quem.
Evidentemente, a cicatriz no maxilar magro, o jeito como ele sorria quando ficava nervoso – tudo isso permanecia marcado como uma doença no pensamento dela. E foi isso que veio à tona naquela tarde de calor escaldante, em que ele resolveu aparecer sem sua barba política, porém firme com os olhos de ressaca: ele tinha aprendido a engoli-la como ninguém, e possivelmente ainda sabia. E então doía mais um pouco, que remédio. E a pele dela morria, lentamente, pelo toque que não tinha mais. Morria de fome. A corrente elétrica ainda era uma espécie de amor. E gritava.


Auxiliou no post:

O nosso mundo – Barão Vermelho






sábado, 7 de setembro de 2013

Deu merda

Olá, pessoas legais que leem meu bloguinho!


Pela primeira vez, em quase 3 anos escrevendo, eu ando sem tempo para atualizá-lo. Santa ironia, Batman! Logo eu, que sempre procrastinei everything, a fim de abastecer meu filhote de coisas legais e tal, não tenho arrumado horas no dia pra lhe dispensar atenção. Mimimi.
Ou seja, as visitas desta que vos escreve neste setembro – ou neste semestre, não sei - possivelmente serão mais esparsas. Tudo porque eu resolvi não procrastinar outras coisas por aí. Percebam a mudança: eu sempre fui uma procrastinadora de marca maior. Eu até já documentei isso, tomada por um acesso de fúria indescritível, (cata os arquivos de fevereiro do ano passado aí, ô, preguiçoso), porque, realmente, hein, Bruna, ajeitar a versão final da monografia cinco dias antes do prazo final para entregá-la à universidade não é lá uma jogada muito promissora, né não???? É claro que ia dar merda. Ia dar e deu. Deu uma merda abissal. Uma merda antológica. E lá fui escrever uma crônica-desabafo, pra me livrar daquela ira absurda, daquela impotência, daquela culpa por não ter feito antes, daquela sensação corrosiva de “sou a criatura mais imbecil do universo” (como eu escrevo melhor quando tô putaça da vida, é gritante a diferença).
Mas a probabilidade de dar merda não é só quando você atrasa a entrega do seu trabalho final de graduação, por pura mania de achar que pode controlar o andamento dos fatos. Nem é sobre ele que vim falar hoje, muito embora eu tenha dedicado quase dez linhas sobre o case “a versão final da monografia: um filme de terror num dia quente da porra em fevereiro”. Dá uma dorzinha no coração perceber é que a gente espera pela merda sempre. Nos desacostumamos a ficar em paz, amiguinhos. Nos desacostumamos a ser felizes, eis a verdade. E isso é dramático, pois pressupõe que viemos parar neste mundo – vasto mundo, Raimundo – para sofrer. E só sofrer. Como assim? Dedicar uma existência inteira a contabilizar merdas, porque um Zé aí falou que somente assim seremos grandes seres humanos e...... é sério isso? É um destino muito reles pra uma vida, desculpa aí, mas não dá pra assimilar candidamente. É como se a iminência da merda estivesse entranhada no nosso inconsciente, nos fazendo esperá-la com um tapete vermelho de boas vindas. Em contrapartida, quando tudo parece estar “dando certo” nas nossas vidinhas – seja lá o que isso signifique – não aproveitamos a glória daquele momento ou daquela fase, inteiros, plenos de espírito de agradecimento. Metadinha de nossos cérebros espera, afoita, pela merda, como se ela é que fosse a normalidade, e não o contrário. Ficamos desconfiados, cheios de teorias para explicar aquele lapso de dias em que tudo se encaixa com maestria, sem que fritemos os neurônios em busca de respostas. Definitivamente, é como se gritássemos: hey, eu acho que não mereço tudo isso, hein? E, assim, selamos nosso talento insuspeito para o referido casamento escatológico. E, assim, nasce mais uma crônica raivosa. E, assim, nasce mais uma merda.   



Auxiliaram no post:

Entre seus rins - Ira
About you  – The Jesus and Mary Chain
On every street – Dire Amor Eterno Straits