Acho musicais um saco, sabem? Não
tenho paciência para as performances, embora até ache as coreografias
simpáticas e etc. Talvez seja pelo fato de uma vontade desgraçada de sair sapateando
visitar meu corpo em frente à televisão. E aí a sessão de filme vai para o dito
beleléu, enfim. Todavia, assisto a ''Chicago'', de boca e coração abertos. Toda vez
que termino de assistir à saga de Roxie Hart e Velma Kelly na glamurosa e
ensanguentada princesinha de Illinois, nos anos 20, sinto lapsos de sonho
marejando as retinas, enquanto danço um número de Charleston em um cabaré francês, londrino ou sei lá, trajando uma cinta-liga
vermelha e peninhas inocentes na cabeça. Ali, saio saltitando, sendo abraçada
pelo letreiro luminoso que leva meu nome... eu que, até pouco tempo, me encontrava,
apática, no sofá da sala. Não é o máximo? Eu já tinha avisado: aqui tem
imaginação para alimentar toda uma vida. Amem-na ou deixem-na! - já diria nosso presidentinho Médicizinho.
Pois bem, prossigamos, vim
contar a vocês que ando bem pensativa sobre esse filme de Almodóvar que é a
vida. Você se apaixona num posto de gasolina pelo namorado da sua melhor amiga,
que ainda não havia sido apresentado formalmente a você, toma um porre de vinho
numa festa, bate a cabeça, perde a memória e acaba numa voluptuosa noite com o
cara na casa da ex-melhor irmãzinha. Quantas vezes você não se indignou e
bradou em alto e bom som que “isso só
acontece comigo!!!”? Aposto minha Nutella que um zilhão de vezes. Mais ou
menos por aí, o negócio é ter em mente que tudo pode acontecer. Parece que
depois que completei os 21, não parei mais de aprender – não que não tivesse antes,
claro, mas as relações começaram a ser assustadoramente mais críveis - grande parte, aliás, a um custo emocional altíssimo: choros
quilométricos encharcando os lenços e travesseiros. Bom, hoje em dia, a cada mês vencido, tomo um
balde de água gelada na cabeça e volto a me questionar a respeito das mesmas
ladainhas. Como nos livrarmos da loucura que habita nossos esqueletos? Como
lidar com expectativas frustradas que dilaceram a alma? Como dominar as
vontades mais ferozes? Como não voltar a protagonizar os mesmos erros, outrora, chorados? Como se deixar em paz com tanto pensamento infernal? Como
contabilizar mais acertos? Como transmutar dores em sementes do bem? Como deixar
essa ideia estúpida de tentar entender tudo e todos de lado? Virem-se, isso é
tema de casa.
Falei acima sobre a casa dos 20,
pois, realmente, para mim, foi um marco. Digamos que deixei de ser uma completa
idiota em uma escala considerável. Não sei bem o porquê, mas aquela história de
“o mundo é maior que o teu quarto” fez um sentido brutal para mim. Aos poucos,
minhas convicções caíram por terra – e seguem – e tratei de começar um profundo
exercício de autoconhecimento. Meio na marra, mas iniciei: eu, eu mesma e a cria
que abria o berreiro às câmeras nas filmagens de aniversários. Fui resgatar lá
no fundo do baú o tal do “o que fizeram
para mim e o que eu fiz do que fizeram para mim?”. Foi e segue sendo uma
experiência incrível, a cada dia, as bofetadas doem menos. Tô aprendendo a
dançar no caos, fazer malabarismo com as circunstâncias, sorrir no escuro,
tolerar absurdos com uma candura Gandhiana e etc. Mas ainda quero ser Catherine
Zeta-Jones, lógico.
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