Pular para o conteúdo principal

Não posso mais ser um prodígio da psicanálise com 9 anos

Quando eu era criança - não que eu não siga -, e brigava com meu irmão por algum motivo que até hoje não sei explicar, meu pai vinha com a cantilena. Corrijo: meu pai, minha mãe ou qualquer adulto que estivesse por perto: ''mas nem bem estavam brincando e já estão de peleia"? Clássico, né? Ou algo do tipo, isto é, se estavam brincando, conversando e rindo, estava expressamente proibido terminarem o show com algum tapão na cara - não que tenha havido, enfim, vocês me entenderam. E não que as coisas precisem terminar com choro e focinheiras, realmente não precisam. Mas isso acontece. Acontece, é da vida. A gente - eu, vocês e todos nós - segue sem se entender no fundo, mas bem no fundinho.
Mais nova, eu me culpava. Achava que a intervenção adulta era sempre muito lógica e providencial. Até pensava com meus botões: ''criança é idiota mesmo, adulto não faz isso''. E deixava-os saborearem aquele trunfo de quem acha que sabe muito sobre a vida. Ai... ai.... seus trouxas.
Sabe, hoje, maior com carteirinha e tudo que sou, eu vejo que, ora, adulto é babaca, É uma criancinha indefesa que paga contas, tem reuniões profissionais e chora no escuro agarrado no travesseiro. E, porra, como chora. Ao menos, a íris fica bem hidratada. A gente segue brigando sem entender. E a gente briga muitas vezes porque, de coração, não se entende. Chega a dar uma peninha. É como se houvesse dois dialetos, não há unidade na linguagem. Posso estar equivocada aqui, mas penso ser seguro afirmar que os seres humanos são universos à parte. Obscuros e reais, muito reais. E o triste é que a gente se ama demais. A gente se gosta, se quer bem, se dói, se sangra, se machuca, se cura. Daí a culpa que eu sentia talvez quando pequena. Não fazia sentido brigar com quem amava. Nunca faz, mas não quer dizer que vamos nos imunizar disto. Até se soubéssemos, penso que faríamos. Mas tcharam, tá aí algo com que a tecnologia nunca nos brindará.
Resvalemos, com louvor, ó, céus, no clichê de que ninguém nos entende. Ninguém me entende. Sim, é bem isso. Parece afirmação de garotinha com ódio do mundo trancada no quarto com 13 anos, mas que nada, ninguém nunca nos entenderá. Só temos a nós mesmos, bipolares do meu coração. Laços de sangue, de amizade, de sexo insano com senha partilhada no Netflix não dão garantia de que nunca haverá farpas. Seria ótimo, lógico. Relações humanas não são contratos, mas ahh, como seriam menos traumáticas se fossem:

FICA ACORDADO QUE, IRMÃOS QUE SÃO, AS PARTES SE COMPROMETEM A NÃO IRRITAREM O OUTRO E DIZEREM NADA QUE SEJA MAL INTERPRETADO, MATE O AMOR PRÓPRIO ALHEIO E LEVE A DISCUSSÕES E/OU CHOROS.

O REFERIDO É VERDADE E DOU FÉ. VÃO LAMBER SABÃO, HUMANOS ESCROTOS.

Sabe, adulto, sabe por que raios a gente seguia brincando com os amigos da rua, mesmo se odiando dali a meia hora? Sabe por quê? PORQUE SOMOS HUMANOS, CARALHO, PORQUE AS RELAÇÕES HUMANAS SÃO ASSIM. PORQUE A GENTE NÃO DESISTE DOS OUTROS, PORQUE A GENTE AMA OS OUTROS, PORQUE AMAMOS NOSSOS, AMIGOS, AMIGAS, IRMÃOS, IRMÃS, PAIS, MÃES, PRIMOS, CACHORROS E PERIQUITOS E ELES NOS FAZEM RIR E TAMBÉM NOS FAZEM MAL. PORQUE NOSSAS PERSONALIDADES SÃO DIFERENTES E ISSO É LINDO E É UMA DESGRAÇA TAMBÉM.


Mas deixa ele lá, achando que tem razão. Agora, estou crescida e não posso voltar no tempo e ser um prodígio da psicanálise com 9 anos. Vai lá, adultão, vai lá chorar depois e ver que não sabe nada.




Auxiliou no post:

Sister morphine - Marianne Faithfull
   





    

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sumiços, porre de vinho, Julia Roberts

Sumi, né? Eu sei. Mas não foi por falta de ideia. Na verdade, seguidamente os ''preciso escrever sobre isso porque tá me sufocando'' vêm me visitar em uníssono. Saudade de usar ''uníssono'' em um texto de novo, ufa, saiu. No colégio, uma vez, uma professora disse que eu era uma pedante literária. Sigo honrando o deboche com gosto.   No geral, eu não tenho mais tempo (será que eu arrumaria tempo?). Não tenho mais tempo para escrever minhas misérias aqui, logo eu que sempre priorizei minimamente este espaço nebuloso. Fazer o quê? É da vida. Nem vim fazer mea culpa até porque ninguém se importa, foi mais para dar as caras, tirar o pó do lugar, abrir as janelas. Como vão? Me convidem para tomar um café, só não liguem para o meu celular, não suporto telefone tocando. Mentira, café com esse calor não tem condição, me convidem para ficar em silêncio tomando um vento na cara. Preciso de silêncio, não aguento mais ter que opinar sobre tudo. Não aguento mais qua…

Sobre Ilha das Flores e Ilha das Flores - depois que a sessão acabou

A ideia deste post surgiu de algo bem interessante. Ontem, eu dei uma lida numa entrevista do cineasta Jorge Furtado e decidi dividi-la no perfil que tenho em uma rede social, uma vez que ele fez algumas considerações sobre jornalismo - e isso, independente de quem vier, sempre me faz dar uma parada. Gosto de ver o que estão falando, etc. Na ocasião, o repórter também nos lembrou da passagem de 25 anos daquele que parece ser um dos maiores feitos do porto-alegrense, o curta ''Ilha das Flores'', lançado em 1989 e até hoje considerado um marco em sua carreira. 
Arrisco dizer que não haja ninguém que não tenha assistido a tal documentário, especialmente nos anos de ensino médio, mas, vá lá, quem sabe nem todos conheçam. Desde que o vi, fiquei encantada. Encantada, mas não num sentido ''jogo no time do Jorge Furtado Futebol Clube'', e, sim, ''que baita jeito de contar uma história, com deboche e precisão''. Trata-se de um roteiro quase lúdico…

Su deboche es mi deboche

Terminei, há uns dias meses, o último livro da ótima Tati Bernardi, aquela moça que meio mundo ama incluir em suas selfies, muito embora a maioria daquelas frases toscas não sejam de autoria da roteirista - palavras da mesma. Pois Tati, que fez de seu transtorno psicológico matéria-prima para muitas de suas genialidades, me fez rir quase convulsionada com o hilariante - porém não menos denso - Depois a louca sou eu. Eu simplesmente cheguei ao cúmulo de parar a leitura e, entre risos histéricos, repetir para mim mesma:''ela não pode ter escrito issoooooooo''. Pois não é que escreveu? E escreveu muito bem (putaquepariu, um texto bem escrito é a minha Disney!!!). É um tom confessional delicioso e intimista, é quase como se eu quisesse abraçar Tatiane e dizer que também já estive ali - estaremos sempre algumas vezes na vida porque esses dilemas psicológicos são dificílimos de desgrudar. Talvez não desgrudem nunca.
Foi um deleite ver a escritora revelar seus piores dramas …