terça-feira, 4 de agosto de 2015

Não posso mais ser um prodígio da psicanálise com 9 anos

Quando eu era criança - não que eu não siga -, e brigava com meu irmão por algum motivo que até hoje não sei explicar, meu pai vinha com a cantilena. Corrijo: meu pai, minha mãe ou qualquer adulto que estivesse por perto: ''mas nem bem estavam brincando e já estão de peleia"? Clássico, né? Ou algo do tipo, isto é, se estavam brincando, conversando e rindo, estava expressamente proibido terminarem o show com algum tapão na cara - não que tenha havido, enfim, vocês me entenderam. E não que as coisas precisem terminar com choro e focinheiras, realmente não precisam. Mas isso acontece. Acontece, é da vida. A gente - eu, vocês e todos nós - segue sem se entender no fundo, mas bem no fundinho.
Mais nova, eu me culpava. Achava que a intervenção adulta era sempre muito lógica e providencial. Até pensava com meus botões: ''criança é idiota mesmo, adulto não faz isso''. E deixava-os saborearem aquele trunfo de quem acha que sabe muito sobre a vida. Ai... ai.... seus trouxas.
Sabe, hoje, maior com carteirinha e tudo que sou, eu vejo que, ora, adulto é babaca, É uma criancinha indefesa que paga contas, tem reuniões profissionais e chora no escuro agarrado no travesseiro. E, porra, como chora. Ao menos, a íris fica bem hidratada. A gente segue brigando sem entender. E a gente briga muitas vezes porque, de coração, não se entende. Chega a dar uma peninha. É como se houvesse dois dialetos, não há unidade na linguagem. Posso estar equivocada aqui, mas penso ser seguro afirmar que os seres humanos são universos à parte. Obscuros e reais, muito reais. E o triste é que a gente se ama demais. A gente se gosta, se quer bem, se dói, se sangra, se machuca, se cura. Daí a culpa que eu sentia talvez quando pequena. Não fazia sentido brigar com quem amava. Nunca faz, mas não quer dizer que vamos nos imunizar disto. Até se soubéssemos, penso que faríamos. Mas tcharam, tá aí algo com que a tecnologia nunca nos brindará.
Resvalemos, com louvor, ó, céus, no clichê de que ninguém nos entende. Ninguém me entende. Sim, é bem isso. Parece afirmação de garotinha com ódio do mundo trancada no quarto com 13 anos, mas que nada, ninguém nunca nos entenderá. Só temos a nós mesmos, bipolares do meu coração. Laços de sangue, de amizade, de sexo insano com senha partilhada no Netflix não dão garantia de que nunca haverá farpas. Seria ótimo, lógico. Relações humanas não são contratos, mas ahh, como seriam menos traumáticas se fossem:

FICA ACORDADO QUE, IRMÃOS QUE SÃO, AS PARTES SE COMPROMETEM A NÃO IRRITAREM O OUTRO E DIZEREM NADA QUE SEJA MAL INTERPRETADO, MATE O AMOR PRÓPRIO ALHEIO E LEVE A DISCUSSÕES E/OU CHOROS.

O REFERIDO É VERDADE E DOU FÉ. VÃO LAMBER SABÃO, HUMANOS ESCROTOS.

Sabe, adulto, sabe por que raios a gente seguia brincando com os amigos da rua, mesmo se odiando dali a meia hora? Sabe por quê? PORQUE SOMOS HUMANOS, CARALHO, PORQUE AS RELAÇÕES HUMANAS SÃO ASSIM. PORQUE A GENTE NÃO DESISTE DOS OUTROS, PORQUE A GENTE AMA OS OUTROS, PORQUE AMAMOS NOSSOS, AMIGOS, AMIGAS, IRMÃOS, IRMÃS, PAIS, MÃES, PRIMOS, CACHORROS E PERIQUITOS E ELES NOS FAZEM RIR E TAMBÉM NOS FAZEM MAL. PORQUE NOSSAS PERSONALIDADES SÃO DIFERENTES E ISSO É LINDO E É UMA DESGRAÇA TAMBÉM.


Mas deixa ele lá, achando que tem razão. Agora, estou crescida e não posso voltar no tempo e ser um prodígio da psicanálise com 9 anos. Vai lá, adultão, vai lá chorar depois e ver que não sabe nada.




Auxiliou no post:

Sister morphine - Marianne Faithfull
   





    

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