Pular para o conteúdo principal

Os 40 anos de Taxi Driver

Coube a um Robert De Niro com um frescor insuspeito de juventude - e recém saído de um Oscar de melhor ator coadjuvante por O Poderoso Chefão: Parte II (1974) - o personagem-título do filme que colocou Martin Scorsese no rol de monstros sagrados de Hollywood. Estava eu, aqui, viajando na maionese, quando me veio a revelação de que essa relíquia completou 40 primaverinhas. Vai ter que ter resenha!
Iniciei o texto falando especialmente do De Niro, porque, de fato, acho sua interpretação primordial para a crueza da porra toda. Reconheçamos o óbvio: o cara está insano. E se você não refez aquela cena dele no espelho falando sozinho com o seu ridículo, não podemos ser amigos. Mas vamos aos fatos. Do que trata Taxi Driver? Travis, Travis Bickle, é um ex-fuzileiro naval (a propósito, isso é o que ele diz) de 26 anos, que sofre de depressão e insônia numa Nova York entregue a problemas comuns a qualquer grande metrópole - caos, solidão, violência, prostituição, corrupção, políticos demagogos, etc. Já que não consegue dormir, ele começa a trabalhar como taxista, percorrendo as ruas da grande maçã e absorvendo toda a realidade latente da cidade e seus tipos arruinados. Percebam, é quase um O Cortiço revisitado em quatro rodas.
Entre um passageiro e outro, ele se depara com duas mulheres que vão mudar sua percepção das coisas. A primeira, por quem se encanta à primeira vista, é Betsy (Cybill Shepherd), que trabalha com a promoção de campanha de um senador que ambiciona a presidência do país. Já a outra, vivida por uma Jodie Foster menina - com apenas 13 aninhos à época - é Iris, que ganha a vida se prostituindo e entra no táxi do anti-herói ao fugir de seu cafetão em uma noite qualquer. Gosto muito da total contradição do nosso protagonista ao se mostrar, ora um atormentado sensível às degradações humanas, tentando inclusive ''salvar'' a mocinha da situação de abuso, ora um completo lunático - por vezes preconceituoso - que leva a moça de seus sonhos para assistir a um filme pornô em um projeto de encontro amoroso. Sim, não tem graça nenhuma, mas eu caio da cadeira rindo disso. É genial, tem todo um quê concebido para mostrar que eles não se entendem. Travis é ingênuo e diz não saber nada sobre música ou política, no entanto discorre sobre filosofias mundanas da melhor qualidade numa mesa de bar. No mínimo, curioso.
Ainda que a história tenha uns coadjuvantes ótimos com rosto e identidade, penso ser o inconsciente do taxista o melhor deles. Merecem atenção especial os diálogos solitários dele escrevendo num rascunho de diário, e também ao volante respirando a atmosfera que acabou por deixá-lo mais doente do que era. Tudo isso, casado a umas expressões faciais de gênio, a uma trilhazinha sonora sorrateira, e a um final surrealíssimo, faz a coisa do Scorsese ser bem fascinante. Não é impunemente que figura sempre entre os melhores nas listas de queridinhos do cinema.    







Auxiliou no post: 

Trans europe express - Kraftwerk 







Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

5 ANOS DE BLOG - PARTICIPE DA PROMOSHARE

Hoje, nós da empresa, completamos 5 anos de blog. Vamos dar o play para entrar no clima:                         #POLÊMICA: sempre preferi o parabéns da Angélica em vez de o da Xuxa. O que não quer dizer que eu ame a Angélica, claro, por mim ela pode ir pra casa do caralho. ENFIM, VAMOS CELEBRAR! 5 ANOS DE MERDA ININTERRUPTA AQUI! UHUL, HEIN? Era 22 de dezembro de 2010, estava euzinha encerrando mais um semestre da faculdade de Jornalismo, meio desgraçada da cabeça (sempre, né), entediadíssima no Orkut, quando finalmente tomei coragem e decidi dar a cara a tapa. Trouxe todas as minhas tralhas para o Blogspot e a esperança de mudar alguma coisa. Infindáveis crônicas começaram a ganhar o mundo e a me deixar mais desgraçada da cabeça ainda: sei lá, escrever é uma forma de ficar nua, de se deixar analisar, de ser sincero até a última gota, e isso nem sempre é bom negócio. Mas, enfim, felizmente tenho sobrevivido sem gran...

Sobre "Ratatouille"

           Já deveria ter escrito algo a respeito de Ratatouille e esse fascínio que causa em mim, mas só hoje levei o impulso adiante. Pois então, digo que ele é uma delícia, é uma lição de vida, é uma graça, é charmoso, é inteligente, é bem roteirizado, é mais que uma animação e muito mais que um filme "de bichinho" para distrair numa tarde chuvosa. Quando a ótima Isabela Boscov afirma que se trata de “uma odisséia com um rato” , não há exagero: há um fato irrefutável. Rémy e suas peraltices com os ingredientes são um soco filosófico na boca do estômago, seguido de recuperação lenta. Muito lenta.            Não sei se vocês já viram, gostaram ou tiveram vontade de jogar o DVD no lixo, após os créditos aparecerem na TV. Só penso que, se houver ainda um pouquinho de sonho latejando em vossos corações, será impossível não se envolver com a saga do tal Rémy na busca de ...

Curiosidades agridoces

Como há um público muito seleto que clama por entrevistas aqui neste espaço, aqui vai uma EXCLUSIVA, feita pela produção do "Garota Agridoce" com a mina agridoce, Bruna Daniele Castro, diretamente do Castelo de Caras.  Um luxo só. Confira! Qual a sua lembrança de infância mais remota? Eu fingindo que tava dormindo pra não ir ao jardim de infância de manhã, nos idos de 95. Me achava muito esperta. Aí, como meus pais eram coniventes com meu soninho rebelde, eu ia no horário da tarde e as freirinhas sempre me repreendiam. Lembro até hoje “Bruninha, tu não estás no teu horário..’’ (risos) Maior ídolo na adolescência? Sei lá... acho que o Freddie Mercury, pela intensidade e magnetismo. E teve aqueles gurizinhos de boy bands , claro, peguei a fase áurea do KLB, logo... Onde você passou as suas férias inesquecíveis? Bah, quando eu tinha uns 8 ou 9 anos, ia pra uma fazenda de uns conhecidos da minha vó materna. Só hoje vejo o quanto aquele tempo era fabuloso. O ver...