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Um furo no coração da pamonha

Pois dia desses, estava eu caminhando pela rua, bem despreocupada, exalando minhas impressões agridoces pela cidade, quando de repente, notei uma movimentação estranha um pouco diante de mim. Em seguida, vi duas viaturas da polícia passarem simultaneamente. Alerta ligado! Isso bastou para aguçar minha imaginação fértil, já fiquei imaginando mil coisas, e me botei a pensar: imaginem agora um furo jornalístico daqueles? “Jornalista novata é a única a ter informações sobre a empreitada policial, pois estava de tocaia atrás da moita”. Lindo furo que nunca se concretizou, game over
 O fato é que com todos esses artefatos tecnológicos, qualquer um pode vir a ser jornalista por um dia. Por uns vários dias, por que não? Na sinopse acima – caso se configurasse um acontecimento bombástico digno de manchetes e o escambau – se bobear, algum vizinho do Seu Zé da padaria já teria filmado tudo, postado no Youtube e toda aquela coisa. A sobrinha de 7 anos da criatura, no alto de seu conhecimento de jardim de infância, teria editado o vídeo lindamente, feito as passagens e as sonoras, e repassado às coleguinhas, enquanto brincava com sua Barbie-Facebook. Em questão de minutos, a saga policial percorreria vários quilômetros de pura distorção pelos becos imundos da web, impelindo desocupados desprovidos de opinião fundamentada a comentarem abobrinhas sobre o ocorrido e fazendo-os passarem adiante as imagens amadoras que - a essa altura - promoveriam com maestria tais criaturas a ajudantes capacitadíssimos da esfera da informação, num looping eterno de falta de critério. 
 Mas opa, calma aí, senta nessa cadeira, que ainda não acabou – lembrem que estamos no Braseeeeel. Após sua saga juvenil em busca de senhores que lhe dessem crédito e visibilidade, a mocinha partiria em busca de reconhecimento ao seu feito, pronta para ganhar o país. Os vizinhos iriam aplaudir, as pessoas da rua começariam a comentar, seu outro tio – que trabalha, sei lá, ao lado de alguma emissora de TV famosérrima – imploraria para que a chamassem para uma entrevista em algum programa fuleiro de domingo – e sua produção, carente de pautas com sentido, estenderia um tapete vermelho para o mais novo exemplar de prodígio da notícia. Em suma, a garotinha que auxiliou em uma reles gravaçãozinha de uma batida policial polêmica, viraria sensação nacional. A cada semana, um aspecto de sua vida seria explorado pelos mais diversos canais de televisão. Passados alguns anos, já teria virado modelo, atriz, posado 1829 vezes para revistas masculinas e, obviamente, seria conhecida como ícone de toda uma geração.
            Acharam o roteiro dos horrores acima familiar? Hum, pensem bem. Considero a interação com o público, conservando-se certos cuidados, positiva. Porém, toda essa miscelânea da informação e difusão torna-se um estorvo quando passa a residir na total banalização dos chamados critérios de noticiabilidade, que são meio relegados no calor da hora e mandados às favas – tudo em troca de audiência e cifras, muitas cifras. Creio que nem tudo que anda sendo veiculado por aí devesse, de fato, estar em seus jornais e televisores, meus caros. E pensar que tudo começou com um “furo” que eu não fui capaz de chamar de meu... sou uma pamonha mesmo.    


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