sábado, 21 de setembro de 2013

Eu não li nada sobre aquele negócio lá na Síria

Vocês querem conhecer a história do Vítor e da Lorena, eu sei. Eu também quero contar, mas vou fazer isso em doses bem homeopáticas. Ou vocês morrem de tédio com a falta de continuidade da trama ou ardem de curiosidade, vou correr o risco. Porém, na postagem de hoje, não tem nenhum dos dois. Na verdade, eu ando meio sei lá com essa vida, sabem? E vim despejar coisas.


Nem sei onde li, mas sei que li por aí que nós, consumidores e receptores, andamos produzindo um absurdo de conteúdo inútil na internet - inclua, por obséquio, meu bloguinho na jogada. Aonde vai o monte de abobrinha que a gente escreve, pessoas? Já pararam pra pensar a respeito? É muito fácil interagir hoje em dia, né? A gente fica se sentindo assim meio superespecial, apto a falar de qualquer coisa, a produzir conteúdo. Conteúdo a um click de ser gerado, é a era da instantaneidade (fiquei meia hora raciocinando pra escrever instantani? cuma mesmo?). Ninguém escreve cartas pro Domingo Legal mais. A gente senta o pau no Twitter, oras! Trata-se de uma época excitante de informação e opinião e críticas e tudo isso vindo de tudo que é lado e das mais bestializantes plataformas e... e... e nós digerindo, e regurgitando isso em forma de conteúdo, em forma de palavras, em forma de sentidos, em forma de impressões acerca dessa porcaria de mundo onde somos obrigados a viver. Só que a gente se lambuza nesse pote de fel da informação. E parece querer cada vez mais mostrar que está, sim, por dentro. Que leu, sim, sobre o aquecimento global. Que escutou, sim, o último cd do Vítor Ramil. Que decorou, sim, o setlist do show do Bon Jovi no Rock in Rio pra comentar sua performance. Que tem acompanhado, sim, o julgamento dos mensaleiros, ora bolas, tá me achando com cara de ignorante e mal informada???? Pra que calar a boca, se eu posso opinar? Pra que segurar meus dedinhos ávidos por reconhecimento cibercultural, se eu posso compartilhar um status mega profundo e inteligente sobre, sei lá, o quanto a Veja é nojenta e tendenciosa? Eu preciso dos louros da vitória, você também precisa. Estudos senegaleses apontam que, quanto mais curtidas e retweets eu tenho, mais guloso eu vou ficando.
Olha, não há nada de errado em ser bem informado, interessante, discorrer sobre variados assuntos, enfim, ter opinião. Nada mesmo, eu a m o pessoas assim, cês também devem ter paixão. Todavia, é aí que talvez resida nosso dilema, caríssimos: vivemos uma era em que falar sobre tudo é requisito indispensável pra entrar no tal mundo feliz, no mundo das ideias onde todos racionalizam e não sofrem. A impressão que dá é que perdemos o trunfo do ''desconhecer'', como se ninguém fosse nos levar a sério se disséssemos que, poxa, não lemos a última edição da Carta Capital. Ninguém mais pode se dar o luxo de simplesmente não saber. Não saber, mas que delícia. Não, eu não sei. Não, eu não quero opinar sobre isso. Não, eu não tenho opinião formada a respeito. Não sei. N Ã O S E I. Não saber? Você está proibido de não saber, filhinho. Penso ser essa loucura atrás de constatações sagazes e sábias, no fundo, fruto da nossa própria insegurança, porque, né? Convenhamos, todos querem ser charmosos e conquistar a geral pelo intelecto, pelo que têm a dizer. Todos querem ser pensantes, e eu também quero, me apavora a ideia de viver à margem desse banquete farto do conhecimento. Só que, né? Isso é ilusão, já que eu não li nada sobre aquele negócio lá na Síria. Me perdoa, mundo, por favor.


Auxiliaram no post:

Blue skies - Jamiroquai
Shine - Laura Izibor









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