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AFASTE DE MIM ESTE CALE-SE

Chegamos, enfim, aos 50 anos da madrugada mais sombria do passado recente brasileiro. Sim, eu vou romantizar a coisa. Tenho estado com os nervos à flor da pele nos últimos dias, andei lendo um bocado de coisas sobre, revi filmes, assisti a vídeos, busquei na memória aulas de professores e o jeito como eles me ensinaram fatos referentes ao golpe (só eu acho gritante a diferença na percepção adolescente para a adulta?) e a indignação segue fresca, renovada. Que bom. Vocês sabem, maniqueísmo no colégio é algo fácil, fácil de ser reproduzido.
Fico me perguntando o que faria eu, Bruna, essa palerma com boas intenções, caso tivesse meus vinte e poucos anos de hoje naquele caos político. Me faltam referências na família, não sei como se sucederam as coisas nos interiores do Brasil (especificamente do estado abagualado onde vivo), além de nos faltarem arquivos de pesquisa de um modo alarmante, mas, olha, na minha humilde opinião, acho que eu me meteria em problemas com prazer. Não sei, caro leitor, não vou ludibriá-lo dizendo que eu partiria sem titubear para a luta armada, em prol de uma causa maior - sinceramente, não sei se teria abnegação suficiente, deixando uma vidinha burguesa para trás, meus amores, planos, etc. Mas uma panfletagem de resistência, quem sabe? Umas linhas de repúdio com medo e olhos brilhando em uma máquina de escrever? Acho que sim. Certamente, uma fichazinha marota num DOPS da vida eu teria - claro, isso com sorte. Nem preciso mencionar o que havia além de fichas marotas, né, amiguinhos? Credo.
Imagino o quanto de idealismo dominava o sangue de quem abdicou de um nome, de um passado a favor desse sonho de igualdade que parece cada vez mais inatingível. Não posso deixar de respeitar profundamente quem o fez, simpatizo e muito com quem ousou sonhar mais do que devia, quem brincou com o destino, quem desafiou pelotões, mas acabou despedaçado - metafórica e literalmente. Poxa, eles lutaram por mim! Não falo aqui de esquerda e direita: para ser franca, eu ainda me encontro perdida entre estes conceitos, apesar de já ter lido um monte de coisas a respeito. Falo de coragem de sair do comodismo, sabe. Esta democracia que me permite ter um blog e escrever o que eu bem entender, foi restabelecida à custa de muitas lágrimas, de muito grito. Ela não veio por bondade.

Em suma: espero que ela nunca mais desapareça.



Auxiliou no post: 

Dê um rolê - Roberta Sá e A Parede





  

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