terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Bruna, uma frutinha estragada


Tem uma prima minha que seguidamente fala ''Bruna, tu que lê bastante, me responde uma coisa''. Eu acho uma graça. Fico intrigada com isso, de verdade. Que eu leio bastante, realmente não é novidade para ninguém (basta perceber meu rico vocabulário, né, mores), mas ela supor que eu posso responder qualquer coisa me assusta, porque o fato é que eu não sei nada da vida. Quanto mais eu... vá lá, leio, mais imbecil me sinto diante dela. Digo, da vida, não da minha prima.
É claro que ela não diz isso para encher minha bola, falei mais para ilustrar mesmo. E é claro que pessoas que leem mais, tendem a ter mais respostas prontas na ponta da língua, é uma questão lógica de sincronia entre linguagem e discurso. Mas sapiência definitivamente não nos garante certeza quanto aos mistérios que nos cercam. É só uma tentativa, uma busca. No meu caso, leio mais como um sintoma desesperado de entendimento, como se disso dependesse minha sobrevivência, nada a ver com autopromoções - poucas coisas me enojam tanto quanto bajulação (não se deixem levar pela minha etiqueta astrológica). Eu leio mais mesmo é porque sou uma curiosa irremediavelmente desgraçada da cabeça. Porque preciso me entender e preencher os leads da minha existência. Eu leio porque não me levo a sério, e isso me mata um pouco a cada dia. Eu leio para me proteger. Porque sinto demais e tenho uma memória assombrosa, logo, tenho que teorizar um pouco dessa bagunça. E quando falo que leio com essa arrogância necessária, não me refiro nem a Kafkas e Dostoiévskis - essas instituições literárias que, embora geniais, são maçantes e complexas. Falo é de qualquer coisa que me caia às mãos. Falo é de uma esperança entranhada de que aquilo por que meus olhos, por ventura, cruzem acabe com minha errância. Falo de astrologia, filosofia de boteco, manchetes de jornal, cartinhas empoeiradas nas gavetas do meu quarto. Falo de ler o que está nas entrelinhas. Entre linhas, tudo é possível.
Vocês já devem ter ouvido por aí que as pessoas mais felizes são precisamente as mais ignorantes. Pois eu não tenho dúvidas disso. A gente não lê, aprende, assimila, whatever, para ser feliz. Saber é doer, meus caros. E quanto mais lemos, mais emaranhados em falsas certezas ficamos. As pessoas leem e aprendem porque o sistema quer os bem instruídos e os detentores de capital cultural, a fim, claro, de manter a verticalização - mas, vejam bem, o sistema não está preocupado com a nossa sanidade mental. Pensar enlouquece, e eles não querem maçãs mentalmente podres. Eles querem é maçãs brilhantemente técnicas e eficientes. Já os frutos que levam indagações genuínas em suas sementes ficarão sempre à margem em uma árvore qualquer por aí. ''Tu que lê bastante, me responde uma coisa...'' 
Antes soubesse, minha cara, antes soubesse. Eu, no máximo, me desculpo por ser uma frutinha estragada.







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