segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Ouro

Enquanto eu me desmanchava em lágrimas ali, fiquei a pensar no tal do ouro. Porque nós, os chorões, choramos. Choramos porque chorar de alívio traz paz, limpa. Choramos porque chorar também é digno. Choramos porque trazemos o coração meio aos pulos sempre na garganta, agoniados por viver tudo, sentindo o caminhar das coisas dum jeito tão mais diferente, tão mais sensível a tudo. Choramos porque chorar de alegria é o melhor de dois mundos. E aquele sal que cai não faz mal.
A medalha também é minha, é muito minha. É também de todo mundo que se doou, que viu, que vibrou, que torceu, que emanou a mais ínfima energia - vá saber, isso pode ser transformador. Essa medalha é muito minha. É minha porque eu amo esse país. Porque a gente se conhece, se sente, se tolera, se ama e se odeia. É minha porque eu o defendo, brigo por ele. É minha porque conheço sua história toda, sei de suas dores, sei de suas vergonhas e suas glórias. É minha porque quando a gente se olha, simplesmente ri e sabe o que se passa - velhos amigos, velhos cúmplices. É minha porque ser brasileiro é um mistério e uma delícia - e também o pior dos castigos. É minha, porque essa relação não conhece sutilezas, é tudo vivido a cem por hora, do inferno ao paraíso sem escalas.
Pensar nos ouros que vieram, vêm e virão também me faz pensar nos ouros particulares de quem não leva vidas assim tão douradas, esses ouros que chegam a ser simplórios, risíveis e incompreendidos. Esses ouros que são perseguidos à exaustão e só quem os vive sabe a dimensão que carregam. Ouros de tolo, mas quem quer ser esperto a essas alturas? Superar os próprios fantasmas também pode ser uma final. Ah... é sempre final, tudo ou nada. Eu gosto disso. Eu me machuco, mas, se sigo viva, é por algum motivo.
Pensar no ouro me faz querer ganhar. Ganhar é bom e talvez ser viciado nesse êxtase não seja tão ruim assim - de ambição em ambição, vamos fazendo a vida ter sentido. Ganhar é bom. Eu quero ganhar, quero perseguir meus ouros - esses que ninguém faz ideia do que sejam, mas que me fazem sorrir igual a uma criança no final de cada dia. Sem plateia, sem holofote, sem torcida, mas tão valiosos que não há quem diga que não sejam medalhas. Sonhos dourados também se realizam longe de quadras.






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