quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Mãe de pet

Até eu, que eu sou uma doente descontrolada por gatinhos e afins, tenho um pingo de noção ao me intitular ''mãe'' dos meus bichinhos. Por favorzinho, sim? Nós não somos mães porcaria nenhuma - no máximo, tutoras babonas que amam seus peludinhos e zelam pelo bem estar deles, o que não me parece ser digno de medalha. Há tempos, venho pensando sobre isso e tenho me incomodado com a denominação. Mãe de cachorro também é mãe. Mãe de pet é mãe, sim. Qual é? Em maio último, foi uma enxurrada desse tipo de pérola nas timelines que, a duras penas, mantenho. Eu queria me matar. Aí eu fiquei dias e dias matutando: mas será que eu vou ter que escrever uma baboseira das minhas para dizer o óbvio? Que vocês NÃO são mães? Que vocês estão sendo ridículas e egoístas ao saírem se proclamando guerreiras por cuidarem de um animalzinho? Pelo jeito, sim. Então comecemos pelo começo, como diria o outro lá. 
Mãe de pet não deixa de fazer nada em sua vida por conta de seus ''filhos'' - no máximo, ela vai atrasar seus afazeres, arrumar uma brecha para algo mais urgente em relação à prole peluda, mas, ainda assim, não me recordo de mulheres que não conseguiram dormir uma noite inteira por conta deles. Mãe de pet não vê os cabelos embranquecerem de dúvidas, angústias e medos sobre a educação dispensada àquele serzinho que parece fazer o contrário de tudo que foi pedido. Mãe de pet não sente as mamas doloridas em virtude de torturantes sessões de amamentação. Mãe de pet pode sair no sábado à noite sem medo de ser julgada. E beber todas, afinal, no fundo ela sabe que não é mãe porra nenhuma.
Mãe de pet não sente a corrosiva ação dos hormônios no organismo, na pele, no cérebro, na alma após dar à luz - e meses a fio depois. Mãe de pet não tem depressão pós-parto. Mãe de pet não vê seu corpo passar por mudanças que mutilam, muitas vezes, sua autoestima e desejo por si mesma. Mãe de pet não comunga do alimento que ajuda a desenvolver sua cria. Mãe de pet não sabe o que é passar dias e dias sem poder comer devido a enjoos, andar devido a dores diversas, viver devido a questionamentos que paralisam o semblante. Se vocês, literalmente, não vomitaram pelos filhos de vocês, tenham a dignidade de não se outorgarem mães com tanta veemência.
É bonitinho ter um bichinho, é uma delícia - eu amo, sou fascinada. Mas, nunca, nem na minha quinta loucura, vou sair esbravejando que sou mãe, sim, ora pois!!!! Eu não educo ninguém, não perco o sono por ninguém, não me questiono dia e noite se estou fazendo um bom trabalho, não sofro com os noticiários e o mundo horripilante onde meus rebentos terão de viver após saírem da minha asa, não me apavoro com os preços dos alimentos, das fraldas, das roupas, dos materiais escolares. No máximo, eu curto essa paixão que é ter um companheirinho, um alento que ronrona em dias tenebrosos e me auxilia na tarefa pedregosa de seguir. Chamo os meus de filhinhos, claro, como não? - é mais forte que eu. Mas tomo o cuidado mínimo para não passar por imbecil: ao menor sinal de comparação esdrúxula, eu calo a boca.


                                                         Sacou, idiota?









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