sexta-feira, 1 de abril de 2011

Enigma de estação

        O bronzeado quase nem aparece. Os reggaes, cujas letras enterneciam meu coração, saíram do eixo de atenção quase que naturalmente. O calor ainda se faz presente, embora timidamente, mas eu sei que não é a mesma coisa. Não é mais fevereiro. Não é mais verão. Não tem malícia no ar. Não há mais sorveteiros nas ruas. Não há aquele convite maroto para fazer a vida acontecer, para ficar um pouco mais admirando o pôr do sol. Eu sei que ela acontece nas de mais estações do ano também, meus caros, mas não me queiram dizer que é igual.
         Ainda não me acostumei com a idéia de não conseguir deixar vivas as lembranças dessa época quente, visceral, insana, mesmo que o tempo passe inexoravelmente. Talvez seja por isso que eu, às vezes, me sinta a mais nostálgica das criaturas, procurando não me prender ao passado, mas também pesarosa de que os dias passem e façam eu me desligar da magia que foi vivida. Isso é só comigo? Só eu sofro desse mal? Alguma coisa me diz que isso deve ser comum a todos nós, os ávidos por resgatar planos feitos há algum tempo, por reafirmar os propósitos de começo de ano. A cada rasteira costumeira dos dias nem tão quentes, sentir que ainda não esmorecemos nas promessas, que vamos tentar mais uma vez, afinal, olha o tanto de compromissos que assumimos naquele primeiro de janeiro escaldante, não é?
         Essa história de, praticamente, implorar para que o tempo não passe tão impiedosamente deve ser por causa disso mesmo. Na realidade, queremos uma garantia de que a esperança que veio com o verão e suas temperaturas ferventes ainda viva em nós e nos faça sorrir diante da vida, mesmo quando não há motivos. Estudar um idioma, fazer amizades, ligar finalmente para o rolo da faculdade. Dormir mais cedo, fazer exercícios regularmente, deixar de se basear nas vitrines e vestir o que der na telha. Desengessar. Queimar! 
          Eu nunca fui muito partidária do verão, mas ando arrebatada pela sua magnitude, ano após ano. Pela alegria de viver que ele - só ele - nos exige. Sou cria do inverno de agosto, mas reconheço que há um mistério no ar, quando o dia 21 de dezembro nos dá o ar da graça. Eu sei que os dias correm, que os sonhos se perdem em meio às luvas e aos casacos de lã. Eu sei de tudo isso e até me dá certa paz, uma vez que, logo, tudo começa de novo. Vai dar para ser feliz ano que vem. Bendita seja essa tal de translação.

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