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Entre no jogo

            Entre no jogo. Seja cópia. Seja adorável, não crie caso. Entre no jogo. Sorria para quem apunhalou suas costas. Finja que acha normal tanta bizarrice virar notícia. Entre no jogo. Idolatre gente sem noção. Fale que precisa tomar todas. Tenha uma ressaca absurda que o faça vomitar as entranhas e poste isso nas suas – várias - redes sociais. Todo mundo faz. Entre no jogo. Dirija bêbado. Dê audiência para coisas medíocres. Entre no jogo. Seja adepto de programas pelos quais não nutre interesse algum. Você não sabe de nada, fique calado e apenas siga a correnteza.
            Entre no jogo. Compre muito. Indiscriminadamente. Adquira dezenas de sapatos, troque de celular todo mês, venda a alma ao diabo, mas tenha. Seja antenado, consuma. Entre no jogo, ele é sedutor. Finja que não vê mendigos na rua. Cachorros abandonados. Pessoas catando papelão. Crianças se drogando nas esquinas. Feche os olhos, afinal, sequer são bonitos, não é? Entre no jogo. Seja um ser humano assim, sei lá, vazio, como uma bolhinha de sabão. Seja só mais um. Leia incontáveis best-sellers. Nada de Sociologia, Literatura, Antropologia ou Filosofia. Por favor! Isso não enriquece ninguém.
             Entre no jogo. Fale muito sobre festas. Frequente-as de segunda a segunda, afinal, o fim do mundo é uma verdade iminente. E beber até cair é tão revolucionário. Entre no jogo. Viva perigosamente, seja malandruxo. Faça pegas, trepe com a namorada do seu melhor amigo, faça fofocas, sacaneie sua amiga. Caso não faça isso, não estará aproveitando bem sua vida maravilhosa e não passará de um tapado. Bem feito. Tire muitas fotos em lugares da moda, e siga ignorando seus pais e seus avós. Seja puxa-saco, faça bons contatos, pise em quem não tem status e conta no banco. Humilhe quem não pôde estudar e ter uma carreira. Entre nesse jogo fascinante. Entre e não olhe para trás. Entre e aprenda a amá-lo. Quem sabe assim, sofra-se menos.

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