Pular para o conteúdo principal

Sobre carnaval

Eu já fui uma foliona de marca maior. Nas matinês dos anos 90 só dava eu. Mas aí eu cresci, né? E comecei a achar tudo um grande exagero, uma coisa sem sentido. Se ao menos fosse sem sentido, mas com música boa... mas não, não é. São sempre os mesmos hits enjoados e com coreografias depreciativas. E então eu racionalizei e parei de ir, não me considero menos tupiniquim por isso.
O que me enerva no carnaval - mais que a overdose de Asa de Águia e adjacentes - é essa necessidade pela loucura, como se ela fosse um instinto sazonal. Anjinhos, nós podemos ser livres e pegar geral depois da quarta-feira de cinzas também. Por que o moralismo velado no restante dos meses, se nos dias de folia é tudo liberado? Conheço casos de pessoas que terminaram namoros para aproveitar mais e melhor, porque, sabe como é, namorar é um fardo mesmo, ainda mais nestes quatro dias maravilhosos em que a lascívia corre solta. Hipócritinhas adoráveis. Não me apetece esta ambiência momesca, mas não por ser santa, e, sim, sensata - ao menos no presente quesito, seu jurado.
A queixa é só em se tratando disto, sabe, não é que eu odeie a festança do momo numa totalidade. Eu gosto de samba. Eu amo o Chico. Eu amo o Cartola, cara, e Cartola é carnaval correndo nas veias. Amo a Marisa Monte e o Paulinho da Viola, como odiá-lo, sabendo que eles são a cara da Portela? Não dá. Gosto do lirismo - talvez pouco explorado - da coisa, tem poesia no carnaval, sim, senhor. Procurando, tem. E tem arte da boa: as escolas de samba se puxam nas histórias que contam nas avenidas. Tirando toda a exploração escrota do corpo feminino, toda a sexualização barata para gringo se deleitar, toda a forçação de barra, com um olharzinho mais atento dá para aprender também.    


Abaixo, eu trago uma raridade: Buarquinho e Carlos Cachaça sendo entrevistados sobre o enredo de 1987 da Mangueira, uma celebração a Drummond.


 


Auxiliou no post:

Little saint Nick - The Beach Boys






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Isis e eu

Dia desses, um cara comentou altas grosserias numa foto minha (um feioso que estava querendo este corpinho, mas isso a Globo não mostra, uééééééé). O fato é que o moço me esculachou - ainda que, outrora, quisesse comer - dizendo para eu não me achar tanto visto que, perto de beldades como Isis Valverde, Fulana Não Sei Das Quantas (alguma boazuda fitness que nunca nem vi e que deve tirar foto olhando pro chão) e outras mulheres que não identifiquei no comentário magoado, eu era feia pra caralho. Eu, Bruna C., 28 anos, feia pra caralho e humilhada em rede social. Lamentei, claro, mas mais por ele não ter sacado o meme que originou a legenda da foto - olha, feiura até relevamos, mas não sacar um meme? Poxa, estamos falando de uma indústria brasileira vital. Mas, vamos lá, se tem algo que eu capto nessa vidinha obscura é a profundidade das coisas. Este feio incapacitado para entender ironias, achando que estava acabando comigo, só aguçou meu senso de observação.  É evidente que nunca che…

Sobre Ilha das Flores e Ilha das Flores - depois que a sessão acabou

A ideia deste post surgiu de algo bem interessante. Ontem, eu dei uma lida numa entrevista do cineasta Jorge Furtado e decidi dividi-la no perfil que tenho em uma rede social, uma vez que ele fez algumas considerações sobre jornalismo - e isso, independente de quem vier, sempre me faz dar uma parada. Gosto de ver o que estão falando, etc. Na ocasião, o repórter também nos lembrou da passagem de 25 anos daquele que parece ser um dos maiores feitos do porto-alegrense, o curta ''Ilha das Flores'', lançado em 1989 e até hoje considerado um marco em sua carreira.  Arrisco dizer que não haja ninguém que não tenha assistido a tal documentário, especialmente nos anos de ensino médio, mas, vá lá, quem sabe nem todos conheçam. Desde que o vi, fiquei encantada. Encantada, mas não num sentido ''jogo no time do Jorge Furtado Futebol Clube'', e, sim, ''que baita jeito de contar uma história, com deboche e precisão''. Trata-se de um roteiro quase lúdico…

Família Felipe Neto

Eu já queria falar sobre isso há um bom tempo, e, enquanto não criar vergonha nessa cara e entrar num mestrado para matar minha curiosidade de por que caralhos as pessoas dão audiência para pessoas tão bizarras e nada a ver, a gente vai ter que escrever sobre isso aqui. Quando eu falo ''a gente'', me refiro a mim e às vozes que habitam minha cabeça, tá, queridos? Youtubers... youtubers... sim, Bruna, está acontecendo e faz tempo. Que desgraça essa gente! Ó, pai, por que me abandonaste? Quanto tempo eu dormi? Estamos vivendo uma era de espetacularização tão idiota, mas tão idiota que me faltam palavras, é sério, eu só consigo sentir - como diria o fatídico meme. Não tem a mínima condição de manter a sanidade mental, querendo estudar, trabalhar, evoluir quando pegar uma câmera, do celular mesmo, sair falando um monte de merda e enriquecer com isso ficou tão fácil. Vamos usar um case bem ridículo aqui? Vamos.  Dia desses, esta comunicóloga que vos fala, fazendo suas comp…