Pular para o conteúdo principal

Sobre não aturar, mea culpa e gatos mafiosos

É... eles tinham razão quando afirmavam que envelhecer tem uma baita vantagem. Aquela vantagem, ô vantagem boa... sinto os olhos brilharem só de falar. É bem verdade que curto ainda as delícias da minha ''mocidade'', como diria o meu Cartola, mas já noto os efeitos do ''ficar mais velha''. Trata-se simplesmente do maravilhoso não aturar. Eu não aturo mais. Eu me nego a aturar algo que me faça mal, algo que me encha o saco, algo que exija minha condescendência quando não existe nem rastro de uma. É bem verdade que às vezes pode demorar, mas, no fundo, eu sempre acabo optando por mim. Se eu contasse como tenho me sentido egoísta e tenho gostado de tal sensação...
O bom de envelhecer é começar a entender realmente que nada vale a sua paz. É uma autoajuda de botequim que chega a ficar chata, mas quer saber? Tem que ser repetida, reafirmada, porque é fácil, fácil de ser esquecida. Alguns dirão que tudo não passa de intransigência da minha parte. Que seja então, que seja.


Lá vou eu fazer mea culpa... vejam só, não é para ler a postagem das ''quaisquer coisas'' e sentir peninha da autora, como se ela estivesse derramando um ódio ciumento em cima dos casais consumistas do mundo, ok? A interpretação é mais que uma leitura feroz vendo só o que quer ver, e tenho absoluta certeza de que, antenados que são, meus leitores sabem disso. Eu só quis dizer mesmo é que presente - no sentido físico da coisa - é mero acessório quando há encantamento gratuito, parceria, perna tremendo, coração acelerado, amor e amor ao quadrado. A frase daquela moça somente me irritou, porque veio aos meus ouvidos como que reunindo numa única assertiva toda a mercantilização dos sentimentos que me enoja desde sempre. E falando nisso, do jeito como as coisas andam, penso ser o encantamento gratuito - e, principalmente, recíproco!!! - o grande presente da vez. Distribuam beijos, em vez de notas, seus sortudinhos de uma figa!


Desde que abracei a maternidade felina, li de tudo um pouco para aprender a lidar com tal criaturinha fascinante, o gato - que, dizem, não é de hoje que sofre com a hostilidade humana. Trata-se de um mistério de muitos anos atrás e obviamente não entrarei em detalhes, por me faltar repertório...
Mas que intriga, isso intriga. Há quem diga que o gato, esse ser frio e calculista, gasta boa parte de suas sete vidas (sic) tramando contra a paz do seu dono. Dia desses, ouvi um achado:

- Não é tu que escolhe o gato, ele é que te escolhe. Se ele não gostar de ti de início, não vai gostar nunca.

Olha, pode até ser, já diria o fulano lá que ''há mais coisas entre o céu e a terra do que julga nossa vã filosofia''. Ainda assim, custa-me acreditar em um gato ardiloso com olhar de mafioso e riso cínico, bolando mil e um planos para acabar com o bom andamento dos fatos - fato este que nos leva a outro ponto: o ser humano não gosta do gato, porque não consegue dominá-lo, como usualmente acontece com os cãezinhos. Nada contra eles, claro, amo igualmente, mas que têm talento para a servidão, isso têm. E é simples assim mesmo. O gato nunca será seu e unicamente seu animalzinho de estimação, meu caro. Ele é do mundo, da noite, ele é senhor de si. Para mim, todo o charme dele reside nisso, nessa parceria, nessa afetividade que não é carência, é zelo mútuo. E só. Mas há quem diga que ele é um lobinho em pele de cordeiro, logo...
É sempre válido trazer à análise também aquele chato de mesa de bar que adora comparar cães a gatos, como se ambas as espécies precisassem ficar cada uma em um canto no ringue da predileção humana. Vocês sabiam que dá para amar os dois, sem fazer comparações despropositadas? Parece inédito, né? Mas não é.





Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sumiços, porre de vinho, Julia Roberts

Sumi, né? Eu sei. Mas não foi por falta de ideia. Na verdade, seguidamente os ''preciso escrever sobre isso porque tá me sufocando'' vêm me visitar em uníssono. Saudade de usar ''uníssono'' em um texto de novo, ufa, saiu. No colégio, uma vez, uma professora disse que eu era uma pedante literária. Sigo honrando o deboche com gosto.   No geral, eu não tenho mais tempo (será que eu arrumaria tempo?). Não tenho mais tempo para escrever minhas misérias aqui, logo eu que sempre priorizei minimamente este espaço nebuloso. Fazer o quê? É da vida. Nem vim fazer mea culpa até porque ninguém se importa, foi mais para dar as caras, tirar o pó do lugar, abrir as janelas. Como vão? Me convidem para tomar um café, só não liguem para o meu celular, não suporto telefone tocando. Mentira, café com esse calor não tem condição, me convidem para ficar em silêncio tomando um vento na cara. Preciso de silêncio, não aguento mais ter que opinar sobre tudo. Não aguento mais qua…

Sobre Ilha das Flores e Ilha das Flores - depois que a sessão acabou

A ideia deste post surgiu de algo bem interessante. Ontem, eu dei uma lida numa entrevista do cineasta Jorge Furtado e decidi dividi-la no perfil que tenho em uma rede social, uma vez que ele fez algumas considerações sobre jornalismo - e isso, independente de quem vier, sempre me faz dar uma parada. Gosto de ver o que estão falando, etc. Na ocasião, o repórter também nos lembrou da passagem de 25 anos daquele que parece ser um dos maiores feitos do porto-alegrense, o curta ''Ilha das Flores'', lançado em 1989 e até hoje considerado um marco em sua carreira.  Arrisco dizer que não haja ninguém que não tenha assistido a tal documentário, especialmente nos anos de ensino médio, mas, vá lá, quem sabe nem todos conheçam. Desde que o vi, fiquei encantada. Encantada, mas não num sentido ''jogo no time do Jorge Furtado Futebol Clube'', e, sim, ''que baita jeito de contar uma história, com deboche e precisão''. Trata-se de um roteiro quase lúdico…

Su deboche es mi deboche

Terminei, há uns dias meses, o último livro da ótima Tati Bernardi, aquela moça que meio mundo ama incluir em suas selfies, muito embora a maioria daquelas frases toscas não sejam de autoria da roteirista - palavras da mesma. Pois Tati, que fez de seu transtorno psicológico matéria-prima para muitas de suas genialidades, me fez rir quase convulsionada com o hilariante - porém não menos denso - Depois a louca sou eu. Eu simplesmente cheguei ao cúmulo de parar a leitura e, entre risos histéricos, repetir para mim mesma:''ela não pode ter escrito issoooooooo''. Pois não é que escreveu? E escreveu muito bem (putaquepariu, um texto bem escrito é a minha Disney!!!). É um tom confessional delicioso e intimista, é quase como se eu quisesse abraçar Tatiane e dizer que também já estive ali - estaremos sempre algumas vezes na vida porque esses dilemas psicológicos são dificílimos de desgrudar. Talvez não desgrudem nunca.
Foi um deleite ver a escritora revelar seus piores dramas …