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Vovó é que é sortuda

Dia desses, falávamos, uma amiga e eu, sobre como os caras ficam mais atraentes quando não se expõem tanto nas ditas redes sociais. Não sei se somente nós fomos acometidas pela síndrome, mas rola uma curiosidade maior. Sempre rola. Sei lá eu se é mistério, sé é porque eles parecem mais maduros, se é porque ao vermos que não tiraram fotos na última festa a que foram, automaticamente deixaram de usar a túnica da vulgaridade e se converteram em seres superiores. Não sei o que é, mas aí reside um bom chamariz. Ao menos, pra mim. (Aqui, é válido salientar que eu não entendo bulhufas de meninos e desse jogo fabuloso da conquista, ok.) 
Só se fala em redes sociais. Tudo acontece ali: manifestos ganham forma, casamentos e namoros são acompanhados em tempo real, notícias polêmicas e opiniões a tiracolo são difundidas pra todo o globo, etc, etc, etc. Qualquer um tem ao menos algum canal em que é visto, sentido, julgado, acompanhado tipo novela. Os que não têm - possivelmente a minoria - não sabem o quanto são invejados por mim. Essas pessoas (guardem isso) é que são felizes, é que estão realmente felizes, à margem dessa esquizofrenia que gentilmente chamamos de progresso. Olha, não sei vocês, mas eu perco um pouquinho da minha sanidade a cada dia brincando de gerir perfis. Mas é aquela história, eu já tô dentro, não dá mais pra sair.
Tirando essa parte em que eu faço a apocalíptica (vocês já deviam estar habituados, né), o fato é que a situação não é nada animadora. Agora seria o momento de eu inserir alguma porcentagem de quantas pessoas enlouqueceram ou morreram de inveja por causa do Instagram no último semestre, a fim de deixar o texto com uma roupagem jornalística séria e tal, mas não, eu não tenho nenhum dado, eu só queria era dividir mesmo com vocês o quanto me apavora essa vida que a gente vem levando. Claro, qualquer inocente aí vai gritar que se eu tô incomodada, eu tenho mais é que me retirar, mas como me dar ao luxo, se eu não sou uma ilha isolada? Eu vivo com vocês, cara, eu não posso me esconder.
As pessoas, elas avisam quando saem de casa. Elas nos contam onde foram jantar (se for num lugar descoladaço, as chances são mais altas, ca-la-ro). Elas também contam o que estão deglutindo. Elas dizem como estão se sentindo - e, se foram ao médico por conta da comida que não caiu bem no restaurante, elas também avisam se estão hospitalizadas. Falando nisso, vocês já curtiram a página do Hospital da Paloma? Altas dicas pra hipocondríacos lá.
Que Dios me libre, e eu lá quero que geral saiba onde eu ando? Credo, o pouco que eu compartilho da minha vidinha classe média já me apavora, imaginem vocês, sou muito mais fã do anonimato (no meu caso, dum anonimato passível de alguns 15 minutos de fama, ok?). Acho que a minha vó, lá naquela vida rural e bucólica, é que é a verdadeira celebridade. Vovó, essa sortuda.



Acompanhem agora que lindo eu compartilhando isso no Facebook, chorando pra ser lida. Eu disse, não posso me esconder. 






  

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