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Acho que era Ramones

Eu tinha uns dezesseis, eu acho. Dezesseis para dezessete. Falava com ele diretão, a gente trocava uma ideia legalzinha - legalzinha leia-se insípida - muito embora alguns diálogos fossem monólogos e quase nada tivéssemos em comum. Ele gostava de mim - e até que era bom ser gostada daquele jeito. Numa época de inseguranças latentes e desejo de autoafirmação, aquele sentimento era quase um sopro de vida.

''Gosto de ti de óculos'', dizia o mancebo.  

Até que um dia, ele veio com uns papos estranhos. Ele tinha cara de quem gostava de namorar no domingo, assistindo Faustão no sofá da sala. Um arrepio correu minha espinha. Engoli a seco, blefei:  

- Legal aquela música que tocou no filme, né? Acho que era Ramones...

Não que eu quisesse ir nadar com as baleias do Ártico ou escalar o Everest em pleno domingo, mas ter me acenado com um pouquinho mais de aventura, de traquinagem na vida, teria sido determinante. Determinante para quê? Sei lá eu, cara-pálida. Mas sinto que teria...

Vocês nunca se perguntaram onde estariam, com quem estariam, de que jeito estariam, caso tivessem feito outras escolhas???? Dããr. Claro que sim, né, penso ser algo recorrente quando a gente para e dá uma refletida. Alguns sentem culpas, outros, alívios. Eu sinto cócegas. Rir do passado é o melhor jeito de conviver bem com ele. É claro que eu julguei um rosto, um nome, uma mania de ser sempre comedido e inofensivo nas opiniões, mas.... mas.... não consigo, ainda, achar que eu estava totalmente errada naquela primeira impressão - que talvez pudesse me roubar um pouquinho de felicidade, vai saber. Não, não roubou mesmo.


Auxiliou no post:

The authority song - Jimmy Eat World








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