Pular para o conteúdo principal

Não troco o meu James Bond por você

A solidão assusta, claro que assusta. Solitude não é o projeto de vida de ninguém na vida, não é mesmo? Mas eu convivo bem com a ideia. Não que eu seja uma pessoa sozinha, longe disso, modéstia à parte, sempre dou um jeito de ter uma boa companhia do lado, de estar cercada de pessoas legais. Todavia, quando acontece, não deixa sequelas. Definitivamente, não sou o tipo de pessoa que perde um filme, por falta da dita ''parceria''. Ainda mais sendo o novo do James Bond. Jura!
Eu gosto de ficar sozinha, acho de grande necessidade. Eu me aprecio, gosto da minha companhia, do que eu descubro enquanto testemunha de mim mesma. É sempre libertador. E é meio curioso confessar isso, porque pressupõe que eu sou uma extraterrestre: quase ninguém que conheço é muito fã de uma solidãozinha. Deve haver, claro, mas, no geral, eu noto relações marcadas (ainda) pela posse, pelo controle, pelas cobranças, pela zaga retrancada - ainda mais em tempos esquizofrênicos de redes sociais (esquizofrênicos, sempre escrevo isso). ''Por que não me ligou, fulana?'' ''O beltrano tá estranho, não me ligou mais...'' "Vou parar de ser disponível, ninguém me valoriza...'' Blergh. Preguiça de quem se dá importância demasiada. Preguiça crônica de quem se leva a sério demais. Na boa, não se levem a sério, isso que a gente atravessa todos os dias não é nada demais, é só vida, coisa boba. Você também é coisa boba, ninguém está tão preocupado assim em chateá-lo, em bolar planos maquiavélicos para fazê-lo sofrer. Não crie casinhos, não alimente bolas de neve. Escreva textos sarcásticos, que é mais negócio. Bole um stand-up, ao menos os outros vão rir da sua desgraça - se é que é uma desgraça mesmo.   
Lógico, Batman, quando gostamos, sentimos ciuminhos, sensações estranhas que talvez não sejam nada mais que amor trajando outras máscaras. Eu sinto. Até hoje, tenho acessos de posse estranhos com meu irmão, sinto uma falta desgraçada de contar minha vida para ele, ai dele se não dispensar um tempinho na agenda para falar merda comigo. Não compreendo o porquê da coisa, deve ser do cerne humano de querer controlar, sei lá eu, mas a gente precisa aprender a ser feliz sozinho também. Aprender a extrair felicidade de nós mesmos. Já fui aquele tipinho maçante, que ficava puto da vida, por uma semana, quando a turma do colégio não me convidava - por esquecimento ou de propósito - para fazer tal coisa - e depois tinha que aguentar trocentas fotos lá na parede marcando minha ausência. Tenho pânico só de pensar em agir assim de novo. Credo, nada vale minha paz, só sendo muito ninja para me tirar do sério com uma bobagem dessa. Hoje em dia, mesmo sem ter sido convidada, eu me ofereceria para ir tirar as tais fotos - só pelo prazer de ver os outros se divertirem.  
E dá para acreditar que ainda há pessoas por aí rogando pragas contra o mundo, porque ninguém quis assistir tal filme com elas? Porque o fato é que são muito importantes para chegarem ao cinema sem uma multidão de súditos em seu encalço. O que a oposição irá dizer? Seria uma mácula em suas biografias, obviamente. Ir ao cinema sozinho pode até ser ridículo, mas deixar de ir, por medinho do que os outros - os assustadores outros - vão pensar é bem mais. Vai, que dá nada, bobinho. É só vida. 



Auxiliou no post: 

Oswaldo Montenegro, com Lua e Flor e Bandolins   






Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Sumiços, porre de vinho, Julia Roberts

Sumi, né? Eu sei. Mas não foi por falta de ideia. Na verdade, seguidamente os ''preciso escrever sobre isso porque tá me sufocando'' vêm me visitar em uníssono. Saudade de usar ''uníssono'' em um texto de novo, ufa, saiu. No colégio, uma vez, uma professora disse que eu era uma pedante literária. Sigo honrando o deboche com gosto.   No geral, eu não tenho mais tempo (será que eu arrumaria tempo?). Não tenho mais tempo para escrever minhas misérias aqui, logo eu que sempre priorizei minimamente este espaço nebuloso. Fazer o quê? É da vida. Nem vim fazer mea culpa até porque ninguém se importa, foi mais para dar as caras, tirar o pó do lugar, abrir as janelas. Como vão? Me convidem para tomar um café, só não liguem para o meu celular, não suporto telefone tocando. Mentira, café com esse calor não tem condição, me convidem para ficar em silêncio tomando um vento na cara. Preciso de silêncio, não aguento mais ter que opinar sobre tudo. Não aguento mais qua…

Sobre Ilha das Flores e Ilha das Flores - depois que a sessão acabou

A ideia deste post surgiu de algo bem interessante. Ontem, eu dei uma lida numa entrevista do cineasta Jorge Furtado e decidi dividi-la no perfil que tenho em uma rede social, uma vez que ele fez algumas considerações sobre jornalismo - e isso, independente de quem vier, sempre me faz dar uma parada. Gosto de ver o que estão falando, etc. Na ocasião, o repórter também nos lembrou da passagem de 25 anos daquele que parece ser um dos maiores feitos do porto-alegrense, o curta ''Ilha das Flores'', lançado em 1989 e até hoje considerado um marco em sua carreira. 
Arrisco dizer que não haja ninguém que não tenha assistido a tal documentário, especialmente nos anos de ensino médio, mas, vá lá, quem sabe nem todos conheçam. Desde que o vi, fiquei encantada. Encantada, mas não num sentido ''jogo no time do Jorge Furtado Futebol Clube'', e, sim, ''que baita jeito de contar uma história, com deboche e precisão''. Trata-se de um roteiro quase lúdico…

Su deboche es mi deboche

Terminei, há uns dias meses, o último livro da ótima Tati Bernardi, aquela moça que meio mundo ama incluir em suas selfies, muito embora a maioria daquelas frases toscas não sejam de autoria da roteirista - palavras da mesma. Pois Tati, que fez de seu transtorno psicológico matéria-prima para muitas de suas genialidades, me fez rir quase convulsionada com o hilariante - porém não menos denso - Depois a louca sou eu. Eu simplesmente cheguei ao cúmulo de parar a leitura e, entre risos histéricos, repetir para mim mesma:''ela não pode ter escrito issoooooooo''. Pois não é que escreveu? E escreveu muito bem (putaquepariu, um texto bem escrito é a minha Disney!!!). É um tom confessional delicioso e intimista, é quase como se eu quisesse abraçar Tatiane e dizer que também já estive ali - estaremos sempre algumas vezes na vida porque esses dilemas psicológicos são dificílimos de desgrudar. Talvez não desgrudem nunca.
Foi um deleite ver a escritora revelar seus piores dramas …