segunda-feira, 12 de maio de 2014

Duas pedrinhas de gelo derretendo no copo

Eu nunca tinha assistido ao filme ''500 Dias Com Ela'', uma vez que não simpatizava com o casal protagonista. Mas o destino, ele age. E, um dia desses, acabei vendo tudinho. Sabe, em meio àquelas sinopses hollywoodianas previsíveis para entreter casais, eu diria que o argumento do filme se sobressai à conhecida cantilena do ''nos batemos na rua, enrolamos mil dias, mas finalmente nos beijamos e ficamos juntos, pois os créditos já teimavam em subir''. Diria também que seguirá originalíssimo por alguns tempos, única e exclusivamente porque fala a verdade. Cretina verdade (essa mania de pensar como uma socióloga da Sorbonne tá me aniquilando aos poucos, mas penso estar tarde para reverter o processo).
Só o fato de a história terminar mal para nosso protagonista, já é um indicativo de que ela vale mais a pena que uma, sei lá, daquelas clássicas com a Sandra Bullock. Nada contra Sandrinha, em absoluto, mas é que a gente vai cansando de comédias românticas, néam, quando se dá conta de que elas não ganham uma sobrevida na vida real. Eu diria mais: quanto pior acabar o filme, melhor ele será. O amor não é hollywoodiano, queridos, ele é um filme francês. E a trilha é ruim.
O texto pode até soar meio dramático, mas que nada. Eu já fui Tom Hansen, assim como já fui Summer Finn. E essa reciprocidade imediata assim que os olhos se cruzarem não vai acontecer sempre - na verdade, ela não acontecerá nunca, porque a felicidade - nem que seja efêmera - não é gratuita. Claro que vão rolar bons momentos, mas a sensação que vai ficar quando a gente pensar neles, vai ser tipo ''putz, mas eu batalhei demais por isso, hein?''.Os olhos cheios de vivência e olheiras darão o tom no espelho.
O fato é que relacionamentos têm tudo para dar errado - e eles dão. São duas expectativas, dois modos de enxergar a vida, dois róis de expressões sarcásticas, duas dezenas de amigos, dois estilos musicais, dois medos de perder - ou de ganhar - duas bagagens culturais. Duas pedrinhas de gelo derretendo no copo. E elas derretem, logo, não se lembram de sua essência.
Quando duas vidas se tocam, ninguém nunca sabe o que se passa. Ele pode querer dividir a tal vida. Ela pode querer dividir só uma cama. Ele pode querer só uma noite. Ela pode querer um casamento. Ela pode estar desgostosa com uma ex-relação e louca para mostrar felicidade novamente. Ele pode estar se fodendo para isso e não agir como um príncipe. Eles podem estar desgraçadamente sozinhos, mas serem orgulhosos demais para admitir isso. Eles podem estar habitando qualquer lugar dentro de si mesmos, e ainda assim serem mais inatingíveis do que parecem. E é isso, não há por que demonizá-los.


Ps: Que agonia aquela criatura Deschanel atuando. Qual é, mina, você tem 13 anos? Dispensável o clichezinho do ''sou uma garotinha-problema, não se apaixone por mim, seu banana''.

Ps²: Passei o filme inteirinho pensando que o Joseph Gordon-Levitt ainda estava encarnando o gurizinho bonachão de ''10 Coisas que Eu Odeio em Você''. Na verdade, não consigo associá-lo a outro papel. Cameron deixou marcas.




Auxiliou no post: 

Hook - Blues Traveler




  

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